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Estamos a uma semana das eleições no PS para a escolha do sucessor de António Costa: José Luís Carneiro, Daniel Adrião, Pedro Nuno Santos. Este último deu hoje uma entrevista ao jornal Público, que merece um vermelho no semáforo político da Judite França e do Bruno Vieira Amaral. Bruno, o convicto Pedro Nuno deixou de ser?

Patina um bocado. Mas antes de mais, é preciso sublinhar que Pedro Nuno Santos, e não só, José Luís Carneiro também, mas estamos a falar de Pedro Nuno Santos, neste momento está a combater em duas frentes. Por um lado, tem de falar pra dentro do PS, porque tem de conquistar o PS primeiro e, por outro, já está em pré-campanha eleitoral para as legislativas. Está como estão os outros líderes. Temos visto outros líderes partidários a dar entrevistas. Hoje acho que há mais uma de Mariana Mortágua e já estão a apontar para o país e Pedro Nuno Santos ainda tem que se dividir por estas duas frentes. Isso faz com que não possa hostilizar os governos dos quais fez parte. Por exemplo, há dias Capoulas Santos criticou João Costa, que disse que traiu António Costa com estas declarações sobre a reposição do tempo dos professores, e Pedro Nuno Santos não pode aparecer como um traidor, mas também não se pode colar demasiado ao passado, que é dele. E isto é um dilema de difícil solução. E a opção de Pedro Nuno Santos, para já, é traçar uma linha de continuidade entre os governos socialistas, do governo da geringonça ao de maioria absoluta, passando pelo governo minoritário de 2019, e reclama resultados positivos. Ora, os resultados estão à vista de todos, da educação à saúde, da habitação ao aumento do número de pobres. Esses são os resultados destes oito anos de governação desses diferentes governos do PS. E ainda bem que Pedro Nuno Santos afirma essa linha de continuidade, porque assim não é possível fugir às responsabilidades que também teve nesses oito anos de governação. E isto não incluindo o legado imaterial da geringonça, que foi o de desfazer um consenso de regime, de deixar a extrema-esquerda afastada do poder e de um partido que não ganha eleições governar o país. Nunca tinha acontecido. E aquilo que vier a acontecer agora após as eleições de 10 de março, muito se deve a esse tal derrubar do muro de que Pedro Nuno Santos tanto se orgulha. Eu estava a dizer que não é possível fugir às responsabilidades, mas isso seria num mundo ideal, em que a seriedade imperasse sobre o oportunismo. Mas nesta entrevista, a dada altura, Pedro Nuno Santos, sobre a baixa do IRS, diz isto: "Temos de fazer ainda a avaliação sobre se há, nomeadamente nos rendimentos mais baixos, um aumento de impostos que venha desde o tempo da troika. Um dos nossos objetivos é completar a destroikização do país." Afinal, parece que oito anos de governos socialistas não chegaram nem para avaliar, porque ainda não avaliou, nem para fazer a tal destroikização, que parece também que é o grande trunfo de Pedro Nuno Santos, o grande plano de Pedro Nuno Santos para o país. E esses oito anos também não deram para repor o tempo de serviço dos professores, embora agora já se prometa que vai ser possível. Como? Quando Pedro Nuno Santos é questionado sobre isso, ele, que esteve no poder estes oito anos, não sabe dizer. Diz que é preciso fazer as contas, esperar pela UTAO. Quando lhe perguntam também qual era o valor no programa de estabilidade pra dívida, também não sabe dizer, não se quer comprometer com o número, não quer arriscar. E é normal que ele não saiba as coisas, porque ele anuncia-se como um fazedor. Ele faz, e o quê? Se nós olharmos pra aquilo que fez nestes anos no governo, que tenha ficado, que permaneça como legado, o que é que fez? Há os planos pra ferrovia, que não saíram do papel, uma decisão extemporânea sobre a localização do novo aeroporto, que até criou uma crise no governo e para além disso, não há nada. Há uma pose, há habilidade política na negociação com os partidos à esquerda e não há mais nada. Portanto, é pouco, a mim parece-me pouco, mas pelos vistos para o PS chega, visto que é o grande favorito a ganhar as eleições no PS.

E é um vermelho também aqui pra ti, Judite França.

Sim, e eu começo pela resposta de Pedro Nuno Santos sobre a recuperação do tempo de serviço, porque na terça-feira, João Costa, ministro da Educação, que é apoiante de Pedro Nuno Santos e que não fez a recuperação total do tempo de serviço enquanto esteve na pasta, veio dizer em entrevista que afinal ia ser possível. Uma ideia nova na cabeça do ministro, que passa precisamente por ser apoiante de Pedro Nuno Santos. Agora, na entrevista de Pedro Nuno Santos à Renascença e ao Público, o próprio candidato à liderança tira o tapete a João Costa e diz que afinal a recuperação será faseada e não sabe se demora três, se demora quatro, se demora cinco anos, se é numa legislatura, se não é, que é preciso ver as contas, que é preciso estudar. Portanto, João Costa avançou com a ideia, que aliás, está na moção de Pedro Nuno Santos, mas de forma genérica, pra depois ficar a falar sozinho, porque Pedro Nuno Santos deve ter percebido pela reação da opinião pública que ninguém estava a acreditar que aquilo fosse possível. Depois, não vou falar da questão do IRS, mas vou falar da promessa da redução do IVA. Os jornalistas perguntam: "Então e em quê?" E Pedro Nuno Santos responde que o IVA é um imposto injusto socialmente, mas não diz em que é possível cortar, diz que é preciso analisar e compatibilizar interesses Sobre a TAP também não tem nenhum calendário para a privatização e também não tem pressa. Sobre uma possível gingonça, fica-se na dúvida. Percebe-se que tem muitas cautelas quando fala em alguns temas que podem ferir susceptibilidades dos potenciais parceiros. Diz na moção que é de evitar mexer na legislação laboral, que aliás era uma exigência do Bloco de Esquerda, mas na entrevista diz que é de evitar grandes transformações, mas pode ser melhorado. Portanto, é uma no cravo e outra na ferradura. Sobre a contratação coletiva, que é uma exigência do PCP, diz: se for preciso aprimorar, se for preciso, também fará. É difícil arrancar um não ou um sim a Pedro Nuno Santos. E eu, deste candidato, não esperava que fosse tão temperado. Aparentemente é temperado.

Na forma mais do que no conteúdo.

Não sei, neste conteúdo que mostrou nesta entrevista é altamente temperado e assim é muito difícil distingui-lo da postura de José Luís Carneiro. E eu não imaginava, por aquilo que se conhece de Pedro Nuno Santos, que afinal fosse um moderado. Mas é aquilo que Pedro Nuno Santos agora quer passar, é que afinal é um moderado e que não é o tal radical que tantos temem. E portanto, para isso, dá estas entrevistas que não dizem muito sobre o que é a pessoa e de facto deve querer estar a gozar da sua imagem pública e não estragar a imagem pública que tem dentro do PS, a tal pose que falava o Bruno. E portanto, não estragando essa pose, é melhor dizer assim umas coisas a meio da ponte que é para não se comprometer.

Pois, Judite, mas eu não sei se essa moderação não é simplesmente estratégica, por um lado, por estar naquele impasse. Sim, e para tentar não se comprometer e com outros, ou então também podemos presumir ou imaginar que se trata mesmo de não ter uma ideia daquilo que há para fazer e como fazer, porque revelou desconhecimento sobre os números, anunciar medidas, defendeu-se um bocado porque ainda tinha de fazer as contas e era preciso conhecer os números. Mas Pedro Nuno Santos não é alguém que esteja fora da realidade do governo. Portanto, deveria ter algum conhecimento dessa realidade, da realidade dos números. E se não o tem, a esta altura do campeonato, é estranho. Agora, percebo que mesmo que tivesse ideias para o país, um plano para o país, que nesta altura não lhe fosse conveniente anunciar, queimando pontes de que eventualmente poderá vir a precisar após as eleições.

E é por isso que eu acho que dá esta no cravo e na ferradura, não é? Deixando-se assim umas meias-tintas para precisamente não se comprometer. E ao mesmo tempo passa essa imagem de moderado, que é exatamente aquilo que Pedro Nuno Santos procura desde o início, fazendo-se munir de Francisco Assis pra isso mesmo.

Pedro Nuno Santos, o patinador em meias tintas, aqui na descrição da Judite França e do Bruno Vieira Amaral. Vermelho para o candidato à sucessão no Partido Socialista, depois desta entrevista que deu ao jornal Público, uma no cravo, outra na ferradura. O Semáforo Político fica por aqui. Desligamos durante alguns dias, mas estamos de volta na segunda-feira.