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Sebastião Bugalho, o Prémio Sakharov foi atribuído aos líderes da oposição venezuelana, Edmundo González e María Corina Machado. Qual é a mensagem que o Parlamento Europeu quer passar com esta atribuição do Prémio Sakharov?

Eu acho que o Parlamento Europeu presta homenagem a um homem e uma mulher que não desistem da democracia, apesar de a democracia ainda não ser possível no seu país. A María Corina Machado, que é a líder das forças democráticas venezuelanas, está na clandestinidade neste momento e o Edmundo González, depois de ter ganho as eleições de 28 de junho, foi obrigado a exilar-se em Espanha, como sabe. A atribuição do Prémio Sakharov visa anualmente reconhecer, através do Parlamento Europeu, todos aqueles que lutam pela liberdade de expressão e pelos direitos humanos. E não há dúvida de que os direitos humanos e que a liberdade de expressão estão em causa na Venezuela enquanto o regime de Nicolás Maduro perdurar. O Parlamento Europeu, sendo a assembleia de eleitos mais diversa e mais plural do planeta, com mais nacionalidades, mais tendências, mais sensibilidades, presta assim homenagem àquela que é a sua vocação original, que é o voto. Se há algo que nós, 720 eurodeputados, temos em comum é que fomos eleitos pelo voto dos cidadãos europeus, dos nossos concidadãos. E o Edmundo González também foi eleito pelo voto dos seus concidadãos venezuelanos. Para um democrata, uma eleição não pode ser indiferente. A partir do momento em que observadores independentes e certificados como o Centro Carter já vieram a público acreditar Edmundo González com a vitória eleitoral, com atas eleitorais na sua posse, a partir do momento em que o alto representante para a política externa da União Europeia, Josep Borrell, já reconheceu a vitória eleitoral de Edmundo González, obviamente que o Parlamento Europeu tinha que estar ao lado daqueles que são perseguidos por terem democraticamente vencido no seu país. E eu fiquei muito contente, nós estamos muito contentes. Esta foi uma iniciativa conjunta da delegação portuguesa da AD e da delegação espanhola no PPE. O PPE depois integrou a nossa proposta e tomou-a como uma e hoje, felizmente, saiu vencedora da conferência de líderes presidida pela presidente Roberta Metsola, e o resultado foi aplaudido de pé por toda a câmara, como pode ver nas imagens. Portanto, foi um momento de particular felicidade e nós tínhamos de dizer aos venezuelanos que não desistimos de estar ao lado deles. E foi isso que fizemos hoje, e ainda bem que o fizemos.

Mas é difícil imaginar que tenha sido uma escolha unânime, dada a posição de outras famílias europeias, desde a esquerda, mesmo desde a reticência dos socialistas e democratas. Acredito que não tenha sido uma escolha unânime.

A câmara aplaudiu, eu estava lá sentado, de forma bastante unânime. Em relação ao processo negocial, eu também gostava de deixar claro, sendo eu proponente desta candidatura, tanto do Edmundo González e da María Corina Machado, que eu não considero que haja derrotados em prêmios de direitos humanos. Não há perdedores em relação a lutar por causas justas. Portanto, os outros dois finalistas, as outras duas candidaturas finalistas também tinham todo o mérito e aliás, também foram aplaudidas de pé por toda a câmara, incluindo por nós, como é evidente. E estaremos ao seu lado e das suas causas, seja a liberdade de expressão e a liberdade de crítica no Azerbaijão, seja a defesa dos direitos humanos e da solução de dois Estados no Médio Oriente. Portanto, não há derrotados no Prêmio Sakharov. Há um vencedor, há um momento histórico que a Venezuela está a atravessar, que torna mais pertinente e mais definidora a atribuição deste prémio. Como sabe, as eleições foram este ano e a perseguição que se seguiu às eleições ainda perdura até ao dia de hoje, infelizmente. Mas aquilo que eu lhe posso dizer, até porque eu fui o exemplo que posso contar. Eu e um colega espanhol fomos os autores, os redatores da resolução que reconheceu Edmundo González como presidente eleito e como vencedor das eleições no mês passado. E negociámos e estivemos à mesa com vários grupos políticos diferentes do Parlamento Europeu. O João perguntava-me acerca dos socialistas, dos sociais-democratas, dos socialistas democratas europeus. Eles concordavam com, eu diria, 90%, 95% da resolução. Eu aliás, disse numa entrevista nessa semana. Eu tenho a certeza de que há muitos socialistas e a quase totalidade dos liberais do Parlamento Europeu ao lado da democracia venezuelana, não coloca isso em causa. Um democrata, um europeu, um europeísta tem de estar ao lado de quem vence eleições e de quem quer que o seu país seja uma democracia. Não me parece que haja grande dúvida em relação a isso. Mas sugiro que telefone ao eurodeputado dessas famílias para eles poderem falar por eles próprios. Eu falo pelo PPE e pela AD.

Claro, e iremos fazer. Eu queria só perguntar-lhe, Sebastião Bugalho, qual é a mensagem, porque havia outros candidatos e disse que foram todos aplaudidos de pé. O Parlamento Europeu não passa aqui uma mensagem de que neste momento o foco da política internacional do próprio Parlamento está mais preocupada com o que se passa na Venezuela do que se passa, por exemplo, no Médio Oriente, ou esse tipo de hierarquia não existe quando estamos a discutir prêmios de direitos humanos, como estava a explicar ainda há pouco?

Não, a minha posição enquanto proponente desta candidatura e enquanto deputado na Comissão dos Assuntos Externos e na Subcomissão de Direitos Humanos, é que não há nem vidas nem liberdades mais importantes do que outras, independentemente da sua geografia ou da sua sensibilidade política. A liberdade é a liberdade e a democracia é a democracia, seja em que hemisfério for e seja de que sensibilidade política for mais próxima. Isso para mim não está em causa. E posso lhe dizer com alguma da curta experiência que tenho, mas que venho sentindo nos últimos meses, que nós somos 720. Portanto, falta de mãos para trabalhar em prol da liberdade e da democracia no mundo, não há. E todas as semanas, todas as plenárias de Estrasburgo são aprovadas resoluções e urgências que têm a ver com o Estado de Direito e com as liberdades pelo mundo fora. Nós hoje, além de recebermos a notícia do vencedor do Prêmio Sakharov, aprovámos uma resolução sobre Taiwan e sobre o Azerbaijão. Na plenária anterior, outra resolução sobre a Ucrânia e sobre os direitos das mulheres no Afeganistão. Portanto, não há teto nem limite para aquilo que podemos fazer em prol dos direitos humanos e da democracia neste Parlamento. E nos próximos cinco anos, posso lhe garantir que a delegação portuguesa da Aliança Democrática fará tudo por tudo para dar o melhor contributo para essa causa.