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Mais de mil médicos esgotaram nos primeiros três meses do ano o limite anual de horas extra. A Administração Central do Sistema de Saúde deu conta de que, em março, 1274 médicos já tinham realizado em serviço de urgência mais de 150 horas extraordinárias. Tenho agora a oportunidade de conversar com Helena Treleira, uma das porta-vozes do movimento Médico Sem Luta, e começo por lhe perguntar se estes números surpreendem.

Não surpreendem. Eu acho que todos os médicos que trabalham e que fazem urgência percebem a dificuldade que há em completar as escalas. O número de médicos é cada vez menor. Estamos a ficar invencidos, os médicos que pertencemos aos quadros do SNS. Cada vez mais tem sido necessário recorrer aos prestadores de serviços, vulgarmente conhecidos como tarefeiros, e portanto, é claro para nós que a muito curto prazo, grande parte da população médica que faz serviço de urgência terá cumprido as 150 horas e mesmo as 250 horas, que é neste momento outro requisito, uma vez que há algumas pessoas que aderiram à dedicação plena.

Estamos aqui numa situação em que os médicos podem recusar fazer mais horas suplementares, além das obrigatórias por lei.

Exatamente.

Podemos esperar que, ainda assim, continue a haver uma adesão voluntária ao trabalho de horas extra?

Acho que tudo vai depender muito da abertura que nós percebermos que existe da parte do Ministério da Saúde. Ou seja, até agora, desde sempre, as urgências no Sistema Nacional de Saúde foram, grande parte delas, suportadas por horas extra. À medida que houve a saída de médicos do SNS, e esse foi um processo que acelerou nos últimos anos, a necessidade de horas extra é cada vez maior e a necessidade de recurso aos prestadores de serviços é cada vez maior. Portanto, isto é um problema que sempre existiu e só começou a notar-se isto há uns anos atrás. Iniciou-se na obstetrícia, na pediatria, mas em termos generalizados, foi o ano passado. E por que isso começou a acontecer? Começou a acontecer, de facto, porque nós percebemos que não tem havido da parte da tutela, vontade de ouvir as nossas reivindicações. E portanto, se de facto a postura do atual ministério for a que parece estar a decorrer, ainda é cedo para decidirmos, para percebermos o que está a acontecer. Mas há uma coisa que já se percebeu: é que ontem houve uma reunião e que aquilo que foi o motivo da nossa luta no final do ano passado, não esteve sequer na mesa das negociações. Portanto, o que isto pode significar? Que a tutela não quer resolver o assunto, que a tutela não acha esse assunto importante. E acho que, se calhar, nós não estamos muito de acordo.

E pergunto-lhe então, perante esta nova possibilidade de negociações, sendo que ontem houve essa tal reunião, quais são as principais preocupações do movimento do Médico Sem Luta para estas futuras negociações?

Ontem tive um dia muito ocupado e, portanto, li muito transversalmente as notícias, mas daquilo que eu percebi, vai haver uma segunda ronda negocial na última semana de junho.

Exatamente.

Portanto, temos um mês até lá. A senhora ministra tem um mês para pensar naquilo que nos vai propor. O nosso caderno reivindicativo é claro, é conhecido, é o mesmo desde o ano passado para este. Se ela está na disposição de colocar estes assuntos na agenda, discuti-los com seriedade e tentar chegar a um acordo de boa-fé, nós continuamos a trabalhar calmamente. Se de facto não houver essa abertura, nós faremos valer aquilo que é a prerrogativa legal. Trabalhamos no SNS, aquilo que somos obrigados e nem mais uma hora.