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Soubemos hoje da notícia da morte de Mário Moura, o editor que dedicou 70 anos ao setor dos livros. Foi fundador da Pergaminho e da Arte Plural e morreu nesta quarta-feira, aos 98 anos. Falo agora com Pedro Sobral, o presidente da Apel. Pedro Sobral, obrigado por esta entrevista. Que legado é que fica de Mário Moura?

O Mário Moura é um dos últimos decanos da edição portuguesa, um homem que marcou a edição portuguesa de uma forma indelével. Referia, ainda agora nesta pequena introdução, o papel que ele teve em editoras como a Pergaminho, mas não nos podemos esquecer o papel fundamental que ele teve antes, quando no Brasil também fundou editoras de referência num país de língua portuguesa. Eu acho que isso é um dos pontos aqui a apontar. Mário Moura era, de facto, um editor da lusofonia, um homem que marcou um certo tipo de edição e um certo tipo de livros em Portugal, e que tinha muito a ver com esta influência que ele teve enquanto viveu no Brasil. E é, obviamente, um dia muito triste pra edição e pro livro em Portugal.

Acabava por ter aqui um trabalho muito único. Muito marcado por essa experiência pessoal.

Sem dúvida. Ele costumava dizer que, acima de tudo, mais que um grande editor, era um grande leitor. E eu acho que isso define muito um certo tipo de edição. Nós tivemos grandes editores em Portugal, ainda temos, mas há uma geração que parte, essa que o Mário Moura faz parte, de acima de tudo, serem grandes leitores, homens com uma enorme curiosidade intelectual e homens e mulheres que tinham uma noção clara do papel fundamental do livro e da literatura, acima de tudo, na evolução de uma sociedade e naquilo que é a criticidade da leitura pra que sejamos uma sociedade desenvolvida, moderada e inovadora. E o Mário Moura teve um papel muito importante pra isso. Trouxe autores, lá está, muito influenciado por essa experiência no Brasil, trouxe um certo tipo de livros e um certo tipo de autores, que marcou também muitos leitores em Portugal, principalmente através da Pergaminho e depois da Vogais e de mais uma série de editoras que ele fundou. Aliás, ele ainda há relativamente pouco tempo trabalhava, ele nunca deixou de ser editor, e eu acho que ele nunca deixou de ser editor, acima de tudo, porque nunca deixou de ser um grande leitor.

E pra além dessa frase de que era um grande leitor, ele deixou também uma outra frase em que dizia que sempre teve a paixão pelo livro. Era realmente esta paixão que o marcava?

Era, e mais uma vez, a paixão pelo livro enquanto objeto, mas acima de tudo, pela função que o livro e a leitura têm na sociedade portuguesa. Temos de recordar que isto são homens que passaram pelo período do Estado Novo, isto é, que tiveram a noção daquilo que é a limitação da liberdade. Obviamente que o editor, enquanto editor, teve limitações severas durante o Estado Novo. E obviamente percebeu, desde sempre, o papel relevantíssimo e crítico do livro e da leitura naquilo que é o espaço de liberdade individual e daquilo que é a definição de democracia na sua mais pura essência. Por isso, era um apaixonado pelo livro, porque além de grande leitor, era um apaixonado pela liberdade. E eu acho que foi essa a grande herança que o Mário Moura nos deixou.