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Vamos seguir para Ferreira do Zêzere, já no distrito de Santarém, pleno Ribatejo. Sentiu, e de que maneira, a passagem da depressão Cristine, que ficou um rastro de destruição. A eletricidade falhou, as localidades deste concelho, muitas delas ficaram isoladas. Bruno Gomes é o autarca, presidente da Câmara Municipal de Ferreira do Zêzere. Bruno, os trabalhos de limpeza ainda continuam, há também muito trabalho de reconstrução. Qual é o ponto de situação que pode fazer neste momento e se já tem alguma noção dos estragos, se já foi possível fazer essa contabilização?
Muito boa tarde. Sim, os trabalhos de limpeza continuam. Há muito trabalho a fazer. Nós temos cerca, todos os dias, de 200 operacionais, mais os técnicos do município, a fazer esse trabalho. A obstrução de vias está feita, eu diria, em 99%, e quer-se muito regressar à normalidade possível. Nesta altura, e tendo em conta as condições meteorológicas, a grande preocupação é garantir que as condições de habitabilidade e de segurança nas casas continuem a existir. E isso é extremamente difícil por várias razões. Porque não temos mão de obra suficiente, porque colocar telha e lona em telhados com uma altura considerável também é muito difícil e nós necessitamos muito de continuar a ter máquinas que permitam, com mais facilidade, acedermos aos telhados. E continuamos com 60% do Conselho sem energia e, finalmente, as comunicações começam a existir um pouco mais. Mas continuamos a ter muita dificuldade naquilo que é o contacto, o que dificulta também a celeridade e a rapidez da organização.
Do que mais precisa neste momento? Qual é a principal urgência ou aquilo que quem procura também Ferreira do Zêzere para poder ajudar, como é que pode ajudar?
A grande urgência nesta altura é mão de obra especializada. E eu também, de forma muito pragmática, preciso que as pessoas entendam que para ir colocar telhas a um telhado, para ir colocar ripas a um telhado, tem que ser alguém que tenha o mínimo de conhecimento, que garanta as condições de segurança e que tenha os EPIs necessários. Por isso precisamos de mão de obra, precisamos de telha e precisamos ainda de lonas. Isto é aquilo mais premente, porque continuamos a ter muita habitação ainda sem telha. Quanto mais equipas especializadas tivermos, mais rapidamente conseguimos garantir as condições de habitabilidade às pessoas.
Espera-se a chegada de uma nova depressão ao território continental. Ainda não se percebeu certo a dimensão que pode ter, mas espera-se já muita chuva e vento forte. Há algo mais preocupante para estas próximas horas até à chegada dessa depressão?
Nós andamos a receber avisos para quarta e quinta, para sábado e domingo. Nós não esperávamos também esta intensidade de ventos na madrugada de quarta-feira. Por isso, é dia a dia, é situação a situação. Nesta altura, é garantir que tudo aquilo que é colocado nos telhados possa ter a maior garantia de que, com o vento, que estará a sair mais, nós queremos que as intervenções possam ir sendo feitas com a qualidade mínima, no sentido de, se tivermos ventos, conseguirmos manter algumas coisas.
Sim. Bruno Gomes, olhando aqui já para uma situação de futuro, olhando um pouco mais para a frente, sabemos que a passagem da depressão Cristine deixou caminhos destruídos, problemas na rede de energia, acessos danificados. O verão está aí em breve, daqui a alguns meses. Teme que estes estragos possam também dificultar a gestão desse período do ano, principalmente aquilo que pode ser o combate a incêndios. Sabemos que Ferreira do Zêzere também tem sempre dificuldades nesse período do ano.
Muitíssimas. Eu acredito até que nem ainda se está a pensar nisso por parte da grande maioria das entidades/pessoas. Nós temos um conjunto de vias que têm qualidade, que têm betuminoso, que vão ficar com muitos estragos, como queda de taludes, dificuldades de acesso. E depois temos a questão dos caminhos vicinais, os caminhos florestais, que têm milhares e milhares de árvores caídas e que, de forma muito pragmática, não vamos ter capacidade de limpar até ao verão. Já sabemos que a nossa floresta atravessa aqui já alguma maturação naquilo que é o risco de incêndio, porque há muitos anos, ou há alguns anos, que não temos um incêndio de grande dimensão e, a juntar a isso, agora vamos ter um conjunto de manta morta, um conjunto de árvores que ficarão, até porque não trarão rendimento às pessoas e mesmo para as empresas de corte de árvores.
Em parte, essa razão para não terem também incêndios de grande dimensão é a resposta rápida que tem conseguido dar, também por muitos desses acessos, que detalha. Isso fica comprometido.
Muito comprometido, porque são centenas de quilômetros de estrada. Eu tenho um conselho com 200 km² quase, e temos a certeza absoluta que não temos capacidade para limpar todos os caminhos florestais. Vamos ter que olhar para as prioridades, para as vias de maior importância e começar a fazer esse trabalho. Agora, espero bem também que o nosso Estado possa olhar para esta questão, que é muito sensível, e que possa também dar-nos o apoio necessário, também das outras entidades, para que consigamos limpar o maior número de estradas de acesso e assim conseguirmos criar alguma resiliência naquilo que é o combate aos incêndios no próximo verão.
Ainda, para já, muito trabalho a fazer nesta reconstrução da passagem da depressão Cristine, mas também problemas que se já apresentam para o futuro. Bruno Gomes, presidente da Câmara Municipal de Ferreira do Zêzere, muito obrigado por ter estado conosco aqui na Rádio Observador.