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Morreu um dos pais do humor no Brasil, Jô Soares, aos 84 anos. Gregório Duvivier, como é que recorda Jô Soares?

São muitas memórias de momentos diferentes, porque ele estava atuante há muito tempo no Brasil, desde 60. Então as memórias vão desde a minha menor infância, nos anos 80, onde ele fazia um programa muito popular, chamado "Viva o Gordo", onde ele fazia mil tipos, até o programa de entrevista que durou 20 ou 30 anos. Uns 30 anos, na verdade, passou por diversos canais e era o programa mais visto da televisão, me reunia a família toda para assisti-lo. E depois, mais uma memória, quando eu passei a frequentar, fui algumas vezes lá, e era um programa onde todo humorista, todo mundo, todo artista ia no início de carreira e depois também. Acho que o diferencial dele é que ele abria espaço para todos que estavam começando, misturava também com pessoas muito famosas. Ele tinha um programa onde todos tinham espaço. E tinha muita liberdade para falar o que você quisesse, não tinha restrição no programa dele, nenhuma. Então era um espaço de liberdade, muito bom para os artistas. Então também tenho essa memória de ser um lugar que revelou muita gente e onde eu tive espaço no início de carreira.

E qualé que foi a história mais marcante que teve com ele?

Eu lembro que as entrevistas dele eram muito difíceis, por um lado. Então lembro muito da minha primeira entrevista, foi muito ruim para mim, não por culpa dele. Acho que eu estava muito nervoso e não conseguia falar as coisas que eu tinha pensado. Aí trouxe algumas piadas de casa muito ruins. Eu fiz uma piada totalmente inadequada, porque eu falei que eu era meio autista, porque eu sou distraído, mas na verdade, ele tem um filho com autismo, então foi horrível. Para mim só, não para ele, porque ele não falou nada, ele foi muito elegante. Eu falei disso, ele ficou assim, ficou um clima ruim, só depois me explicaram. Aí foi uma piada que eu me arrependi muito. Até hoje quando eu penso, falo: "Por que eu fui falar aquilo?" Mas por culpa só minha. E o bonito é que ele nunca ficou chateado, me chamou diversas vezes depois disso. E acho que as entrevistas seguintes foram melhores, mas eu aprendi com ele, eu acho, a ser entrevistado também. Porque a primeira foi muito ruim e quando era ruim, ele não era falso. Ele não ria, então tinham silêncios que podiam ser constrangedores para quem estava lá. E quem assistia à entrevista, inclusive gostava por isso, porque era uma arena onde a pessoa podia ir bem ou ir mal.

Era sempre sincero.

Exatamente, ele era sincero e o público conectava muito com ele. Minha avó amava ele, então assistia muito o programa com ela quando era pequeno. Ele era bem sincero e aí foi muito bom, acho que foi uma escola mesmo, para muita gente ir ao programa do Jô. Ele revelou muita gente, muita gente como eu, no caso, aprendi a ser entrevistado, aprendi a me comportar em público, eu acho. E assim, ele certamente inspirou muita gente, eu estou entre elas.

E como é que o Brasil está a reagir a esta notícia?

É muito triste perder uma pessoa assim, mas não é tanto, porque ele, ao mesmo tempo, viveu uma vida longa. Então, claro, é triste pensar que ele não está mais entre nós, mas, por outro lado, ele deixa muita coisa para a gente assistir. E hoje está bonito, porque todo mundo está lembrando. Toda hora surge uma nova lembrança de alguém. Então as pessoas estão postando vídeos muito antigos dele, outros mais recentes, mas toda uma vida. Quando você entrar na internet hoje, só tem o Jô Soares em suas múltiplas encarnações. Então, isso é muito bonito também. Todos estão lembrando e celebrando a vida dele, mais do que a morte, claro.