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Para nos ajudar a olhar também para a primeira parte, para alguns dos destaques deste início de esclarecimentos de Lula da Silva, está conosco o correspondente do Globo em Portugal, o jornalista Jean Amad. Boa tarde e obrigado pela sua disponibilidade. Eu começava por lhe perguntar se este tom de Lula da Silva indica já aqui uma vontade em regressar às urnas e em submeter-se ao voto popular nas próximas eleições.
Boa tarde. Na primeira parte que eu pude acompanhar, antes de entrar aqui no direto da Rádio Observador, Lula não falou literalmente que será candidato, mas deixou bem explícita a sua oposição ao governo atual. Disse que a vacina, e destaca bem nesse momento que o Brasil atravessa o pior momento da pandemia, não depende de dinheiro, depende se ama a vida ou a morte, e saber qual o papel do presidente no cuidado com o povo. Não é eleito para falar bobagem, comprar armas. Quem precisa de armas são as Forças Armadas. Nós precisamos de saúde, de cuidados. Ou seja, é um discurso já de oposição declarada, ainda que não com uma candidatura confirmada. E o berço, como destacado no início da introdução à conferência do Lula, o berço político de Lula, onde ele foi delegado em 69, depois forjou todos os movimentos grevistas do ABC Metalúrgico, das fábricas de automóveis do Brasil, é simbólico. Foi dali que ele saiu para a Polícia Federal quando foi detido e agora as mesmas pessoas que estavam na vigília, que estavam com ele quando ele entrou no carro da Polícia Federal para ser preso, estavam ao seu lado, dando uma ideia de união, de coesão. E mais ainda, ele procurou se destacar muito rapidamente de Bolsonaro, elencando os apoios mundiais que recebeu, entre eles Papa Francisco, o Alberto Fernandez, presidente da Argentina, Bernie Sanders, senador dos Estados Unidos, Mujica, o ex-presidente do Uruguai, além de Chico Buarque e outros. O escritor Fernando Moraes, que é o biógrafo do Lula, que fez com ele a quarentena em Cuba. E também destacou a posição de Jair Bolsonaro, que teria uma simpatia, digamos assim, pelo terraplanismo. Ou seja, ele concentrou o discurso totalmente numa oposição a Bolsonaro, que já faz há muito tempo, mas também muito agora por ter a possibilidade de concorrer. E segundo uma pesquisa, o Ipec, que é um instituto criado por ex-dirigentes do Ibope, que é o maior instituto de sondagens do Brasil, metade dos brasileiros, 50% do Brasil, dizem que votariam com certeza em Lula.
Era isso que lhe ia perguntar, ele está aqui também no seu berço político, é também mobilizar os seus apoiantes. Ele ainda tem essa força de mobilizar o Brasil, ou seja, vai conseguir sair, se calhar, reforçado deste processo e iniciar uma segunda vida política, digamos assim?
Eu acredito que se ele tiver vontade de ser candidato novamente, apesar da idade avançada, e já declarou quando ele foi preso em 2019, que teriam outros candidatos mais jovens para ocupar o seu lugar, que o Lula já não era mais um candidato, era uma ideia, uma ideia que estava infiltrada nos partidos, principalmente de centro-esquerda e de esquerda no Brasil. Agora, ele tem números para concorrer. Ele é o único capaz de derrotar o Jair Bolsonaro. Com o Lula na disputa, Bolsonaro aparece 12 pontos atrás. E o outro candidato que tem dois dígitos, ou seja, que chega a 10% nas urnas, que é o Ciro Gomes, só chega a 10% quando o Lula não concorre. Ou seja, eu acho que referendado pelos números, é muito difícil ele não pensar em concorrer. É claro que ele não vai anunciar isso agora, porque não é o momento de começar a ser atacado pelos seus opositores, principalmente o Bolsonaro, que tem que se preocupar agora em enfrentar o pior momento da pandemia hoje. Rapidamente falando, o Brasil passou os Estados Unidos na quantidade de mortes. Então eu acho que é o momento dele. O Lula tem agora, na minha percepção, o que ele está fazendo, e ele destacou bem no começo do seu discurso, que é o Lula, digamos, uma nova versão do Lulinha Paz Amor, que ficou muito famoso isso no passado, quando ele falou que não queria briga com ninguém e tudo mais, porque tinham dúvidas de como o Lula ia se apresentar. E ele foi bem claro: "Eu sou o cidadão brasileiro que tem mais motivos para ficar magoado, para ficar aborrecido, mas olha, eu não guardo mágoas. Sofrimento é o dos pobres, o sofrimento dos pobres é maior que qualquer crime cometido contra ele." Apesar dele ter citado a sua mulher, que faleceu, Marisa Letícia, a ex-primeira-dama do Brasil. Marisa Letícia faleceu enquanto estavam sendo julgados e denunciados os problemas dele com a Justiça, que foram anulados agora pelo Ministro do Supremo Federal. E ele falou ao povo. O Lula falou ao povo, como sempre fala muito bem ao povo, e lamentou que muitas pessoas não tenham o que ele tinha até quando estava preso, que era um pão com café com leite para receber na sua cela. Ou seja, ele está falando diretamente para a base eleitoral dele. Isso não é um discurso de candidato declarado, é um discurso que já está começando a ser preparado. Sim, claro, eu acredito que ele também linkou muito a questão dos caixões, dos enterros serem feitos no Brasil, como em qualquer lugar onde a pandemia está descontrolada. Os caixões são fechados e ele também foi proibido de ver o caixão do irmão quando o irmão morreu e ele estava preso. Ou seja, além dele transmitir solidariedade para as vítimas, ele se inclui no meio delas. Ele se torna uma pessoa do povo.
Deixe-me só, para terminar, perguntar: do ponto de vista da Justiça, judicial, o assunto está resolvido, podemos considerar que está resolvido com esta anulação, ou pode haver um novo volte face?
Eu acho que não, acho que ainda não está resolvido. Já tem notícias de que vão recorrer a essa decisão do Fachin e por isso até eu acho que o Lula tem um certo cuidado em se autodeclarar candidato. Até porque o seu partido, Partido dos Trabalhadores, já estava a preparar toda uma estratégia pro Haddad, que foi o candidato derrotado pelo Bolsonaro nas últimas eleições. E é claro que o Lula sobrepõe tudo isso, mas também tem uma corrente do partido que acha que não é a hora ainda de se declarar, não só pela idade, mas pela possibilidade de o processo ser revertido. Não nessa vara mais, porque agora já não tem mais condição, já ficou decidido que a vara de Curitiba não era a vara mais apropriada para esse tipo de julgamento. Mas ele pode ainda ter que enfrentar problemas com a Justiça e com isso voltar a ser impossibilitado de concorrer.