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Junta-se a nós em direto neste Jornal das 10, Sofia Ramalho, vice-presidente da Ordem dos Psicólogos Portugueses. Muito bom dia e obrigada por estar conosco em direto. O que explica estes atrasos nas consultas para saúde mental?
Uma das principais explicações tem a ver com os escassos recursos, a escassa presença de psicólogos no Serviço Nacional de Saúde, seja nos cuidados de saúde primários ou no Serviço Nacional de Saúde em geral. Nós temos, por exemplo, nos cuidados de saúde primários, cerca de 300 psicólogos e no Serviço Nacional de Saúde ao todo temos cerca de 1100 psicólogos. Isto está muito longe daquilo que são as necessidades, nem que pudéssemos subir para pelo menos o dobro, estes psicólogos seriam suficientes para poder dar resposta àquilo que são as necessidades de saúde psicológica da população. Sobretudo da população que tem menos recursos econômicos e que não pode recorrer ao privado e portanto necessita, de facto, de recorrer ao sistema público. O número de psicólogos que temos é reduzidíssimo.
É muito reduzido, apesar de ter havido, de acordo com o relatório, um aumento dos recursos humanos no SNS.
O aumento dos recursos humanos do SNS não implica especificamente o aumento de psicólogos. Nós, de facto, ainda há cerca de dois anos atrás, tínhamos cerca de 250 psicólogos nos cuidados de saúde primários e houve um aumento para cerca de 300, que foi fruto da pandemia, que integrou cerca de mais 50 psicólogos, mas 300 psicólogos nos cuidados de saúde primários para a população que nós temos e para as necessidades que nós temos, é muito reduzido.
Fica muito reduzido. E quando estamos a falar de situações que são consideradas prioritárias ou muito prioritárias e os tempos de espera ultrapassam aquilo que é o limite legal, que impacto é que isto tem para a saúde dos doentes?
Convém dizer que, de facto, o tempo de espera que é mencionado nesta informação é de cerca de três meses, três meses e meio, mas há muita gente que espera cerca de seis meses ou mais por uma primeira consulta nos cuidados de saúde primários. E a saúde mental é um problema de todos e que afeta todos nós. Não são aceitáveis estes tempos de espera. E aquilo que acontece é que aquelas pessoas que tinham já ou que já têm situações de perturbação mental, vão se agravar essas situações de perturbação mental. Aquelas pessoas que estão em situação de sofrimento psicológico e que ainda não têm uma perturbação mental instalada, têm muito mais probabilidade de desenvolver essa perturbação mental, pelo fato de não estarem a receber atempadamente a consulta, o apoio e o tratamento adequado. E depois há também aqui um conjunto de pessoas que apresentam, e todos nós apresentamos, dificuldades, períodos em que temos sofrimento psicológico na nossa vida e que necessitam de um apoio muito mais preventivo da situação de perturbação ou de problema de saúde mental, e que também não têm esse apoio e porque não o têm atempadamente, vão desenvolver então, possivelmente, um problema de saúde mental mais instalado que, noutra circunstância, de atendimento devido e atempado, não aconteceria.
Como é que se inverte este problema, Sofia Ramalho?
Eu penso que a principal forma de inverter este problema é, de facto, colocar mais psicólogos no Serviço Nacional de Saúde. É muito importante que o poder político valorize, tal como a sociedade na generalidade valoriza a saúde mental, e valorize a saúde mental como uma questão de todos e que nos afeta a todos. E portanto, se é uma questão de todos e nos afeta a todos, tão importante quanto qualquer outro problema ou dificuldade do ponto de vista da saúde física, é muito importante que, de facto, haja um investimento e uma prioridade nesse investimento de recursos humanos no Serviço Nacional de Saúde. E estes recursos humanos têm que ser mais psicólogos a poder estar disponíveis para acolher e intervir junto da população, nas mais diversas formas que apresentam a sua dificuldade, seja ela um problema de sofrimento psicológico, seja ela uma necessidade de apoio para ultrapassar situações de vida, sejam situações já mais agravadas de perturbação mental.