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Hoje é o terceiro e último dia de eleições presidenciais na Rússia, mantêm Vladimir Putin no poder durante mais seis anos. Neste dia de eleições, o número de ataques aumentou. Major-general, é coincidência?

Não. Este aumento dos ataques da Ucrânia a território da Federação Russa não tem relacionamento direto com as eleições, porquanto o resultado das eleições já está predeterminado há muito tempo. Nós sabemos a forma como elas estão a decorrer, desde os candidatos que foram impedidos de concorrer, até à forma como as próprias eleições estão a ser conduzidas. Muitas vezes sob a presença de militares armados e sob coação. Portanto, não é por isso. Fundamentalmente, o que está a decorrer neste momento é uma estratégia muito bem planeada por parte da Ucrânia, no sentido de atingir profundamente e de uma forma eficaz os meios de produção fundamentalmente ligados aos hidrocarbonetos russos, designadamente as refinarias que produzem os derivados do petróleo, designadamente a gasolina e o gasóleo essenciais quer para a economia russa, porque fazem parte das exportações da Rússia. A Rússia vive fundamentalmente das exportações dos seus hidrocarbonetos, onde se incluem os derivados do petróleo, como nós sabemos, e também o apoio do esforço de guerra, porque um exército como o exército da Federação Russa, mecanizado, blindado, necessita de quantidades astronómicas de combustíveis diariamente. E nós sabemos que este setor produtivo da Federação Russa está sancionado quer pela União Europeia, quer pelos Estados Unidos, quer pelo mundo ocidental de uma forma geral, mas as sanções têm sido de alguma forma evadidas, até através das grandes exportações para a Índia e para outros países que servem de interposto à venda dos hidrocarbonetos russos. De qualquer forma, aquilo que a Ucrânia neste momento está a fazer é atingir diretamente as refinarias. E neste momento, mais de 12%, antes dos últimos ataques, da capacidade de exportação de produtos refinados da Rússia foi severamente afetada, de tal forma que as próprias exportações de produtos refinados, gasolina fundamentalmente e também gasóleo, foram proibidos pelo menos durante os próximos seis meses. Porque a Rússia necessita desses produtos para a sua própria economia e para o esforço de guerra. Portanto, isto tem fundamentalmente que ver com o afetar diretamente a capacidade económica e a capacidade financeira da Rússia poder apoiar o esforço de guerra na Ucrânia. Por outro lado, e também não menos importante, é desta forma, a Ucrânia atacando estes centros de produção de hidrocarbonetos, vai obrigar a Federação Russa a deslocar para estas áreas sensíveis, porque são pontos e áreas sensíveis, vai ter que deslocar, fundamentalmente baterias de defesas antiaérea, porque se não o fizer, estas refinarias vão ser atacadas todos os dias e vão ser atacadas com eficácia, através dos drones de longo alcance, que cada vez são mais letais, cada vez têm mais alcance e cada vez são mais precisos. Ainda para mais, as notícias que temos é que dentro das refinarias, aquilo que os drones ucranianos têm atacado são as torres das próprias refinarias, que são responsáveis pela destilação fracionada da rama do petróleo, que é o coração da própria refinaria.

E portanto, sem qualquer propósito concreto de afetar maioritariamente o dia de hoje. Não tem aqui uma relação de causa e efeito.

Não há uma relação causa e efeito entre isto. Mesmo a intervenção das três formações de russos que lutam do lado da Ucrânia, quer o Corpo de Voluntários da Rússia, quer o Batalhão da Liberdade para a Rússia, quer o Batalhão Siberiano, que atacaram os oblasts de Belgorod e de Kursk, também não estão diretamente relacionados com as eleições. O resultado das eleições já está mais que determinado. Isto tem que ver, fundamentalmente, com o aliviar da pressão, porque a pressão sobre a frente leste tem sido muito forte por parte da Federação Russa, porque aos militares da Federação Russa foi ordenado, ainda antes do final do ano, diretamente por Vladimir Putin, que conquistassem o que resta do Donbass até o início da primavera. E por isso é que estamos a assistir a toda aquela pressão na frente leste. E uma das formas de aliviar a pressão é obrigar que as reservas que se encontram a combater no oblast de Donetsk e Luhansk, e também mais a norte, em Kharkiv, na região de Kupyansk e Liman, tenham que ser desviadas para outro tipo de ações. Nós sabemos que fruto das atividades destas três formações de voluntários russos que lutam contra o regime de Putin e se encontram a combater do lado da Ucrânia e que neste momento estão a combater já em território russo Em Belgorod, na oblast de Belgorod e de Kursk, é fundamentalmente para atraírem forças russas que estão a combater na Ucrânia para aliviarem a pressão. É um pouco isso que está a acontecer.

Este propósito é extremamente estratégico?

Se me disser assim: isto é estratégico, é uma manobra operacional clássica, é no fundo tentar que o inimigo desconcentre as forças que tem concentradas em determinados locais onde naturalmente a defesa ucraniana revela algumas fraquezas, porque, como nós sabemos, os Estados Unidos continuam por decidir os cerca de 60 mil milhões de dólares em munições a fornecer à Ucrânia e a Ucrânia está a sofrer neste momento escassez de munições de artilharia, inclusivamente também munições de lança-foguetes múltiplos e dos sistemas de defesa antiaérea. Portanto, há aqui uma estratégia logística fazendo atingir a profundidade da Federação Russa para poder desconcentrar e deslocar as reservas da Federação Russa para outros locais, aliviar a pressão no campo de batalha na Ucrânia. É fundamentalmente isto que é pretendido. Agora, colateralmente, também é conseguido um efeito psicológico junto da população russa. Isso não há dúvidas, que é fazer sentir a população russa que afinal a Rússia não se encontra a desenvolver uma operação especial militar na Ucrânia, mas que de fato se encontra em guerra com a Ucrânia e possivelmente também em guerra com o Ocidente. E fazer chegar os vetores de combate à profundidade do território russo é fazer compreender a população russa que de fato a Federação Russa está em guerra. E isso pode ter um efeito, mas é um efeito que eu diria negligenciável sobre os resultados das eleições. É um efeito de fazer despertar a Federação Russa para uma determinada realidade que lhe tem sido, não direi completamente opacizada, mas tem havido aqui uma tentativa por parte do Kremlin de passar uma realidade completamente diferente daquela que se está vivendo nos tempos que correm.

Major-General, deixe-me perguntar-lhe, sendo, como disse há pouco, não há grandes dúvidas que Putin vai ser reeleito, o que é que os números que vão chegar dizem acerca do apoio ao presidente russo?

Vamos lá ver. Ainda antes do final de 2023, do ano transato, eu lembro que em determinada altura o porta-voz do Kremlin, Peskov, disse uma coisa que eu até achei curiosa. Disse que esta coisa das eleições é uma prática da democracia que é pouco importante, mas que é caro, que é um vício caro das democracias. Foi mais ou menos isto que ele disse. Mas que os resultados das eleições já estavam definidos e que Putin ia ganhar com cerca de 90% de aprovação. Isto foi dito ainda antes do final do ano passado por Peskov. Eu relembro que a Rússia é um país imenso, tem 17 milhões de quilômetros quadrados, é o maior país do mundo. Os outros países que vêm a seguir, temos os Estados Unidos e o Canadá com cerca de 10 milhões de quilômetros quadrados, a Rússia não é o dobro, mas quase. Tem mais 70% do território que qualquer um desses países. E tem 11 fusos horários. As urnas já fecharam na Rússia, na Rússia mais a leste, na Rússia mais próxima do Pacífico e da península da Kamchatka e por aí fora, nas regiões da Sibéria, muitas delas, as urnas já fecharam e os votos já estão a ser contabilizados. Só apenas na Rússia mais ocidental, na Rússia Branca, São Petersburgo, Moscou e mesmo na diáspora russa. E nós vimos imagens ainda há bem pouco tempo de uma quantidade de russos que vivem em Portugal que ainda estão a exercer o seu direito de voto junto à Embaixada da Rússia. Mas eu julgo que o resultado desta eleição irá ser a confirmação de que Vladimir Putin é o senhor absoluto, é o verdadeiro czar da Rússia. Não me admiraria nada que a votação estivesse muito próxima dos 90%. Não vai haver aqui grandes novidades no meio disto. Penso eu.

E Putin ganha aqui alguma margem entre a população para estender a guerra?

Ele acha que ganha. Vamos lá ver. Se estas eleições fossem verdadeiramente livres, talvez o resultado fosse outro. Mas, no fundo, aquilo que o Kremlin pretende e o próprio Vladimir Putin é, por um lado, de alguma forma mistificar a sua influência e a sua popularidade também no âmbito interno, na própria Rússia, mostrar aos russos que afinal toda a gente gosta dele e, por outro lado, também mostrar ao mundo inteiro que, de fato, a Rússia vai a eleições e que ele só é o presidente da Rússia porque os russos assim querem. Isto é um plano bem urdido para mostrar que a Rússia está a ser governada por um homem que é eleito e que não é imposto. Mas isto é tudo uma falácia, como nós sabemos. As eleições na Rússia são tudo menos livres.

Major-General.

Agora, se ele sai reforçado, vamos ver, veremos. Por outro lado, cada vez são mais as vozes dissonantes na Rússia e eu relembraria que ao longo desses três dias de eleições na Rússia foram, não direi incontáveis, mas foram em grande quantidade, as assembleias de votos onde houve protestos, onde houve coquetéis molotov lançados, onde houve quantidades de tinta vazados em cima das urnas eleitorais. Houve aqui uma série de indícios de que na própria Rússia há muita gente insatisfeita.