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Resposta pronta aqui na Rádio Observador. Estou com o Secretário-Geral da APROLEP, Carlos Neves. Mais uma vez, muito bom dia e obrigado por esta entrevista. A APROLEP esta manhã lançou um comunicado onde pede à indústria e à distribuição para acompanhar a tendência europeia, aumentando o valor de aquisição do leite. E para termos uma noção daquilo que se está a passar, a APROLEP diz que os produtores de leite receberam em dezembro um preço médio de 45,8 cêntimos por quilograma de leite, cerca de 9 cêntimos abaixo da média comunitária. A que se deve esta descida em dezembro?

O preço do leite não desceu, até houve um aumento de 1 cêntimo. O que se passa é que Portugal não acompanhou a valorização do leite que aconteceu na Europa nos últimos seis meses, no segundo semestre de 2024. Nomeadamente a manteiga tem tido uma grande valorização, os produtos lácteos em geral. Portanto, isso não se trata apenas do leite que é vendido ao consumidor, mas também dos queijos, dos iogurtes, do leite em pó no mercado internacional. Portanto, o leite que as indústrias compram aos agricultores depois são transformados e vendidos em diversos produtos e é a partir do mix de todos os produtos que é valorizado o leite que é pago ao produtor. Nós não temos uma explicação. O que nós observamos é que de repente ficamos para trás e temos o pior preço entre os 27 Estados-membros. E temos custos elevados ao nível das rações, dos fertilizantes e temos necessidade de fazer investimentos. Nós estamos a ficar para trás, portanto, outros colegas na Europa estarão com o preço mais alto. Podem investir, podem poupar para alturas difíceis, podem modernizar-se e nós estamos a ficar para trás.

Gerimos novamente esse tema de investimento, até porque o comunicado refere que é cada vez mais difícil encontrar mão de obra qualificada e disponível para esta indústria, mas coloco a questão de se há recetividade da indústria e da distribuição acompanhar esta tendência europeia.

Nós não vimos essa recetividade no final de 2024. Esperamos que agora, ao chegar a primavera, entretanto, que neste mês, nos próximos meses, que seja feito esse esforço. Ainda não temos uma resposta e a resposta será dada, naturalmente, nos próximos meses pela atualização das tabelas. O produtor de leite é sempre o elo mais fraco da cadeia e assina contratos anuais, regra geral, e não tem muita margem de manobra nesta altura para negociar. Acaba por se sujeitar ao preço que recebe, sendo que muitas vezes a indústria é gerida pelos próprios produtores, através das cooperativas em que são sócios. E portanto, esses têm uma responsabilidade suplementar de gerir as empresas de modo a passar o máximo valor para o produtor e a dar o exemplo aos privados, que não se sentem tão obrigados, serem eles a dar o exemplo. Portanto, as indústrias, em particular as indústrias de base cooperativa, seja no continente, seja nos Açores. Nós temos uma situação de preços baixos nos Açores, que baixa a média nacional, e que depois acaba até por destabilizar o mercado. Os produtores dos Açores são penalizados e acaba depois por ser mau para todos. E temos muita importação de queijos. É importante transformar mais leite em queijo e dar preferência ao queijo português, em detrimento da importação de queijos, que muitas vezes é feita por alguns distribuidores. E com isso poderemos investir para termos leite no futuro. Para termos investimento, também é importante que o governo dê o seu contributo, tendo em conta que nós nos últimos 15 anos tivemos uma situação muito difícil, estivemos muitas vezes abaixo dos custos de produção, estivemos a adiar investimentos, a adiar pagamentos e com incerteza em relação ao futuro, é importante também que haja, no âmbito do PEPAC, da Política Agrícola Comum, dos fundos comunitários, que haja verbas para os agricultores que queiram investir. Nesta altura estão abertas candidaturas para os jovens que se querem instalar no setor, mas um agricultor, ainda que seja jovem, se já não estiver a fazer a primeira instalação, e quer fazer um investimento na sua vacaria para melhorar o bem-estar animal, para melhorar questões ambientais ou para melhorar até as condições de trabalho, nesta altura não pode candidatar-se e é importante que o governo agilize, que torne esses fundos disponíveis.

E vamos essa mesma questão, até porque o comunicado refere que, no âmbito do PEPAC, do Plano Estratégico da Política Agrícola Comum, que sejam disponibilizados apoios de investimento, que neste momento apenas estão disponíveis para os jovens agricultores. A pergunta que eu lhe faço é se neste momento este plano tem capacidade para albergar todas estas necessidades.

Nós não sabemos qual é o bolo, o orçamento do governo. O que nós temos obrigação, enquanto associação, é chamar a atenção para a necessidade de investir, porque esse investimento vai garantir trabalho no meio rural, vai garantir que os campos sejam cultivados, que não haja incêndios. Onde há animais, regra geral, há menos incêndios, porque os campos são cultivados, porque são apascentados ou porque são produzidas forragens para alimentar os animais. E o que nós esperamos é que, de facto, haja uma repartição justa das verbas disponíveis e que esteja disponível não apenas para os jovens agricultores, mas também para os jovens que se instalaram ainda há cinco ou 10 anos e que têm necessidade de ganhar dimensão ou de fazer os investimentos a que são obrigados por lei. A Europa complica-nos muitas coisas, isso é um outro aspeto também, que é preciso reduzir a regulação, desligar o complicómetro, que tem sido a política agrícola nos últimos anos, no tipo de medidas. Temos que produzir para alimentar as pessoas, para termos segurança alimentar, para sermos capazes de alimentar a nossa população. A primeira atividade da agricultura é produzir alimento para as pessoas. O leite é um alimento completo e é importante que Portugal não perca a capacidade de abastecer a indústria e de alimentar os portugueses.

Carlos Neves, mais uma vez, muito obrigado por esta entrevista. Carlos Neves, Secretário-Geral da APROLEP, Associação de Produtores de Leite de Portugal. Muito obrigado.