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É tempo de apanhar mais uma onda nesta emissão especial da Rádio Observador, na Nazaré, para falarmos de um curso universitário sobre o mar, e não só. É a nossa convidada, Assunção Cristas, foi líder do CDS e ministra da Agricultura e do Mar. Está agora a coordenar uma nova licenciatura, precisamente sobre o mar, numa parceria entre a Universidade Nova de Lisboa e a Universidade Nova do Algarve, Vanessa.

Vamos começar por perceber melhor, Assunção Cristas, bem-vinda à Rádio Observador, se já foi entregue o pedido de aprovação deste curso sobre o mar. É o primeiro com estas características a nível mundial. Estava previsto ser entregue este mês, esse pedido. Já foi entregue?

Olá, boa tarde. Muito obrigada pelo convite para estar aqui convosco neste dia tão significativo. O dossiê está em preparação, porque, entretanto, o prazo, que seria outubro, passou para novembro e temos também mais uma universidade, Évora, que, em princípio, se irá juntar e estamos a fazer os afinamentos para garantir que Évora, que tem um polo muito significativo em Sines, se pode também juntar a esta licenciatura, que será em inglês, que tem cinco faculdades da Universidade Nova de Lisboa, mais o Algarve e agora também Évora, num programa muito interdisciplinar, muito vocacionado para o mundo inteiro e por isso será em inglês, mas será em Portugal e Portugal estará a liderar nesta matéria. Estamos nos afinamentos para dar entrada na agência de acreditação e depois teremos o processo normal de conversa com a A3ES para se chegar à aprovação, assim espero, deste curso. Se tudo for bem e rápido, podemos estar a arrancar no próximo setembro. Se demorar um pouco mais tempo, será no setembro de 24, mas nós não estamos a falar de uma coisa que seja para um ano ou dois e aqui o que queremos é que saia com um desenho muito apurado e com a possibilidade depois de ir crescendo e de se ir sofisticando à medida que começamos a receber os nossos estudantes de Ocean.

Queria perguntar-lhe precisamente isso, como o curso é lecionado totalmente em inglês, está ou vai ser promovido noutros países para atrair estudantes estrangeiros?

Também. A ideia é nós podermos ter estudantes internacionais, a par com os estudantes portugueses, e teremos que ter esse tempo de promoção. Essa é uma das razões pelas quais o timing burocrático pode não ser o ideal para coincidir também com o timing da divulgação, e não só interna, e precisamos de tempo para ir às escolas, para explicar aos alunos que estão a terminar o secundário por que é que faz sentido olharem para esta licenciatura e também algum tempo para divulgar lá fora. E nós sabemos que as escolhas dos estudantes são feitas com mais antecedência e neste momento, nós ainda estamos a fechar o dossiê, até porque mudaram algumas pequenas regras da maneira como se apresentam os documentos. Portanto, tudo o que estava preparado tem que ser agora atualizado à luz dessas novas regras e com esta entrada também de Évora, para podermos depois caminhar e chegar à outra fase, que é a fase da divulgação. Mas o que é importante que as pessoas tenham presente é que será uma licenciatura que não é de Economia, não é de Gestão, não é de Ciência, não é Tecnologia, não é Biologia, não é Direito, mas que tem um pouco disso tudo. Portanto, é muito interdisciplinar, é para compreender o mar, para compreender as oportunidades que o mar traz, também as fragilidades que tem e por que precisa de ser olhado com muita atenção. Mas o que queremos é criar aqui uma geração oceânica, que ao nível do ensino superior, licenciatura, porque nós temos depois, mais pra frente, outras propostas e sabemos também que há licenciaturas muito específicas e muito boas ligadas ao mar, mas não têm esta abrangência toda em que nós juntamos todas estas componentes.

Era mesmo isso, Assunção Cristas, que lhe ia perguntar. Há outros cursos relacionados com o mar, Biologia Marítima, etc. Há outros cursos que têm essa vertente.

Há, há Ciências do Mar, também.

Ciências do Mar, exatamente. Em faculdades como a Universidade do Porto, de Lisboa, etc. No Algarve, também. Aquilo que eu lhe pergunto é-

No Algarve, em Aveiro.

Estes cursos relacionados com esta matéria têm saída profissional em Portugal?

Estes cursos têm saída e, sobretudo, nós queremos que deste curso de Ocean, que é diferente de tudo o que existe, e volto a frisar, isto é diferente pela profundíssima ligação de muitas áreas. Tipicamente, os cursos que há são mais dedicados a uma área, ou uma área e depois com alguma componente, alguma cadeira de enquadramento que venha de outras áreas. Mas este nosso curso de Ocean vai ter todas as componentes relevantes para se compreender, não obviamente a um nível muito aprofundado, porque daqui não saem nem economistas, nem juristas, nem biólogos marinhos, mas saem pessoas que têm as ferramentas para dialogar com todas as áreas de especialidade, sobretudo para compreenderem as oportunidades do mar. Onde é que estas pessoas poderão trabalhar? Em empresas da economia do mar, poderão trabalhar em instituições públicas ou do setor social, em fundações, em organizações não governamentais, em qualquer parte do mundo Em Portugal, na Europa e no mundo, mas eu gostaria que algumas destas pessoas pudessem ser actores especialmente empenhados em criar também novos negócios e novas oportunidades na área do mar. Com certeza que não sozinhos, mas com o conhecimento suficiente para se rodearem das pessoas que são necessárias para transformar uma boa ideia num bom projecto empresarial. E, portanto, certamente teremos pessoas mais vocacionadas para as políticas públicas, outras mais vocacionadas para as organizações não-governamentais, para as fundações. E há muito trabalho, sobretudo na área ambiental, a ser feito neste domínio, mas também pessoas ligadas mais para a área das empresas, mais para a área da identificação de novos negócios e de poder ajudar a criar negócio. O que nós às vezes vemos é que do lado da ciência há pessoas que sabem muito e têm inovação extraordinária para depois mobilizar e transformar em criação de riqueza em empresas. E é difícil, porque é uma informação científica que têm, mas faltam-lhes competências de conhecer o enquadramento regulatório, os básicos da legislação, das políticas públicas, do apoio a estas áreas, de toda uma outra parte de componentes que não ajudam a que as coisas rapidamente evoluam. Estes estudantes da Ocean vão ter todo esse enquadramento nacional e também internacional, o que permite identificar rapidamente como juntar as pessoas todas e dar o salto.

Sim, e temos também, Assunção Cristas, vários desafios na sustentabilidade dos oceanos, também dos nossos rios, numa altura em que a seca está em níveis bastante complicados, deste e do outro lado da fronteira. Espanha vai fechar a torneira no Tejo e no Douro, os caudais devem ficar 10% abaixo dos valores previstos na Convenção de Albufeira. Estamos aqui perante uma tensão que pode derivar num incidente diplomático entre os dois países ou, Assunção Cristas, ainda tem fé que chova e que isto se resolva por si?

Alguém, na altura da Convenção de Albufeira, alguém responsável e que tinha estado envolvido nas negociações, dizia com alguma piada que a convenção era muito boa, tirando para as alturas de seca profunda, porque aí ia ser difícil. O que eu penso que neste momento é preciso, ao nível do país, é olhar para uma estratégia integrada e de longo prazo para os temas do clima e da seca, porque nós não estamos num ano excepcional. Nós estamos, infelizmente, numa mudança climática que se vai caracterizar por um tempo cada vez mais seco e onde o tema da água tem uma importância enorme. Nós estamos a falar do mar, penso na possibilidade de utilizar o mar e a água do mar, centrais de dessalinização, hoje com a possibilidade de recorrer a uma energia limpa e barata para fazer esta transformação. Por exemplo, na Estratégia Nacional do Mar, só está prevista a duplicação daquilo que nós já temos. Ora, nós só temos uma central de dessalinização, que é em Porto Santo. Passar de uma para duas, se calhar, é pouco para as necessidades que nós temos neste momento. E, portanto, falo deste exemplo da dessalinização, porque estamos a falar do mar, poderíamos falar de outros aspetos que têm a ver com a organização da água como existe, ou até, por exemplo, de investimentos muito grandes que têm que ser feitos para evitar o desperdício de água nas redes de abastecimento de água. Estou a falar das redes mais capilares, onde nós sabemos que há perdas muito grandes, mas que são invisíveis, mas sabemos e elas são quantificadas. Aí sugeriria um plano grande de investimentos para podermos ter um aproveitamento quase total da água que captamos. E, portanto, eu acho que há muito trabalho a fazer. É um trabalho que implica empenho e implica investimento, mas também implica olhar aqui para as oportunidades que o mar oferece nessa área, onde nos pode dar água potável, onde nos pode dar energia limpa, onde nos pode dar alimento produzido de uma forma sustentável e onde, de facto, nós temos aqui muitas oportunidades para além de nos dar o lazer. Ainda ouvi há pouco o surf da Nazaré, mas também, obviamente, o peixe que nós queremos que seja pescado de uma forma sempre sustentável. Temos muitas oportunidades para aproveitar do mar.

Assunção Cristas, estamos mesmo em cima do nosso tempo, mas não se pode dizer nesta altura que o mar em que navega o governo seja propriamente de águas cristalinas. Várias polémicas em pouco mais de meio ano, a mais recente do marido da ministra Ana Abrunhosa, que recebeu fundos europeus, é uma notícia do Observador. O partido que a Assunção Cristas liderou, o CDS, até já levou este tema ao Parlamento Europeu. Esta lei dos impedimentos dos titulares de cargos públicos e políticos devia ser mudada? É caso para a ministra se demitir?

Eu tenho mantido muita reserva em relação a questões de política e de política partidária, e assim vou manter. Percebo a sua pergunta, mas eu prefiro olhar para as oportunidades que nós temos no mar e dizer que tenho pena que ainda não tenhamos, por exemplo, uma clareza em relação à extensão da plataforma continental. Penso que o governo aí poderia fazer mais, como poderia fazer mais na criação de áreas marinhas protegidas, onde estamos muito atrás da meta a que nos propusemos e que nos comprometemos, que é 30% de áreas marinhas protegidas até 2030, mas devíamos ter feito 10% até 2020. Ainda não estamos lá. Gostaria de ver a conta satélite do mar a dar dados, se não todos os anos, pelo menos de dois em dois anos. Ainda não estamos lá e, portanto, o que eu vejo é um mar de oportunidades para serem aproveitadas em benefício da economia portuguesa, em benefício das pessoas, da criação de bons empregos, com mais qualificação.

Teríamos aqui, Assunção Cristas, um mar de perguntas para lhe fazer, mas de facto, já não temos mais tempo. Muito obrigada por ter estado com a Rádio Observador nesta emissão especial. Obrigada.

Obrigada.