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Manuela Pacheco é presidente da Associação de Farmácias de Portugal. A Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição defende que os autotestes da Covid-19 devem estar à venda em todos os mercados e hipermercados. Eu perguntava se concordava com esta afirmação, se de facto pode ser assim tão facultado.

Redondamente não. Aliás, eu acho que já tive a oportunidade de dar a minha opinião em relação à venda nos Wels e nos espaços de saúde. E sinceramente, eu acho que embora o autoteste seja um dispositivo médico, eu continuo a achar que são determinados produtos que vão nos dar conhecimento suficientemente importante para poderem ser analisados e feitos em espaço onde não existe um profissional de saúde dedicado e devidamente credenciado, que é o que acontece nos grandes superfícies ou nas Wels. E como tal, não posso nunca estar de acordo com o alargamento dessa venda desses autotestes aos supermercados, na generalidade, onde o utente a um acesso de braço esticado, consegue lá obter o número de testes que necessitar. A minha questão baseia-se no seguinte: para que foi criada a figura do autoteste? Para que o autoteste foi criado? Foi criado para haver uma acessibilidade maior, mas também para sabermos os resultados, mas interessam-nos resultados fidedignos, resultados reais, válidos. Não é resultados falsos. Eu pergunto: um leigo no assunto, um comum dos cidadãos que não tem nada a ver com a área da saúde, será que está devidamente informado para agarrar num testezinho e saber o que é que tem que fazer, quais os passos a tomar, quais as devidas providências que terá que ter, ou seja, fazer o teste devidamente para que o resultado que vai obter seja um resultado real e seguro? Não tem. Eu garanto-lhe que não tem e vou lhe dizer porquê. Vou justificar a minha afirmação. É o seguinte: é que ao dia de hoje, onde eles estão vendidos nos nossos espaços, farmácias e nos espaços de saúde, ainda assim, nós temos utentes que preferem vir fazer na farmácia, mesmo não sendo um autoteste, porque sentem-se inseguros naquilo que vão fazer. Repare, eles têm algum receio de não fazerem devidamente e daquilo que vão obter não corresponda à realidade. Agora eu pergunto se isso é com os autotestes, onde nós normalmente, sim sempre, que dispensamos, fazemos o ensinamento, mostramos, temos um documentozinho próprio, preparado, dizemos todos os passos que tem que passar, como é que tem que fazer, os tempos de espera, tudo. E eles ainda assim têm algum receio e pedem-nos: "Não me pode fazer o autoteste?" Nós não podemos fazer, mas podemos fazer os testes profissionais, que isso efetivamente temos na farmácia e muitos preferem. Agora, como é que eu lhe posso dizer que estou perfeitamente de acordo em alargar a todas as superfícies? Não estou. E já justifiquei o motivo pelo qual eu não estou de acordo e acho que isso devia ser revisto rapidamente e as entidades reguladoras deviam pensar bem naquilo que estamos a fazer, porque isto é um bocadinho brincar com a saúde. Deixar este tipo de testes à mão de qualquer um, é brincar um bocadinho com a saúde de todos nós. É isso que eu quero dizer. É aí nesse ponto que eu quero bater: na incapacidade, naturalmente justificável, da maioria dos cidadãos, não conseguir fazer esse teste sozinho ou pelo menos não estar devidamente preparado. Claro que se nós fizermos o ensinamento, se nós explicarmos, alguns poderão fazê-lo. Agora, de outro modo, agarrar naquilo e levar para casa, sinceramente, não concordo de maneira nenhuma. Acho que estamos aqui a transformar um problema, que no fundo é sanitário, que tem a ver com a saúde e que estamos a agarrar uma oportunidade, mais uma vez, de caráter económico. Muito mal.

Ou seja, mesmo nas parafarmácias, não lhe parece seguro que sejam vendidos nesses locais?

Repare uma coisa, aquilo que eu estou aqui a dar o foco ou aquilo que eu estou a sublinhar, é sem dúvida, haver o ensinamento da população daquilo que vai fazer. Se houver um pessoal devidamente habilitado para o fazer, e nós sabemos que os espaços de saúde têm farmacêuticos, não terão todos, porque nós sabemos o que é que a lei diz. Mas se nós tivermos aí um farmacêutico habilitado para o fazer, não vejo porque não. Agora, o facto é que nós sabemos que isso não é verdade, que não existe um farmacêutico nos espaços de saúde, eventualmente. Agora, nas farmácias existe. É nesse ponto que eu estou a bater. Não tem a ver propriamente nada contra esses espaços. Agora, sim, contra a competência e a formação das pessoas que estão ao serviço dos portugueses. É só aí que eu estou a bater, mais nada. É nesse ponto que eu acho que se deve formular e basear a nossa resposta a essa questão.

Há pouco dizia que mesmo assim há utentes que vão às farmácias e que preferem que vir a ajuda.

Preferem fazer os... Sim, sem dúvida.

Mas considera que, por exemplo, facultar isto nos hipermercados vai muitas vezes levar a que as pessoas vão comprar o teste ao invés de recorrerem à farmácia ou hospital?

Claro que sim. Se eu for ao supermercado comprar leite e ovos e vir lá um autoteste, digo: "Olha, vou levá-lo, fazer em casa, depois logo se vê." Luego logo se vê, pode correr bem, mas pode correr mal. E é aí que eu bato. É que eu continuo a dizer: os medicamentos, este tipo de produtos, que são dispositivos médicos com um fim muito específico, não são meras batatas ou meras maçãs e bananas. São produtos muito próprios e com um fim muito restrito a atingir. Neste caso, é sempre com base na saúde, é sempre com foco na saúde. Nós não podemos banalizar isto. Se queremos efetivamente fazer tudo com honestidade e retidão.