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Fale-nos um pouco desta Mostra Nacional de Jovens Criadores. O que vamos poder encontrar nesta edição?

Faz 25 anos que a Mostra Nacional de Jovens Criadores foi criada pela primeira vez. Por isso é, com certeza, o programa de estímulo para jovens criadores mais importante no nosso país e com maior história e solidez. Este ano, exatamente para celebrarmos estes 25 anos, pensamos em fazer algumas disrupções em relação ao que têm sido as edições anteriores e ter uma ambição também de chegar a mais jovens, a mais entidades ligadas com a dimensão artística. Em primeiro lugar, começamos por criar novas categorias para os artistas participarem. Ao todo são 15 categorias, cinco foram novas este ano: categoria de arte digital, arte urbana, cerâmica, humor e gastronomia, áreas muito específicas e diversas, mais contemporâneas do que é o entendimento artístico. Por causa disso, também tivemos a maior participação de sempre em termos de candidaturas, 838, o que foi espetacular. E agora, de 1 a 3 de dezembro, vamos ter efetivamente a mostra, onde foram selecionados 114 trabalhos através do júri que definiu essa seleção. E vamos ter, ao longo destes três dias, uma dimensão expositiva com todas as artes selecionadas que dizem respeito à pintura, arte urbana, fotografia, ilustração, por aí fora. E depois outra dimensão com artes performativas que têm a ver com música, teatro, cinema, humor, por aí fora também. E por isso, ao longo destes três dias vai haver uma programação muito intensa, no fundo, quase minimostras de cada uma destas áreas, para mostrar o que de melhor se faz em Portugal pelos jovens criadores.

Pode-me falar, Tiago, de alguns exemplos de artistas que tenham começado precisamente por expor nesta mostra e que hoje em dia são reconhecidos não só em Portugal como a nível internacional.

Sim, nós temos vários artistas que começaram por aqui. Talvez um dos artistas mais conhecidos é a Joana Vasconcelos, mas temos muitos outros artistas, Gonçalo Tavares, também artistas ligados à moda, artistas ligados a muitas outras dimensões e que começaram talvez por mostrar os seus trabalhos efetivamente na Mostra Nacional de Jovens Criadores. Eu este ano estou convicto, porque tive o privilégio de ter acesso às obras que foram selecionadas, que nós vamos estar à altura também desses nomes grandes e estou muito satisfeito com a qualidade do trabalho e com o futuro da arte e da cultura em Portugal. Com certeza vão surgir daqui nomes e obras que vão ser marcantes para o futuro e muitas destas pessoas que foram selecionadas vão ser pessoas que nós vamos ouvir várias vezes falar delas nesta dimensão artística.

Pode levantar um pouquinho o véu de algumas obras que vamos poder encontrar ou alguns momentos performativos? O que é que podemos desvendar para já?

Sim, eu preferia manter esta vontade de as pessoas estarem curiosas em vir ver os trabalhos. São trabalhos também de jovens, por isso são trabalhos muitas vezes experimentais, muitas vezes atrevidos, provocadores e por isso julgo que vale a pena vir cá vê-los nesse contexto também. Eu se calhar chamava a atenção em dois aspectos. Um aspecto é: pela primeira vez a exposição vai ser feita numa perspectiva curatorial. Até agora a exposição da mostra, nestes últimos anos, tem sido feita sempre pela área artística, por isso há uma zona dedicada à pintura, uma zona dedicada à ilustração e assim em diante. Neste caso, o que nós fizemos foi, depois do júri ter selecionado as obras, olhámos para todas as obras e construímos uma exposição numa perspectiva com curadoria. E chegamos a uma conclusão muito interessante, é que a exposição reflete as preocupações, o que são as ansiedades de uma geração. E por isso nós construímos uma exposição que está alicerçada em cinco dimensões. A primeira se chama intimidades e parte do entendimento do eu e da ligação do eu com os outros. A segunda, fragilidades, que tem muito a ver com as dimensões que hoje em dia estão à volta dos jovens, relacionadas com o ambiente, com os desafios económicos, com os desafios sociais e que são refletidas nessas suas preocupações. Um terceiro ponto que chamamos de metamorfoses e que tem a ver com transformações que estão a surgir e que são prosseguidas também pelos jovens. Uma quarta dimensão tem a ver com o futuro. No fundo, hipóteses que os jovens criadores já avançam do que pode ser o futuro em função destas fragilidades identificadas. Alguns não são futuros auspiciosos, são futuros até dramáticos, com alguma dureza. E por fim, temos uma quinta área que se chama recomeços e que também nos devolve alguma esperança de algumas obras que estão a ser construídas que vão nesse sentido mais positivo. Isto num lado Da dimensão vasta e viva. No lado da dimensão performática, vai haver uma série de projetos também novos, de áreas superinteressantes. Eu diria que tudo vai acabar numa celebração muito intensa no dia 3, pelas 18h30, onde vai haver a gala de entrega de prêmios. Cada uma das 15 áreas a concurso vai ter um vencedor, e cada vencedor vai receber €1.000 de prêmio monetário, além de outras vantagens que estão associadas ao Gerador e também a outras entidades parceiras do projeto. E por fim, logo a seguir à gala, ainda vamos ter a sorte de ter um concerto incrível do Filipe Sambado. Por isso, acho que estão reunidas as condições para ser uma ótima mostra.

Não só a crítica social, mas a própria atualidade muitas vezes domina a arte, senão sempre. Há algum tema que seja predominante nestas obras dos vários tipos de arte que estão aqui patentes?

Efetivamente, como eu estava agora a explicar desta dimensão curatorial, há muito esta preocupação das fragilidades. Eu não julgo que exista uma seleção muito específica de tal fragilidade. Há um conjunto de fragilidades que esta geração identifica como fazendo parte da vida delas hoje em dia. Eu acho que no fundo transmite a ideia de que pela primeira vez há uma geração que sente que o progresso não é garantido, que o amanhã não é necessariamente melhor do que o ontem. Isso tem sido assim para gerações anteriores, provavelmente, mas desta vez nota-se que há essa ansiedade e os trabalhos refletem essas preocupações e depois a procura de soluções a partir dessas preocupações, a procura de transformações, de futuros, de ideias novas, mas tudo começa dessa análise das fragilidades.

Temos aqui também uma área que ainda não exploramos muito, que é a gastronômica.

Este ano nós efetivamente trouxemos duas dimensões que talvez sejam mais surpreendentes. O humor, onde temos um conjunto grande de pessoas que participaram com propostas de stand-up comedy, por exemplo, ou muitas outras funções, e a gastronomia. Para nós, Gerador, que também fazemos parte da organização, como é óbvio, é muito importante dar a ideia que a cultura não é só a cultura clássica ou não é só novas perspectivas de cultura mais contemporâneas que hoje em dia estão presentes, mas sim há um alargamento constante da definição da palavra cultura. E para nós gastronomia é cultura. Nós até costumamos dizer que quem faz um bacalhau à Brás em casa produz cultura, de certeza absoluta. E por isso nós abrimos este campo e vamos ter um espaço onde os jovens criadores que foram selecionados vão poder finalizar a sua proposta, a sua obra culinária, e vão servi-la em pequenas doses às pessoas que estão presentes. Vai ser algo muito mais de prova, muito pouco substancial, mas acima de tudo para dar espaço a estes criadores também mostrarem o seu trabalho, que nós consideramos artístico na totalidade.

Muito bem, por fim, Tiago, deixo-lhe aqui espaço para que, se quiser, faça aqui um apelo para que as pessoas visitem esta mostra.

Muito bem. Nós estamos convencidos que esta mostra vai ser um momento incrível de partilha de trabalho de jovens criadores. Ela vai ser realizada entre 1 a 3 de dezembro, no Fórum Municipal Romeu Correia, em Almada, e também no Centro Juvenil de Santo Amaro, também em Almada. São em dois espaços distintos. Vão estar sempre abertos desde o início da tarde, pelas 14h, até às 22h. Sempre com espaço para as pessoas visitarem a exposição, mas também com as dimensões performáticas ao longo dos três dias que as pessoas podem ver. É muito importante que as pessoas venham apoiar o que é o desenvolvimento de trabalhos de jovens artistas portugueses. Passamos dois anos muito difíceis para a criação artística e esta é uma altura boa para celebrar o fim deste período e o orgulho que é podermos ter um conjunto tão grande e tão significativo de obras feitas com qualidade.