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Semáforo Político da Rádio Observador, hoje com o diretor executivo do Observador, Miguel Pinheiro, e com a Judite França. Ainda nos falta ouvir o discurso de derrota de Kamala Harris, marcado para as 21h, hora portuguesa, mas já ouvindo o presidente eleito, já podemos ir fazendo algumas análises. Mas Miguel Pinheiro, é precisamente sobre o Partido Democrata e o futuro do Partido Democrata que queres falar neste dia de rescaldo.
Certo. Em primeiro lugar, é evidente que acertar no Totoloto à segunda-feira, toda gente faz.
É o sonho de qualquer pessoa.
Certo. E por isso nós estamos a analisar o que foi feito pelo Partido Democrata, conhecendo o resultado das eleições. E portanto, torna tudo isto mais fácil. E a vitória, aparentemente, foi folgada. Certo. Não foi taco a taco. Certo, precisamente. Kamala Harris vai falar daqui a nada. Na CNN Internacional já começou a surgir algumas indicações de que a equipa dela vai, de alguma forma, tentar culpar, não sei se nesse discurso, mas pelo menos em conversas com jornalistas e analistas, Joe Biden pelo resultado. Mas seja a culpa de quem for, é sempre do Partido Democrata, que realmente teve uma completa incompetência a lidar com aquilo que já se sabia que ia acontecer. Soube-se com muito tempo que Trump se ia recandidatar. Era conhecido há muito tempo o mapa eleitoral americano, em primeiro lugar, a necessidade de ter um candidato capaz, e até muito tarde os democratas acharam mesmo que era com Joe Biden que iam conseguir vencer Trump, e depois tiveram que improvisar com Kamala Harris. Mas além de tudo mais, tiveram uma total incapacidade de criar as chamadas coligações de voto, que são muito importantes nos Estados Unidos. Não conseguiram mobilizar nem convencer os eleitores tradicionais do partido, as coligações tradicionais. Nos Estados Unidos, a análise sociológica, demográfica é muito importante. Os mais novos, os mais velhos, homens, mulheres. Licenciados, não licenciados. Licenciados, não licenciados, negros, latinos.
A categorização é mais ao detalhe.
Exato. Até evangélicos e católicos. Certo. Mas de facto, o Partido Democrata, que nestes últimos tempos assenta muito nas minorias, mobilização de minorias, mobilização de mulheres, já perdeu a classe trabalhadora. O collar. Exato, já perdeu há algum tempo e agora está a perder, por exemplo, os latinos. Não conseguiu uma mobilização suficiente das mulheres com o tema do aborto e, por isso, está a ficar sem soluções. Porque o problema do Partido Democrata não é só o de ter um bom candidato. Porque muito bem, podemos dizer: esta candidata não resultou, aquele candidato não resultaria, mas a seguir vem outro que vai conseguir ser um bom candidato. O Partido Democrata acho que era um ponto em que nem um bom candidato os consegue salvar, porque a coligação eleitoral está a desaparecer. Eles não estão a conseguir ter propostas e soluções para aqueles eleitores que poderiam ser a base do partido. E isso realmente é muito preocupante, ainda por cima nos Estados Unidos, claro, não existem líderes partidários. Nós não temos o líder do partido.
Ficadas no ato eleitoral.
Sim, claro, existem responsáveis pelos partidos.
São coletivos.
Sim, o líder é quem tem poder. Se for o presidente, é o presidente. Se for a pessoa que está à frente da Câmara dos Representantes ou do Senado, o poder converge para essa pessoa. Ora, os democratas perderam a maioria no Senado, na Câmara dos Representantes está complicado, não têm a presidência, quem é que vai ficar? Não têm o Supremo. Claro. Será que alguém vai ficar a tomar conta daquilo? Quem é que vai ficar a tomar conta do partido e de que maneira, quem é que vai ter a autoridade para tomar conta do partido. E depois, é um partido que foi construindo a sua própria camisa de forças. O caso de que mais se tem falado nas últimas horas foi a escolha do vice-presidente. Havia um grande candidato à alternativa, que era o Shapiro, da Pensilvânia, que é o estado decisivo, e Kamala Harris esteve até o final entre Shapiro e o Tim Walz, acabou por escolher o Tim Walz. A narrativa que a campanha de Kamala Harris transmitiu cá para fora é que o Shapiro, na realidade, o que ele queria era ser presidente, queria ser uma espécie de copresidente, era alguém que estava mais preocupado com ele próprio e com o seu papel numa futura eventual administração Harris, do que com a vitória do Partido Democrata. Bem, em primeiro lugar, nós já tivemos várias duplas que se apresentaram como copresidentes, a mais conhecida de todas, o Bill Clinton e o Al Gore, que foram uma espécie de dupla maravilha, irmãos, não iguais na presidência. Mais complementares. Exato, em que o vice tinha um papel efetivo e tudo mais. Nós já tivemos soluções como essas, nada impediria isto. A narrativa foi esta Na realidade, uma das principais razões para Kamala Harris não escolher Shapiro foi a questão do Médio Oriente.
O facto de ele ser judeu.
Ele é judeu, absolutamente pró-Israel, e o Partido Democrata teve medo. Estava ali com o eleitorado dividido entre pró-palestinianos, uma grande fatia pró-palestiniana, que eles tiveram medo de alienar.
E que alienaram.
Acabaram por alienar na mesma, porque Kamala Harris, na realidade, não se afastou. Havia uma diferença muito sutil entre ela e Donald Trump, não se afastou de maneira nenhuma do apoio a Israel, mas escolher Shapiro seria um sinal que eles acharam que era queimar totalmente as pontes com o eleitorado árabe e com aquele eleitorado das universidades. Realmente, eu estou a imaginá-los a achar que iam ter estudantes universitários a fazer protestos em ações de campanha. Quer dizer, para citar a expressão de um político português: "Que se lixem os estudantes universitários que fizessem manifestações, eles têm é que conseguir os votos."
E não conseguiram os votos dos rurais com o Walz.
Não conseguiram nada. Foi uma enorme desgraça, mas acima de tudo, o partido não tem um plano para daqui a quatro anos.
Sobretudo quando parece que os republicanos vão tendo com a história de J.D. Vance, que se vai assumindo como herdeiro.
Sim, é evidente que o Partido Republicano também está numa posição difícil, porque na verdade o Partido Republicano passou a ser o partido de Trump. E existe ali um problema também. Mas pelo menos o trumpismo tem um plano. Claro que a sucessão não vai ser tão fácil assim. Não parece que a sucessão vai ser totalmente pacífica, limpa e sem problemas. Mas pelo menos existe ali um caminho. Os democratas vão ter agora que começar a construir esse caminho, e em condições dificílimas, porque de facto, eles não têm onde se agarrar, porque perderam tudo ou quase tudo. E lá está, foi incompetência própria. Até o sinal que vai ser vermelho é a cor dos republicanos. Portanto, pior é impossível.
Pior não fica.
Não fica.
E quem não fica na Federação Distrital do PS de Lisboa, Judite França, é Ricardo Leão, acabou por se demitir. Foi o artigo de António Costa, do senador do partido.
Foi, o artigo publicado no jornal Público.
Que ditou esta queda.
Claramente. Só um pequeno contexto. Ricardo Leão, toda a gente se recorda disto, defendeu o despejo sem dono na Piedade dos inquilinos de habitações municipais que tenham participado nos distúrbios que ocorreram na Metropolitana de Lisboa. Um bocadinho trava-línguas. E António Costa e companhia, que hoje escreveram, foi também Pedro Silva Pereira e José Leitão, que escreveram no Público, consideraram que ofendia a honra do Partido Socialista. Aliás, o título é: "Em defesa da honra do PS". E este título não é meigo para Ricardo Leão, que acabou por se demitir. Eu aqui, por acaso, tive razão à segunda-feira, porque tinha escrito de manhã que ele ia demitir-se. Tirou-me a punchline, porque entretanto demitiu-se. Mas objetivamente, depois foi muito mordaz também para Pedro Nuno Santos, chamando-lhe uma espécie de calculista taticista, que é uma coisa um bocado desagradável. E é um bom lembrete para Pedro Nuno Santos. Eu vou acabar rapidamente, que António Costa não está cá, está em Bruxelas, mas está sempre cá. Anda por aí.
Na sombra.
Anda por aí, na sombra. E portanto, Pedro Nuno Santos, quando puser o pé em Ramo Verde, António Costa vai recordar-lhe.
Vai estar em cima do ombro do líder do PS e agora fê-lo com o caso de Ricardo Leão. Judite França e Miguel Pinheiro no Semáforo Político da Rádio Observador.