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É nosso convidado a esta hora o jornalista Gonçalo Pereira Rosa, que mantinha uma relação de amizade com o Joaquim Leiria. Gonçalo, boa tarde, bem-vindo. Obrigado pela disponibilidade, que foi, de resto, o Joaquim Leiria que assinou o prefácio do seu último livro. É assim foi?

É verdade. Boa tarde. Sim, eu e o Joaquim, uma amizade de muitos anos. Ele foi um gigante na nossa profissão. Eu chamava-lhe muitas vezes o homem dos cinco instrumentos, que eu acho que ele foi o único jornalista em Portugal que conseguiu dominar todas as plataformas. Ele foi um jornalista de agência de mérito inquestionável, na Associated Press. Ele foi jornalista de imprensa escrita no Diário de Lisboa, com uma carreira ímpar. Depois fundou revistas, fundou a Sábado. As pessoas esquecem-se, mas a Sábado também foi fundada por ele. Fundou o Tal & Qual, foi apresentador de televisão e quando já tinha feito tudo, foi ainda pra rádio porque queria experimentar essa plataforma. O Joaquim foi o homem dos cinco instrumentos.

Há pouco tivemos aqui Ramon Font, também um dos fundadores do Tal & Qual, que considerava que Joaquim Leiria, o meio de comunicação onde mais se distinguiu foi na televisão. Partilha esta ideia?

Foi o meio que lhe deu mais notoriedade. Foi aquele onde ele conseguiu dominar sem ter tido formação própria, porque não a teve em televisão. E quem entrou pra televisão em 74, 75, como ele, teve que se adaptar e ir aprendendo enquanto fazia, mas foi aquele que lhe deu a grande notoriedade, onde ele se mostrou como um enorme entrevistador, porque era também um excelente conversador. Eu diria que o Joaquim se definia como um homem da imprensa escrita, que foi no Diário de Lisboa que ele se tarimbou no Tal & Qual, onde ele criou um gênero que não existia cá. E ele gostava muito de explicar que tinha aprendido tudo nas agências, na Associated Press, onde aprendeu o que é a notícia seca, curta, que depois quando vai para Londres, pra BBC, desenvolve e transforma numa arte.

Ao longo da manhã temos ouvido várias pessoas. Não temos explorado tanto a dimensão mais humana, a dimensão mais pessoal, as características de personalidade de Joaquim Leiria. Quem era esse Joaquim Leiria?

Eu conto-lhe uma história que me foi contada por ele quando eu, por acidente, descobri nos arquivos da Torre do Tombo da PIDE/DGS, um processo dele. E o processo dele tinha sido um processo muito aborrecido no Diário de Lisboa, em que ele publicou uma notícia e o diretor de então deu o nome dele. Não tinha de o dar, mas deu o nome dele e ele foi chamado à polícia. E o Joaquim só não teve mais problemas porque cinco anos antes, em 62, na crise estudantil, onde ele esteve envolvido até os ossos, como ele gostava de dizer, um colega, o Francisco Reis Chaves, recusou dar o nome do Joaquim como um dos organizadores do protesto. E o Joaquim guardou até o fim e disse: "É daqueles favores que nunca poderei pagar. O Reis Chaves ao não dar o meu nome, impediu que eu ficasse marcado no regime como comunista ou protocomunista", que também o foi até à Primavera de Praga. E portanto, permitiu-me ter uma carreira. E o Joaquim era assim, era fiel aos amigos até o fim. Eu acho que quando lemos, por exemplo, as crónicas que ele publicou no jornal 24 Horas, já no século XXI, nós vemos um dos últimos espíritos livres, que, como ele dizia, distribuía bordoadas à esquerda e à direita, pouco se importando se estava a ferir a suscetibilidade de alguém. Era um dos poucos espíritos livres.

Um espírito livre que hoje se despediu de nós aos 82 anos e aqui recordado pelo jornalista Gonçalo Pereira Rosa, a quem agradeço a disponibilidade e pela partilha neste jornal das 15h da Rádio Observador