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Vamos chamar à conversa Paulo Neves, é deputado do PSD, da Comissão Parlamentar de Negócios Estrangeiros. É também do PSD Madeira. Paulo Neves, bem-vindo a esta emissão da Rádio Observador, emissão especial para acompanhar o que está a acontecer na Venezuela. Conhece bem também a comunidade venezuelana e a América Latina. Começava por lhe pedir a sua opinião sobre o que está a passar e o que aconteceu esta manhã nesta ação desencadeada pelos Estados Unidos que detiveram Nicolás Maduro e a mulher.

Olá, boa tarde, Ricardo Conceição. Muito obrigado pelo convite e também um cumprimento aos membros do painel. Aquilo que lhe posso dizer em nome do Partido Social Democrata e como coordenador na Comissão de Negócios Estrangeiros, é que desde a primeira hora, naturalmente, o PSD acompanha com enorme proximidade o que se está a passar na Venezuela. A posição do PSD é uma posição já conhecida. A nossa primeira preocupação, a nossa grande prioridade, quando falamos da questão da Venezuela, sempre foi a nossa comunidade. É uma vasta comunidade, como sabe, é uma das maiores comunidades imigrantes na Venezuela, juntamente com a comunidade espanhola, a comunidade italiana. Portanto, a nossa preocupação primeira, até quase me atreveria a dizer primeira, segunda e terceira, é os interesses da nossa comunidade. A partir do momento em que foi conhecida a situação esta madrugada, o Governo imediatamente, o PSD imediatamente entrámos em contacto para acompanhar a situação, mas a prioridade foi, sem dúvida, passar uma mensagem muito clara à nossa comunidade que estavam a ser acompanhados. Nós costumamos muitas vezes dizer isso quando recebemos os representantes da comunidade, que os nossos portugueses espalhados pelo mundo não estão esquecidos, são acompanhados e essa é uma nossa obrigação, é obrigação do Governo Português.

E teve a oportunidade já de falar com alguém?

Com várias pessoas, mesmo na Venezuela, com a comunidade. Como sabe também sou deputado eleito pela Madeira.

Exatamente.

Acompanhamos, como deve imaginar, com uma grande proximidade, alguma ansiedade daquilo que se passa na Venezuela. Eu próprio já mantive contactos logo no início da manhã com pessoas que estão na Venezuela, com pessoas também mesmo aqui na Madeira, mas com contactos diretos à nossa comunidade na Venezuela. E aquilo que nós transmitimos, o Partido Social Democrata, e quero dizer, aliás, que internamente nós no PSD temos acompanhado o líder do grupo parlamentar, o deputado Hugo Soares, com quem temos mantido sempre um contacto muito direto. O senhor primeiro-ministro, obviamente, o ministro dos Negócios Estrangeiros, temos acompanhado. Temos visto também o acompanhamento que tem sido a partir de Bruxelas e em especial também com o governo espanhol, com o governo italiano, que são os três governos que temos as maiores comunidades na Venezuela e, portanto, a nossa preocupação é essa mesma. Aquilo que o Governo Português fez, aquilo que a nossa embaixada fez, era aquilo que tínhamos que fazer. Imediatamente durante a madrugada, a Embaixada de Portugal em Caracas e também os nossos consulados na Venezuela, em especial o de Valência, fizemos imediatamente um comunicado onde chamávamos a atenção que estávamos a acompanhar a situação, que havia uma proximidade com a nossa comunidade e naturalmente fizemos aquilo que se deve fazer, que é disponibilizar todos os nossos serviços e aconselhar a comunidade portuguesa a não sair das suas casas. E é isso que realmente tem acontecido. Nos contactos que tenho tido, tenho-me apercebido que é isso. É evidente que existe uma ansiedade, como deve imaginar, estamos a falar de uma situação que não é uma situação normal, apesar da nossa comunidade, bem ou mal, estar já habituada a situações não diria iguais, mas semelhantes ao longo dos tempos. Agora, é evidente que está expectante, porque ninguém sabe neste momento o que é que vai ser ou o que é que vai acontecer, o que será a Venezuela daqui a um, dois ou uma semana e naturalmente cria ansiedade.

O Paulo Neves conhece bem essa comunidade. Essa comunidade vai querer sair da Venezuela? Se calhar é um pouco cedo para estarmos a responder a esta pergunta.

Não, é até por uma simples razão, Ricardo. É que não é a primeira vez que acontece. Só para ter esta ideia, nos últimos anos, a situação na Venezuela, seja política, seja económica, fez com que sete a oito milhões de venezuelanos tenham abandonado a Venezuela, em grande parte, naturalmente, para a Colômbia, para países vizinhos da Venezuela, para Espanha também muitos. Mas curiosamente, eu recordo-me, já na altura estava no Parlamento e julgávamos que podia ser, permita-me a expressão, uma avalanche de portugueses. E é bom que a gente tenha essa noção. Não são imigrantes, eu prefiro dizer que são portugueses. Aqui estão a portugueses de primeira e portugueses de segunda. Portanto, quando nós dizemos que a questão da Venezuela tem que ser acompanhada com uma enorme proximidade, preocupação, solidariedade e presença do Governo Português, é nossa obrigação, porque nós estamos a falar de portugueses. Não se esqueça que só portugueses são mais de 150 mil, os descendentes vai mais de 300 mil. Até há quem fale que chega a quase meio milhão.

Exato.

Portanto nós estamos a falar, e eu muitas vezes digo, a questão da Venezuela acaba quase por ser uma questão interna, porque estamos a falar de uma enorme comunidade portuguesa que nós temos a obrigação de acompanhar porque são portugueses de primeira. Mas isto para lhe dizer que quando houve essa situação há alguns anos, nós julgávamos que iríamos ter uma avalanche de portugueses a regressar ao seu país, que é Portugal. Isso não vai acontecer. Só para ter uma ideia, na Madeira nós-

Regressou muita gente à Madeira, não é? Nomeadamente aqui à região da Aveiro, por exemplo.

Também porque a seguir à Madeira é a região que tem mais portugueses lá na Venezuela. Sim, mas para ter uma ideia aqui à Madeira estamos a falar à volta de 14, 15, 16 mil pessoas que trouxeram uma dinâmica extraordinária à região. E aliás, recebemos e recebemos muito bem, estão completamente integrados, curiosamente a maioria jovens, o que é curioso, a maioria jovens Não se esqueça que a comunidade portuguesa na Venezuela é uma comunidade muito bem inserida, é uma comunidade que apesar de todas as dificuldades está envolvida no comércio, adaptam-se bem ou mal, têm as suas casas, têm as suas famílias, ou seja, não é fácil esta comunidade, que ainda por cima nós os portugueses damos um valor muito grande à família, abandonar o resto da família que está na Venezuela. Portanto, tem sido uma comunidade que eu posso dizer com uma palavra que não é tecnicamente, mas muito resiliente, muito resistente e muito habituada já a esta situação. Agora, isso não invalida, e isso aí é normal que aconteça, e eu tenho percepcionado nos contactos que tenho mantido durante o dia de hoje, há uma natural preocupação, uma natural ansiedade com o que vai acontecer nas próximas horas e nos próximos dias.

Exatamente. O que acha que nos pode trazer agora o futuro? Os Estados Unidos, o Donald Trump falou há pouco a dizer que os Estados Unidos estão a pensar no que se segue.

Como deve imaginar, eu não vou entrar em comentários de cenários.

Temos que recordar que é deputado na Comissão Parlamentar do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

Dos Negócios Estrangeiros e naturalmente, como deve imaginar, temos que ser o mais pragmáticos possível, que é sempre em primeiro lugar, pensar na nossa comunidade. Ponto. Portanto, a defesa da nossa comunidade, temos que estar expectantes, temos que acompanhar o que se está a passar. O governo português tem tido uma posição muito clara quanto à situação na Venezuela. Tem sido sempre, na verdade, e em primeiro lugar, a defesa e o acompanhamento da nossa comunidade, mas também temos tido posições muito claras quanto, por exemplo, ao reconhecimento ou não do resultado das eleições presidenciais, e não houve reconhecimento, estamos a isso também presentes. Das eleições presidenciais, das eleições parlamentares, nisso o governo português tem sido, de uma forma muito clara, transparente quanto a essa matéria. Também temos tido sempre, e citamos e convidamos as autoridades venezuelanas a dialogarem em diálogos internos. Não se esqueça que não há falta de políticos na Venezuela, não há falta de opinião política na Venezuela. Portanto, há soluções internas na Venezuela que devem ser encontradas através do diálogo. Pode-se dizer: "Mas isso é conversa que não leva a lado nenhum". Não, a conversa que não leva a lado nenhum é exatamente isso que nós pensamos. Primeiro lugar, defender os interesses dos portugueses que vivem na Venezuela, mas em segundo lugar, naturalmente, tomar posições, e tomámos, claras quanto ao resultado das eleições, quanto a defender o diálogo político na Venezuela.

Paulo Neves, muito obrigado por ter aceitado o nosso convite e por ter estado aqui nesta emissão especial da Rádio Observador.