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Esta quarta-feira, os vários candidatos à liderança às eleições do Benfica. Junta-se a este jornal Vasco Mendonça, diretor de campanha de João Noronha Lopes. Boa tarde, Vasco Mendonça, bem-vindo à Rádio Observador. João Noronha Lopes escreveu nas redes sociais que as últimas horas foram o culminar de quatro anos desastrosos e que o Benfica está agora refém de Rui Costa. Rui Costa ainda é presidente, por isso pergunto-lhe se não tem o direito a escolher o treinador da equipa.

Boa tarde, antes de mais, obrigado pelo convite. Do ponto de vista formal, sim, o Rui Costa tem legitimidade, digamos assim, pelos poderes que lhe são conferidos enquanto presidente, para escolher um treinador. Do ponto de vista daquilo que é a autoridade e a legitimidade, ou se quiser, a competência, a capacidade demonstrada para tomar decisões em prol do interesse desportivo e financeiro do Benfica, o conhecimento daquilo que é a identidade do clube, aquilo que o clube deve ser e aquilo a que deve aspirar, então não. Não tem condições para escolher o próximo treinador do Benfica, mas infelizmente é aqui que estamos. Temos mais 38 dias pela frente disto e, como uma pessoa célebre dizia, temos que fazer os possíveis para ajudar o presidente a terminar o mandato com dignidade. Acho que vai ser muito difícil, porque este presidente em questão tem feito tudo para acabar este mandato com a menor dignidade possível.

Vasco Mendonça, deixe-me perguntar-lhe se Rui Costa está a tentar acabar este mandato com a pior dignidade possível. Rui Costa já deveria ter saído pelo próprio pé, ou seja, a demissão ontem de Bruno Lage não é suficiente?

Não, a demissão do Bruno Lage ontem não é suficiente. Aliás, eu como alguém que trabalha nestas lides da comunicação, já sei mais ou menos o que a casa gasta. Portanto, aquilo que o Rui Costa fez foi mais uma fuga para frente, com um pequeno plano de comunicação preparado, no qual se pretende recentrar a conversa daqui em diante naquilo que é o treinador do Benfica e numa discussão sobre treinadores, utilizando para isso o capital que José Mourinho empresta a esta história toda do ponto de vista mediático. Só que estes truques estão à vista de todos. O problema do Benfica não está numa discussão ou na escolha do próximo treinador do clube. O problema do Benfica radica num senhor chamado Rui Manuel Serra Costa. É isto, ponto. E, portanto, qualquer tentativa de tratar os sócios do Benfica, digamos assim, em bom português, como parvos, será uma tentativa duradoura, porque os sócios do Benfica são tudo menos parvos. E não vai ser nem Rui Costa, nem vai ser José Mourinho a decidir a próxima eleição do Benfica, vão ser mesmo os benfiquistas. E posso dizer uma coisa enquanto alguém que está naturalmente muito próximo de uma campanha. Isto não é um sentimento ecoado pelo sócio do Benfica, Vasco Mendonça. Isto é um sentimento ecoado para onde quer que tu vires. Em Évora, em Reguengos, em Vendas Novas, amanhã em Castelo Branco e no Fundão, anteontem no Algarve, por onde quer que esta campanha passe, o que nós sentimos é um pulsar de descontentamento de alguém que percebeu ao longo dos últimos quatro anos que o clube foi gerido por um aprendiz de presidente e, como tal, refletiu a capacidade de um aprendiz de presidente. Ora, o Benfica tem naturalmente que se dissociar o mais rapidamente possível de um presidente que não está à altura da identidade do clube. É tão simples quanto isso. O Benfica tem que se divorciar o mais rapidamente possível de todas estas pessoas que repetidamente, nos seus atos de gestão, na forma como comunicam, nas decisões que tomam, têm diminuído o Benfica. Eu vou dizer uma coisa: o Benfica são as pessoas, são aquilo que se sente na rua, é o que eu vivo no estádio. Há um divórcio gigantesco hoje entre aquilo que é a mística vivida por um benfiquista em todas essas dimensões que eu estou a dizer, e depois aquilo que é o Benfica no espaço mediático. O Benfica no espaço mediático é uma equipa que perde para o sétimo classificado da Liga dos Arabeijão. É um clube que está repetidamente envolvido em situações que causam danos reputacionais ao clube. É um clube que tem sido repetidamente espezinhado pelos adversários, pelas instituições, pelas entidades que tutelam o futebol português e que nada faz a não ser chorar quando as taças já foram entregues.

Vasco Mendonça.

E, portanto, este divórcio tem que ser resolvido de uma vez por todas.

Deixe-me só perguntar-lhe, começamos esta entrevista a dar a notícia de que a confirmação de José Mourinho estará por horas e que o treinador português está disponível para um contrato até o final da época, com um salário mais reduzido. O que eu lhe queria perguntar é se José Mourinho até o final da época é a melhor opção para o Benfica neste momento.

Olhe, eu não vou discutir os méritos do José Mourinho, há muita gente que o irá fazer e vai me perdoar. Eu vou ter que lhe responder esta pergunta de outra forma. Não discutindo os méritos do José Mourinho e compreendendo que naturalmente tenha de ser encontrada uma solução. Nós já estamos num ponto absolutamente sem retorno. Faltam 38 dias para este pesadelo acabar, como disse João Noronha Lopes esta manhã. E a minha preocupação é não a de discutir se o José Mourinho é ou não o treinador adequado, porque essa é uma decisão que cabe a esta direção. A minha prioridade e a de muitos benfiquistas, e nomeadamente a do candidato João Noronha Lopes, é de demonstrar aos benfiquistas que o Benfica não é isto. O Benfica tem que ser muito mais do que isto. Essa é a prioridade. Eu compreendo que vocês têm que fazer o vosso trabalho, mas a maneira como o Benfica hoje ocupa o espaço mediático tiraria-lhes o essencial daquilo que devia ser o desígnio deste clube, daquilo que é a identidade deste clube, que é vencer, deixar tudo em campo, deixar tudo fora de campo para vencer. E, portanto, se a pergunta é se o José Mourinho cumpre estes requisitos, eu não estou em condições de dizer isso. Eu posso dizer, no entanto, uma coisa. Nos últimos quatro anos, o Benfica teve cinco treinadores. E em momento algum, ao longo destes quatro anos, se conseguiu ter certezas absolutas sobre a capacidade de Rui Costa para criar condições que permitam a um treinador vencer no Benfica. Rui Costa dizia ontem naquela conferência de imprensa, pela madrugada adentro, que era um treinador ganhador. Eu digo o seguinte: é muito difícil fazer de um treinador ganhador quando o presidente é estruturalmente perdedor. Isto não funciona assim. O Benfica tem uma cultura de derrota, não tem uma cultura de vitória neste momento. E qualquer pessoa que tenha estado mais próxima desse fenómeno sociológico, compreende o que eu quero dizer. E, portanto, eu, enquanto benfiquista, como os muitos milhões de benfiquistas, nós queremos que o Benfica ganhe já amanhã, já depois de amanhã. Agora, uma coisa é certa: a estrutura que hoje está montada no Benfica não cria as condições para que o treinador seja ganhador. Portanto, aquilo que Rui Costa deseja é contrariado pela própria gestão de Rui Costa. Nós vivemos neste contrassenso há quatro anos. É aflitivo, é angustiante para mim, enquanto benfiquista, e muito sinceramente, esta incompetência, em muitos momentos ao longo deste mandato, tem passado a gestão danosa. É uma história indigna do Benfica, digamos assim.