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Tomás Morais, que se junta agora a nós em direto neste jornal. Tomás Morais, muito bom dia. Muito obrigado pela disponibilidade para se juntar a nós aqui na Rádio Observador. Gostava de lhe perguntar precisamente sobre essa equipa de 2007. Olhando para a equipa que orientou nesse ano e para esta que Portugal leva agora ao Mundial, quais é que são as principais diferenças que nota na evolução destes 16 anos?
Bom dia. Antes de mais, muito obrigado pelo convite.
Obrigado nós.
A evolução é natural das situações que acontecem no desporto e na evolução que se tem vindo a verificar. Passa muito pela presença de grande parte do plantel ser profissional, tanto do ponto de vista dos jogadores a jogarem no campeonato francês, como do staff técnico muito alargado que os apoia com profissionais de diferentes áreas das ciências do desporto e não só de especialistas do rugby. Houve uma evolução natural naquilo que é a dimensão atlética do jogador. Esta é uma seleção, do ponto de vista atlético, já profissional na constituição física dos jogadores, etc. E na forma também como eles estão preparados para aguentar o impacto do rugby internacional a este nível. É uma evolução que nós sabíamos que ia acontecer e tem vindo gradualmente a passar-se no rugby português e também fruto de muitos jogadores que nós temos a jogar na seleção, formados em Portugal pelos clubes, pelas academias da federação e pelas seleções regionais, desde miúdos, que jogam um estilo de jogo com uma identidade muito própria, com uma filosofia muito própria. E essa cultura de jogo foi passando e é hoje em dia, até porque tem dois treinadores, tanto o Luís Pissarra como o João Mira, que apoiam o selecionador Patrice Lagisquet, uma pessoa muito conhecedora, um senhor do rugby, foi uma grande aposta do presidente Amaro da Silva. E tanto o João Mira como o Luís Pissarra conhecem muito bem as raízes do rugby português. Foram jogadores internacionais. O Luís Pissarra foi um dos capitães do mundial. Apesar de ter sido aquele apuramento dramático e aproveitarmos um erro administrativo que os espanhóis cometeram pela segunda vez consecutiva. Portugal cresceu muito, soube agarrar a oportunidade e eu penso desde o momento em que empatou com os Estados Unidos, que foi há 10 meses, e até ao dia de hoje, que é o pontapé de saída neste mundial, que houve uma preparação muito cuidada, uma preparação muito rigorosa, muito profissional e a equipa evoluiu muito. Sem dúvida quando nós temos Portugal hoje em campo, que qualquer que seja o resultado nos vai orgulhar, porque a responsabilidade está toda do lado do País de Gales. País de Gales é quem tem que ter dormido mal, é quem está nervoso com este jogo. Apenas Portugal vai esperar uma oportunidade e se o País de Gales a der, se tiver uma má tarde, estou convencido que a qualidade destes Lobos não vai deixar fugir. Mas de qualquer forma, também elucidar que a grande responsabilidade está mesmo no País de Gales, não haja dúvida.
Tomás Morais, em 2007 Portugal ficou no quinto lugar do grupo C, obviamente com esse desafio também marcante, difícil. Agora, 16 anos depois, qual é que acha que deve ser a expectativa para esta seleção dos Lobos, tendo em conta esta evolução que também descreveu?
Reparemos, nós também temos que olhar a países como o Japão, que têm uma dimensão que Portugal não tem e que tiveram mundiais sucessivos sem ganhar um jogo. Iam se aproximando, a diferença no rugby ainda é acentuada. Nós podemos esperar que Portugal ganhe um, dois ou até possa ganhar três jogos. O desporto é assim mesmo e pode ser realmente uma grande bomba deste mundial, por assim dizer, ou mesmo Portugal faça jogos muito competitivos, como fez a equipa de 2007, com resultados muito bons e que nos orgulhe vermos os Lobos a jogar com toda a sua alma, com toda a sua atitude e com toda a sua agressividade natural que lhes é característica. É como eu disse, nós tanto podemos ganhar um jogo, como não ganhar nenhum jogo e fazer um grande mundial. Agora, penso que a passagem às quartas de final, como tenho ouvido e tenho lido, me parece mais complicada a mim. Quero ser otimista e ficava muito satisfeito, era a pessoa mais feliz do mundo, mas também seria realmente uma surpresa ainda maior Portugal conseguir. Agora, como eu disse, Portugal tem realmente excelentes jogadores, não há ilusões. Tem um tempo de recuperação muito apropriado, porque há uma semana entre cada jogo, coisa que não aconteceu em 2007. E nós, em 2007, tivemos a possibilidade de ganhar à Roménia. Na verdade, fugimos nos minutos finais de jogo, mas não tínhamos, na altura, a profundidade deste plantel, até porque tínhamos perdido os jogadores da segunda linha, que são fundamentais no jogo contra os países do Leste. E a Roménia, quando meteu os jogadores no banco, minutos do fim, retirou-nos a hipótese de ganhar e perdemos por quatro pontos, que em rugby não é nada.
Claro.
De qualquer forma, eu penso que esta seleção, com a profundidade de jogadores que tem, e se tudo correr bem, como se prevê, possa surpreender, por exemplo, uma equipa como a da Geórgia, uma equipa como a das Fiji, se eventualmente até não ganhar nenhum jogo até lá. As Fiji podem aparecer mentalmente muito fracas contra Portugal. Nós conhecemos os Fiji há anos, eles oscilam entre o melhor e o pior de um momento para o outro, portanto têm que estar muito motivados para poderem jogar aquilo que nós vimos contra o País de Gales. Eu acho que tudo é possível. O mundial é uma longa maratona e não se pode fazer também grandes previsões. Acho que isto é viver jogo a jogo, viver semana a semana, e é isso que todos temos que fazer, no fundo, alegremente, viver esta presença do rugby português novamente no mundial.
Tomás Morais, uma última questão. Como é que vai ver o jogo de mais logo e se vai ver também com esse coração apertado de quem já esteve lá, de quem já viveu este momento? É um momento de orgulho também para si?
Olhe, é muito orgulho, eu vou viver como adepto. Mas acima de tudo, eu quando vejo jogar os Lobos, fico arrepiado. Tenho um nó no estômago. São muitos anos a jogar pela seleção e mais 10 anos como selecionador, não passa num instante.
Claro que sim.
E jamais sairá de dentro de mim. Quando vibro imenso com o jogo, sofro muito. Mas serei mais um nas bancadas a dar força para empurrar os Lobos para o ensaio.