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Pedro Ribeiro Ferreira, Quino morreu hoje aos 88 anos. Foi um cartunista, um homem do desenho que deixou marca na história e que decerto influenciou também muitos. É o caso do Pedro, é também alguém que foi muito influenciado pelo trabalho deste autor argentino.

Sem dúvida, o Quino é a minha maior referência. Foi mesmo ele um dos grandes responsáveis de eu também ter seguido este caminho do desenho de humor. Eu lembro-me de ver os livros da Mafalda, desde sempre, e depois os outros livros todos de cartoons que ele fez a seguir. Marcou-me imenso. Eu estou mesmo triste, estou mesmo desolado. Acho que a humanidade perdeu um homem extraordinário, que graças a Deus nos deixou uma obra também extraordinária que podemos sempre rever.

Essa obra, muitos dizem que é uma obra que não se cinge apenas à Mafalda. A Mafalda, que foi uma personagem criada algures nos anos 60, foi desenhada durante mais ou menos cerca de uma década, mas acabou por deixar marca até os dias de hoje. Ainda muitos olham para os livros da Mafalda, para as tiras humorísticas, mas a vida deste autor argentino vai um bocadinho também além da Mafalda.

Vai. Eu tenho todos os livros do Quino aqui, inclusivamente um deles assinado pessoalmente por ele, que eu tive o prazer de estar com ele uma vez no Chiado, na FNAC do Chiado, que ele esteve cá a promover um dos seus livros. E ele era um homem muito simples, muito acessível. Aliás, quando cheguei lá, nem o reconheci. Eu disse: "Mas é aquele é que é o Quino?" Um tipo extraordinário, era mesmo extraordinário. E o livro da Mafalda, como disse, foi o que o lançou e talvez o que mais conheçam da obra dele. E eu fiz questão, e isto é mesmo verdade, eu fiz questão que os meus três filhos, foi o único livro que eu li de uma ponta à outra, toda a Mafalda, aos três meus filhos. Eles conhecem aquilo de frente para trás, era a única leitura obrigatória, foi: "Vocês têm que ler este livro, e o resto, pronto, os outros podem ler por vossa iniciativa". Mas o Quino, eu fiquei sem palavras. Coitado, ele já tinha 88 anos, obviamente que isto deveria de acontecer. Mas para mim foi muito influente, foi uma grande influência, foi a principal influência.

E o que é que motivava o Pedro Ribeiro Ferreira nessa busca também pelos trabalhos do Quino? O que é que o influenciou mais? Foi o desenho em si, foi a mensagem que transmitia o desenho, era a técnica, o que é que era?

É tudo. O desenho dele era muito próprio. Ele não era assim um virtuosíssimo do desenho, mas o desenho dele era único, só o Quino é que desenhava daquela maneira.

Ou seja, quem olha para estes desenhos e para essas tiras percebe logo que são dele.

Eu percebo logo. Eu conheço o Quino, eu reconheço.

Quase um membro da família.

Exatamente, como se fosse um pai. Eu sinto-me mesmo órfão. Artisticicamente, sou um órfão, é como se o meu pai tivesse morrido. Ele era o meu pai artístico. Mas acima de tudo, além do desenho, que eu gosto muito, mas principalmente as ideias dele, eu acho que isso era o seu forte mesmo. É o conjunto, as duas coisas, as ideias dele conjugadas com o desenho dele, por isso é que o Quino também foi quem foi e marcou tanta gente.

E foi um homem também capaz de representar um pouco da sociedade através de um desenho e de uma mensagem que chegava também muito às crianças e não só aos adultos.

Sim, acho que é transversal a todas. Aliás, crianças, adultos e todas as culturas. Acho que é o autor sul-americano, espanhol, com mais publicações e edições em todas as línguas e traduzidas, dos autores mais traduzidos do mundo inteiro. E o Quino é uma espécie de esperança, porque eu acho que o Quino é um homem raro, porque a maior parte das pessoas não são como ele, não têm esta grandeza. Portanto, a minha esperança é: se o Quino consegue, com a Mafalda, chegar onde chegou, é um bom sinal da humanidade. Ele era muito social, preocupava-se muito com as questões sociais e eu acho que hoje em dia há poucos Quinos neste mundo.

Foi também à boleia do regime que se vivia na Argentina, que Quino foi também furando através dessa crítica social, esse olhar para as injustiças sociais, para a pobreza. Neste momento, este é um tipo de trabalho que se vai fazendo um pouco por todo o mundo, com outros nomes que não o Quino?

Sim, eu acho que o Quino, lá está, daí a sua genialidade. Ele era muito subtil, ele dizia ali tudo, mas pelos vistos passava pela censura. A Mafalda, com aquela personagem infantil, mas estava lá tudo, todas as críticas e todas as ironias e as contrariedades daquela sociedade, estava lá tudo. E eu acho que hoje em dia há poucos Quinos. É como lhe disse, acho que é tudo um bocadinho não tão subtil, mais agressivo e talvez até com menos classe, mais guerra. Mas por isso é que o Quino foi único, pelo menos para mim. Eu não consigo arranjar ninguém tão perto dele, ou seja, que eu admire tanto como o admiro a ele.

E vai haver aí algum desenho de homenagem?

Para já, estou meio transtornado ainda, mas depois, com certeza, vou ter tempo para fazer muitos desenhos de homenagem ao Quino. Aliás, tudo o que eu faço é homenagem a ele, porque ele é mesmo uma das referências fortíssimas até no meu trabalho. Assumo a influência que ele tem no meu trabalho.