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Ricardo Marques, enquanto presidente da Junta de Benfica, começava por lhe perguntar qual é o objetivo deste projeto e que artistas estão por trás dele.
Nós há muito tempo queríamos reabrir a Livraria Olmeiro. Objetivamente, a Livraria Olmeiro não era um equipamento público, era um equipamento privado, ligado ao Zé Ribeiro, ligado a muitos e muitos amantes da cultura e da literatura que ao longo de longas décadas fizeram vida naquilo que foi o crescimento e também o trabalho neste espaço colaborativo e neste espaço de criação cultural. Nós o que fizemos no ano passado, nós tínhamos três objetivos para este mandato. Um era o Turim, que está aberto, pujante, cheio de atividades, com salas de cinema e teatro. Outra era convencer aqui o nosso amigo Zé Ribeiro. Escolhemos e arranjamos um espaço que tivesse essas condições para reabrir a Livraria Olmeiro, até porque Benfica não tem formalmente, hoje em dia, nenhuma livraria. Sentíamos esta falta naquilo que é a nossa aposta e na nossa rede cultural. E depois para o ano, a reabertura de um espaço no bairro do Bom Pastor, que será dedicado às marionetas e à produção de marionetas, e depois a um teatro, obviamente, para peças ligadas a marionetas e marionetismo. Foi nesta linha que fomos trabalhando, muito com o Zé Ribeiro, o proprietário e fundador da Livraria Olmeiro.
Voltou do Braço de Prata, não é?
Está no Braço de Prata e algum do espólio vai se manter lá pelo que eu percebi. A livraria que estamos a abrir, sendo um espaço preparado para receber muitas atividades com crianças, seniores, com grupos, nós não conseguimos transformá-la outra vez naquele espaço quase de armazenamento de todo o espólio. Existe uma parte da coleção que ficará em Braço de Prata, outra virá para cá. Nós também aproveitamos as sinergias com o Olmeiro para dotar este novo espaço que vai abrir de novas valências. Terá equipado com ferramentas digitais para que possa permitir outro tipo de trabalho interativo com jovens, com crianças, estimular o gosto pela leitura, fazer um conjunto de trabalho também colaborativo nesse sentido com as escolas e com as associações de Benfica. Chegamos a este feliz propósito, que o Zé achou a ideia fabulosa. Depois eu andei aqui a namorar os proprietários que eu conhecia aqui na rua que tinham espaços, se não nos davam ali ao espaço, e não podendo nós ir para a loja original, que hoje em dia está ocupada, felizmente, também com uma atividade cultural, que é uma galeria de arte. São praticamente cinco portas acima, temos a futura Olmeiro, na qual iremos instalar, esperamos nós, por muitos e bons anos, a livraria e, como eu digo, este espaço de atividades de promoção da leitura ligada à Biblioteca do Baldai e às bibliotecas escolares de Benfica, para estimular aquilo que tem a ver com o desenvolvimento deste gosto, o ganhar este gosto, fazer atividades ligadas a este conhecimento.
Já agora, o que significa para a junta a reabertura da grande Livraria Olmeiro? Já com menos elementos, menos o gatinho e a esposa.
Menos o gatinho e a esposa, infelizmente. O que eu lhe queria dizer. Para nós é muito importante porque havia duas ou três feridas daquelas profundas em Benfica de encerramento, naquela altura que foi o início deste século, que pesavam sobre toda a gente. Uma delas era o Turim, que fechou em 2015, e a sua reabertura acho que marca um sinal muito claro duma comunidade. E isto não é um investimento só da junta, é da própria freguesia no sentido da comunidade. O investimento da comunidade em reabrir espaços culturais e em querer cultura perto de casa. Eu acho que isto é um mote muito importante. E depois era a Livraria Olmeiro. Todos nós, eu sou nascido e criado em Benfica, e todos nós nos lembrávamos dos dias que íamos ali para a montra dos livros que lá fomos comprar para fazer trabalhos na escola, na Quinta de Marrocos ou na Secundária de Benfica. A Livraria Olmeiro tem um espaço muito especial no coração dos moradores, não só aqui de Benfica, mas desta zona norte. E também por isso foi tão impactante quando fechou. Chegámos a ter o senhor presidente da República, chegámos a ter vários lutadores a vir cá ajudar, comprar livros para tentar manter viva a Olmeiro. Fazia-nos todo o sentido que ao invés de abrirmos algo novo, fizéssemos este grande esforço de reabrir a Olmeiro e devolver a Olmeiro de novo a uma nova geração de Dávides leitores, que por certo vão adorar este espaço. Lá já porque vamos ter o Zé Ribeiro conosco e muito do espólio do Olmeiro. O espaço vai estar preparado para preservar muito desta memória e do trabalho que o Zé foi fazendo. Depois, porque a Associação Olmeiro é uma associação muito importante em Benfica, porque mesmo com as dificuldades todas e com o espólio em Braço de Prata, nunca se afastou de fazer produção cultural em Benfica e de atividades. Temos tido mensalmente o Mercado Olmeiro no Baldaiia, fazemos imensas tertúlias livrescas. Na prática, manteve-se sem espaço físico, viva no território, produziu dois livros sobre Benfica, um em parceria com a Junta de Freguesia de Benfica e depois um segundo sobre a Quinta da Granja e o Benfica de outrora. Tem mantido esta ligação e tem até aprofundado. Este ano, vamos ter no 25 de abril, a exposição principal é sobre isto, sobre o 25 de abril em Benfica, com histórias deliciosas, entre elas onde estava Zé Cafonso no dia 25 de abril de 1974. É com muito gosto que fazemos este esforço de reabrir espaços icónicos que foram fechando, mas dando-lhes uma nova roupagem, tal como tem sido o Turim, para adaptar às novas gerações e trazer novos públicos.
E é junto então da velha nova Olmeiro que agora vão inaugurar e figurar este passeio Olmeiro. O que consiste isso?
Consiste lembrarmos aqui que as pessoas tinham que se sentir transportadas à antiga Olmeiro para a nova Olmeiro. Na prática, embora seja na mesma rua, na Avenida Uruguai, do mesmo lado da rua e tudo assim, mas que simbolicamente causaria alguma estranheza. Fomos sempre pensando qual era a melhor forma. Decidimos que marcaremos simbolicamente na calçada. Nós instalamos nesta zona aquele chamado corredor de piso confortável. Esse piso tem melhores características do que a calçada portuguesa, por exemplo, para poder fazer alguma intervenção de grafite ou pintura, depois levando os pisos apropriados e aqueles produtos antiderrapantes. A ideia vai ser neste caminho marcar a Olmeiro inicial à frente do que hoje é uma galeria de arte E daí por esta galeria de 15 notáveis, eventualmente estamos a negociar com os artistas se conseguimos enfiar mais dois ou três, porque a votação está a decorrer tão bem que custa-nos deixar de fora alguns. E portanto tentar colocar este piso ao longo deste caminho, esta galeria de notáveis que ao longo destes longos anos de história do Olmeiro fizeram parte dessa história, não só do Olmeiro, mas de Benfica.
De que personalidades é que estamos a falar?
Estamos a falar de Léo Ferré, estamos a falar de José Afonso, Natália Correia, estamos a falar do nosso estimado António Lobo Antunes, Vitorino. Bem, são tantos, é uma lista de notáveis, de facto. Marius Pacheco, Pacheco Pereira. E quando olhei para a lista, e a lista ainda era maior do que as que pusémos a concurso, e foi um trabalho difícil, eu diria até entre mim e o Zé Ribeiro, que grande conhecedor e amigo de todos eles, como triar de 50 ou 60 potenciais nomes, escolher uns definitivos para colocar numa votação, quer dizer, se tivéssemos colocado uma votação de 60 nomes, ninguém a olharia, para escolher esta shortlist de 20 e tal, para depois escolher os definitivos 15. Mas foi processo que correu muito bem. No outro mural que nós temos, que é o Mural das Personalidades de Benfica, que também foi assim que fizemos, com a comunidade a escolher quais as personalidades que queria que pontificassem. Eu diria que dentro do Olmeiro vamos ter que ter local em que pomos os nomes de todos aqueles que são impactantes para o Zé Ribeiro e importantes. Mas de facto, não tínhamos espaço útil para conseguir fazer a galeria com todos eles. E portanto, está a decorrer a votação até quarta-feira. Ainda quarta-feira olharemos e os que forem mais votados irão então ser imortalizados neste passeio de cultura, porque temos ali alguns que não são obviamente escritores, mas que são pessoas ligadas à cultura, ligadas ao teatro, ligadas à filosofia, a outras áreas, e portanto, é muito importante também por isto. Eu diria, temos ali líderes de movimentos de libertação, ligados também aos PALOP. De facto, é uma lista fabulosa. O Zé puxou gente fabulosa ao longo dos anos e a Lúcio para aquela casa, para aquele caldeirão em ebulição cultural. E isso é fantástico.
Nestas personalidades agora imortalizadas, estamos a falar de 15, pode ir até às 18, como estava a dizer.
Eu vou tentar abrir para lhe dizer, porque eu não quero falhar nomes. Enquanto estou a falar consigo, estou aqui só para olhar para a lista.
Porque a votação decorre no Facebook, não é? Onde estão as caras das pessoas, onde se pode votar. Já estão muito avançados na votação. Zé Afonso, Agostinho da Silva, Lobo Antunes, como dizia, a Natália Correia, o Mário Viegas, tantos nomes. E é interessante que tem muitas pessoas ainda vivas.
Muitas ainda, felizmente. David Mourão-Ferreira, infelizmente não, Dinis Machado. Depois está Francisco Fanhais, a Gilda Nunes Barata, a Hélia Correia, que é uma pessoa adorada em Benfica, até pelo facto durante muito tempo de ter sido aqui professora em Alfornelos, aqui ao lado, portanto tem uma grande claque de apoio. E prémio, ela foi, se não estou enganado, ganhou o Prêmio Camões já neste século. São tantos, o José Fanha, o Lawrence Ferringhetti, quer dizer, este conhecidíssimo americano, Léo Ferré, o Luís Bernardo Honwana, como dizia há bocado, e ainda mais importante, um homem marcante na cultura angolana, Mário Pinto de Andrade. São tantos. De facto, era difícil nós fazermos uma escolha e portanto é sempre bom quando confiamos nos cidadãos, mas também com aquilo que é o seu posicionamento. Estamos a falar de Vitorino, José Afonso, como dizia, Pedro Barroso, o meu grande saudoso Pedro Barroso, eu e o Zé somos um bom lenço de coração. Portanto, são tantos que, de facto, Natália Correia, que fabuloso. Portanto, eu acho que isto será algo que também trará este reconhecimento de uma galeria de notáveis aqui no coração da cidade de Lisboa e desta zona Norte.
E acabada a votação, qual é que é o passo seguinte?
O passo seguinte é o coletivo que nós queremos, que é um coletivo local, vai receber aqui os nomes e imagens e uma pequena biografia feita pela nossa equipa da junta sobre cada uma das pessoas e depois os artistas fazem o trabalho artístico. Eles construirão uma proposta, depois vão-nos apresentar para depois imortalizarmos então neste caminho.
E já conhecemos quem são esses artistas, não é?
A seleção dos nomes e, de facto, esta pequena biografia, para que a obra não seja só as escadas. Seja também algo que ligue com a vida dessas pessoas, com aquilo que foi o trabalho que fizeram. E portanto, é um pouquinho nessa linha que damos, tal como fizemos no outro que se vir. Temos património de Benfica, temos aquilo que foi a sua vida, temos também muito daquilo que foi a marca que deixaram, o legado que deixaram do ponto de vista cultural, essas personalidades.
Pois, porque assim quem não os conhecer a fundo, conhece um pouco a biografia e passa a conhecer mesmo as pessoas novas e os jovens de Benfica.
E depois modernizes, no início e no final haverá um QR code dentro do Olmeiro também. Portanto, as pessoas que passam na rua podem descarregar e perceber quem é cada um deles. A ideia também é um pouquinho juntando este lado mais físico naquilo que será estas lajetas que fazem o caminho, mas depois também com as ferramentas digitais atuais, conseguir ter informação complementar e perceberem. Quer dizer, ninguém faz a mínima ideia que o Zé Afonso no dia 25 de abril de 84 estava escondido no Olmeiro. Entre outras situações dessas que eu penso que marcará muita diferença, ou que o Léo Ferré fazia grandes sessões de debate anarco-literário nas caves do Olmeiro. Quer dizer, há aqui um conjunto de personalidades que eu acho que engrandecem muito também o papel de uma freguesia como Benfica, que foi freguesia de ter necessidade, mas que sempre foi um espaço de liberdade, de democracia, um espaço de debate franco. Isso para nós também é muito importante saber. E o Olmeiro marca muito isso e esse espírito.
Esta galeria de notáveis, como dizia, já tem data para estar pronta, erguida?
Eu se fosse um político prudente, coisa que não sou, não lhe dava data. Estamos a fazer figas e a encher-se toda a gente para dia 1 de março, quando reabrirmos o Olmeiro, abrirmos também a galeria de notáveis. Mas esse é o que estamos a apontar todos. Portanto, dia 1 de março, reabrir o Olmeiro, o Olmeiro está em obras, porque dia 1 de março abrimos a porta. E na mesma data, simbolicamente, ou na manhã seguinte, eventualmente, faríamos a inauguração deste caminho, que nós carinhosamente chamamos Passeio Olmeiro, porque será um passeio pelas personalidades ligadas ao Olmeiro e ligada à cultura que se produziu e que se produzirá para o futuro também, esperemos nós, no Olmeiro.
Este Passeio Olmeiro, onde pisar estas personalidades até ajuda a lembrá-las, não é? Pelo contrário.
Exatamente, a ideia é mesmo essa, é que as pessoas valorizem o facto de sentir as crianças, as novas gerações. O Olmeiro vai funcionar num sistema de, durante a semana, atividades com as escolas de Benfica, públicas e privadas, e não só de Benfica, da cidade, quando falo de Benfica, é desta zona Norte. Maioritariamente, quer dizer, o espaço é um espaço que recebe uma turma, receberá uma turma e meia no máximo, portanto, é um espaço pequeno. A ideia será receber turmas ao longo das semanas, muito ligada a criar ferramentas para estimular o gosto pela leitura, pela palavra, por este conhecimento livresco, mas também mais do que isso, pelo viajar, pelo sonhar que os livros nos trazem. Depois, aos finais do dia, trabalhar mais, felizmente, com as nossas associações muito ligadas ao tipo sénior. Temos também muitas universidades sénior, associações de reformados, durante os períodos da tarde. Finais de tarde e fim de semana, famílias. Atividades para famílias, que puxem as famílias ao Olmeiro, que façam esta interligação também com o Turim e com o Baldaia, para que estes espaços todos sejam complementares e que as pessoas se habituem, que têm aqui um quadrado, têm aqui quase dois quarteirões de cultura na zona Norte, na qual podem vir fazer vida. Hoje querem vir ao cinema, vão ao Turim, outro dia querem ver um concerto do Baldaia ou uma exposição, ou vão ao Olmeiro, ver música para bebês, ou ver a leitura de um livro com as crianças e depois a criação de trabalhos plásticos relacionados com a leitura, etc.