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Olá, eu sou a Tânia Pereirinha. Dr. João Gouveia, bem-vindo à Rádio Observador. É médico intensivista no Santa Maria, o maior hospital do país, é presidente da Sociedade Portuguesa de Cuidados Intensivos e é presidente da Comissão de Acompanhamento da Resposta Nacional em Medicina Intensiva para a Covid-19. Creio que não haverá melhor pessoa para responder esta pergunta. Há alguns dias que ouvimos que os internamentos, nomeadamente em cuidados intensivos, estão perto do limite. Que limite é esse, exatamente? Existe um número? Até onde é que podemos ir?

Obrigado pelo convite. Existe um número, mas todos os dias nós estamos a conseguir aumentar esse número e torná-lo mais distante ou volta de mais distante. Mas o limite, provavelmente máximo em medicina intensiva, deverá acabar por rondar as 1150, 1200 camas de medicina intensiva para todos os doentes, Covid e não Covid.

Ok, tendo em conta que esta sexta-feira chegamos aos 715 doentes internados em cuidados intensivos só com Covid-19, qual será o panorama?

O panorama é mau, porque nós neste momento estamos acima dos 80% na região Norte, muito perto dos 94, 95% de taxa de ocupação na região de Lisboa e Vale do Tejo, muito perto de esgotar essa capacidade.

Sendo que quando chegarmos ao limite ou se chegarmos ao limite, o que é que vai acontecer? Qual é o pior cenário possível?

Nós temos ainda, de alguma maneira, alguma capacidade de expansão, que estamos a tentar ainda concretizar nesta semana. Finda essa capacidade de expansão, vamos ter que, eventualmente, se houver possibilidade, tratar doentes em sítios que não são habituais tratar doentes, além daqueles onde já estamos a trabalhar, e depois de findo toda essa capacidade. Aí é autêntica medicina de catástrofe. Mesmo antes de chegar aí, provavelmente teremos que adotar outro sistema de triagem, terá que haver uma declaração nacional ou regional de estado de catástrofe e terá que haver uma mudança do sistema de triagem normal, individual, para o bem de cada um dos doentes, para um sistema de triagem de catástrofe, em que o que se pretende é o bem comunitário ou o bem da sociedade e que não será triar aquele doente que necessita de medicina intensiva, que está mais grave, mas sim aquele que necessita de medicina intensiva, mas que tem maior probabilidade de sobreviver.

Ou seja, é aquele temível momento de que ouvimos falar há meses, em que os médicos têm que começar a escolher quem tratar.

Sim. Claro que não é escolher quem tratar, porque quem não tiver acesso a medicina intensiva, não deixa de ser tratado. Não tem o melhor tratamento e pode não ter acesso a tratamentos que podem garantir a vida, isso é verdade, mas não quer dizer que não sejam tratados. Pelo menos todo o resto do tratamento devem ter.

Em outubro, já lá vão três meses, o dr. João Gouveia já tinha avisado que ou as equipes de saúde eram reforçadas, ou o país voltava a confinar, ou ia morrer mais gente. Como é que chegamos aqui?

Acho que há várias explicações para termos chegado aqui. Acho que neste momento sabemos que temos a nova variante em circulação, 13% na melhor das hipóteses, mas rapidamente poderá ser a variante dominante, chegando aos 60% no final do mês. E como sabemos, ela propaga-se, tem uma facilidade de transmissão muito maior. Depois, acho que as pessoas individualmente também baixaram demasiado a guarda. Todos nós estamos fartos da pandemia, todos estamos fartos das restrições, todos queremos estar com a nossa família, os nossos amigos, ter os nossos momentos de descontração, mas acho que como um todo abusamos. E isso, infelizmente, é uma fatura que se vai pagar muito caro em termos de vidas, em termos do confinamento e do rigor que haveria este confinamento e também a nível económico. Quer dizer, acho que se tivéssemos sido capazes de manter outro tipo de atitude, provavelmente não teríamos a necessidade destas medidas e não teríamos as consequências económicas que vamos ter. Já para não falar na saúde.

Claro. No seu hospital, no seu serviço, como é que está a situação agora, neste momento?

A situação neste momento, quando eu saí, tínhamos, se não me engano, uma vaga, com a hipótese de ter duas ou três, mas já há vários candidatos para as diferentes vagas. Portanto, uma situação bastante difícil, se pensarmos que nós aumentamos muito a capacidade do serviço. Nós tínhamos inicialmente 31 camas de medicina intensiva, cargo da medicina intensiva. Neste momento, o hospital, agora está tudo muito transformado, muito virado pro tratamento da Covid, mas temos, neste momento, 55 camas só pra Covid, em medicina intensiva. Portanto, um aumento franco da capacidade, mas que não é suficiente.

E que pode continuar a acontecer. Vocês conseguem ter espaços e meios para ampliar ainda mais.

Espaços e meios físicos Mais ou menos fácil. O difícil há de ser sempre os recursos humanos, daí a necessidade, como já foi feito, de ter que suspender a atividade normal, a atividade programada, a atividade não urgente. Neste momento, até a atividade não muito prioritária tem que estar suspensa, de maneira a podermos ter os recursos humanos para conseguir dar resposta a todos estes doentes. E uma coisa que é importante, é que quando nós falamos de hospitais como Santa Maria, São João, o Centro Hospitalar Central de Lisboa, o Centro Hospitalar Universitário de Coimbra, nós estamos a falar dos grandes hospitais do país. Daqueles hospitais que são polo de rede de referenciação e que têm que dar resposta não apenas aos doentes que têm internados, mas todo o conjunto de doentes a nível do seu polo de referenciação e muitas vezes a nível regional e nacional. Portanto, é uma situação bastante difícil.

Como é que está a ser no Santa Maria? Todos os dias estão a dizer que têm uma ou duas vagas, não é? E que têm mais candidatos do que isso para as outras vagas.

Isso não é exclusivo de Santa Maria, isto acontece neste momento praticamente em todos os hospitais a nível do país. Ou seja, é a chamada política da cama quente, quer dizer, mal temos a cama livre, já sabemos que temos alguém que pode vir a entrar ou vir a necessitar desta cama.

E isso é uma coisa que acontece todos os dias em Santa Maria, que estão a entrar doentes em cuidados intensivos?

Neste momento, sim. Sim. Neste momento, sim, em Santa Maria e em todo o país. Só naqueles sítios onde estão completamente tapados, é muito difícil, mas mesmo assim mal existe uma vaga, principalmente nesses sítios, mal existe uma vaga é imediatamente ocupada.

Quem são as pessoas que estão internadas agora no seu hospital, nos seus cuidados intensivos? Porque nós sabemos que a Covid tende a ter consequências mais graves em pessoas com idade mais avançada e com comorbidades, mas o tratamento em cuidados intensivos nem sempre se adequa a estes doentes, não é? Há pessoas mais novas, há jovens?

Sim, nós temos pessoas de diferentes faixas etárias. Já tivemos doentes de 20 e poucos anos, já tivemos doentes de 90 e bastantes. Neste momento, o que nós vemos é, apesar de tudo, uma faixa mais jovem. Temos doentes dos 40, 50 até aos 70 anos e também uma ou outra vez doentes mais novos. A principal comorbidade que nos tem aparecido agora nesta vaga é a obesidade. O que nós vemos mais frequentemente é doentes obesos. Nem precisam de ser grandes obesos, basta doentes só com excesso de peso ou obesidade grau um, mas é neste momento a principal comorbidade que nos aparece.

E são doentes que estão em estado grave?

Muito grave. Nós não temos, neste momento, é o que nós chamamos de desnatação. Nós temos poucas vagas pra procura, de maneira que tendencialmente temos os doentes mais graves a ocuparem as camas de medicina intensiva. Os doentes graves, mas não tão graves, não estão logo ou não conseguem ser logo admitidos na medicina intensiva, só entram na medicina intensiva quando já estão muito mais graves. E isto pode ser uma das explicações pro aumento da mortalidade que se verifica agora na segunda vaga.

Exato, porque demoram mais tempo a ter os cuidados que precisariam, não é?

Sim. E isso está demonstrado cientificamente. Viu-se quando foi em Itália na primeira vaga, que quando se comparou a mortalidade nas diferentes regiões, que aqueles que tinham maior facilidade de acesso à medicina intensiva, tinham menor mortalidade do que os que tinham menos acesso. Isso é senso comum e está cientificamente provado.

E é por isso que o Santa Maria se expandiu, quer dizer, vocês agora têm unidades de cuidados intensivos por todo o hospital.

Sim, nós temos neste momento, Santa Maria e todos os outros hospitais abriram unidades de cuidados intensivos, extensões do serviço de medicina intensiva, em vários polos dos hospitais, nos blocos operatórios, nos socorros, em enfermarias, a aproveitar outras unidades monovalentes que existiam. Isso é tudo verdade. Depois, há circunstâncias que dependem de hospital para hospital, em que se consegue uma expansão com uma boa gestão de recursos e a facilitar exatamente essa expansão, em que se consegue ter esta expansão em áreas contíguas e o que poupa recursos em termos de pessoal e de equipamento, e outros em que isso é mais difícil, por razões às vezes nem sempre compreensíveis, e que então acontece uma dispersão de recursos que dificulta ainda mais a gestão. Depois há os problemas, às vezes, de hospitais que já têm algum tempo ou que estão subdimensionados. São problemas inerentes a cada um dos hospitais. Mas houve uma expansão da medicina intensiva muito grande em todos os hospitais, praticamente pro dobro das camas que existiam em janeiro.

Era o que eu ia perguntar a seguir. Em termos nacionais, qual é exatamente a capacidade atual em UCI?

Neste momento nós tínhamos perto de cerca de 620 camas no nível três e nível dois em medicina intensiva em janeiro, e neste momento a nossa capacidade está praticamente no dobro, portanto anda à volta das 1133, 1200 camas, dependendo um bocadinho Das hipóteses de contagem, 1242 camas de total nacional de capacidade máxima neste momento. Mas como lhe disse, todos os dias andamos a tentar expandir ainda mais as camas de medicina intensiva e vamos ver o que se consegue fazer. No início nós estávamos mal. Já em 2012 nós tínhamos um dos piores rácios de camas por 100 mil habitantes em relação à Europa. Em 2016 já estávamos melhor, mas continuávamos na cauda. Tínhamos 6,2 por 100 mil e a Itália, por exemplo, tinha 12,5. A Alemanha tinha 29 camas por 100 mil habitantes. Portanto, nós estávamos muito abaixo.

Agora como é que está?

Neste momento, a comissão tinha feito um projeto para aumentar a capacidade de medicina intensiva, que no fim dessa expansão programada, que era a expansão mais rápida e que seria até o início deste ano, fim do primeiro semestre de 2021, poderíamos atingir as 9,4 camas por 100 mil habitantes, o que era um aumento muito significativo, um aumento à volta de 50% da capacidade. Neste momento está francamente superior, como eu disse, temos neste momento, contando camas de nível três e de nível dois, no nível dois não há suporte invasivo, temos uma capacidade que anda à volta das 1100, 1242, depende um bocadinho da forma exata de fazer a contabilidade de algumas das camas.

Mesmo assim, é pouco, não chega.

Mesmo assim é pouco e acho que é fácil de perceber. Em duas frases já muito célebres: o que ainda não perceberam, não há camas que cheguem para estes números. E a outra é só fazer as contas. Os doentes estão na primeira vaga, à volta de 17 dias de demora média, portanto, de tempo de internamento em medicina intensiva. Se nós tivermos 1000 camas ou 1800 camas, tivermos 20 mil doentes por dia, que foi dito que poderíamos atingir no início agora de fevereiro, nas últimas projeções, 1% destes doentes for pra medicina intensiva, o que é menos do que na verdade existe, estamos a falar de 200 doentes por dia em medicina intensiva, ao fim de seis dias preenchemos todas as camas existentes no país. Só que neste momento já lá estão decadas à volta de 1100 pessoas.

Portanto, posto um cenário como este, o que se faz?

O que se faz num cenário como este? Tem que se cumprir todas as regras do confinamento, tem que se garantir o isolamento social, a lavagem das mãos, o uso correto da máscara em todas as situações, limitar os contactos, limitar as deslocações ao essencial, e tentar, de todas as maneiras, evitar que a transmissão continue a estes níveis. Este é o primeiro e mais importante passo. Não há nada que se possa fazer se este passo não for feito. E depois temos que tentar ganhar tempo, ganhar alguma capacidade de resposta ainda, e isso é parar toda a atividade que não seja essencial neste momento, reduzir uma atividade mesmo urgente e a atividade muito prioritária, portanto, se limitarmos a essa atividade, principalmente em termos cirúrgicos, e aproveitar rapidamente todos os recursos humanos que estavam no outro tipo de atividades, e é necessário que isto aconteça não só nas especialidades cirúrgicas, não só na anestesia, mas em todas as especialidades. Eu acho que é imperativo que todos os hospitais definam muito rapidamente quais são as atividades que necessitam de manter abertas em cada um dos seus serviços, que são imprescindíveis, e que afetem o core mínimo necessário de profissionais para efetuar essas atividades e que todos os outros sejam distribuídos para as atividades que neste momento são essenciais. E isto quer dizer que podemos ter médicos de outras especialidades a tratar doentes nas enfermarias, nomeadamente, ortopedistas a tratar doentes de medicina interna ou oftalmologistas, etc. Porque são médicos e podem não fazer trabalho de médico diferenciado, mas podem nos ajudar a fazer trabalho de enfermagem, acho que isso é essencial. Nós todos já recebemos, provavelmente, mensagens de médicos de Londres em que há relatos de professores de neurologia ou de vascular ou de outras especialidades mais específicas, que neste momento não são muito sobrecarregadas, que já estão a tratar doentes na enfermaria Covid, com a orientação dos profissionais que estão mais treinados, mas que estão a trabalhar exatamente no regime de trabalho em equipe, que é necessário que seja agora desenvolvido ainda mais.

E isso em Portugal já está a ser feito também, não é? Mas tem que ser feito mais?

Em Portugal tem que ser feito mais, acho que isto não está a ser feito desta maneira. A maior parte das especialidades não estão a ser todas chamadas pra o tratamento destes doentes e não há esta percepção de reduzir francamente a atividade das especialidades e delas virem participar no tratamento destes doentes. É a altura em que temos todos que mostrar a nossa solidariedade uns com os outros, quer individual, quer institucional, quer entre as diferentes especialidades, entre os diferentes grupos profissionais. É agora, não vai ser mais tarde.

E aqui, é nesta fase que podem entrar também os privados?

Os privados já entraram. Neste momento já há acordos firmados com os privados, e eles já estão a receber, quer em internamento de enfermaria, quer em internamento em medicina intensiva, doentes com covid. Agora, eles não estão ainda com a sua expansão total, ou tão perto do fim da sua expansão como está o Serviço Nacional de Saúde. Acho que ainda têm uma margem para poder aumentar as suas camas e a sua disponibilidade, mas estão a fazê-lo e a muito bom ritmo. São sempre muito bem-vindas todas as camas que se consigam abrir. Eu já não falo no Serviço Nacional de Saúde, falo no Sistema Nacional de Saúde. Todas as camas que se puderem abrir são essenciais, mas se não se conseguir parar o rio a montante, são um gole de água no oceano. Não nos vai ajudar muito mais.

E li uma entrevista sua em que dizia que os hospitais de campanha é a mesma coisa, não é? Não vão resolver este problema dos doentes.

Os hospitais de campanha, de intensivos, não resolvem os problemas. Só resolvem se nós tivermos situações de bloqueio de saída. Ou seja, nós podemos ter, de uma maneira simples, bloqueios de entrada, porque o doente não entra, porque não há capacidade, não há número suficiente de camas e outras coisas. Podemos ter dificuldades em escoar os doentes da medicina intensiva e isso levar depois a que não consigam entrar os doentes. Neste último caso, os hospitais de campanha podem, eventualmente, ajudar. Isto por quê? Nos hospitais de campanha, normalmente nós temos os doentes menos graves, que podem necessitar ou não de uma terapêutica endovenosa, mas que não são doentes muito graves que necessitem de muita atenção médica, nem muitos cuidados de enfermagem, nem de grandes aportes em termos de oxigênio, etc. Mas são doentes que às vezes estão na enfermaria, necessitam estar internados, seja pra completar ciclos terapêuticos, seja porque não têm condições sociais para cumprir o seu isolamento em casa e que podem libertar a enfermaria para os hospitais de campanha e assim gerar vagas nas enfermarias para os doentes que já estão em condições de sair da medicina intensiva. Portanto, nesse ponto de vista, de certeza que os hospitais de campanha ajudam. E depois também, de alguma maneira, ajudam aliviando o peso da enfermaria. Nós sabemos que as enfermarias também estão muito sobrecarregadas. Eu falo da medicina intensiva porque é a minha área, mas não é só a medicina intensiva. Nós vemos as imagens dos serviços de urgência, sabemos como é que estão as enfermarias. Todo o sistema de saúde está extremamente sobrecarregado por esta vaga de doentes. E temos tido sorte.

Em que sentido?

Porque, apesar de tudo, não temos tido, até agora, aquelas vagas de frio que poderíamos ter tido. Não temos praticamente gripe, não existe gripe. Se nós olharmos para os dados do observatório, não há gripe. Nisso as medidas do uso de máscara e algum grau de confinamento provavelmente têm um papel muito importante, que foi o que aconteceu na Austrália. Nós olhamos para os dados do hemisfério sul e vemos que não houve praticamente gripe neste inverno. Esperemos que assim aconteça aqui em Portugal, porque senão era difícil, mais ainda do que já está.

Relativamente aos ventiladores, que em março eram o principal problema. Muito se falou de ventiladores. Foi feito um reforço enorme ao longo dos últimos meses. Temos ventiladores suficientes agora?

Sim, acho que sim. Nós tínhamos por volta de 1100 ventiladores em Portugal e ainda conseguimos, com as aquisições feitas pela ACSS, com as doações, com recuperação de ventiladores que estavam parados, com aquisição de novos ventiladores também diretamente para os hospitais. Neste momento devemos ter cerca de 2200 ventiladores em Portugal, o que é mais do que suficiente. Nós não temos, neste momento, pessoal suficiente para conseguir manejar todos os ventiladores, caso eles sejam necessários. Porque não é só uma questão de ter o ventilador. Temos que ter pessoas capazes de cuidar dos ventiladores e dos doentes. Ou seja, dos doentes que estão no ventilador, aliás, 24 sobre 24. E isso é muito difícil. Não temos gente, portanto, temos que funcionar em regimes de trabalho completamente diferentes dos habituais.

Como assim? Como é que poderia ser feito ou resolvido ou tentar resolver um pouco?

Uma das hipóteses é o que várias sociedades, vários países fizeram esquemas de um responsável com vários subresponsáveis, que vão sendo como que os braços de uma estratégia que é delineada e controlada por uma pessoa mais experiente, uma pessoa com as competências para poder fazer essa gestão da ventilação e da estratégia global dos doentes. Isso é a maneira de funcionar, que acho que é aquilo que eu inicialmente tinha chamado como o intensivista polvo. Temos uma pessoa mais experiente, que há ter outras pessoas de outras especialidades, até podem ser mais velhos, mais novos, não é isso que interessa, mas que têm menos experiência no tratamento destes doentes, mas que em equipa conseguem, com uma coordenação, tratar estes doentes. Isto vai ser a única hipótese de tratarmos estes doentes.

E isso não está a ser feito ainda?

Não, isso está a ser feito já. Isso já está a ser feito, portanto, em vários hospitais já temos a integração De membros de outras especialidades na medicina intensiva para trabalharmos em conjunto.

Portanto, é preciso fazer mais.

É preciso fazer mais. Precisamos de mais pessoas a trabalharem na medicina intensiva a nível nacional, neste momento, portanto, de pessoal de outras especialidades que venham colaborar com a medicina intensiva e, principalmente, precisamos de pessoal de enfermagem. Há um déficit muito grande de pessoal de enfermagem a nível nacional, então de enfermagem de medicina intensiva, o déficit é enorme.

Como estão vocês? Posto este cenário todo, como os profissionais de saúde que todos os dias, há mais de 10 meses, não fazem outra coisa senão tentar dar resposta a isto?

Eu acho que nós estamos fartos, ponto um. Depois, acho que começa a haver um certo grau de desânimo, porque, de alguma maneira, achávamos que com a vacina poderia haver um fim mais rápido à vista. Sabemos que esse fim nunca há de ser assim tão rápido, porque necessitamos de ter a população praticamente toda imunizada, ou seja, cerca de 60% a 70% da população imunizada com as duas doses e termos algum tempo sobre isso. Mas acho que estamos fartos desta pandemia, de todas as restrições que nos obrigam, que obrigam todo o cidadão, cansados do trabalho que temos, preocupados porque não vemos o fim à vista, preocupados porque vimos as consequências do que está a acontecer, frustrados porque vimos as consequências do que está a acontecer e com o sentimento de alguma impotência, que agrava ainda mais essa frustração, porque nós, neste momento, devido a não terem sido cumpridas as medidas de isolamento, temos um aumento enorme de casos e começamos a ter doentes que não vamos conseguir dar resposta. Isso é uma coisa que, para nós, é terrível. Quer dizer, nós estamos, de alguma maneira, habituados a lidar com a morte ou os doentes morrerem, mas é depois nós conseguimos fazer tudo, tudo o que nós achamos que fizemos de acordo com o estado da arte e com as nossas capacidades técnicas. Quando nós não conseguimos acudir aos doentes, é muito pior.

Claro. Não podem sequer ter aquela consciência de que fizeram tudo aquilo que podiam. E essa é outra questão: a morte está presente todos os dias.

Sim, repara, em termos de medicina intensiva, se nós dizermos de uma maneira fria, nos serviços de medicina intensiva mais complexos, com o case mix mais complexo, nós sabemos que cerca de 30%, mais ou menos, dos doentes que passam nesses serviços não chegam a sair vivos do hospital. Sabemos que a morte está presente no nosso dia a dia. E de alguma maneira, habituamo-nos a lidar com ela e temos defesas para estas situações habituais. Claro que há sempre um ou outro doente que nos toca mais fundo, que nos faz pensar por que fizemos assim, o que aconteceu, e que nos abala como pessoas.

No seu caso, que doente foi esse?

São casos.

Mas no seu caso, que doente foi esse que o abalou mais?

Há vários. Eu lembro-me de doentes, são vários, mas às vezes não. Dos primeiros doentes que morreram quando eu comecei a trabalhar, eu lembro-me do nome, lembro-me da cama, lembro-me da cara, sei perfeitamente o que aconteceu. São doentes que nos marcaram. Depois, com o tempo, nós vamos fazendo alguma seleção. Depois tentamos também recordar os bons doentes, quer dizer, lembramo-nos todos daqueles doentes que achamos que, ou individualmente ou mesmo como grupo, fizemos muito para que recuperasse, e isso é a parte boa da medicina intensiva, que nós temos os doentes mais graves e quando os conseguimos recuperar, e recuperam mesmo, é muito bom. Sentimos que fizemos algo pelos doentes, isso é muito bom.

Essa porcentagem de 30% que falava de casos que correm mal na medicina intensiva, com o Covid, mantêm-se esses números?

É assim, na primeira vaga, nos dados que nós temos da base de dados nacional, a mortalidade andava, se não me engano, ao nível da saída da medicina intensiva, por volta dos 21% e 28% ao nível da saída do hospital. E comparava favoravelmente com a mortalidade a nível internacional. Neste momento, eu estou convencido de que a mortalidade é francamente pior. Não tenho números nacionais para dizer isso, mas sei que em algumas unidades a mortalidade ultrapassa os 40% neste momento.

E isto estará relacionado com o tal atraso no acesso aos cuidados, ou não só?

Eu acho que é provável que esteja. Eu acho que é uma das causas, acho que provavelmente é multifatorial, nós não sabemos. Eu acho que os doentes chegam mais tarde, mais graves, e isso é a principal razão.

Estamos há, não sei, 20 minutos, se calhar mais do que isso, 30 minutos a falar sobre cuidados intensivos e sobre doentes Covid. Mas há outros doentes, não é?

Quero dizer, neste momento, com os últimos números, que já morreram cinco pessoas com Covid

E assim se podia encerrar uma conversa. É incrível. Mas perguntava-lhe, relativamente aos outros doentes, aos doentes não Covid, porque continua a haver pessoas doentes, continua a acontecer acidentes. No estado atual das coisas, estes doentes graves ou muito graves e urgentes que não têm Covid, começam a correr o risco de não receber os cuidados de que necessitam?

Sim. Repare, o problema não é só da Covid. Neste momento, todos os doentes correm o risco de poder não ter o melhor tratamento na janela temporal ideal. E isto porque, na verdade, o sistema está todo saturado. E nós temos isso a vários níveis, em termos de tratamento dos doentes, em termos de diagnóstico, e isso vai acontecer. Nós na primeira vaga vimos um fenómeno que foi uma diminuição enorme da procura dos serviços de saúde por outra patologia que não a Covid. Praticamente acabaram os acidentes de viação, ou reduziram francamente os acidentes de viação, a ida à urgência por outros motivos, o número de enfartes do miocárdio diagnosticados reduziu francamente. Uma parte do efeito da diminuição de atividade, faziam-se menos exames, menos diagnósticos de algumas patologias. Por outro lado, não havia tanto trânsito, não havia tantos acidentes. E depois as pessoas também tinham medo e não recorriam ao serviço de saúde. E isso pode, eventualmente, explicar parte do aumento da mortalidade, que houve comparativamente a anos anteriores. De alguma maneira, nós estamos com esperança que aconteça a parte boa desta diminuição da procura, ou seja, que haja menos acidentes, que haja menos outras doenças, mas menos francamente, e aqui relembro, por exemplo, o caso da gripe e das pneumonias, se as pessoas estiverem em casa, provavelmente há menos probabilidade de acontecer. E que consigamos passar esta fase sem muitos danos acessórios. Agora, não nos podemos esquecer que o problema que se vai pôr neste momento, isso que se põe nos doentes com Covid, é pouca procura de serviços de saúde neste momento.

Portanto, apesar de ter vindo tarde, pode ser que este confinamento ainda consiga resultado.

Sim, eu espero que sim, mas é uma coisa. Sabemos que o confinamento vai demorar tempo a fazer efeito. Sabemos que além de demorar tempo a começar a fazer efeito, em termos da medicina intensiva e hospital também, e vai haver sempre um intervalo de tempo entre esse efeito se começar a fazer sentir e se verificar no hospital e na medicina intensiva. Sabemos que os internamentos na medicina intensiva são internamentos muito prolongados. Portanto, em média, como eu disse, na primeira vaga, andaram nos 17 dias. O que quer dizer que só bastante tempo depois de se começar a fazer sentir o efeito, em termos globais, é que nós vamos ter um alívio em termos hospitalares. Ora, neste momento, segundo as últimas previsões, vai demorar, se não me engano, dizem que até maio de abril, para conseguirmos trazer os números nitidamente para baixo. E eu acho que não podemos fazer erros desta vez. Nós temos que ter um RT francamente abaixo de um, não é de um. Nós da primeira vez andamos a falar em RTs de zero sete. Nós temos que ter a coragem de assumir que queremos RTs na ordem perto do zero sete, não digo zero sete, porque não sei se é real, mas temos que ter RTs francamente mais baixos do que o que tínhamos e temos que trazer os números de prevalência francamente mais para baixo. Não podemos estar nos 960, é impossível. Temos que trazer os números muito mais para baixo. Quando chegarmos a falar os três mil, dois mil casos diários, eventualmente, menos do que isso até diria eu, é que poderemos começar a pensar em alviar medidas. Antes disso, acho que é impossível.

Estava a falar em abril.

Neste momento, nós temos a noção de que preparamos no mínimo para oito semanas muito duras. Estaríamos a falar de terceira a última semana de março, neste momento, para eventualmente começar a melhorar alguma coisa. Mas melhorar alguma coisa não é estarem as coisas perto do fim.

Claro. Para chegar ao fim ainda vamos ter que penar muito, não é?

Sim. Aqui acho que o cumprimento das medidas, não é as medidas em si, porque as medidas as pessoas todas sabem quais são. Mas o cumprimento das medidas tem que ser rigoroso, escrupuloso e universal. Não há outra hipótese.

Vamos esperar que desta vez seja assim, que as pessoas finalmente percebam com estes números e com os apelos de quem está a passar por isto. Doutor João Gouveia, muito obrigada pela sua disponibilidade. Bom trabalho.

Obrigado. Boa tarde.