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Na Rádio Observador recebemos em direto Nuno Gouveia, especialista em política norte-americana. Nuno Gouveia, obrigado pela disponibilidade. Estamos a assistir à nova administração da Casa Branca a dizer ao que vem no contexto internacional?

Muito bom dia. Sim, esta posição de Donald Trump é um pouco surpreendente, visto que esta ideia obviamente já tinha sido aflorada pelos responsáveis israelitas, mas nunca tínhamos visto nenhum responsável americano defendê-la em público. E aqui hoje tivemos o presidente dos Estados Unidos a defender que esta seria a solução para o conflito em Gaza, mas parece-me que dificilmente veremos isto a ser concretizado no terreno. Em primeiro lugar, pela grande oposição dos países em que ele sugere receber os refugiados palestinianos, pois no passado, tanto o rei da Jordânia como o presidente do Egito já declararam que esta solução seria inaceitável para os seus países.

Isto é já a primeira grande diferença entre a administração Trump para a administração Biden?

Sim, claramente, tivemos aqui Trump muito mais alinhado com Israel do que acontecia no caso de Joe Biden. E esta proposta de Donald Trump claramente deve ser muito bem vista em Tel Aviv, pois esta solução, obviamente, era a melhor para os interesses israelitas, mas não me parece que seja concretizável neste momento.

E por que motivo é que não lhe parece que seja concretizável? E já agora, onde é que ficou o Hamas vendo este tipo de situações?

Precisamente, por exemplo, o presidente Sisi disse nos últimos tempos que a questão de receber refugiados palestinianos seria uma questão de segurança nacional para o próprio país. E o que nós temos visto ao longo destes últimos anos é que nenhum país vizinho recebeu sequer refugiados de Gaza. E pensarmos que Donald Trump convencería o Egito e a Jordânia, apesar de serem dois aliados dos Estados Unidos na região, a receber em massa migrantes de Gaza, é muito complicado até para os próprios interesses destes países e também para a situação interna destes países. Esta é uma questão muito complicada para a Jordânia e para o Egito. São países vizinhos, eles próprios e, por exemplo, na Jordânia existem comunidades de refugiados palestinianos há décadas e que constituem também um problema para o país, obviamente. E portanto, eu agora não estou a ver como é que Donald Trump os conseguiria convencer a receber em massa refugiados palestinianos. E por outro lado, e como bem disse, o Hamas também nunca iria aceitar esta situação para um plano de paz.

Nuno Gouveia, para terminar, uma questão. Esta é a ação de Donald Trump num dos conflitos ativos no mundo. Por exemplo, podemos esperar este tipo de iniciativa também no conflito entre a Ucrânia e a Rússia? Uma ação deste género.

Quando nós estamos a perceber as declarações de Donald Trump, por exemplo, em relação ao conflito da Ucrânia, parece que ele está surpreendido ou pelo menos está surpreso por Vladimir Putin não ter aceito as suas propostas de mediação até ao momento, pois ele sempre simplificou demasiado a questão da guerra da Ucrânia e tinha prometido acabá-la em 24 horas. Obviamente, isso não sucedeu e agora possivelmente irá apresentar outras propostas mais disruptivas para tentar terminar o conflito. Mas nós sabemos que nem sempre estes conflitos podem ser encarados de uma forma tão simplista como às vezes aparentemente Donald Trump os encara. Mas é de prever que no futuro tenhamos propostas deste gênero mais fora da caixa por parte de Donald Trump.