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Estamos com o presidente da Associação dos Armadores das Pescas Industriais, Miguel Cunha. Queria começar por lhe perguntar de que maneira é que este desconto anunciado pelo governo, este desconto de € 0,10 no gasóleo agrícola, pode ajudar no setor da pesca.
O meu primeiro comentário é de incredulidade. Eu estou a ouvir pelos senhores. Eu só soube disso agora através desta sua informação e não acredito na notícia. E vou lhe explicar porque não acredito na notícia. Ponto número um: o movimento associativo da pesca portuguesa, do qual a ADAPI faz parte, pediu uma reunião com caráter de urgência ao governo para debater quais as medidas mais ajustadas ao setor. O senhor secretário de Estado marcou-nos uma reunião para o próximo dia 1 de abril, quarta-feira, onde iremos debater as necessidades do setor e a disponibilidade do governo para ajudar. Um governo que sempre disse que ajudaria as pescas. Quando me falam em € 0,10, é a metade do apoio que Espanha está a dar ao setor espanhol. E nós, a pesca portuguesa e a pesca espanhola, coabitam no mesmo mercado, que é o mercado ibérico. Se nós estamos a dar metade do apoio da remanescente frota, que é a frota espanhola, significa que o governo português está a colocar o setor da frota portuguesa de pesca numa posição altamente discriminatória e altamente negativa, e que vai conduzir a uma disparidade brutal no custo de produção. E eu vou lhe dar um exemplo. Eu neste momento estou em Espanha, porque há uma série de embarcações nossas associadas à ADAPI a pescar uma quota sazonal, que é a quota da cavala, em Espanha. E estamos a pescar juntamente com barcos espanhóis ao nosso lado. Se nós vamos ter um apoio de € 0,10 e os espanhóis vão ter um apoio de € 0,20, significa claramente que o nosso custo de produção vai ser substancialmente superior ao espanhol. Portanto, no mesmo mercado, o governo português, e é por isso que eu não acredito nesta informação, está a criar um mecanismo altamente discriminatório relativamente ao setor de pesca português. E, portanto, eu não quero acreditar, quando quer o senhor ministro, quer o senhor secretário de Estado, têm publicamente referido que são dois elementos do governo que apoiam o setor e que vão defender o setor. Eu não acredito que antes de falar conosco e antes de perceber quais são as nossas dificuldades, que consigam colocar uma suposta ajuda que vai discricionar o mercado concorrencial.
E os € 0,20 que o governo espanhol está a dar já seriam suficientes em Portugal?
Olhe, nós achamos que não. E era isso que íamos transmitir ao senhor secretário de Estado no dia 1 de abril. Espero que o dia 1 de abril não seja o dia das mentiras. O que me parece claro é que se nós e o setor espanhol, podem ver nas notícias, o setor espanhol está a reclamar, ainda hoje estive com armadores espanhóis, que € 0,20 não é suficiente para um agravamento de custo de produção de quase 100%, porque eu digo-lhe que antes da guerra começar, o combustível custava aqui à volta de € 570 a € 580 por metro cúbico, hoje em dia está na casa de € 1 a € 1,100. Portanto, estamos aqui a falar de mais de 100% de agravamento. Por isso parece-me uma notícia muito pouco credível que os € 0,10 seja a proposta do governo. Aliás, eu acho que é ofensivo. Nem tem a ver com credibilidade, tem a ver com uma questão altamente ofensiva, porque se um governo que apoia um setor, e publicamente já o afirmaram várias vezes, eu não acredito que o governo vá criar uma medida discriminatória em termos concorrenciais entre a frota portuguesa e a frota espanhola. Portanto, no mínimo dos mínimos, o apoio terá que ser igual ao governo espanhol