Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Quando falo, descubro mais sobre mim e quando escuto, compreendo mais os outros. Mas quer abra a boca ou preste atenção, tenho cada vez mais a certeza de que somos todos malucos. Olá a todos, sejam bem-vindos a mais um episódio do Somos Todos Malucos, um podcast dedicado à saúde mental, autoconhecimento e conversas que eu espero que vos acrescentem algo. É um podcast da Observadora a partir desta sétima temporada. Todas as semanas, todas as quartas-feiras, temos aqui um convidado novo. Às segundas saem os intermédios, os mini episódios, onde estou eu sozinho a falar sobre os convidados que passam por aqui e alguns dos temas também. Já sabem, YouTube, Spotify, iTunes. Se estão a assistir no YouTube, venham aos comentários, deixem a vossa opinião, sugestões. Eu venho aqui sempre falar convosco. E partilhem as conversas para chegar a mais pessoas. Ora bem, há praticamente dois anos, eu pensava que era há um, mas a convidada de hoje disse-me que foi já há dois. Há praticamente dois anos nós tivemos neste podcast a Nini para falar da sua vida e da sua morte enquanto se aproximava do fim, devido a uma doença terminal. Nesse dia, também estava lá a convidada que está aqui hoje. Estava nos bastidores nessa altura. É a mãe da Nini, a Mariana Abranches Pinto, que já em 2019, portanto, nós gravámos o podcast em 2023, mas já em 2019, a Mariana tinha criado a Compasio, uma associação que, entre outros temas, procura desmistificar a morte. E hoje está aqui para falarmos sobre a Nini e sobre a Compasio. Mariana, muito obrigado.

Obrigada eu.

Muito obrigado. Temos muitas coisas para falar. Aliás, eu lembro-me que tu, na altura, quando gravámos o podcast, disseste logo: "Eu tenho uma associação que depois gostava de falar". E eu disse: "Sim, senhora, com certeza". E cá estás. Quando tu criaste esta associação, a Compasio, que vais explicar o que é que fala esta associação, mas já havia a ideia de que o caminho da Nini iria terminar onde terminou?

Não. Ela morreu em 2023, foi diagnosticada com leucemia em 2020 e a associação é criada em 2019. Portanto, eu nem sabia que ela iria ter leucemia.

Sim.

Mas agora nós já estávamos neste ambiente de doença, porque ela em pequenina já tinha uma doença de base, que se chama neurofibromatose, e depois, na consequência disso, teve um tumor nas vias óticas aos dois anos e fez quimioterapia dos dois aos quatro. E depois, ainda estava ela a terminar os tratamentos, tive eu o cancro da mama. E portanto, a doença já andava aqui na nossa vida há bastante tempo. E por isso é que eu me aproximei, mudei de profissão. Eu sou arquiteta paisagista.

Exato, sim.

Mas hoje em dia trabalho a 100% na Compasio e trabalho neste âmbito. Quero muito não me afastar destes temas, porque são mesmo importantes, porque se forem vividos com beleza e com compaixão, muda muito.

Ou seja, tu criaste em 2019 a associação pela influência da história da Nini, apesar de não ter essa leucemia, mas pela influência da história da Nini e da tua. Porque há o contexto da doença, mas há sempre depois aquela presença também da possibilidade da morte, que na realidade é uma coisa que nós aceitamos na maior parte dos casos, mas que às vezes certos temas parece que o trazem mais presente, não é? Foi por isso?

Sem dúvida. Quando foi ela, no início, foi brutal. Uma criança com dois anos ter a diagnóstico, foi brutal. Essa altura, para mim, deste período todo, foi a mais-

O primeiro diagnóstico.

O primeiro diagnóstico foi muito difícil. Fiquei mesmo muito revoltada. A minha bebê, não. Mas depois lá fomos caminhando e também fomos percebendo que ela fez uma quimioterapia nessa altura. Agora eu percebo, porque depois esta quimioterapia, estes tratamentos da leucemia, agora com 15 anos, foram brutais. Aquela quimioterapia, quando ela era pequenina, foi uma quimioterapia, não posso dizer a palavra fácil, mas tranquila, ela brincava, estava um bocadinho mal disposta, mas depois voltava a brincar. No início, pensávamos que ela ia morrer. Depois percebemos que não. Depois quando fui eu, também a minha grande preocupação eram os meus dois filhos, porque eu foi na gravidez do meu segundo filho, comecei com um nódulo na mama. "Não é nada, é da amamentação, não é nada." Depois ele nasceu, depois eu fui fazer novos exames e realmente estava com câncer da mama. Quando eu comecei a fazer quimioterapia, ele tinha três meses. E a minha preocupação maior era: se eu morrer, como é que os meus filhos vão ficar? Pronto, depois isso não aconteceu e mais tarde vem a Nini ter leucemia com 15 anos, em pleno Covid, que foi também bastante difícil. E depois morre passado três anos e foi um tempo longo, mas nessa altura já não houve estas revoltas. Também já tínhamos todos lá em casa uma maturidade diferente.

Curioso aí dois aspetos, que é: tu lidas nos primeiros dois momentos com a morte de duas maneiras diferentes. O sentimento de perder um filho e depois um sentimento de deixar um filho. É muito diferente?

Sim.

Mil vezes tu?

Mil vezes eu. Aliás, quando eu fiquei doente, que foi a seguir a ela, pensei: "Agora quero ser uma doente como a Nini". Mas não fui, porque sou adulta. Porque ela era criança, tinha dos dois aos quatro. Ela ia para o IPO.

E tu querias ir para o IPO assim também. IPO.

Não, mas quer dizer, chorava, picavam-na, mas depois quando ela estava bem, depois está a brincar, alegria. E eu também pensei que depois: "Não, porque a cabeça, o que é que vai acontecer?"

O problema é sermos adultos.

Sermos adultos, estamos a pensar no depois. Ela não, ela vive o momento presente. Claro, depois quando ela foi adolescente doente, já não era assim, mas viveu de uma maneira Extraordinária. Viveu de uma maneira extraordinária, mas pensava nas coisas, já não era assim. Mas foi isto tudo que fez-me mudar. Eu a certa altura estava a ir mais a congressos sobre acompanhar pessoas doentes, sobre a morte, sobre isto tudo, do que congressos de arquitetura paisagista. E depois percebi: "Não, é isto que eu quero."

Mas qual era a tua perspectiva da morte ou do luto? Como é que tu vivias o luto antes de criares a associação e antes de passares por esses processos? Tens ideia? Acho que às vezes nem pensamos muito nisso.

Já não sei bem. Sei que mudei muito. Acho que cresci muito. Não quero crescer, eu quero ficar por aqui. A pessoa depois cresce com estas coisas, mas acho que cresci. Fui mudando, fui aceitando, fui vendo que em tudo pode haver caminho, mas já nem sei bem dizer quem é que eu era antes. Sou o que sou, também fruto destas experiências todas.

A associação nasce em-

2019.

2019, com esse objetivo de mudar.

Das comunidades compassivas. O grande tema são as cidades e comunidades compassivas. É um movimento internacional, que já há em várias cidades, que em Portugal estamos a começar.

Ou seja, tu descobriste esse movimento.

Descobri. E disse: "É isto que eu quero." Depois fiz um curso sobre comunidades compassivas e depois eu e vários, eu sou uma das fundadoras, criamos esta associação muito com esta ideia de tornar o Porto uma cidade mais compassiva. No fundo, a associação fala com base na compaixão, aborda estes temas tabus da nossa sociedade, que é a morte e o luto, e quer muito que nós todos, como comunidade, nos capacitemos a cuidar das pessoas, a não abandonar, que é o que nós vemos muito. "Não sei o que lhe dizer. Ela está doente, não vou ao hospital, porque eu não sei o que dizer." Começamos com os medos todos.

Isso acontece muito.

Acontece totalmente. E as pessoas ficam abandonadas. Ainda ontem eu vi uma senhora que o marido tinha esclerose múltipla e cada vez foram ficando mais sozinhos, porque: "Custa-me tanto vê-lo assim. Eu não vou lá visitá-lo, porque eu não sei o que lhe dizer." E eles foram ficando cada vez mais sozinhos. É esta a sociedade que queremos viver? Eu não. Então é muito esta ideia de falar destes temas para nós não fugirmos tanto deles e capacitar-nos a nós todos. E também porque há a ideia de: "Isso é para os cuidados de saúde. Isso é para os cuidados sociais." Não. É para eles, sim, mas é para nós, comunidade, porque esses cuidados são toca e foge ou é o tempo que for preciso. Depois o resto do tempo o que é? As pessoas estão-

Exato. As pessoas muitas vezes estão em tratamentos ou até estão acompanhadas porque estão num processo de tratamento, mas quando acaba esse processo?

Pois é isso.

Voltam para a onde?

E estão sozinhas. E não: "Não quero, não vou falar disso." Não. Vamos, não abandonemos, vamos estar com a pessoa, vamos marcar presença da forma como cada um entender e segui-la. Não é preciso dizer muita coisa. Ainda hoje, esta formação que fui dar hoje era muito sobre isto. O silêncio é melhor do que frases feitas. Nós quando estamos com pessoas em sofrimento, temos aqui uma lata de botões. Carregamos, porque ouvimos os pais a dizerem, os avós a dizerem, a sociedade toda a dizer, e dizemos, e depois magoamos, e nós não queríamos magoar. Por exemplo, temos um workshop na Compassio que se chama: "Socorro, a minha prima está doente, o que eu lhe digo? O que eu não digo?" E fazemos isto e convidamos pessoas doentes a dizerem o que gostam ou não gostam de ouvir.

O que a maior parte das pessoas não gosta de ouvir?

Conselhos. A maior parte das pessoas, o que diz, e pessoas totalmente diferentes. A Nini foi uma das convidadas deste workshop, e eram pessoas com doenças muito diferentes e de idades muito diferentes, e todas diziam o mesmo: "Cala-te, escuta-me. Só escuta-me."

Tu sentiste isso no teu próprio processo?

Sim, não tentes mudar, não tentes dizer: "Está tudo bem, vai correr tudo bem. Sei perfeitamente o que tu sentes." Não sabes. Mesmo que já tenhas passado por um cancro, não sabes.

É diferente.

É diferente, cada um vive isto de uma maneira muito única e é muito isto. Uma pessoa que sabe escutar é muito difícil, por isso na Compassio fazemos muitos cursos de escuta consciente e compassiva, e que é muito isto, o silêncio é melhor do que frases feitas.

Isso, na realidade, é o mesmo que num casamento.

Também é.

Não é verdade?

Também é. Aprender a escutar é sempre uma grande aula.

Eu aprendi, e eu cometo muitos erros ainda neste campo, mas a minha mulher um dia foi preciso dar-me um berro e dizer-me: "Eu não quero que tu me dês opiniões, eu não quero que tu me dês soluções, eu só quero que tu oiças."

É isso.

E eu pensei: "Ah!"

É isso. E fazer espelho. Uma das coisas é silêncio, escutar e se quisermos usar uma maneira, é fazer espelho. "Então o que me estás a dizer é isto?" E a pessoa pode dizer, muitas vezes eu faço isso: "É isso mesmo." Eu não disse nada de novo, só tentei apanhar o que eu percebi que era importante para ela. Mas sempre a pergunta, porque ouvimos mal. Ou então a pessoa diz-me: "Não é nada disso." Não tem mal, continua a fazer a sua, está a vazar o que sente, o que pensa. E eu estou a acolher.

Eu às vezes tenho tendência para dizer uma coisa que é, quando as pessoas estão a contar a sua história e dizem: "É uma grande merda." Acho que às vezes ajuda eu validar isso.

Sim.

E dizer: "Tens razão, é uma grande merda. Mas é o que é. Estamos cá para o que for preciso ajudar." Também é uma frase que se usa muito: "Estamos cá para ajudar."

Sim.

Mas se calhar esta não é tão má.

Não, essa é boa. Acho que a narrativa deve ser sempre a narrativa do "eu estou contigo, eu não te abandono." É esta do eu luto contigo. Eu estou contigo. Agora, a narrativa da batalha, não. Essa não queremos. Narrativa da luta.

Eu acho uma coisa horrível.

Horrível.

Não sei se concordas.

"Venci o cancro."

Ou perder.

Vão-me dizer que a Nini perdeu o cancro? Peço imensa desculpa, mas a Nini venceu, mas mais que venceu, se existe essa palavra, não interessa para este-

Porque é assim.

Que é a maneira como ela viveu, o que é que interessa? Não somos nós que-

O resultado não depende muitas vezes de nós.

As coisas não estão nas nossas mãos, o controle é muito pequenino. Mas também não são as coisas que nos acontecem que nos fazem, é a forma como nós vivemos as coisas que nos acontecem.

Eu acho isso tão feio nos jornais, quando vem assim: "Perdeu a luta contra o cancro."

Acho horrível.

Como é que as pessoas sabem o que é que ele perdeu?

Ou então ganhou. "Eu venci o cancro." Desculpa, e os médicos, e os auxiliares, e os investigadores, e a tua família?

E aquelas pessoas que têm uma atitude de merda e que mesmo assim vencem o cancro? Também há.

Outras que estão revoltadas, que não creem em nada, que sobrevivem. Essa conversa, não. Voltando à Compasio. A Compasio é uma associação sem fins lucrativos, trabalha em três áreas: sensibilizar e capacitar para uma cultura compassiva e para a naturalidade da morte e do luto. Somos conhecidos como a associação que fala da morte e com muito orgulho. Mas não falamos só disso.

Associação das Carpideiras. Ou Anti-Carpideiras.

Não, podem chorar, podem chorar à vontade. Desde que seja autêntico.

Exato, mas as carpideiras eram conhecidas por não ser autêntico.

Não eram autênticas. Falamos destes temas, mas também falamos da beleza, também falamos do sentido de vida. Mas muito isto, falar destes temas tabus, pô-los na mesa, pôr as pessoas a conversar. Fazemos death cafés.

O que são os death cafés?

É uma tertúlia à volta da morte. Não foi inventado por nós, existe já há muito tempo. Quando costumo ir a mesa a um death café, vou ver-

Há cafés e bolos?

Há café e bolo. E uma mesa redonda, se possível. À volta de uma mesa é sempre tudo mais fácil. E as pessoas conversam, não queremos chegar a lado nenhum. E as pessoas conversam. Uns rimos, outros choramos. É conforme aquelas pessoas estiverem ali, não há um único death café igual. E eu brinco muito sempre no início de death cafés e digo: "Olhem, eu já vim a muitos death cafés. Eu vou morrer, de certeza absoluta, mas não é o falar da morte que faz ela vir mais depressa. Ela virá, não sabemos quando vier. Mas é bom falar dela." E muitas vezes, por exemplo, uma rapariga uma vez disse-me: "Olha, a seguir ao death café, no almoço de família no domingo, eu disse: hoje o tema é a morte."

Para estragar o clima.

E a família ficou toda, "ai, ai". E ela disse que foi uma conversa espetacular. Aquilo deu azo aos pais dizerem o que é que queriam, o que é que não queriam. Não começaram a falar daquilo todos os almoços de domingo. Nem é para isso. Mas isto é no sentido positivo, é lembrar a finitude. Isto é mesmo curto. Isto é mesmo curto, isto é mesmo frágil. Estou a ser a pessoa que eu quero ser? Ou nós temos medo de falar da morte, é porque temos medo de olhar para a vida de verdade. Estou a ser a pessoa que eu quero ser? E é muito bonito também. Não só, mas também.

Eu acho que temos medo também de falar da morte, porque torna demasiado real a brevidade da coisa.

E é verdade. A Nini morreu com 18 anos. Mas já dizia o Sêneca: "Uma pessoa ter cabelos brancos, não quer dizer que viveu muito, quer dizer que existiu muito." A Nini não tinha cabelos brancos, mas viveu muito.

A Nini, eu lembro-me quando ela estava lá na conversa, ela já estava muito debilitada na altura.

Estava muito, estava com coisas até na boca.

Ela faleceu para aí passadas duas semanas.

Sim.

Mas então as frases dela eram mais curtas, mas muito pragmáticas.

É.

Agora, eu estava aqui a pensar, quando tu crias a associação e ok, estou a falar sobre a morte, vamos falar sobre isto e de repente, pumba, cai essa notícia. Não sentiste revolta nenhuma, em momento nenhum?

Não. Senti, agora tenho que ser verdadeira. Ando a vender isto. Eu ando a vender isto há tempos e estou muito perto dos cuidados paliativos e ando a fazer cursos. E agora tenho é que viver. Realmente, eu sinto que a vida me preparou para viver o que eu tive que viver. Preferia mil vezes não ter vivido.

Percebo, lógico.

Se não há dúvida que eu estava preparada. Eu não estou preparada, ninguém está preparada, mas quer dizer, tinha as ferramentas possíveis para viver o que tinha que viver. Por exemplo, fui eu que lhe disse. Não lhe disse as palavras "tu vais morrer", mas que lhe disse. Tivemos uma conversa. Pronto, fui eu que lhe disse. Senti-me capaz disso. Senti-me capaz de lá em casa não pôr o elefante na sala. Sabemos todos que ela vai morrer, não vamos falar disto. Não, falávamos disto. Ela disse como é que queria, queria doar o corpo à ciência. Aliás, foi das primeiras decisões que ela tomou. E nós, por exemplo, falávamos, "quando a Nini morrer," dizíamos isto. Ia acontecer. Falávamos disto. Não deixávamos nada por dizer. Não era toda hora, todo o momento.

Claro.

Mas permitia vazar as coisas.

Mas há um peso em falar essas coisas.

Claro.

Não vamos...

Não, mas sei eu muito bem.

Pois.

Mas permitia o quê? Ela falar das coisas, nós falarmos das coisas. Por exemplo, ela quis doar o corpo à ciência, o irmão não choupia nada nenhuma a isso. Nós dissemos: "Desculpa, mas ela quer, é uma decisão dela."

Eu também não sei se quero doar o meu. Porque depois as pessoas vão, imagina os alunos veem. "Olha, este é o Raminhos. Deixa cá ver o tamanho do pênis do Raminhos." Não sei se quero. Muitas vezes já pensei nisto. Vou morrer e depois as pessoas vão me ver. Ainda há uns tempos tive uma cirurgia e estava no bloco, a entrar no bloco e estava tudo a olhar para mim.

"Olha o Raminhos!"

"Olha o Raminhos, vais ser operado. Deixa cá ver o que é que vais fazer."

Sim, é diferente.

Não, estou a brincar. Acho que sim, eu também sou o gajo para fazer isso.

Não, mas não deixamos ser tabu. Porque há pessoas que deixam. Até os profissionais de saúde dizem que é a conspiração do silêncio. Todos sabem que vai acontecer.

É aquela paz podre.

E quando fizermos uma viagem, toda a gente a saber. Que isso não é verdade. Achas que isso faz bem? Isso não faz bem a ninguém.

A não ser que...

A não ser que a pessoa que está no centro queira, sei lá, não sei. Mas o que eu sei é que-

A Nini brincava?

Brincava.

Brincava com a própria morte ou não?

Sim, aceitava. Não tinha problema nenhum. E o que é que permite às pessoas que estão no centro, que são as pessoas que vão morrer, fazer as tarefas de fim de vida, que é poder dizer obrigada, desculpa, eu amo-te. Se não falamos disto, se fingimos que não vai acontecer, quem o quer fazer, não o faz. E isto é muito libertador.

Sim.

E eu também, o que eu sinto muito é: sinto, primeiro, uma gratidão brutal de ser mãe. Eu continuo a ser mãe. Eu não fui mãe. Ser mãe da Nini e do Kiko também. Tenho uma gratidão brutal de a ter tido comigo os nove meses na minha barriga, os 18 anos que ela viveu e agora estes quase dois anos em que a sua ausência tem sido uma presença. Uma gratidão brutal. Depois, uma paz imensa, porque não deixámos nada por fazer, não deixámos nada por dizer. Sinto uma paz imensa. Depois, umas saudades brutais. Mas não tenho dúvidas que a paz e a gratidão estão por cima das saudades. E como tu dizes, que vais transformando essas saudades também.

Acho que podemos falar desta campanha, que é o "Em luto contigo", que é dar voz à perda, da qual eu faço parte, a Mariana convidou-me. Pessoas assim mais conhecidas sou eu, a Laurinda.

Mais ninguém.

Eu e a Laurinda. E depois são pessoas que fazem parte da associação também.

Sim, que fizeram os grupos de partilha comunitários, pessoas em luto ou retiros para pessoas em processo de luto.

E em que tu pediste uma frase que me relacionasse com o luto.

Sim, o que é que gostas ou não gostas de ouvir sobre o teu processo?

Estávamos há pouco aqui a falar. Podia ter falado do meu irmão, que morreu antes de eu nascer, porque estávamos a falar exatamente do facto de eu não saber nada sobre o meu irmão, porque não se falava. E uma das frases que eu podia ter dito era sobre o meu irmão e dizer: "Eu gostava que me tivessem contado histórias do meu irmão." Mas escolhi os meus pais e escrevi: "Aprendi a transformar a dor da perda em memórias e as memórias em sorriso." Por que eu me lembrei desta frase? Porque eu quando me lembro dos meus pais, eu lembro-me com sorriso. É engraçado.

Que bonito. E é isso, é muito isto. E o objetivo desse movimento, uma campanha, mas que é para transformarmos num movimento, é isto. O que é que tu gostas ou não gostas de ouvir? Para nós aprendermos. O que é que devemos ou não devemos dizer às pessoas em processo de luto? E muitas dizem isso. Eu quero falar do Guilherme. Eu quero que me perguntes da Nini. Por exemplo, se fosse eu, eu dizia: "Eu sou a Mariana, sou a mãe da Nini, e o que eu mais gosto de ouvir é: 'Eu seguia a Nini, a morrer comigo. Tu não sabes o que a tua filha tem feito por mim, que a tua Nini'" ou tu, é.

E que ainda faz.

E que ainda faz. Portanto, atualiza, ela está viva. Ainda no outro dia alguém que estava em luto disse-me isto: "Tu não sabes o que a tua Nini tem feito por mim." Hoje. Ela não conheceu a Nini viva. Portanto, torna a Nini viva, é o que eu mais gosto de ouvir.

A Nini. Achas que o facto de trabalhares na associação também ajudou a Nini a-

Sem dúvida.

A encarar de outro modo?

Sem dúvida. Não tenho a mínima dúvida.

Que ela acompanhou o teu trabalho.

Acompanhou. Ela sabia: "A mãe está sempre em dé de cafés, a mãe agora vais para o dé de café, agora não sei o quê." E eu falava destas coisas em casa. E ela assumiu isto totalmente. Foi uma embaixadora dos cuidados paliativos, embaixadora da vida. E, por exemplo, nós temos um dos workshops que se chama: "O que será importante para mim quando eu estiver a morrer?" E temos um baralho de cartas, como se fosse cartas de jogar à séria, mas depois tem frases que as pessoas que estão em fim de vida costumam dizer que é importante para elas, como não ter dor, não ter falta de ar, ou ter os assuntos económicos tratados, ou estar acompanhada. E eu joguei este jogo com ela, porque a coisa mais poderosa é jogar com a pessoa que está mesmo em fim de vida. E eu tinha que tentar adivinhar o que era importante para ela. E jogámos assim. Três montinhos. Eu fiz os três montinhos dela e adivinhei quase tudo. E ela disse: "Mãe, tu sabes mesmo o que eu quero. Portanto, se eu estiver numa fase em que eu não possa expressar o que eu quero, tu vais me defender, que eu não quero mais invasões, mais..." E outras coisas. E depois havia uma cartinha que eu sabia que não seria muito importante, mas pus no meio. E houve coisas que eu não acertei. Por exemplo, não ter dor. Eu pus no mais importante, como é óbvio. Ela pôs no meio. Não ter falta de ar. Eu pus no mais importante, como é óbvio. Ela pôs no meio.

O que ela pôs mais importante para ela?

Era estar acompanhada, confiar nos profissionais de saúde que estavam com ela, poder dizer o que pensava, coisas assim. Então essa cartinha era: sentir que a minha vida está completa. E ela disse-me: "Ó mãe, eu nunca vou escolher." Isto foi para com 16. "Eu nunca vou escolher essa carta porque eu sou muito nova para morrer, eu nunca vou escolher." Eu disse: "Tens toda a razão." E eu disse: "Olha, mas essa é a carta mais importante para mim. Se o jogo fosse para mim, é para isto que eu luto, que eu vivo todos os dias, com muitos erros, com muitos perados pelo meio, mas tentar ao fim do dia, fui a pessoa que me sinto chamada a ser. Se morresse agora, morri. Não quero."

Sim, fazer essa questão.

Mas pronto. E depois, mais tarde, tinha ela 17 anos, quando fez 17 anos, e foi agradecer às várias pessoas que a apoiam, que foi uma coisa brutal, que nós tivemos uma verdadeira comunidade, eu não tenho vida para agradecer o que fizeram por nós, como nos acompanharam. E acho que também tem muito a ver com a forma aberta como nós falámos. A Nini é para estar na comunidade, é para estar na família, é para estar com todos. Tivemos um retorno enorme. Mas ela então nesse dia agradeceu e depois disse: "Dentro do possível, sinto que a minha vida está completa." Quer dizer, o mérito é totalmente dela, mas foi o falarmos disto e se calar jogarmos este jogo, que fez isso ir trabalhando dentro dela e eu não tenho a mínima dúvida que ela morreu com uma vida mais que completa. Gostaria muito mais que tivesse vivido muito mais tempo. Mas morreu totalmente sã, sana. O corpinho não dava para mais, mas morreu sã. Viveu de uma maneira, quer dizer, deixou-nos um legado a todos. Ela dizia muito que falarmos da morte, ela deixa de ser uma barreira, tem frases lapidares dela.

Houve lá frases que ela disse, ela coitada, já não falava, era frases curtas, mas havia coisas que ela dizia que eu: "Ok. Pronto, então ficamos por aqui."

Brutal. E ela quando disse: "Pai, vou criar um TikTok", que ela criou. Depois também tinha um podcast que começou, mas foi só poucos episódios. E nós dissemos: "Está bem." Quando vimos o nome, a morrer comigo, não achamos piada nenhuma Hoje em dia eu acho brutal. E depois tem um subtítulo genial que diz: "Cuidados paliativos, receitas e tolices". E tinha futebol também, que ela era louca por futebol.

Do Porto.

Do Porto. Mas ela misturava tudo. Falava da morte abertamente e depois mandava uma piada e depois uma receita. Brutal! Mesmo um exemplo enorme. E uma das coisas que eu também mais aprendi com ela é isto do viver o agora. Adaptava-se ao que era possível. Ela queria fazer muitas coisas. Planeava só o dia seguinte, não planeava muito mais à frente.

Pois.

Mas depois, se não era possível, adaptava-se e arranjava outro plano.

Na realidade, era o que nós devíamos fazer, não era?

Todos.

Ok, temos os nossos trabalhos, desejos e sonhos, e se tivermos uma vida normal, claro que podemos planear a longo prazo, mas com a consciência de que não sabemos quão longo vai ser esse prazo.

Pois não.

O ideal para pessoas que lidam com a ansiedade, como eu, e a perturbação psicocompulsiva, seria mesmo isso, o planear só o dia seguinte.

É isso.

E adaptar-se.

E adaptar-se. Acho que é de uma sabedoria brutal. E também a maneira como ela viveu a doença e a finitude. Quando eu lhe disse isso, ela a certa altura diz: "Mas estás-me a dizer que eu vou morrer?" E eu não fui capaz de dizer. Chorou um bocado, depois passado um bocado, disse: "Então vou doar o meu corpo à ciência." Doou. "Então vou doar o meu dinheiro todo." Não doou, gastou ele todo, maravilha. Muito bem.

Doou às empresas onde gastou.

E começou assim. E eu pensei: "Ela vai cair."

Achaste que era negação?

Achei que sim. "Esta é a reação agora do momento. Ela vai cair desta aceitação toda, tem que se revoltar, é muito nova, por amor de Deus!" Nunca, Raminhos. Nunca. É a coisa que mais-- nunca.

Por que achas?

Sei lá.

Era maluca.

Era maluca. Somos todos malucos.

Exato.

Ela é mais maluca que nós todos juntos.

Sim.

Aceitou. Mas adaptava-se e ia arranjando objetivos de vida, mas mais para o fim estava difícil. Esta coisa do termos tido tempo, foi uma grande graça. Tivemos tempo para nos despedir, para fazermos tudo, os desejos, tudo. Mas depois também já estava a ser, porque depois ia morrer, depois não morria, depois ia morrer, depois não morria.

Sim, estou a entender.

E ela própria, para gerir. "Então, agora qual é o meu objetivo? Arranjar objetivos muito curtos." Foi muito duro, mas foi de uma beleza indescritível, que eu não consigo expressar em palavras, mas muito duro.

Há aquela ideia que muitas pessoas têm. Isso aconteceu, por exemplo, com o meu pai, e depois uma pessoa ao mesmo tempo sente-se mal, mas nós não controlamos os nossos pensamentos. A minha mãe esteve nos cuidados paliativos e o meu pai esteve acamado nos últimos dois anos, e quer num, quer no outro, chegou uma altura que nós já só desejávamos que aquilo acabasse. Vocês sentiste isso?

Senti, muito bem.

Mas depois há um julgamento, às vezes, uma pessoa fica-se a sentir mal, pelo menos eu, às vezes ficava, mas tinha que entender que para além de não controlar os pensamentos.

Sim.

Não é um desejo, obviamente.

Não é um desejo...

É um desejo quase de amor, ao mesmo tempo.

Claro que é. Eu disse-lhe: "Deixa-te ir, vai."

Eu disse ao meu pai.

"Vai, nós ficamos bem. Deixa-te ir."

Eu disse ao meu pai, mas ainda o meu pai não estava doente, ainda estava bom. Coitadinho, já estava mesmo...

Não, realmente, à altura já.

Eu disse-lhe também: "Está tudo bem, estamos todos bem. Já falámos tudo o que tínhamos a falar, estás à vontade."

É isso.

Mas não é fácil e é engraçado que o meu pai, quando a minha mãe estava nos cuidados paliativos. Se calhar tu saberás melhor do que eu, mas esta cultura de luto e de morte que nós temos é uma coisa muito ocidental, muito material e muito enraizada em certos hábitos. Porque, por exemplo, uma coisa que eu já partilhei aqui também foi: nós íamos ver a minha mãe aos cuidados paliativos e a seguir eu e os meus irmãos íamos almoçar e o meu pai não gostava de vir almoçar connosco, porque almoçar fora era sinal de festa.

De festa, pois.

E não se pode festejar enquanto a tua mãe está deitada numa cama. E eu acho que há muitas pessoas que cultivam o medo, não sei, mas é uma perceção, que se calhar cultivam este medo de voltar a ser feliz.

Sim.

Não é bem um medo, é a impossibilidade. "Eu sei que até gostaria, mas não posso." Sentes isso ou não?

Sim, de algumas pessoas. "Não posso ir àquele casamento, porque a minha mulher morreu. O que é que as pessoas iam dizer?" Também muito a questão não só pessoal, mas também social. Ouve-se muito isso. Mas o luto são ondas. E a pessoa não tem que estar sempre em sofrimento. Tem que vivenciar, não há outra forma. Vivenciar a dor, não há outra forma de viver o luto, tem que se vivenciar.

Como é que as pessoas impedem que o luto surja? Há pessoas que não fazem o luto.

Não querem, põem para baixo.

Mas como é que o tapam?

Sei lá, fogem ao tema. Eu tento não o fazer, mas fogem ao tema. Não se permitem. E não há outra forma. Se nós não expressarmos os sentimentos, não os sentirmos, vamos ficar mal. E pode-se acontecer agora e depois mais tarde vêm bater cá à porta, vão-se acumulando e depois vão sair de uma maneira...

E depois sai à bruta.

Depois sai à bruta, que não é o que queremos. Nós na Compas seguimos muito uma teoria, que é a teoria do William Worden, que ele fala em tarefas. Eu a primeira vez que ouvi: "Tarefas? Estou de luto, não tenho tarefas."

Ainda tenho que ir trabalhar.

Mas depois percebi. Há alguma coisa que eu posso fazer. Não é uma coisa que passa por mim, como antes falavas das fases. Não, há alguma coisa que eu posso fazer. E uma delas é esta, é a tarefa de vivenciar a dor, vivenciar os sentimentos, aceitar a realidade da perda. Agora não me estou a lembrar das outras.

Mas, por exemplo, essa de viver os sentimentos e as emoções Mas a partir de que momento é que tu achas que tem que se sair daí?

Não tem tempo. Todos os estudos dizem do luto: "Isto não tem tempo." E é o que nós fazemos em sociedade. "Apressa-te, já chega, tu já não estás há um ano, já não é hora de andar para frente." Não, isso não ajuda. Está aí na campanha. Alguém no movimento diz: "O meu tempo não é o teu tempo."

Mas não sei se está aqui nestes queridos.

Desse movimento, o que eu penso muito é: realmente, o melhor é não dizermos nada. Porque há aí frases que eu também não diria. Se eu fosse a pessoa, não diria. Portanto, o melhor é não dizer nada, mas marcar presença, estar com a pessoa, fazer espelho, dizer: "O que eu entendi que tu me disseste, que me estás a dizer é isto? Faço isto muito bem." "É mesmo isso, eu não disse nada de novo."

Sim.

E estar com a pessoa, não abandonar. Não falar muito, deixar a pessoa falar. Acho que é muito isso.

Como é que entendes o significado da morte na jornada da vida? É um fim, é uma transformação?

Para mim, é uma transformação. Acho que a morte não é o contrário da vida. O nascimento é que é o contrário da vida. Ao nascimento, há o morcimento. Acho que nascemos e não morremos mais. Acredito muito que há vida depois da morte. Como é? Não sei.

E achas que isso ajudou?

Sim, acho que sim. Mas também vejo muita gente-

Pois é isso, ia te perguntar, pessoas ateus.

Vejo muitos ateus e que também vivem, é o amor, e que vivem bem isto, de não acreditar, também vivem bem. O que estivermos cá. Amei, deixei-me amar, isso é o que interessa. Portanto, também não absolutizo isso, mas para mim é importante isso.

Eu já tive cá duas médicas que trabalham nos cuidados paliativos do Porto.

Eu conheço uma delas.

A Manuela.

A Manuela Vidigal, sim.

A Manuela e a Maria, acho que ela era a responsável dos cuidados coletivos do IPO, no Porto, no São João. Mas ambas vieram aqui, e aconselho-vos a ver esses podcasts, que vieram muito falar dessa perspectiva das coisas estranhas que acontecem na hora da morte e que, seja um desejo, ou seja o que for, abrem uma perspectiva de como é que se diz na igreja? Mistérios da fé. Os mistérios da fé e os próprios mistérios da vida. De coisas que acontecem. Tu, que também lidas com os cuidados paliativos, já vivenciaste histórias dessas ou não?

Não. Eu depois não acompanho pessoas assim muito no concreto. Não. Acompanho mais pessoas em luto, mas não, assim, pessoas, não. As outras tarefas, agora não, quase que esqueci.

Sim. Normal.

Que tinha falado isto e agora não me lembro.

Deixaste-me lá.

Informação para profissionais em cuidados.

Olha, mas isso é uma boa questão. Tu foste dar uma formação para profissionais de saúde em cuidados paliativos?

E em oncologia. Sim, vários.

Essa formação que foste dar é exatamente no sentido da compaixão e da empatia?

Sim.

Achas que existe essa falta ou é as pessoas não saberem como usar?

Talvez não saberem como usar. Normalmente, as pessoas têm todas uma tendência para, se estão nestas profissões.

Sim, se é que estão na área.

Estas profissões têm tendência, querem ajudar, mas depois muitas vezes não sabem como ou dizem disparates. Ainda hoje falamos destas frases proibidas, o que não devemos. Às vezes aprendemos melhor o que não devemos fazer, porque o que devemos fazer é muito particular com que forma as pessoas. E tem muito mais a ver com a minha atitude de fundo, presença, hospitalidade, compaixão, autenticidade. Agora, se calhar é melhor não dizer nada, nestes casos, não dizer nada e só escutar a pessoa.

É muito curioso, porque nós somos seres sociais. A nossa evolução marca-se por isso, por nós sermos seres sociais e de contacto, embora alguns sejam bichos do mato, como eu. Eu não gosto muito de festas, nem de estar muito ao pé de pessoas. Mas é curioso, porque o que tu estás a dizer é muito isso. Muitas vezes mais do que dizer, a presença marca exatamente pela presença, e não pelo que se diz. Qualquer coisa, seja no momento-

Seja no que for.

Lá está, olha, seja num casamento, seja numa amizade, seja num problema, seja na morte, é o estar.

O estar, marcar presença.

Marcar presença.

Marcar presença. E um abraço, atitudes.

E o contacto.

Sim. Por exemplo, no funeral da Nina, uma amiga veio me dizer: "Dás-me as chaves da tua casa?" Eu dei-lhe. E cheguei lá e tinha comida feita, tinha camas feitas, tinha as coisas todas.

Fogo.

E eu disse-lhe depois mais tarde: "Não sabes como me ajudaste." E ela disse-me: "Não, tu é que não sabes como me ajudaste, porque eu queria vos ajudar, não fazia ideia como. E tu deixaste ser ajudada." Portanto, também existe muito esta, o deixarmos que tenham atos compassivos conosco, também é muito importante. Porque uma pessoa compassiva tem que ser nas três cordas, que é compaixão pelos outros, que é a que nós pensamos mais, mas depois é autocompaixão, que também é muito importante, até para cuidadores. É muito importante. E aceitar compaixão dos outros sobre nós. Que às vezes também: "Não, não preciso de ninguém." Ouve-se muito aqui as pessoas: "Não, os meus filhos têm a vida deles. Não querem cuidar."

Não, exato, não querem incomodar.

"Não quero incomodar ninguém." Desculpa lá, também cuidaste deles em pequeninos, mas há muito esta cultura.

O que pode ser feito para mudar essa percepção? Vocês estão a fazer esse trabalho.

Fazemos. É isto, é falar destas coisas. Portanto, primeiro é falar. As nossas formações são sempre workshops muito dinâmicos, através de jogos. Tentamos chegar a conclusões juntos. Por exemplo, fazemos também um mural "Antes de eu morrer, eu quero." Que é completares esta frase: antes de eu morrer, eu quero. Era ao máximo ver as crianças a dizer: "Quero conhecer o Ronaldo, quero ter um cão, quero não sei o quê". E depois coisas sérias. Antes de morrer, eu quero perdoar a minha mãe. Alguém escreveu: antes de morrer, eu quero viver como a Nini. Não fui eu que escrevi, mas é essa a frase que eu agora quero ter. Fazemos um conjunto de coisas. O segundo eixo é dinamizar redes compassivas. Temos mesmo beneficiários que são encaminhados pela saúde ou pela área social, pessoas muito sozinhas e doentes. E nós tentamos levar a comunidade a elas, pessoas que não saem de casa. Aí uma coisa mais concreta. E depois o terceiro eixo é dinamizar atividades para pessoas em processo de luto. Temos grupos de partilha, retiros, não religiosos, mas retiros, ir para um sítio fora e trabalhar esse luto. Oficinas com arte, temos cerâmica, arteterapia, muita coisa. E muito isto, trabalhar estes temas.

Que histórias transformadoras é que tu viste? De pessoas que vinham, que não estavam a fazer o seu luto ou que estavam a viver o luto. É pesada a palavra, porque cada um lá sabe como vive. Mas estás a entender o que eu estou a dizer?

Sim.

Que transformações é que tu viste?

Tantas.

Que te marcaram.

Por exemplo, o Ramiro, que é um rapaz que aparece aí, que o pai suicidou-se. Eu posso falar disto porque ele quer falar disto. Ele diz que foi completamente transformador. Fez o grupo Casa, que é um grupo de partilha, que são sete sessões, chama-se Casa, porque quando temos uma notícia difícil, temos que fazer um trabalho aqui na nossa casa interior, mas depois cada sessão é mesmo o nome de uma casa, é o hall, a cozinha. E depois termina no jardim ou na varanda, ou seja, caminho para a comunidade. E temos várias propostas em cada sessão, mas é a partilha das pessoas. Ele diz que foi completamente transformador para ele. Quis dar a sua imagem aqui, também está aqui, é um destes testemunhos. Esteve no outro dia no Festival do Luto, que fizemos lá no dia 24 de maio, no Porto, e tanta gente que vai ter conosco e diz: "Ai, que bom!" E só o facto de aceitarem, publicamente, dar a cara, tirarem uma fotografia, demonstra muito. É mesmo preciso. É muito bonito o nosso trabalho. Há outros que fazem também, não somos só nós. Dá-me um grande pica trabalhar na Compasso. Eu adoro.

Tu sentiste, por exemplo, em relação ao Ramiro, tu sentiste o momento da transformação ou foi uma coisa gradual?

Não, gradual. Mas ele é que nos diz, ele escreve-nos e-mail, ele fala, ele diz: "A Compasso é muito importante para mim". Tanto que aceita ser rosto de uma coisa que é muito tabu, ainda é mais tabu.

Que idade é que tem o Ramiro?

30, talvez, não sei.

Eu não sei, eu posso ter a ideia errada de que o luto nas gerações mais novas é mais tranquilo, mas será mesmo assim? Porque não temos muito a ideia. A minha avó morreu, o meu avô.

Lá está.

E a minha avó andou preta até aos 99. E o meu avô morreu aos 40.

Não. Nós dizemos muito, o luto é completamente único e particular, mas também universal e comunitário. Todos vamos passar por ele. Aliás, o luto estamos sempre a passar. A adolescência é um luto.

Sim.

Estamos sempre. Mudar de cidade, tanta coisa, não é só a morte de alguém. É constante na nossa vida. Portanto, é universal, é comunitário, porque achamos que a comunidade tem um papel nisto. Se nós tivermos todos maior literacia da morte e do luto, portanto, não fugir a estes temas, não começar a bater na madeira. Estas coisas assim. Escutar as pessoas ajuda? Ajuda.

Sim.

Mas depois é como uma impressão digital, cada um vai viver da sua maneira. Portanto, não é esta coisa das gerações antigas. Cada um vai viver da sua maneira.

Até a própria imagem que nós temos da morte, do senhor da foice. Não é que devia ser uma pessoa toda contente. Mas a própria essa imagem, não é?

É horrível.

O senhor da foice. Que imagem que tu achas que devia ser?

Ai, não sei. Mas não vejo uma imagem má. Eu não tenho medo da morte. Tenho medo da dor.

Da dor da morte?

Não, da dor física, dor emocional, dor total, mas não tenho medo.

Mas isso é quando é a morte em relação ao outro ou em relação a ti?

Não, em relação a mim. Tenho medo da dor.

Mas eu também já pensei uma coisa, a dor da morte.

Mas também já vi o que tanto fazem e tanta coisa que existe hoje, embora a pessoa continue a passar.

Mas eu noutra dia estava a pensar. A dor da morte é uma dor passageira, porque tu tens a dor e a dor morres, pronto, está resolvida. Se tu partires um braço, dói mais, se calhar.

Sim, se calhar dói mais. Olha, o Gilberto Gil, o grande Gilberto Gil, que tem uma música espetacular que se chama "Não Tenho Medo da Morte, Mas de Morrer, Sim". Ele diz assim: "Quem vai morrer sou eu e eu terei de estar presente."

Exato.

É muito giro. E depois ele diz assim também uma frase: "Já não terei pé, nem cabeça, nem pulmão. Como é que poderei ter medo?" A música é espetacular.

Há um artista, eu não sei quem é, eu já não me lembro quem, mas que tem na lápide qualquer coisa do gênero: "Eu sabia que isto me ia acontecer."

Ai, não é o Raul Solnado? Raul Solnado é muito zangado de estar aqui.

Contra a sua vontade. Aqui jaz Raul Solnado.

Contra a sua vontade.

Contra a sua vontade.

É isso.

Tu sabes o que é que queres escrever na tua lápide ou não? Isso foi a única coisa que eu pensei em relação à morte. É muito curioso, porque eu tenho uma relação difícil com a morte. Curiosamente, o meu espetáculo, o próximo que eu vou fazer, que há de começar lá para outubro, vai ser sobre a morte, exatamente sobre os meus medos da morte e algumas construções da sociedade sobre a morte e em que momentos é que eu já tive que a enfrentar, de alguma maneira. Mas, por exemplo, tu estavas a dizer isso Essa frase de nós completarmos. Como é que era?

Antes de morrer eu quero.

Eu estava a pensar isso e fiquei um bocado atrapalhado. Fiquei a pensar o que eu iria escrever. E só o pensar nisso incomoda-me. É engraçado, porque nós como não falamos nas coisas, quando se torna real, de alguma maneira, há um choque.

E da última vez nós tivemos a lata de fazer isto no muro de um cemitério e a Junta de Freguesia de Aldoar, Nevogilde e Foz do Douro aceitou a nossa lata.

E está lá ainda?

Não. Isto não é uma ideia nossa, é uma artista americana que inventou isto e é um movimento também internacional. Há um site, há imensos murais destes e eles aceitaram. E era muito: "Antes de passar para o lado de lá, o que eu quero fazer do lado de cá?" Mas é muito disto, lembrar a finitude da vida e a importância de aproveitar bem. Depois estavam lá coisas disparatadas. É arte urbana, era isto. As pessoas tinham o giz, escreviam, faziam o que queriam. Vi lá uma pessoa muito romântica que escreveu uma data de coisas. Muito giro. E as crianças a passar e a dizer coisas também.

Eu acho que é um bocadinho aquilo que nós estávamos a dizer. O que torna, se calhar, a morte mais difícil é nós crescermos e perdermos a inocência das crianças.

Lá está, as crianças aderiam a isto logo. Passavam da escola, lá iam escrever coisas.

Depois os adultos verem: "Morte, fogo, não vou escrever nada disso."

"Que disparate! E as crianças a verem isto, que disparate!" Não, não é disparate, é bom. O não falar da coisa, na minha opinião, é que é mau.

O que a Nini te tem ensinado e ainda ensina ao longo deste caminho?

Que pode haver muita beleza nas situações difíceis, que é muito importante viver o momento de agora, adaptarmo-nos ao que é possível. Sei lá, tanta coisa. Eu falo com ela todos os dias e ela está muito presente comigo. Gostava que fosse de outra forma, mas não é. Ensinou-me tanta coisa. E a alegria dela e o adaptar-se, e esta coisa do não estava a lamentar-se. Para a frente. E uma alegria enorme.

Acredito que tenhas momentos mais baixos, ou não, nessas recordações.

Não. Eu tinha muito medo, porque isto tivemos muito tempo, atenção. E eu tinha muito medo, eu dizia: "Se calhar eu estou para aqui a dizer isto tudo."

E também a negação.

E depois quando for acontecer. Não, eu sinto-me assim desde o dia que ela morreu. No início estava muito mais chorosa. Chorava. Mas a gratidão e a paz, sempre. E isso ajuda muito. E também há uma data de perguntas: "Por quê?" Olha, o porquê faz parte. Mas por quê? Por que ela, então? Mas não serve para nada. Olha, também há outros pais. O porquê é natural.

Sim.

Mas não serve para nada, não vale a pena estarmos muito tempo no porquê, porque outros também passam.

Não vais ter resposta.

O para quê. Isso já, olha, para quê? Eu não queria. Mas agora entendo muito melhor muitas coisas. Não queria.

Para quê?

O para quê. E depois, às vezes, o para quê não serve também. Eu acho que uma pediatria de um IPO para mim, para quê? Então, o como. E é muito menos filosófico. Os outros são mais. O como. Como é que eu vou viver agora, neste momento, agora, esta situação da melhor maneira possível. E é assim passo a passo, sem olhar muito lá para a frente. A mim ajudou-me muito o como. Acho que ela também viveu muito assim.

Sim, exato. E viver o dia a dia.

Sim, e a relação. O que ela mais queria era estar com pessoas, era estar com as pessoas e a relação, era o que ela mais queria.

Quando há pessoas que provavelmente, se calhar, te chegam também em relação à Nini, com aquelas frases que tu não queres ouvir. O que tu dizes?

Não acontece muito.

Ou em relação a outras pessoas que tenham morrido.

Sim, mas, por exemplo, uma vez, foi pouco tempo depois de ela morrer, eu fui a uma festa de uma amiga e comecei a conversar com um senhor. Eu não o conhecia, tínhamos uma amiga em comum e ele começou a fazer muitas perguntas dos meus filhos e eu ainda estava naquela fase que ainda não sei dizer. Sei dizer que tenho dois.

Se tenho um ou se tenho dois.

Se tenho dois. Não tenho a mínima dúvida. E depois já sei o que a morte de um filho provoca nas outras pessoas, que fica logo tudo atrapalhado e não sei se quer passar por isso. E ele estava a fazer perguntas: "E onde é que eles andam na escola?" E a certa altura, eu já estava encostada à parede. Ou minto ou digo a verdade. E eu disse: "Não, é porque a minha filha mais velha morreu há dois meses." Ele olha para mim: "Não, isso não. Isso é a pior coisa do mundo." Virou-me as costas e foi-se embora. Coitado dele. E o mais engraçado é que a mulher dele estava também nesta conversa, permaneceu junto a mim, a comer o seu bolinho, calada, mas permaneceu junto a mim, valente. Ele teve uma reação. De certeza que está arrependido, aquilo saiu, sei lá. Mas não gosto disso. E também não gostava quando estamos sempre a transmitir isto. Então eu às vezes pensava: "Se calhar não vou aguentar. Estás aí e se calhar eu não vou aguentar." Mas não, estou aqui.

E qual é o papel da pessoa quando tem essas reações? Tens que ter um papel construtivo?

Eu acho que sim, mas também não tenho que aturar tudo.

Pois, é isso.

Não gostei.

Eu também ouvi muitas vezes, em relação à minha mãe, aqueles clássicos de: "Era tão boa pessoa, uma pena, coitadinha." E eu ficava no clássico: "Claro, pois é verdade." Mas às tantas também já estava cansado de sempre estar a repetir a mesma coisa.

Sim, eu tento contrariar. "Pois, sim, mas também acontecia..." E tento levar para outro lado.

Eu lembro, por exemplo Lá está, nós temos essa cultura. Eu já também partilhei isto aqui. Eu quando fui ao "Às Tardes da Júlia". Não foste ainda?

Não.

Já te convidaram?

Convidaram a Nini e eu disse não a esses todos, mas ao Raminhos, fui atrás do Raminhos.

Muito obrigado.

Achei que valia a pena.

Eu também acho que sim. E correu muito bem. Eu fui ao "Às Tardes da Júlia" falar da história da minha mãe. E eu disse logo assim: "Eu não quero o pianinho, vocês não metam o pianinho". E eles realmente não puseram no estúdio, mas puseram para casa. As pessoas em casa ouviam, eu é que não ouvia no estúdio. Essa foi a primeira. E depois a Júlia estava a fazer o papel dela, que era de puxar sempre. "Mas sofreste muito?" E eu: "Claro, é a minha mãe." "Foi muito difícil?" Eu: "Já estávamos à espera, faz parte do processo, é difícil, mas é o que é." E sempre ali. Parece que há esta coisa de: "Não, tu tens que te sentir mal."

Tens que estar lá embaixo.

Tens que estar.

Totalmente.

Achei muito curioso, porque lá está, não sei se tem a ver com a minha ligação à comédia, mas eu tenho muita tendência para desconstruir.

Claro.

Se é negação? Não sei. Não sei se é negação, acho que não, porque eu desconstruo, mas também chorei muito.

Pois, é isso. E a tua maneira única de viver.

E por desconstruir muito, é que me convidam também muito para velórios. Ainda agora tive uma querida amiga minha que infelizmente o pai partiu e eu sinto-me quase numa missão.

Mas o quê? Vais lá rir?

Vou ser eu.

Vais ser tu.

Estou lá a dar apoio, mas volta e meia eu digo porcaria. E fico muito a medir as palavras, a perceber onde é que eu me posso movimentar. Mas tem corrido bem até agora, porque as pessoas eu vou ao velório, quando faço isso são obviamente velórios de amigos e de pessoas que me conhecem. E geralmente recebo depois sempre uma mensagem de: "Muito obrigado por teres vindo, foi importante teres vindo e trazer leveza à coisa." E isso para mim, é sinal que foi um bom trabalho, não recebi cachê, mas fiz o meu trabalho. E eu sinto muito um bocadinho, às vezes, essa.

Sim, de puxar para o-

Não é missão, mas sinto essa necessidade de ir lá e trazer de alguma forma, saber que é importante. Eu acho que as pessoas têm que ir aos velórios pelas pessoas que estão lá, pelos vivos.

Claro, pelos vivos, obviamente.

Não é pelo morto, as pessoas têm que estar lá pelos vivos e estar junto dos vivos. Já estar junto do caixão, acho que não serve de muito, que ele não vai ligar.

Sim. Não, os vivos é que interessam, obviamente. E há também uma frase do Éric Cassel, acho que diz que os vivos fecham os olhos aos mortos, mas os mortos abrem os nossos olhos. Neste sentido de aprender, não é?

Grande frase. É verdade. E dá muito essa ideia. Eu acho que também deve ser de família, porque os meus irmãos são iguais. Aliás, no funeral do meu pai, quando fomos à cremação, estavam lá os meus tios mais velhos todos e ao mesmo tempo. É engraçado, porque reúne a família.

Imenso.

Não é? É essa ideia muito de fechar os olhos. Nós fechamos os olhos aos mortos, mas eles abrem-nos os olhos. Depois é sempre aquela frase estúpida: "Temos que marcar um almoço." E toda a gente sabe que ninguém, não se vai marcar almoço nenhum, que só nos vamos encontrar ou no próximo casamento ou no próximo funeral. Não é?

Sim.

Mas é muito engraçado. E acho que devíamos aproveitar então, não é? Para transformar isso.

Acho que sim.

Dá associação aqui a uma coisa que eu gostava de falar, que é este que eu estava a ler e fiquei curioso, o Festival do Luto que vocês organizaram agora.

Foi espetacular.

O que é o Festival do Luto?

Portanto, não é uma ideia nossa.

Não é um velório?

Não é um velório. É falar deste tema, mas de uma forma descontraída.

O que tinham lá no Festival do Luto?

Tínhamos conversas com especialistas. De manhã foi: por que é tão difícil falar sobre o luto? À tarde foi: e se vivêssemos o luto de outra forma? Tínhamos testemunhos de esperança, que eram pessoas em luto, mas que tentavam falar, falam a verdade, mas o seu processo de luto de uma forma construtiva. Por exemplo, o Felipe, meu marido, esteve lá. Tínhamos atividades para crianças. Uma escritora, a Leonor, escreveu um livro sobre a avó que morreu e então trabalhava este tema. Tínhamos um memorial pelas pessoas que morreram. As pessoas podiam escrever o nome da pessoa, uma frase para a pessoa. Acabamos com um dédicafé musical, que é falarmos da morte, mas através das músicas, e as pessoas iam reagindo, foi espetacular. Tínhamos a exposição dos 13 cartazes testemunho do Em Luto Contigo. Tínhamos um percurso interpretativo em que a pessoa era convidada a pensar no seu próprio luto e a fazer vários-

O seu próprio luto em que aspeto? A sua morte?

Não.

O luto de alguém.

O luto que está a viver. Ou então não só, também como é que eu posso ser mais compassiva com as pessoas que estão em luto, porque também é muito isto a campanha e o festival, é muito disto, o que devemos dizer, o que não devemos dizer. Ou mais atitudes de fundo. E tínhamos teatros, duas peças de teatro. Uma foi escrita pelo Ron Jackie, aquele escritor americano. É uma peça totalmente montada pela Daniela Vieitas e por uma equipa grande atrás dela, totalmente montada para a Compasso e para termos um objeto artístico. Nós acreditamos cada vez mais na arte, termos um objeto artístico que nos falasse da Do luto.

É expressar.

Expressar. Aquilo chega a sítios que não é pelas palavras.

Lá está.

Não é pelas palavras, vai mais fundo. É tão bonita a peça de teatro. Por exemplo, agora na formação com os profissionais de saúde, também usámos a peça de teatro. Eles nem sabiam que começávamos com a peça de teatro, eles nem estavam a perceber muito bem, porque a peça de teatro simula o encontro de um grupo de luto, de um grupo de partilha de luto. Portanto, as próprias pessoas que participam no teatro. E à tarde tínhamos outro teatro da Rita. Foi assim mesmo. Tínhamos um corvo personalizado, porque o símbolo da campanha é um corvo amarelo.

Um corvo amarelo. O que é o corvo amarelo?

No início, os criativos da campanha, que é o Luís Veiga e a Teresa Rebelo, apanharam totalmente o que nós queríamos dizer. Ligaram o corvo negro à morte e depois transformaram num corvo amarelo, que é a cor da empatia. E é um corvo que pousa no ombro e que sabe escutar, que sabe estar na comunidade e que sabe escutar e estar e não fugir e permanecer. Então havia lá um corvo, uma pessoa a fazer de corvo e que não falava. A única coisa que fazia era dar abraços às pessoas. Os miúdos estavam doidos com o corvo, como é óbvio. E depois também tínhamos pontos de escuta. Eu era um ponto de escuta, tinha assim uma coisa a dizer: "Ponto de escuta. Se alguém quisesse ser escutado, eu estava lá."

E aconteceu?

Pouco. Mas estavam várias T-shirts amarelas e as pessoas iam ter com as T-shirts amarelas e começar: "A minha mãe morreu. E ta-ta-tei". Vieram alguns ter comigo, mas foram às T-shirts amarelas, que eram os voluntários todos.

Que eram os mais discretos.

Agora o ponto de escuta.

A Teresa ali. O ponto de escuta, toda a gente sabe o que é que está ali a acontecer.

Toda a gente já diz: "Para o ano."

Agora vais ter que fazer.

Temos que arranjar dinheiro para isso.

Vai falar com a Câmara Municipal do Porto.

Que nos apoiou bastante. E é um projeto também financiado pelo BPI Fundação la Caixa. O projeto chama-se "O Luto é Coisa com Asas" e é daí que surge estas atividades todas. É muito bonito. Foi um dia que nos encheu a todos.

O luto é para sempre?

Eu acho que sim. Agora, integra-se e volta-se a viver e aposta-se em novas relações, mas eu acho que é para sempre.

Então o que é o luto para sempre?

Adaptar-me à realidade da perda. A Nini morreu.

Esse é o luto?

Este é o luto. Não perdi, eu não gosto que digam perdi, porque eu não a perdi. Ela estava muito encontrada. Mas isso é questões de palavras, usamos, não tem mal.

Mas lá está, é uma coisa que tu não gostas que digam.

Não gosto, também diria aí, não gosto. Que perdi a minha filha, não a perdi. Mas é para sempre, está aqui. Há um filminho muito giro que também passa nas formações que as pessoas em luto são assim bonequinhos e tem um buraco aqui. Por exemplo, um dos bonecos bebe café e o café sai, passa pelo buraquinho. Mas lá está, o buraco vai lá estar sempre. Se há amor, se havia muito amor, o buraco está lá sempre, mas integramo-lo e voltamos a viver. É esse o desejo. Cada um da sua maneira única e particular, sem julgamento, sem pressa, cada um com o seu tempo. É esta a mensagem.

Era isso, que tu deixasses uma mensagem a quem nos está a ver e a ouvir.

E que não se fechem, porque há muito esta tendência de nos fecharmos. A Mary Oliver, que é a poeta que eu mais apaixonada estou neste momento, tem um poema que diz: "Instruções para viver uma vida. Presta atenção, deixa-te maravilhar e fala sobre isso." E eu acho muito bonito. Parece que é muito fácil viver, é só fazer estas três coisas, está feito.

Quase.

Mas é tão bonito. E o fala sobre isto, não te feches. Estás em luto, vai ter com pessoas que te saibam ouvir. Se estiveres no Porto, vai ter connosco com o Pácio, mas não te feches.

Mariana, muito obrigado.

Obrigada eu.

Por teres vindo tu, a Nini e o teu projeto, por estarem aqui todos. Quanto a vocês, muito obrigado por estarem desse lado. Eu gostei muito desta conversa. Espero que tenham gostado também, que reflitam. Deixem os vossos comentários aqui no YouTube. Eu sei que no Spotify também se pode deixar comentários, mas aí não consigo vê-los, esqueço-me mais vezes. No YouTube é mais fácil. Para a semana estamos de volta com mais uma conversa. Muito obrigado. Quando falo, descubro mais sobre mim e quando escuto, compreendo mais os outros. Mas quer abra a boca ou preste atenção, tenho cada vez mais a certeza de que somos todos malucos.