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Junta-se a nós agora, em direto neste jornal, o general Pinto Ramalho, antigo chefe de Estado-Maior General do Exército e foi o responsável pela compra deste material. Senhor General, bom dia. Obrigada por estar connosco.

Bom dia.

Bom dia. Como é que se pode entender que não tenhamos todos os carros de combate operacionais?

É natural que, mesmo numa situação normal, nem todos os equipamentos possam estar 100% operacionais. Isso é natural, tem uma taxa realmente de funcionalidade que nunca é 100%, e portanto, é natural que um ou outro possa estar avariado. Eu não sei quantos estão, e acho que realmente é irresponsável a resposta que foi dada, quer pelo Exército, quer pelo Ministério da Defesa, em relação àquilo que são os valores do que está operacional ou que não está.

Portanto, não deve ser divulgado publicamente.

Não deve ser publicado, exatamente. Mas há uma questão, que é uma questão de fundo: nós temos uma realidade de um desinvestimento nas Forças Armadas ao longo de vários anos. Os orçamentos de operação e manutenção foram sempre restritivos, foram sempre reduzidos, foram sempre pouco ajustados à realidade. E, portanto, quando há realmente dificuldades de manutenção e dificuldades de verbas para a manutenção, os resultados são aqueles com que estamos confrontados. Não é de estranhar que, se realmente as verbas foram reduzidas e os orçamentos foram restritivos, e se as verbas dedicadas a estas rubricas não foram aquelas que eram efetivamente necessárias, a manutenção sofre. E no caso concreto destes equipamentos, que são realmente equipamentos de topo e que são realmente o que de mais avançado tecnologicamente o exército tem, exigem uma manutenção rigorosa.

E é uma manutenção difícil e cara, senhor general?

Cara, tudo o que tem a ver com a tecnologia avançada tem os seus custos. Rigorosa, necessariamente. E este programa, pode-se dizer que foi conduzido com extremo rigor e extrema competência. Nós, antes de recebermos os carros de combate, tivemos uma equipe do Serviço Material a verificar carro por carro. Trouxemos os carros que estavam em melhores condições na Holanda. Aliás, tivemos a colaboração do exército holandês. Nessa altura, eu conhecia muito bem o chefe de Estado-Maior holandês e tinha as melhores relações, portanto, tinha razões para ter confiança naquilo que era realmente a relação que tínhamos em relação a esta questão. Os carros de combate vieram, depois de o pessoal estar perfeitamente treinado, quer na manutenção, quer na sua operação. E o resultado é que esta é a melhor capacidade que temos no exército, aquela que é mais avançada, aquela que é crítica para o exército. E é isto, portanto, que tem levantado as questões relativamente à cedência ou não de material desta natureza, porque nós não concluímos o desenho e a construção da unidade que devia realmente apoiar a brigada mecanizada, que era um grupo de carros de combate completo com 54 carros de combate.

Que não chegou a ficar completa.

Não chegou a ficar completa, embora tivesse havido intenção de que isso acontecesse. O Exército na altura disponibilizou-se para alienar todos os M60 que tínhamos, e que temos, para exatamente contribuir para a aquisição de mais 24 carros de combate, cuja lógica era criar uma pequena reserva, portanto, 54 mais sete seriam 61 carros de combate. Isso daria a possibilidade dos sete carros excedentes, permitir que houvesse um carro permanentemente na Escola Prática de Serviço Material para treino dos mecânicos, e um carro de combate na Escola Prática de Cavalaria para treino dos tradicionantes, e cinco carros de combate para o chamado volante de prontidão operacional, para realmente poder acudir exatamente, se houvesse carros avariados ou carros que não pudessem ser utilizados, poder realmente fornecer exatamente esse apoio à unidade base, que era o grupo de carros de combate. Estes cinco carros de combate representam um pelotão. Portanto, o desenho desta capacidade foi feito com todo o rigor e com todo o cuidado, no sentido de garantir uma operacionalidade ao exército, que era realmente o topo e que era realmente a condição até para respondermos àquilo que eram exigências da própria NATO em relação aos nossos objetivos de forças.

Não tendo o desenho completo, como nos explicou, faz sentido ainda assim que Portugal participe neste esforço de ajuda à Ucrânia, com o envio de alguns carros de combate?

Há muitas maneiras de participar no esforço. Já foi dito que podíamos participar no treino. E repare, nós estamos perante 13 países na Europa que têm carros de combate Leopard. Se todos dessem, era duvidoso que Portugal ficasse de fora. Se essa não é a situação, o que nos leva a juntar-nos àqueles que cedem carros de combate quando têm centenas de carros de combate? Dou-lhe um exemplo, por exemplo, fora da Europa, mas é ilustrativo. O Canadá, neste momento, tem 120 carros de combate. Dá quatro carros de combate, porque desses 120, tem 80 em depósito. Portanto, é preciso pensar muito bem se realmente nós estamos em condições de ceder parte de uma capacidade que é crítica para o exército. Se toda a gente fosse chamada a contribuir, acho que não deveríamos ficar de fora, mas não é essa a situação que estamos a viver. Nós estamos a ver que os países que têm maiores capacidades são aqueles que estão realmente a fornecer meios desta natureza e têm centenas de carros de combate. Portanto, eu acho que é realmente um aspecto que tem que se ponderar muito bem, porque isso pode corresponder a amputar uma capacidade, a reduzir uma capacidade que é crítica para o exército, e é crítica também no sentido da própria resposta às responsabilidades que a NATO nos coloca quando nos estabelece objetivos de forças e que nós cumpriremos com mais dificuldade.

A decisão será sempre, em última análise, política.

É natural, mas eu deixo aqui uma preocupação: para um país com a nossa dimensão, capacidades militares que se reduzem ou que se eliminam dificilmente serão reconstituídas e, em caso de necessidade, nunca o são em tempo oportuno.