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Nuno Crato faz parte deste Atlantis Group, um grupo internacional de 26 ministros da Educação e também de ex-primeiros-ministros. Nuno Crato é o único representante português neste grupo, que deixa um apelo a proteger o sistema educativo depois deste período de pandemia. Este é o maior desafio desde a Segunda Guerra Mundial?

É um desafio enorme. Repare-se, nós pensamos na educação e às vezes pensamos que aquilo que vemos e que nos parece estar razoavelmente bem ou, enfim, estando mal, não é dramático. Mas se pensarmos no mundo inteiro, nós verificamos que há uma percentagem enorme de jovens que neste momento, estou a falar mesmo antes de ter surgido esta pandemia, estava com dificuldades educativas imensas. Por exemplo, estima a UNESCO que cerca de 56% a 58% dos jovens no mundo inteiro tenham dificuldades básicas de leitura. Estima a UNESCO também que cerca, a mesma percentagem, mais ou menos 56%, 58% dos jovens, tenham dificuldades imensas em matemática. Ou seja, nós estamos a falar de metade dos jovens deste nosso mundo com dificuldades em prosseguir estudos, com dificuldades em atuarem no mundo moderno. E se nós olharmos e pensarmos: "bem, isso passa-se em África ou passa-se na América do Sul e Europa, os Estados Unidos, não é bem assim." Bem, mesmo na Europa e nos Estados Unidos, é verdade, não é nada assim, não são 50 e tal%, mas mesmo na Europa e nos Estados Unidos, a percentagem é muito grande, a percentagem é cerca de um quinto dos jovens. Se nós olharmos, por exemplo, os últimos números PISA, nós verificamos que cerca de um quinto dos jovens europeus e cerca de um quinto dos jovens norte-americanos de 15 anos, têm ainda dificuldades extremas de leitura e dificuldades extremas de compreender conceitos matemáticos. Isto significa que estamos a falar de uma percentagem muito grande de jovens que vai ter dificuldade em arranjar um emprego razoável, em ter uma vida e integrar-se bem na sociedade moderna. Portanto, isto é uma coisa dramática para que este grupo chama a atenção. Agora, com esta pandemia, a situação tem todas as condições para piorar. Esperemos que não piore ou que piore apenas marginalmente.

E que medidas é que este grupo apresenta?

Este grupo é um grupo apenas de pensamento, um grupo de opinião, um think tank, como se diz por vezes, tem pessoas de diversíssimas opiniões, tem pessoas de diversíssimos setores políticos, por exemplo, tem Michael Gove, inglês, tem o Papandréu, grego, tem a Najat, francesa, tem pessoas com opiniões muito diferentes sobre as coisas. Mas no conjunto, há duas coisas aqui que eu talvez registasse que são importantes. Uma é que os investimentos que têm sido feitos nas questões essenciais da educação, que esses investimentos se mantenham. Havendo a tendência por parte, naturalmente, dos governos, agora, neste momento, de ter muito maiores cautelas com os investimentos. Essa é a primeira questão. E é uma primeira questão que é decisiva nos países que estão com a situação pior. A segunda questão é a questão da qualidade, não esquecer a qualidade, não esquecer que não basta colocar dinheiro na educação, não basta ter escolas, não basta ter professores, é preciso garantir que haja qualidade da educação. E essas duas coisas não são fáceis de conseguir. Muitas vezes as pessoas pensam que basta atirar dinheiro para os assuntos, outras vezes pensam que a exigência da qualidade vai desfavorecer alguns. Eu acho que não é verdade. Eu acho que dinheiro é necessário, como é evidente, mas só isso não chega. E temos situações diferentes conforme os países. Se nós pensarmos, por exemplo, no Brasil ou no Chile, nós vemos que são países que estão num momento e num nível de investimento em que um acréscimo de investimento lhes vai permitir ter condições muito melhores para o ensino. E temos outros países em que não se trata de investimento. Por exemplo, Portugal tem melhores resultados que o Luxemburgo, e o Luxemburgo gasta por estudante, mesmo em paridade de poder de compra, três vezes o que gasta Portugal. Três vezes e meio o que gasta a Polónia, salvo erro. E a Polónia tem muito melhores resultados que o Luxemburgo e que a Suíça, e que outros países. Não é uma questão de dinheiro.

Não é uma questão de dinheiro, mas de que forma é que estas medidas podem ser aplicadas ao nosso universo, a Portugal?

Sim, é uma excelente pergunta. Eu julgo que em Portugal não podemos esquecer a qualidade. Não podemos esquecer a qualidade da educação, a exigência da educação, que deve ir a par com a atenção aos mais desfavorecidos, que têm neste momento mais dificuldades ainda do que os outros. E portanto, em Portugal, sobretudo, julgo eu, é a questão da qualidade. Portanto, deve estar sempre presente. Portugal já passou aquele patamar mínimo de investimento na educação para conseguir concentrar-se na qualidade. Só para dar um exemplo, temos uma situação muito diferente de Moçambique, por exemplo. Da última vez que estive em Moçambique, visitei várias escolas, alunos sentados no chão, não havia carteiras para todos, não havia cadeiras para todos, não havia livros para todos, com pequenos blocos de tirar apontamentos individuais. É uma situação que nós em Portugal já não vivemos. Se calhar, na história recente nunca vivemos. Esses países precisam muito de investimento na educação, de investimento no sentido de ter carreiras, ter secretárias, ter professores nas escolas. O número de alunos por turma é 66, 67%, salvo erro, na ministério A escola precisa de atenção, sobretudo à qualidade da educação, e não deixar que fiquem para trás aqueles jovens que, por terem mais dificuldades econômicas e outras, têm mais dificuldades em acompanhar este momento difícil.

E isso vem a revelar-se agora nesta situação mais complicada, em que nos apercebemos de repente que temos que ter aulas em casa e que uma percentagem muito grande de alunos portugueses nem um computador tem, quanto mais uma ligação à rede para poder acompanhar estas aulas online.

É uma percentagem que não se conhece ainda com grande rigor, mas sabe-se por estimativas do INE antigas e por estimativas modernas da nova FPE, sabe-se que é uma percentagem significativa, que pode estar pelos 15%, 20%, 30% ou mais. Porque não se trata só de saber se têm ou não computador em casa, trata-se neste momento de saber se têm disponibilidade, se há disponibilidade da família para aceder a esse computador, porque em muitos casos existe computador e existe internet, mas os pais estão em casa a trabalhar, os pais não podem abandonar o seu emprego. Temos famílias em que existem professores, em que muitas vezes professores são pais e mães ao mesmo tempo e, portanto, precisam de material para eles, precisam de dar apoio aos miúdos. A situação é difícil para toda a gente.

Mas faz sentido nesta altura pensarmos em que um aluno não tenha um computador só para ele? Estamos a falar numa altura em que a tecnologia é essencial na educação.

Sim, nós deveríamos estar já numa situação em que isso acontecesse, mas nós fomos todos surpreendidos por esta pandemia. E nós não somos um país rico, embora às vezes gostemos de pensar que somos um país rico, não somos um país rico e temos pessoas com muitas dificuldades neste nosso país.

Portanto, o rácio de computadores em casa para alunos é baixo neste caso.

Enfim, será um bocadinho ilusório pensar que vamos ultrapassar isso tudo muito depressa. Mas há um esforço enorme, mesmo assim, e eu acho que isso é uma coisa que nos deve a todos animar. Há um esforço enorme de professores, de escolas, de alunos, de famílias, para ultrapassar esta situação e para que os jovens não percam todo o tempo. Porque perder tempo na escolaridade é algo que não pensemos que é simplesmente adiar. Não, enquanto se está a perder tempo, estão-se a esquecer coisas, há procedimentos que se estão a destreinar. Ou seja, após um intervalo longo, os jovens não estão na situação em que estavam no princípio desse intervalo, estão pior. E, portanto, este esforço todo que está a ser feito é um esforço em que o país se une, e eu acho que isso é algo muito positivo. Eu não pensaria aqui há uns meses que fosse possível, de facto, que as coisas estivessem a correr com todo este ânimo com que as pessoas estão a trabalhar.

Olhando para o outro lado, até agora estávamos a falar aqui dos alunos e das dificuldades. Há o outro lado, que é o lado dos professores. Este documento do Atlantis Group fala também na proteção de professores mais vulneráveis, agora que começam as escolas a abrir. Há uma necessidade? Nós temos, por exemplo, em Portugal, professores já com alguma idade. Esse vai ser o maior desafio da educação.

É, porque nós pensamos nos jovens. Os jovens, à partida, não são grupo de risco, embora este vírus tenha tido resultados muito negativos em todas as idades. Mas enfim, o risco é menor para os jovens. Os jovens estão em contacto com adultos, estão em contacto com os professores, estão em contacto com pais. Portanto, estas dificuldades vão se prolongar. E nós temos um corpo docente que está muito envelhecido. Envelhecido talvez não seja a boa palavra, mas está avançado na idade, o que cria dois tipos de problemas: cria este problema agora com a pandemia, claro que é um problema imediato, mas cria um problema de médio prazo. E o médio prazo é o seguinte: daqui a cinco, 10, 15 anos, é mais ou menos esta janela. Digamos, daqui a 10 anos, metade ou mais da metade dos atuais professores têm que ser substituídos. E coloca-se a questão: será que temos candidatos tão bem preparados como estes professores? Será que o ensino não vai sofrer com isso? Isto é a questão central da educação para o futuro, mesmo deixando para trás a pandemia.

E temos ou não temos, Nuno Crato?

Olha, eu acho que temos capacidade para ter, mas precisamos ter um processo de formação, seleção, contratação, promoção, bastante diferente daquele que temos. Mas isso dava para uma longa conversa, isso seria outra conversa. Acho é que nós devemos estar todos atentos a este problema, que é o problema dos professores, porque os professores são algo central na educação dos nossos jovens. Tem-se verificado agora durante estes tempos como são importantes e como estão dedicados aos nossos jovens, estão a trabalhar proativamente para eles. E tem-se verificado também uma outra coisa, que é: nós pensávamos, ou algumas pessoas pensavam, que o professor não seria tão necessário nestes tempos como era antigamente. Não, o professor continua a ser muito necessário e, na realidade, todos nós estamos neste momento a sonhar com a sala de aula, alunos e professores de carne e osso, olhos nos olhos, diálogo entre seres humanos próximos.

Nuno Crato, começamos esta nossa conversa a falar da necessidade de investimento e dos desafios que aí vêm para a educação. Acredita mesmo que a educação vai perder investimento nos próximos tempos?

Em Portugal, o investimento deve ser, sobretudo, investimento de qualidade. Portugal e países como nós, portanto, Polónia, digamos, países europeus, não pensemos que os países europeus estão todos bem em termos de educação. Não estamos, não estamos bem em termos de educação. Mas há países, como eu disse, os exemplos do Chile, do Brasil, de Angola, Moçambique, há países que estão numa fase muito mais difícil e nesses países, um pequeno corte na educação significa menos cadeiras para os alunos, significa menos professores, significa uma perca muito grande de qualidade da educação. E isso é muito problemático.

Para fechar, o trabalho deste Atlantis Group, de que forma é que pode influenciar alguma mudança nesta altura em termos do universo da educação?

Também um apelo moral, no fundo, o que aqui se faz é um apelo moral. O Atlantis Group tem produzido alguns textos interessantes. Por exemplo, ainda aqui há cerca de dois a três meses, parece que de propósito, produziu um texto muito interessante sobre o papel dos computadores no ensino, que é um texto muito ponderado, que não entra nas ilusões de que os computadores vão mudar o ensino, mas percebe que os computadores podem ser auxiliares importantes do ensino. Também aí temos um contributo que se calhar valia a pena algumas pessoas lerem.