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Hoje vamos até ao Médio Oriente no Semáforo Político com a editora de Internacional do Observador, Cátia Bruno, mas primeiro passamos por São Bento com a Judite França. Pode acompanhar esta edição em FM, na rádio e também online, formato vídeo nas redes sociais do Observador.
Judite, vamos começar com a declaração de Luís Montenegro, a declaração famosa ontem ao país às 20h, horário nobre, hora normalmente escolhida para questões que implicam solenidades, gravidades. Foi esse o caso?
Não, não foi o caso. E não estávamos todos à espera dessa comunicação relevante.
Nós que não estava a ver o Benfica.
Certo. Há isso também. Que foi escolhido na altura em que estava a dar o Benfica. Mas a verdade é que declarações em horário nobre, declarações ao país, comunicações do primeiro-ministro em horário nobre, às 20h, são sempre declarações muito importantes. E não só a declaração não foi importante, não a considerei importante, e considerei até fora de tempo, como também achei bastante confrangedor ver as ministras da Justiça, da Administração Interna, ali ao lado, e depois um leque de chefes de força de segurança, todos alinhados. E foi para dar números de operações, e eu acho que essa não é a função do primeiro-ministro, para falar de 20 milhões de euros para 600 veículos. E aqui já começou a polêmica. O anterior ministro da Administração Interna diz que já estava adjudicado pelo anterior governo socialista.
Quem é o pai da medida.
Quem é o pai da medida. Agora o governo veio dizer ao Expresso que este valor é novo e que acumula ao que anteriormente foi lançado, portanto, vai haver desenvolvimentos garantidamente. Mas depois falou que foram desmanteladas duas redes criminosas, que normalmente é a Polícia Judiciária que anuncia. E ainda bem, porque é o papel da Polícia Judiciária desmantelar, e eu acho que desmantela várias, imagino, ao longo dos meses. E quando digo que é fora a tempo, se o primeiro-ministro tivesse vindo falar há um mês, naquela altura em que os bairros estavam em polvorosa, em que havia carros incendiados todos os dias, em que morreu um homem às mãos da polícia, outro ficou gravemente ferido porque atiraram um coquetel molotov enquanto ele conduzia um autocarro. Se tivesse sido nessa altura, vir dar uma palavra de confiança, eu teria entendido com mais facilidade. E, portanto, acho que isto foi a hora errada. Acho que a comunicação ao país tem que ser solene. Acho que a banalizou sem necessidade, ainda por cima vindo de alguém que tem sido muito meticuloso a falar, e que fala pouco e que escolhe as datas. Eu acho que depois ainda há ali momento em que baralha operações policiais regulares que estão inseridas numa ação chamada Portugal Sempre Seguro, com a investigação e detenção de alguns dos autores dos tumultos. E, portanto, eu tenho muita dificuldade em perceber esta comunicação, ainda por cima, quando ouvimos declarações do primeiro-ministro sobre a violência sobre as mulheres, em que o primeiro-ministro falou de percepções. Que a percepção é que não há mais casos, mas sim há mais denúncias. E depois vem fazer uma declaração a dizer que o país é seguro, mas, e traz um relambório de dados que são da responsabilidade das forças policiais, quanto muito das ministras que coordenam essas forças. E depois temos o primeiro-ministro a querer evitar a todo o custo que a ministra da Administração Interna fale. E isso também é grave.
É um dos piores momentos politicamente deste mandato de Luís Montenegro como primeiro-ministro?
Não acho que seja um dos piores momentos do mandato, acho que vamos ver piores.
A nível de comunicação.
A nível de comunicação, tens aqui um tiro no pé. Eu acho que tens um tiro no pé.
E é um precedente aberto.
E abres um precedente, sim, é um fato. E acho que já abriste no passado, quando foi a altura dos incêndios. Já abriste no passado quando o primeiro-ministro não deixou a ministra da Administração Interna falar. Nós já percebemos que há um problema de comunicação daquela parte, de fato. Agora, só para resumir, não me parece que o país tenha ficado com a percepção de que estamos mais seguros.
E este governo de percepções merece que sinal, Judite?
Eu vou dar um vermelho a esta opção da comunicação solene à hora dos telejornais para dizer tão pouco sim.
Cátia, tivemos uma boa nova esta semana, o cessar-fogo no Líbano, e a notícia hoje de que o Egito já está a trabalhar com o presidente dos Estados Unidos, eleito, Donald Trump, ainda não está em funções, para alcançar também o acordo para baixar as armas em Gaza. Podemos acalentar essa esperança?
A esperança é a última a morrer, mas eu diria que não será de todo tão fácil e rápido conseguir um cessar-fogo para Gaza como foi para o Líbano. Por duas razões muito simples. Primeira, ainda há reféns israelitas em Gaza e, portanto, a partir daqui, toda a negociação complica, como vimos nas outras tentativas em que houve cessar-fogo temporário e que não avançaram para além disso. E depois, porque há toda a questão de: e o que fazer depois do fim da guerra? Quem fica a controlar Gaza? Quem vai administrar aquele território? Israel não quer que seja o Hamas. O Hamas quer, ao mesmo tempo, manter-se relevante. Mas então, se não for nem Israel nem o Hamas, será quem? Os Estados Unidos e o Egito continuam a tentar soluções. Fala-se muito de tentar trazer os países do Golfo, como a Arábia Saudita, mas ninguém parece ter muita vontade de se meter dentro de Gaza, um sítio que de vez em quando volta a tornar-se um problema e, portanto, não me parece que haja uma solução muito simples e que não teremos um cessar-fogo tão breve como provavelmente muitos esperavam.
E a cor perante isto tudo que acabas de dizer?
A cor perante isto é um amarelo, porque o sinal do Líbano é positivo, mas não poderá ser um verde porque em Gaza continuam a morrer milhares de pessoas por dia e isso não parece estar perto de acabar.
Cátia Bruno, a editora de Internacional do Observador, juntou-se hoje ao Semáforo Político com a Judite França e estamos de volta amanhã, já à hora habitual.