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Miguel, olhamos agora para os rankings das escolas. Há oito estabelecimentos de ensino especializado de música entre os melhores do ranking do nono ano. Questionamos o que a música tem e o que pode fazer bons alunos. Junta-se a esta emissão a diretora da Escola de Música do Conservatório Nacional, Liliane Kopke. Bom dia, Liliane.
Bom dia.
Qual é o segredo para o sucesso das escolas de música?
Esse ano confirmaram-se no ranking várias escolas de música. Eu acho que o segredo é mesmo a música, porque as crianças desenvolvem uma concentração muito maior, desenvolvem também as capacidades cognitivas, o raciocínio. Ao ler uma partitura, desenvolvem também o pensamento lógico, a memória e também têm que se corrigir, corrigir o próprio som, corrigir os desafios técnicos que a música apresenta, aquela partitura. Isso tudo se transporta para outros domínios também, não só o da música.
Era precisamente o que eu lhe ia perguntar. Partindo do pressuposto que aprender a tocar um instrumento é muito exigente e implica uma enorme disciplina, isso de alguma forma ajuda os alunos também noutras matérias? Dá-lhes uma maior capacidade de enfrentar o erro, por exemplo?
Sim, é uma capacidade muito grande de enfrentar outros desafios, porque eles precisam se adaptar ao tempo. Eles têm muito menos tempo do que um aluno que não está no ensino artístico especializado, porque eles têm que, além das disciplinas acadêmicas, todas as disciplinas vocacionais. E um aluno que toca um instrumento ou um cantor não pode ficar nenhum dia sem estudar. Não fica. Sabe que o estudo diário é o segredo do sucesso. E o tempo que ele tem para distribuir por todas as disciplinas é menor. Então eu acho que a criança aprende a ser organizada e a ser concentrada e quando está fazendo alguma coisa, está mesmo ali fazendo aquilo para valorizar o tempo.
E os alunos conseguem conciliar a aprendizagem de um ou mais instrumentos com outras disciplinas, como o português, a matemática e outras áreas do saber?
Sim, eles aprendem um instrumento. No conservatório, eles escolhem um instrumento e se dedicam a um instrumento só. E esses alunos que tiveram esse lugar no ranking são alunos que estudam tudo lá na escola. Tem português, a matemática, filosofia, além das disciplinas vocacionais. Eles conseguem estudar bem em todas. Embora os professores das disciplinas acadêmicas tenham que se adaptar um pouco a esse tipo de ensino, porque eles têm que aproveitar o máximo o tempo de aula e minimizar os trabalhos de casa, preparações de exercícios, porque ou o aluno estuda o instrumento ou ele faz trabalho de casa. Mas nós conseguimos esse bom ambiente dentro da escola, onde as coisas são harmoniosas e todos trabalham para o mesmo fim, porque afinal de contas é mesmo uma escola de ensino artístico especializado. Portanto, nós temos que nos adaptar a isso. Não é uma escola como as outras. A parte do ensino especializado é muito valorizada, mas nós conseguimos harmonizar todas as disciplinas e ter um bom resultado a tudo.
Liliane, e é a música que faz bons alunos ou são os bons alunos que vão estudar música?
É um pouco das duas coisas. Infelizmente, são bons alunos que vão estudar música e a música devia estar mais aberta a qualquer pessoa que quisesse estudar. Mas a verdade é que no ensino especializado, você encontra aquelas famílias que valorizam uma educação musical, que valorizam a cultura, porque nós não formamos só músicos profissionais, também formamos público. E mesmo que um aluno vá estudar música e não queira seguir isso como profissão, você ali formou um público e esse aluno também vai colocar os filhos dele para estudar música e assim por diante. Nós temos muitos alunos que já são filhos e netos de alunos. Mas são famílias que valorizam isso e que vão procurar o ensino artístico para os seus filhos, portanto, acaba sendo um pouco de cada coisa. Nós não conseguimos fazer nada se a gente não tiver o apoio realmente das famílias, porque no início, as crianças muito pequenas não têm autonomia para estudar sozinhas e nós dependemos dos pais para nos ajudarem a alcançar os objetivos nos primeiros anos.
E há muitos alunos, filhos de músicos, e que por esse motivo enveredaram por este ensino?
Sim, muitos. Quase todos os nossos professores, os filhos estudaram lá. E depois também filhos de músicos, porque quase todo mundo passou pelo conservatório. Quase todos os músicos passaram pelo conservatório em alguma fase da vida e colocam os filhos para estudarem lá.
Como é que foi ensinar música à distância durante este período de confinamento? Foi uma prova superada?
Foi uma prova muito difícil. Nós conseguimos voltar com algumas aulas presenciais, mas só os alunos mais velhos, os que fazem agora a prova de aptidão artística e profissional. E os outros continuaram com o ensino à distância, mas as plataformas são muito fraquinhas em relação ao som. O som é muito mau e nos instrumentos, imagine uma tuba. Ainda não, também acho que isso vai depender do avanço da epidemia em Lisboa. Nossa maior preocupação, as aulas de instrumento e canto foram possíveis presenciais em salas muito grandes, com uma proteção acrílica, que separava o cantor do pianista e o cantor do professor, porque eles não podem usar máscara. Ou o trompetista, a mesma coisa. Agora, o que nos preocupa mais e o que nós gostaríamos de saber é como é que vão funcionar as orquestras e os coros. Mas também isso eu sei que ninguém pode me responder no momento e nós vamos ter que aguardar, mas não há nenhuma indicação ainda em relação a isso.
Vocês têm um prazo? O conservatório necessita de um prazo, de uma resposta para arrancar com o próximo ano letivo?
Nós costumamos começar o ano letivo com o estágio da orquestra, em setembro. Por isso, eu acho que até o final de julho, é o prazo máximo que nós podemos esperar para conseguir organizar um estágio de orquestra, que envolve muita coisa, envolve muitos músicos e um espaço. E sim, acho que no final desse mês é o limite. Mas eu entendo que tudo depende do controle da epidemia. Por isso.
E sobre esse assunto ainda está tudo em aberto. Eu tenho uma última pergunta, Liliane, porque há pouco falou de alguns instrumentos que têm alguma dimensão e há muitos alunos que possivelmente não são proprietários desses instrumentos. Como é que fizeram, por exemplo, com os alunos que não têm cravo, que não têm tuba? Como é que eles estudaram ao longo destes meses de pandemia em casa?
Nós abrimos a escola com um esquema muito cansativo, que está sendo ainda, que também eu digo, nós só aguentamos até o final de julho, porque nós fizemos horários de estudo e os alunos puderam ir lá estudar no cravo da escola, na sala de percussão. Um aluno de percussão nunca tem em casa um xilofone, uma marimba, um metalofone. Não tem. Tem mesmo que estudar lá. Só que a cada aluno que sai da sala e entra, nós temos que desinfetar a sala toda, limpar os teclados dos pianos, limpar o espaço, ou seja, mesmo higienizar tudo para o próximo aluno entrar. E deixar a sala aberta, por 15 minutos. Só que é impossível isso se fosse a escola toda, porque nós não temos funcionários para de hora em hora limpar uma sala. Mas eles voltaram, esses alunos voltaram e estão estudando na escola, atualmente. Pronto, até agosto inteiro a escola também fica aberta para esses casos.
Com os constrangimentos impostos pela pandemia. Liliane Kopke, muito obrigado por ter se juntado a esta emissão na Rádio Observador. Liliane Kopke.
Muito obrigada vocês.
Diretora da Escola de Música do Conservatório Nacional.