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Por cá, as corporações de bombeiros estão a reduzir a utilização das sirenes, isto por respeito aos refugiados da guerra na Ucrânia.
É o caso dos bombeiros dos concelhos da Azambuja, de Alenquer ou de Tomar. De acordo com estas associações, o toque diário da sirene pode ser associado a um ataque aéreo por parte dos refugiados que chegaram da Ucrânia. As sirenes nas corporações de bombeiros ficam assim suspensas durante 30 dias, de forma a evitar situações de tensão entre os refugiados.
Este é um problema que já foi notado por algumas famílias que acolhem os refugiados da guerra.
Em direto neste jornal está agora a vice-presidente da Ordem dos Psicólogos, Renata Benavente. Bom dia.
Bom dia.
Bom dia e obrigada por estar neste jornal. Este caso das sirenes dos bombeiros chama a atenção para a questão dos detalhes. Podemos estar, de facto, a acolher em casa pessoas que precisam de cuidados para os quais não estamos realmente sensibilizados.
Sim, essa é uma possibilidade. Nós sabemos que dimensões desta natureza, como sons, odores e determinados contextos que possam ser associáveis à experiência traumática, à vivência da guerra, podem realmente desencadear alterações emocionais e até comportamentais, que para quem não está no contexto, pode até considerar um pouco estranho, um pouco desajustado. Mas são, de facto, reações que são típicas de pessoas que viveram experiências-limite, como as experiências de guerra, e que nós conhecemos tipicamente daquilo que são, por exemplo, os efeitos de estar no contexto de guerra nos ex-combatentes. É um fenómeno muito comum. Que ouvem, por exemplo, ruídos de foguetes a disparar ou fogo de artifício e esta ativação é desencadeada porque recupera memórias traumáticas da experiência de cenários de guerra e, portanto, com os refugiados que estão realmente a passar por uma situação similar, pode realmente acontecer isso.
Temos que estar preparados para isso e não necessariamente só com as crianças.
Sim, isto pode acontecer também com os adultos. Aliás, estas experiências estão reportadas também com pessoas adultas, porque o que é que vai acontecer? Há aqui aspetos emocionais que são despoletados por estas situações. Por exemplo, vocês relatam aqui as sirenes dos bombeiros, que, de uma forma muito imediata e até não elaborada, é automaticamente associada àquela vivência que estas pessoas tiveram recentemente de sirenes a tocar, sinal de bombardeamento, risco de vida, perigo para a integridade física e para a saúde. Portanto, isto é um processo muito automático que acontece com crianças e com adultos.
Como é que as famílias, por exemplo, e a comunidade que está a receber estes refugiados pode ajudar nesse sentido? Porque estamos a falar de facto, de fatores que não são óbvios à partida, são muito subjetivos, como é suposto, como é que se pode ajudar nesse sentido? É conversar com essas pessoas e perceber que tipo de estímulos é que podem ser assustadores?
Sim, isso pode ser uma boa estratégia, conversar, apoiar, estar atento aos sinais. Muitas vezes a própria pessoa não tem a percepção do impacto que estímulos externos desta natureza podem ter. Às vezes não conseguem até associar de uma forma elaborada e pensada os impactos destas situações. E só quando elas ocorrem é que se percebe que aquilo é um fator desencadeador. E nós falamos de estímulos auditivos, mas podemos pensar noutros estímulos, estímulos visuais, outro tipo de estímulos mais sensoriais, que podem desencadear e que à partida o próprio pode não reconhecer como um fator desencadeador de estresse ou de dificuldades. E portanto, estar atentos e permitir realmente às pessoas que possam falar sobre isso e, na medida do possível, minimizar a exposição a este tipo de estimulação, que é realmente negativa e pode espoletar aqui memórias muito traumáticas. Nós sabemos que muitas destas pessoas provavelmente vão adaptar-se à situação e vão ultrapassar estas experiências negativas que viveram. Outras, porém, vão necessitar realmente de algum tipo de intervenção. O que nós sabemos, e a investigação também nos demonstra isso, é que uma atuação preventiva em pessoas que evidenciam já dificuldades é recomendada para evitar exatamente que se consolidem quadros já psicopatológicos. E portanto, apoiar desde já estas pessoas, dando-lhes aqui ferramentas que lhes permitam gerir estas emoções e estas experiências de uma forma o mais adaptativa possível.
A Ordem dos Psicólogos está de alguma forma destacada para ajudar a acudir a estas situações?
A Ordem dos Psicólogos Portugueses está neste momento a dar formação a colegas ucranianos. Portanto, nós numa colaboração com a Associação Nacional de Psicólogos Ucranianos, estamos, de facto, já a trabalhar com os nossos colegas no sentido de dar formação para a intervenção em situações de crise e portanto, dar aqui algumas ferramentas também para os psicólogos ucranianos poderem atuar no sentido de prestar aquilo que nós chamamos os primeiros socorros psicológicos. Isto no contexto ucraniano. E depois temos também trabalhado naquilo que são linhas de orientação para a atuação com os refugiados. Portanto, recomendações sobre como intervir com a população refugiada, que podem também ser materiais importantes para todas as pessoas que vão apoiar estes refugiados de guerra que estamos a receber, que já estarão na ordem dos 12 mil. Provavelmente receberemos mais. Há aqui um número muito significativo de pessoas que vão realmente precisar de apoio, de enquadramento. Há aqui experiências que têm a ver com a adaptação a um país, a uma língua, a uma dinâmica, a uma cultura muito distinta, que podem e devem ser trabalhadas desde logo. E quanto mais rapidamente estas pessoas forem apoiadas, mais facilitado estará o seu processo de integração no nosso país.