Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

O que se espera, desde já, num primeiro ponto para a economia mundial com o tipo de abordagem que Trump está a ter e também em Portugal, as empresas portuguesas, como é que vão ser afetadas e como é que podem reagir a uma situação destas?

De facto, aquilo que tem parecido é que as taxas alfandegárias parecem claramente ser o alfa e o ômega da política comercial de Donald Trump. Parecem ser o princípio e o fim. É claramente a ameaça favorita de Donald Trump para obter, sobretudo, cedências diplomáticas e económicas. Parece-me que o que é importante é que a União Europeia e Portugal consigam, sobretudo, preparar-se para uma posição negocial. Ou seja, não creio que a administração Trump não perceba que esta guerra comercial não é boa para nenhuma das partes. Naturalmente, não é boa para quem exporta, mas também não é boa para quem importa e, nesse caso, para os Estados Unidos, porque naturalmente, num primeiro momento, haverá esta tentação de aumentar a receita tributária, mas depois, num segundo momento, o que haverá é um efeito desejado de uma inflação generalizada, uma subida generalizada dos preços. E se houver resposta da União Europeia e depois contra-resposta, entramos numa escalada que não é sustentável, porque se tudo se resolvesse com o aumento das tarifas alfandegárias, naturalmente todos os países as colocariam nos máximos. Aquilo que nós sabemos é que os países hoje estão muito dependentes, são economias abertas, estão muito dependentes uns dos outros e, por isso, não é fácil não ter consequências e não me parece que seja uma situação que a administração Trump também possa manter. Agora, há aqui naturalmente uma posição de força para um posicionamento negocial. Creio que nós, em Portugal e na Europa, temos naturalmente variáveis que podemos controlar e variáveis que não podemos controlar. As que não podemos controlar é esta atitude um pouco de força que os Estados Unidos tendem a ter. As que conseguimos controlar é naturalmente termos em conta que temos um mercado forte na Europa e temos a alternativa da exportação, porque naturalmente não estou a minimizar a importância do mercado americano, mas também não queria dar a ideia, porque não é verdade, que o mercado americano é a localização total, ou seja, que estamos totalmente dependentes do mercado americano para as nossas exportações.

Defende que a Europa tem de virar-se para novos parceiros?

A Europa precisa de encontrar novos parceiros, sobretudo parceiros que tenham esta perspetiva de não negociar em força, mas ter ética negocial, porque isto que acontece é, sobretudo, esta posição de força. Muitas vezes não é por razões económicas, é para posições de força noutros domínios. Veja-se o que aconteceu em relação a sanções, ameaças sobre determinados bens, ainda recentemente da Rússia, o caso concreto do petróleo, isto apenas em tráfego, naturalmente. Mas quero eu dizer com uma justificação diferente, não por uma razão comercial, mas relacionado com o conflito, com a guerra, com a invasão da Rússia à Ucrânia. Portanto, o que eu quero dizer é que esta tática da administração Trump é uma tática um bocadinho errática e por isso não podemos desfocar. O que está aqui em causa é, de facto, a economia e por isso, se há tarifas alfandegárias sobre a Europa, a Europa precisa de encontrar outros destinos, sobretudo que sejam eticamente mais fiáveis do que aquilo que está a suceder neste início de mandato do senhor Donald Trump.

No entanto, considera que a influência que a economia norte-americana e que as relações comerciais entre a Europa e os Estados Unidos podem realmente ser substituídos por novos parceiros e, de certa forma, a Europa não ficar a perder com isso?

Os Estados Unidos não são o destino exclusivo das exportações europeias. Naturalmente são importantes, são muito importantes, mas não podemos ter toda a nossa dependência de internacionalização, em termos da economia europeia, dos Estados Unidos. É importante termos outros mercados, outros parceiros e cada vez mais o mundo nesta globalização, porque continua a ser uma globalização. A globalização não terminou por esta política mais protecionista dos Estados Unidos. A globalização continua a ser uma realidade muito concreta e nesta globalização, o princípio é sempre encontrar as melhores parcerias que permitam, sobretudo, uma interdependência, ou seja, não haver um parceiro que possa, de forma unilateral, definir as regras do jogo. Quanto maior dependência houver entre os vários parceiros, menos propensão haverá para que um único parceiro defina as regras. É preciso realmente essa interdependência. O que é necessário é nós, e aqui concretamente falando na Europa, não termos este violento despertar. Um violento despertar foi quando nos demos conta que, afinal, estávamos a levar a globalização muito além daquilo que seria sensato. Ou seja, estávamos completamente dependentes das fontes energéticas, completamente diferentes das fábricas que tínhamos entretanto escolhido montar do outro lado do mundo, concretamente na China, e estávamos dependentes de tecnologia, porque a tecnologia compramos sobretudo aos Estados Unidos. Ou seja, a Europa tornou-se dependente de um conjunto de blocos econômicos e naturalmente estamos agora a pagar esse preço, porque de repente tivemos este violento despertar que foi darmos conta da nossa dependência. Isso está bem presente nos relatórios de Mário Draghi, nos relatórios de Enrico Letta e, portanto, precisamos de agir.

Uma última questão que eu gostaria de colocar é se se lembra de ver algum executivo a ter medidas tão protecionistas como esta e quais é que foram os resultados deste tipo de política.

Eu creio que estamos a assistir no mundo este fenómeno. Naturalmente que o protecionismo sempre esteve presente, já mesmo no tempo da administração Biden, o protecionismo foi uma realidade. Todos nos recordamos daquilo que foi o IRA, que foi aquela política de tornar mais apetecível o investimento das empresas nos Estados Unidos, evitar as importações, ou seja, substituir as importações por produção local. Portanto, isso sempre esteve presente. Aquilo que é agora uma particularidade da administração Trump é que utiliza as tarifas alfandegárias também para posições de negociação geoestratégica, ou seja, não está apenas em causa uma relação de correção do déficit comercial, até porque este déficit comercial, se nós tivermos em conta a balança de transações das mercadorias e a balança de transações do serviço, elas quase que se equiparam, porque é verdade que na parte de mercadorias a Europa exporta mais, mas na parte dos serviços são os Estados Unidos que exportam mais para a Europa. Portanto, se fosse apenas para equilibrar uma balança comercial, não era necessário todo este cenário que está em perspectiva. Aquilo que se verifica é esta particularidade de a administração Trump tentar, por via das tarifas alfandegárias, conseguir posições de força negociais em relação a um conjunto de outras variáveis geoestratégicas na área da defesa, na área do domínio de outros assuntos.