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Gabinete de Guerra, segunda edição do dia, desta feita com o historiador Bruno Cardoso Reis e numa altura em que ainda não estão contados todos os votos das legislativas israelitas desta semana. Bruno Cardoso Reis, boa tarde, bem-vindo. À luz dos resultados até agora conhecidos, já se consegue vislumbrar alguma solução de governo?
Olá, Miguel. Olá a todos. Há três hipóteses, vamos dizer assim. Uma é um desfazer dessas coligações. A coligação anti-Netanyahu da oposição, que inclui alguns partidos de uma direita mais secular, como por exemplo, do Naftali Bennett, que no passado já colaboraram com o Netanyahu. Portanto, seria ir buscar alguns elementos. Ainda assim, é difícil ver como é que, seja por essa via, seja pela via da oposição entrar em diálogo com os partidos árabes. Ou seja, é muito difícil perceber como é que pode haver algum cenário que resulte sem que haja algum diálogo com os partidos árabes, que realmente são indispensáveis pra haver a tal maioria de 61 ou mais no Parlamento israelita. E, portanto, a questão é perceber se esse cenário de algum tipo de diálogo com os partidos árabes, que à partida também não parece que seria possível incluí-los propriamente no governo, mas um acordo pra apoio no Parlamento com algumas concessões que tivessem a ver com as principais preocupações deles, de investimento e segurança nas zonas árabes no interior de Israel, onde vivem os cidadãos árabes israelitas, e eventualmente alguma coisa em relação à Palestina, mas isso é sempre muito mais complicado, mal aos palestinianos, mas não se vê realmente como é que qualquer dos lados conseguiria fazer isso sem falar com os partidos árabes. À partida, os sinais vindos de Netanyahu são de que isso seria proibido. Ele utilizou esse termo, que é uma coisa absolutamente bizarra, porque afinal, se não há apartheid em Israel, e realmente é verdade que os cidadãos árabes de Israel têm, à partida, plenos direitos e inclusive o direito de votar. Como é que se justifica, à partida, uma espécie de anulação depois, de fato, desses direitos políticos? É verdade que não é caso único na Europa, nós temos essas discussões todas sobre os cordões sanitários. Mas à partida, excluir partidos com base na identidade dos seus votantes, isso já torna a coisa muito mais complicada. Eu diria que nada é impossível com o Netanyahu. E tivemos indicações do líder do partido árabe até mais conservador, o Ra'am, que muitas vezes é considerado islamista, mas que não mostra um grande interesse pela questão palestiniana, está muito mais focado nos próprios interesses dos árabes israelitas. O líder desse partido veio dizer que tinha sido contactado pela direita israelita, vamos ver se isso se confirma. Eventualmente, o terceiro cenário seria as eleições antecipadas, ou seja, ao fim de umas semanas não haver realmente a possibilidade de formar um governo e haver eleições antecipadas. A ideia aqui de um governo de união nacional é uma espécie de variante desta ideia de descolar pelo menos alguns partidos da coligação da oposição ou da coligação Netanyahu, mas tendo em conta os resultados, tendo em conta o fato de Netanyahu ter perdido muitos votos, mas ainda assim ter sido o líder do partido mais votado, isso acho que lhe dá alguma vantagem em termos de margem de manobra política.
Destas eleições e das últimas horas sobressai também a acusação feita pelo Likud, o partido precisamente de Benjamin Netanyahu, a acusação feita ao Qatar e à Turquia de terem interferido neste ato eleitoral com o financiamento de partidos.
O Qatar já respondeu e veio dizer que o Qatar é aqui uma espécie de bode expiatório, de desculpa de mau pagador por parte de certos setores da política israelita. Não sei se há dinheiro do Qatar envolvido ou não, aparentemente o Qatar nega isso. A mim parece-me que sobram razões que ajudam a explicar esta extraordinária mobilização dos árabes israelitas, que historicamente votavam muito pouco. Simplesmente o que aconteceu foi que houve uma mobilização enorme também dos árabes israelitas, à parte dos israelitas judeus, que terá chegado à volta de 80% de participação na eleição. Isso é muito acima, é praticamente o dobro do que é habitual e isso traduziu-se em muito mais peso político para os árabes israelitas, e isso tem a ver com problemas de falta de investimento nessas zonas, falta de segurança também, e eventualmente também preocupação com o que um governo Netanyahu novamente aliado à extrema direita israelita poderia significar também em termos do futuro dos palestinianos, com os quais obviamente os árabes israelitas têm uma natural afinidade. Portanto, acho que isso por si explicaria esta maior mobilização. Não vejo que a questão do dinheiro por si só explicasse isso. Acho que é ter uma visão muito primária da política, que é possível simplesmente comprar votos. Acho que isso não é muito credível. Em todo caso, seja porque razão for, desde logo a questão também a colocar é por que o governo Netanyahu, se há aí alguma ilegalidade ou algum problema, não impediu isso. Só agora depois das eleições passado um dia ou dois é que se deu conta disso. Se é legal também, não vejo qual é mais uma vez o problema.
De hoje também o telefonema entre Donald Trump e Recep Erdogan. Discutiram o Estreito de Hormuz e o Iêmen numa conversa telefônica. Sabe o que resultou desta conversa entre os dois chefes de Estado?
Acho que é um sinal da proximidade entre Erdogan e Trump, que é um pouco paradoxal, que Erdogan não é alguém naturalmente alinhado com os Estados Unidos, mas há aqui esta afinidade Donald Trump por líderes mais iliberais, com este perfil de homem forte, que é o caso de Erdogan, que tem acentuada a repressão da oposição na Turquia. Trump não esconde realmente essa simpatia por Erdogan. Mesmo na cimeira da NATO há uns meses atrás na Turquia, foi dos poucos líderes da NATO que ele elogiou. Obviamente, a Turquia tem aqui um papel chave, ou seja, tem fronteiras com o Irão, portanto é um Estado com uma posição geoestratégica muito importante na zona mais a norte do Médio Oriente. Entretanto, assinou também um acordo com a defesa mútua, aquele pacto Meca com a Arábia Saudita, portanto isso dá-lhe aqui um papel acrescido na questão dos houthis e desta escalada do conflito entre a Arábia Saudita e os houthis no Iémen. A mim parece-me que é um sinal também, e temos outros, de que realmente os Estados Unidos estão a procurar mobilizar também os aliados para os ajudar a resolver este enorme imbróglio que se criou na região com o conflito no Irão, com efeitos de contágio e desestabilização noutras zonas. A mais importante é exatamente esta dos houthis. Essa é uma possibilidade. A outra possibilidade é que Trump esteja a avisar a Turquia de que vai haver novamente uma escalada militar e portanto também de alguma forma prevenir e aconselhar a Turquia a preparar-se para eventuais consequências dessa nova escalada. Portanto, os dois cenários são possíveis, que esteja aqui a procurar mobilizar aliados até para um esforço também de pressão sobre o Irão ou que esteja a prevenir os aliados de que vai haver um retomar das ações militares. E acho que isso não fica muito claro com base na pouca informação que tivemos sobre a conversa.
Parece a possibilidade de uma nova intervenção militar mais musculada em território iraniano. Ao mesmo tempo que o Wall Street Journal noticia que J.D. Vance, o vice-presidente norte-americano, escreveu uma carta ao secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional e antigo comandante da Guarda Revolucionária para estabelecer contato com este representante da linha mais dura do regime iraniano. As duas coisas caminham lado a lado, esta ameaça de uma intervenção militar e um esforço diplomático para chegar a uma solução negociada?
Sim, isso pode parecer não fazer sentido, mas temos muitos exemplos disso na história. No fundo, a ideia da ameaça e do incentivo, do carrot and stick, como se diz em inglês. A cenoura e o pau. J.D. Vance tem, à partida, esta vantagem, ou percebe-se que ele tenha aqui um papel, no sentido que ele é conhecido como sendo alguém que tende a ser crítico ou ter reservas em relação a envolvimentos militares dos Estados Unidos no exterior. Faz parte da ala mais isolacionista do trumpismo e portanto isso, nesse sentido, pode lhe dar créditos acrescidos, ou seja, os setores no Irão que têm algum ceticismo em relação à administração Trump e à sua boa fé em negociações, a ideia poderia ser de que no caso de J.D. Vance, ele teria algum interesse realmente em evitar uma nova escalada militar. Isso também mostra realmente um outro aspecto importante, que é a questão da mudança de regime que foi completamente posta de lado, que foi um dos muitos objetivos que apareceram na fase inicial do conflito. E portanto, aqui a aposta parece ser realmente em passar a mensagem que os Estados Unidos não querem mudar o regime, nem sequer querem mudar o regime, portanto, não têm problemas em falar, em chegar a acordo com a ala mais dura, desde que realmente seja possível chegar a um entendimento que permita salvar a face, diria eu que neste momento é sobretudo isso, dos Estados Unidos e reabrir o Estreito de Ormuz com o mínimo de segurança. Tivemos também notícias do lado iraniano, enfim, isto tem sempre de ser visto com cuidado e depois perceber se confirma, mas temos notícias do Irão de que houve mais dois navios que teriam sido atingidos por minas no último dia a tentar atravessar o Estreito de Ormuz sem a tal permissão e pagamento ao Irão, que é aquilo que o Irão tem tentado impor como novo regime para a navegação no Estreito de Ormuz.
Na guerra do Leste da Europa, a notícia desta madrugada, um ataque com recurso a mais de 600 drones, um ataque ucraniano que afetou o tráfego em aeroportos de Moscovo, a capital russa, uma prova de força do regime ucraniano?
Sim, ou seja, a Ucrânia está a procurar mostrar que continua a ser capaz de se defender, que tem esta capacidade acrescida de ataques no interior da Rússia, portanto, que não será pela pressão dos Estados Unidos ou por esta nova aproximação entre Putin e Trump, que se deixará simplesmente travar, que será impedida de continuar a defender-se e fazer pagar algum preço à Rússia por estes ataques também crescentes da Rússia e com mais eficácia por falta de meios de interceção contra civis ucranianos, contra as infraestruturas críticas ucranianas.
Fica por aqui a edição de hoje de Gabinete de Guerra, segunda edição do dia, esta tarde com o historiador Bruno Cardoso Reis. Bruno, um abraço e até breve.
Obrigado. Boa semana.