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O movimento Somos Coimbra repudiou o ataque da presidente da Câmara de Coimbra, Ana Abrunhosa, ao jornalista da Lusa, João Gaspar, e aconselhou a autarca a não ser juíza em causa própria e a não tomar mais decisões. José Manuel Silvano, antes de mais, muito obrigada por ter aceitado o nosso convite para falar conosco acerca deste assunto. E tendo em conta este comunicado emitido esta manhã, considera que Ana Abrunhosa teve uma reação desproporcional?
Bom dia, obrigado à Rádio Observador por esta oportunidade. Sim, teve uma reação absolutamente desproporcionada. Nós conhecemos o jornalista João Gaspar do seu trabalho enquanto eu próprio era presidente da Câmara, enquanto a coligação Juntos Somos Coimbra governou Coimbra durante quatro anos, e não temos dúvidas sobre a sua isenção, idoneidade e rigor jornalístico. E nós próprios fomos implacavelmente escrutinados durante quatro anos e nunca tivemos nenhuma reação deste tipo e, pelo contrário, reconhecemos a qualidade do jornalista. Aliás, Ana Abrunhosa acusou o jornalista de faltar à verdade e veio se provar que quem faltou à verdade foi a senhora presidente Ana Abrunhosa, o que é gravíssimo, e tentou de facto condicionar a liberdade de imprensa, não só sobre a Lusa, mas sobre todos os jornalistas que costumam estar presentes, com esta atitude antidemocrática e absolutamente insólita de retirar confiança a um jornalista, que é algo que não existe. Repare-se, continua sem dar explicações sobre o futuro da Casa do Cinema. Vão há 13 dias desde a primeira interpelação do jornalista João Gaspar e a senhora presidente ainda não se pronunciou sobre o facto central da notícia. Por que é que suspendeu as obras na Casa do Cinema, que o anterior executivo, que nós, deixámos prontas para avançar? É algo extremamente preocupante, está em linha com aquilo que consideramos outros ataques à cultura em Coimbra, que nos deixa profundamente preocupados. Nós queríamos fazer de Coimbra uma cidade do cinema, uma cidade de referência de cinema, graças à cultura cinéfila que temos em Coimbra, aos caminhos do cinema português, à secção de cinema da Associação Académica de Coimbra. Temos todas as condições para isso. Agora, naturalmente, é preciso que a Câmara apoie e que faça as obras na Casa do Cinema, sob risco da Casa do Cinema perder a licença de ir da Casa do Cinema. Portanto, estamos profundamente preocupados, estupefactos com a reação da senhora presidente, porque está em linha com o comportamento que a mesma tem tido, que não é muito democrático.
Como líder da oposição, sente que Ana Abrunhosa está a enveredar por um caminho de pressão sobre a comunicação social?
Este facto é inequívoco. A resposta do Sindicato dos Jornalistas em comunicado também é absolutamente inequívoca, porque acusa Ana Abrunhosa de violar a liberdade de imprensa e de procurar fazer pressão sobre a comunicação social. Portanto, não sou eu que o digo, os comentários dos jornalistas nos vários órgãos de comunicação social são unânimes. Esta foi uma atitude muito preocupante. Não me recordo, mas enfim, a minha vida política é curta, de ouvir um político retirar confiança a um jornalista. É algo absolutamente inédito e insólito. Pode-se discordar. Em caso de ter dúvidas sobre o rigor jornalístico, qualquer cidadão pode recorrer à Entidade Reguladora da Comunicação Social. É um órgão próprio da democracia para fazer esse tipo de análise, mas não se justifica de forma nenhuma esta atitude da senhora presidente. Mais grave ainda, pressionar a Lusa e retirar o jornalista da lista de e-mails de jornalistas da Câmara Municipal para que ele não receba as notícias. Isto é uma atitude antidemocrática e que viola a própria Constituição e põe em causa a liberdade de imprensa em Coimbra, porque é uma forma de fazer pressão sobre os outros jornalistas.
Esta manhã, na Rádio Observador, Luísa Meireles, diretora de informação da Lusa, conversou conosco, esteve aqui hoje de manhã na emissão e confirmou que já houve um primeiro contacto feito pela Câmara de Coimbra, pela autarca Ana Abrunhosa, no sentido de resolver esta situação. Não houve ainda uma ação concreta. Essa ação concreta é algo que, de acordo com Luísa Meireles, vai acontecer esta semana e pode mesmo acontecer hoje. Mas neste primeiro contacto, foi dado a entender que tanto da parte da Câmara de Coimbra há vontade para resolver o assunto e também que da parte da Agência Lusa, como já confirmou que este jornalista vai continuar a cobrir os assuntos, há também este desejo de manter a relação profissional. Considera que há mesmo esta vontade, este desejo por parte de Ana Abrunhosa em resolver o assunto e restabelecer a cordialidade profissional com a Agência Lusa?
Eu não sei o que se passou nas conversas entre a Câmara e a Agência Lusa, não me posso pronunciar sobre essa questão, mas eu acho que é do interesse da própria presidenta Ana Abrunhosa apaziguar, resolver este destemperamento e pedir desculpa pública pela sua atitude, que de facto é inaceitável num presidente de Câmara de Coimbra.
O Juntos Somos Coimbra está a pensar levar o assunto à Assembleia Municipal?
Ainda vamos pensar no que iremos fazer na próxima Assembleia Municipal. Não se debateu esta questão com todas as forças políticas que fazem parte da coligação Juntos Somos Coimbra. Como sabe, formalmente se extingue a seguir às eleições, portanto as várias forças políticas agora são independentes, mas continuamos a manter os contactos entre nós, naturalmente, partilhamos muitos pontos de vista e também não sabemos como é que a situação vai evoluir até à próxima Assembleia Municipal. Eu espero que antes da próxima Assembleia Municipal, de facto, a senhora presidente peça desculpas públicas da sua atitude e tudo seja resolvido. E então o assunto fica relegado para um segundo plano, sem que o episódio possa ser esquecido, porque deve ser marcado como algo que não deve acontecer no exercício do poder autárquico. É uma pressão desta dimensão sobre a liberdade de imprensa, que está prevista na Constituição. Portanto, não deve ser esquecido este episódio, mas eu espero que quando chegarmos à próxima Assembleia Municipal já esteja ultrapassado.
E se não for o caso?
Logo analisaremos em conjunto ou separadamente cada força política, mas certamente conversaremos uns com os outros sobre o que deveremos fazer, se porventura não houver nenhum tipo de evolução até à próxima Assembleia Municipal. Mas eu estou convencido que haverá.
Muito obrigada, José Manuel Silva, por se ter disponibilizado para falar conosco.
Obrigado. Bom dia