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Está conosco, em direto, o antigo piloto da TAP, o comandante José Correia Guedes. Muito bom dia.
Olá, Miguel. Bom dia.
Olá, bom dia. Turbulência comum em voos, mas tivemos aqui um voo um pouco acidentado. Como é que se explica o que aconteceu, neste caso, e que possa ter levado mesmo a esta morte de uma pessoa?
Pois, infelizmente, temos a contar uma vítima mortal, não é muito frequente. Acontece, raramente, mas acontece. Por que acontece turbulência? Há três formas de turbulência que podem causar problemas. Peço desculpa. Turbulência térmica, que é a formação daquelas nuvens muito altas, cheias de energia e correntes verticais para cima e para baixo. Essa turbulência pode ser evitada, porque isso aparece nos radares meteorológicos dos aviões. Nós conseguimos detectar onde é que estão as zonas de maior turbulência e conseguimos evitá-las contornando essas zonas. Há também a chamada turbulência orográfica, que ocorre na proximidade de montanhas, mas não me parece que tenha sido o caso. Depois, há aquela que é mais complicada, que é a chamada turbulência de ar limpo, que eu presumo que tenha sido o caso, porque essa é totalmente imprevisível. Não se pode prever, não aparece em lugar nenhum e pilotos e passageiros são apanhados de surpresa. Acredito que terá sido isso que aconteceu.
Os pilotos, acredito, estão treinados para esse tipo de situação. Quem está dentro do avião pode não estar completamente preparado para o que vai acontecer, mas os pilotos são treinados. Há algum plano que devam seguir, algum plano de contingência? O que é que se pode fazer neste tipo de situações?
Sim. No caso dos pilotos, em todas as circunstâncias vão amarrados. Quando estão no cockpit, têm os cintos de segurança colocados e, às vezes, até os pilotos têm cintos de cinco pontos, daqueles de ombros. Em situações desse tipo, usam todos os cintos que têm à sua disposição. Os passageiros, eu tenho falado muito nisso, sempre que estejam sentados, mesmo que não haja turbulência, recomendamos absolutamente que mantenham o cinto de segurança apertado. Por que, o que acontece? De repente, o avião encontra um tipo de turbulência dessas, aquilo a que os passageiros normalmente chamam os poços de ar. Um poço de ar é uma camada de ar aquecido a temperaturas diferentes. E isso provoca uma queda súbita. Às vezes as pessoas falam que caíram 100, 200 metros, 300 metros. Não, não é verdade. O avião caiu meio dúzia de metros, mas a aceleração é de tal forma brutal, a aceleração vertical, que pode mandar os passageiros de encontro ao teto do avião e aí partem o pescoço. Ou para o lado ou assim. Portanto, o avião sofre acelerações verticais e laterais que podem ser extremamente perigosas. Portanto, os passageiros sempre que possam, durante a viagem, sentados e com o cinto apertado. Levantam-se para ir à casa de banho, voltam, sentam-se, sempre amarrados. O lado bom a assinalar aqui é que o avião aguenta perfeitamente este tipo de situações. Portanto, o avião não sofreu qualquer espécie de danos, estão concebidos para aguentar isto e muito mais. Agora, há aqui um ponto que é também relevante. O número de casos de turbulência tem vindo a aumentar significativamente. Há um estudo da Universidade de Reading, da Inglaterra, que estudou turbulência no Atlântico Norte entre 1979 e 2020. Chegaram à conclusão que em 1979, 15% dos voos voando no Atlântico Norte apanhavam turbulência. Agora já vai nos 55%. Portanto, há um aumento.
Na maioria dos casos.
Sim. Agora começa a haver muito mais casos de turbulência. Portanto, cada vez mais se recomenda a quem viaja que mantenham sempre os cintos de segurança apertados.