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Miguel de Baumgartner, especialista em relações internacionais. Muito obrigada por estar conosco.

Olá, bom dia.

Até começava já por estas reações que acabei de elencar, porque são todas elas a condenar a violência. Não sei se estava aqui a ouvir a Helena Ferro Gouvéia há pouco, mas de facto estamos a viver num período tão extremado que é preciso recentrarmos de novo toda a população para os valores essenciais.

Sim, muito bom dia, bom dia também a quem nos ouve. Sim, efetivamente, obviamente que a violência nunca é solução para absolutamente nada, muito menos para aquilo que são a política e a participação cívica das pessoas na política. Também não deixa de ser um facto histórico de que estas tentativas de violência contra os presidentes norte-americanos são recorrentes e já tivemos presidente americano que foi assassinado, já tivemos candidatos também à presidência americana que foram assassinados e portanto esta violência sobre o presidente dos Estados Unidos é algo que existe e que nós sabemos depois, às vezes até mais tarde, ou em biografias ou em documentários acerca da presidência, que acabamos por saber de uma quantidade de tentativas de violência. Eu não chamaria a esta uma tentativa de assassinato, porque efetivamente aconteceu na sala ao lado, aconteceu longe e portanto há aqui toda-

Donald Trump nem se apercebeu dos primeiros disparos.

Exato. Aliás, se nós formos ver aquilo que a própria imprensa internacional diz, toda a gente fala sobre tiros no jantar dos jornalistas correspondentes em Washington. Mas seja como for, podemos lhe chamar tentativa de assassinato ou de violência. Isto é uma coisa que é recorrente. Agora é super importante aquilo que a Helena falou, o extremismo que está na política, nomeadamente na política internacional, e é isso que os líderes há pouco condenaram, inclusive Sanchez, que é tão crítico da posição dos Estados Unidos e de Donald Trump. Efetivamente, não se pode aceitar qualquer tentativa de violência ou tentativa de assassinato, ou a utilização da violência como forma de reprovar aquilo que são as políticas de um presidente, de um primeiro-ministro que esteja em funções. Agora, também é verdade, e isto obviamente que depois tudo provoca uma consequência, também é verdade que estamos a viver um momento em que o presidente americano usa também uma certa violência verbal, digamos assim, e também política, de alguma forma, em que a política americana também foi radicalizada pela posição de Donald Trump. Obviamente que isto não justifica depois a violência.

Mas acaba por ter impacto depois na sociedade e nesta polarização.

Mas veja-se, por exemplo, a tentativa de assassinato de Jair Bolsonaro também, quando foi esfaqueado em pleno comício em São Paulo. Isto também é, porque estas figuras representam e têm uma posição que é interessante, que é: estas figuras, ao mesmo tempo que têm pessoas que são indefectíveis, que são quase obcecadas por estas figuras de uma forma positiva. Porque veem neles não só líder político, mas quase um messias, alguém que lhes inspira toda uma forma de estar na vida, também atrai, por outro lado, pessoas que os odeiam e que de alguma forma veem nestas pessoas uma linha política, uma posição política que os leva a cometer atos de extremismo. Depois há coisas interessantes. Só fazer aqui um apontamento histórico. A 30 de março de 81, Ronald Reagan sofre uma tentativa de assassinato em Washington, curiosamente, à saída de um hotel. O atacante era uma pessoa que tinha problemas mentais, o John Hinckley, se não estou enganado. E na altura, a coisa mais interessante é que, aparentemente, a tentativa de assassinato até não era contra Ronald Reagan. Ele era obcecado, e o motivo do ataque até foi uma obsessão que ele tinha pela atriz Jodie Foster, mas que depois passou para a figura de Ronald Reagan por ser a figura do presidente, por ser a figura cimera. Portanto, nós não sabemos ainda muito bem. Sabemos sobre a identidade deste suspeito, que ele tem 31 anos, é da Califórnia, supostamente era professor. Inclusive teria ganho um prêmio há pouco tempo de melhor professor. Portanto, não havia nada que apontasse para esse tipo de coisa. Mas isto também é aquilo que são os chamados lobos solitários, que o Hugo estava a falar há pouco. Agora, existe esta radicalização do discurso e da posição política do nós contra eles. Nós estamos a falar de Donald Trump, que incentivou, de alguma forma, a invasão do Capitólio, que também foi, por si só, um ato de violência. Nós estamos a falar de um presidente que há poucas semanas atrás disse sobre um país, que ia destruir esse país, fazendo voltar esse país à Idade da Pedra. Obviamente que este tipo de situações, quando nós estamos a viver uma situação política nos Estados UnidosDe aumento do preço dos combustíveis, aumento do custo de vida, a inflação a subir.

Toda uma incerteza em relação ao caminho que vai seguir a guerra também, não é? E aliás, muitas coisas que estão em jogo aí são da guerra.

Exatamente. A incerteza sobre isto tudo relativamente à guerra no Irão. A incerteza desta situação. Alguém que disse que vinha para este seu segundo mandato na Casa Branca, que vinha para acabar com estas guerras em que os Estados Unidos participava. Alguém que tem tomado todas estas posições e que depois de um momento para o outro se vê preso nesta guerra. Isto obviamente que acaba por acontecer de termos problemas de pessoas que depois veem no presidente americano, veem naquele político, nós também já tivemos tentativas de assassinato, por exemplo, também em países na Europa. Nós também já tivemos primeiros-ministros que foram assassinados e presidentes também assassinados na Europa no princípio do século passado. E nós sabemos perfeitamente o que levou e o que é que leva a esta radicalização. Nós, por exemplo, lembramos o que aconteceu nos anos 80 com a Margaret Thatcher em relação ao IRA, quando ela decidiu destruir o IRA e decidiu efetivamente empurrar o IRA contra as paredes ou contra as cordas, e acabar com o movimento, e que nessa altura ela também sofreu uma tentativa de assassinato. Portanto, o extremismo político, o extremismo do discurso político, da posição do nós contra eles, que eu dou sempre o exemplo neste momento, até porque nós o conhecemos bem, que é a questão do Brasil, e muitas vezes as posições que são adotadas nos Estados Unidos fazem-nos lembrar também a posição adotada. Mas veja-se, por exemplo, também a radicalização do discurso que acontece em Portugal, por exemplo, com o CHEGA. E obviamente que nós poderemos ver e poderemos assistir numa situação de que este extremismo político, que também ele tem em si uma certa violência, são violência de palavras, é certo, mas tem uma violência, muitas vezes identificando comunidades e nacionalidades, pode efetivamente levar a que depois haja uma reação de violência, neste caso armada, contra o político A, B ou C. Portanto, este extremismo todo não nasce do nada. Obviamente que estas tentativas de violência ou de assassinato, se nós quisermos chamar, muitas vezes são cometidas por pessoas com problemas sérios, ainda mais num país em que o acesso às armas é extremamente facilitado.

E Donald Trump não fez nada para que deixasse de ser tão facilitado.

Não fez e aparentemente não quer fazer. Até porque é assim, a linha que o apoia, a linha MAGA, a linha conservadora, é a favor do porte de arma e, portanto, será muito difícil nós termos um presidente ultraconservador como Donald Trump, apoiado por uma linha ultraconservadora, a falar numa possível alteração daquilo que é uma das emendas da Constituição norte-americana, o cancelamento ou pelo menos a criação de uma nova forma de como é que o americano poderia ter acesso a armas. Isso parece-me praticamente impossível que aconteça, nomeadamente quando estes tipos de atos acontecem, que por si só também exortam a própria violência contra o líder que este grupo quer defender. Portanto, isto acaba depois por ser um círculo vicioso, mas um círculo preocupante. Agora, o resultado da violência política de Donald Trump já levou a que ele tivesse três tentativas de assassinato, sendo que uma vez acabou por ser alvejado por um tiro na orelha, porque ele provoca efetivamente uma reação extrema ou extremada por parte de várias pessoas, também pela sua própria capacidade de extremar aquilo que é o discurso político