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Entretanto, o Estreito de Ormuz, uma das mais importantes rotas marítimas do mundo, está bloqueado. É por lá que passa cerca de 20% do consumo mundial de petróleo. São cerca de 15 a 16 milhões de barris em trânsito, todos os dias, de petróleo bruto e cinco a seis milhões de barris de produtos refinados. O Irão tem também as segundas maiores reservas de gás natural, só atrás da Rússia. Nuno Ribeiro da Silva é consultor e especialista em energia e agora está em direto neste jornal. Bom dia, obrigada por se juntar a nós. Por tudo isto, por todos estes dados e já pelos primeiros sinais dos mercados desta manhã, que consequências é que este conflito pode ter para o mercado energético global?

Vai sofrer, com certeza. Agora, o nível da dor dependerá de vários fatores, mas nomeadamente da extensão desta situação de instabilidade. Vamos lá ver, nós estamos com esta situação de guerra, eu diria, no Banco Mundial do Petróleo e Gás. Toda a zona do Médio Oriente, enquanto grande produtor de petróleo e de gás, e sublinho gás, e já lá irei. Seja, como digo, enquanto produtores, seja toda uma logística muito importante pro mundo também em termos de refinação, em termos de gasodutos, em termos de pipelines. Todo o coração da indústria do petróleo e gás está sediada naquela região e, portanto, obviamente que a desestabilização que por lá vai, vai ter impactos no preço, no nervosismo, nos prêmios a pagar de seguros que decorre dessa instabilidade e que se instala no mercado. Já o nosso Afonso de Albuquerque dizia que Ormuz era estratégico e era preciso morrer por Ormuz. E estamos a ver isso.

Estamos a ver isto, esta subida agora do Brent, a subida de 13% é sinal, para já, de nervosismo, não propriamente de um bloqueio do sistema. É apenas o mercado a reagir à indefinição e à incerteza.

Certo. Atenção que os mercados abriram, nomeadamente na Ásia, com aumento de 13%, mas entretanto já regrediram, já baixaram um bocadinho. Atualmente, estamos com cerca de 9% de aumento na abertura dos mercados hoje, relativamente ao petróleo. Eu sublinho e digo que me preocupa mais até o impacto nos preços do gás natural do que até no petróleo. Não quer dizer que o petróleo não seja importante, mas no gás natural, tenhamos em conta que os três grandes produtores mundiais são os Estados Unidos, a Rússia e o Catar. E o Catar e a Rússia estão com os problemas conhecidos e agora o Catar, com o bloqueio do Estreito de Ormuz, é fortemente afetado na exportação, na extração do gás liquefeito que tem que passar em navios particularmente sensíveis e vulneráveis, como são os metaneiros, que realmente são navios não só com prêmios de seguro muito mais caros, mais vulneráveis do que os navios-tanques. E a logística do gás natural é muito mais frágil e a Europa, depois da ruptura com a Rússia, particularmente exposta ao gás natural vindo do Médio Oriente, também dos Estados Unidos, mas do Médio Oriente é muito importante as exportações do Catar para o Ocidente, enquanto que o petróleo, as exportações do Médio Oriente dirigem-se mais pra Ásia. A Ásia tem mais impacto e sofre mais impacto na alta dos preços do petróleo. A Europa é particularmente sensível ao aumento dos preços do gás natural. Portanto, estamos realmente numa situação crítica, porque não é só a questão da rota do Ormuz, não é só a questão da saída do petróleo e gás daquele beco que é o Golfo Pérsico, é também toda a dinâmica. Hoje foi atingida, embora parece que sem grande impacto em termos destrutivos, uma importantíssima refinaria na Arábia Saudita. Portanto, todas aquelas infraestruturas, toda aquela logística está em causa e está exposta. E se isto se prolongar por mais dias, a cada hora diria que há uma pressão de nervosismo que se reflete nos preços.

Ouvimos o presidente norte-americano esta madrugada dizer que este conflito poderá durar quatro semanas. Seria complicado em termos de abastecimento energético?

Seria muito complicado, no sentido em que, a durar quatro semanas, significa que vai continuar a haver o drone ou o míssil que cai junto a uma instalação petrolífera, a percepção de que o Estreito de Ormuz, aquele canal, está vulnerável a armamento e lançamentos de mísseis ou drones que o Irão ainda tenha na sua posse. E, portanto, isso vai, como digo, a cada hora, a cada dia, enervando o mercado. Nesse sentido, de fato, não temos propriamente um problema de ruptura de estoques. Os países têm os seus estoques estratégicos pra estas situações críticas. De alguma maneira, já ia havendo alguma preparação adicional para uma desregulação da rotina dos mercados. Mas, de fato, o estarmos sempre com uma notícia aqui e acolá, que houve um navio atingido, que houve uma refinaria tocada, que houve um oleoduto também atacado, é um fator que no mercado tão sensível e tão nervoso como é o mercado do petróleo e do gás, vai levando pressões no sentido dos preços refletirem esse não saber o dia seguinte.

Claro, muito nervosismo para já. Nuno Ribeiro da Silva, muito obrigada pela análise, pela forma como nos explicou o que está aqui em causa e de como este mercado é muito sensível à instabilidade