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No dia em que o Presidente da República e Primeiro-Ministro visitaram alguns dos locais atingidos pelos incêndios, trazemos ao Tiradentes dois autarcas que viram os municípios que lideram serem atingidos pelo fogo. Está conosco Paulo Pereira, autarca de Baião, e esperamos ter a todo momento Jorge Almeida, o presidente da Câmara Municipal de Águeda, com quem não conseguimos ainda estabelecer uma ligação nas melhores condições. Para já, vamos conversar com Paulo Pereira. Bem-vindo.
Paulo Pereira, teve a oportunidade de falar com o Primeiro-Ministro na visita a Baião esta manhã e já agora, o que é que lhe disse?
Em primeiro lugar, um cumprimento a todo o auditório. Disse-lhe muitas coisas. Primeiro, aquilo que foi a angústia de lidar com uma situação como nunca tínhamos vivido. Os incêndios aqui em Baião, dias 16, 17 e 18 foram absolutamente extraordinários. Disse-lhe daquilo que foi a dificuldade, nomeadamente dificuldades que advieram e em relação às quais não há controle e que tem a ver com as questões de contexto atmosférico. Mas depois também aquilo que foi a dificuldade em termos de meios, dar-lhe conta daquilo que foram as dificuldades em termos de darmos resposta e que praticamente não permitiu o combate aos incêndios. Portanto, o foco foi claramente salvar vidas e felizmente isso conseguiu-se. E depois também tive a oportunidade de conversar e de fazer algumas sugestões no que diz respeito àquilo que pode ser o futuro, porque se fizermos sempre os mesmos caminhos, chegaremos sempre aos mesmos lugares e, portanto, estamos confrontados com um conjunto de desafios, em que temos que encontrar respostas diferentes, porque senão, no futuro, os problemas serão estes ou piores.
E deixe-me perguntar-lhe se acreditou que as promessas de apoio às populações serão rápidas, como disse hoje o Primeiro-Ministro.
Ora bom, eu quero acreditar que sim, até porque a partir do momento em que os autarcas estão também envolvidos nestas respostas, se porventura houver alguma coisa que não corra bem, o ônus recai mais uma vez sobre os autarcas. Eu quero acreditar. Ainda estavam a decorrer os incêndios, penso que no dia 18, e já o senhor ministro Castro Almeida fez uma reunião com os autarcas aqui de São Miguel de Sousa, em Penafiel. E eu até lhe dizia, por um lado sublinhava esta resposta rápida no sentido de querer reunir conosco, eu dizia: "Bom, mas eu ainda tenho incêndios a decorrer nesta hora em Baião e, portanto, tão importante como estas reuniões rápidas é que depois que as respostas sejam rápidas". E a partir do momento em que depois nos solicitam para fazermos a identificação das situações no terreno, numa articulação com a CCDR, somos nós que damos a cara também pelo governo, obviamente, faz parte também das nossas funções, mas a partir do momento que criamos uma expectativa junto das populações de que haverá apoios, obviamente, se agora não correr bem, não há dúvida que o ônus vai recair mais uma vez sobre os autarcas. Portanto, eu quero acreditar que as respostas vão ser efetivamente rápidas.
Connosco já está Jorge Almeida, é o presidente da Câmara Municipal de Águeda. Boa tarde, bem-vindo e obrigado pela sua disponibilidade. Pegando nesta ideia do Paulo Pereira, pergunto-lhe se já tem uma ideia dos prejuízos que os incêndios provocaram no município que lidera. Não, estamos, de facto, com alguma dificuldade em estabelecer esse contato com Jorge Almeida. É o presidente do município de Águeda, é também o presidente da Proteção Civil Distrital de Aveiro. Retomamos então a conversa com Paulo Pereira, o presidente da Câmara Municipal. Há queixas de que os meios demoraram a chegar ao terreno. Foi o caso de Baião, Paulo Pereira?
Ora bom, eu gostava de fazer uma distinção entre aquilo que foi o antes e o após o 15 de setembro. Dizer que até 15 de setembro, as respostas que nós tivemos em relação aos desafios, nomeadamente colocados pelos incêndios, e o padrão de incêndios não foi muito diferente de anos anteriores. Estamos a falar de Baião, um território cuja área maioritária, cerca de 70%, é área florestal e, portanto, mais propícia aos incêndios. Nós até dia 15 de setembro tivemos ignições como nos outros anos e tivemos uma resposta à altura, diria até melhor, com mais meios aéreos, com mais meios terrestres e não há queixas em relação ao passado. Pelo contrário, acho que a resposta é correta. O problema é exatamente a partir do dia 16, em que, efetivamente, por razões que estarão certamente por ser apuradas e não quero ir muito por aí, mas na perspectiva de quem esteve no terreno a lidar com as necessidades, dar resposta, quer em termos de meios humanos, quer em termos de meios aéreos, obviamente sentimos essa falta clara de meios e, nomeadamente, em termos de meios aéreos, porque acredito que se porventura, quando os incêndios arrancaram, se havia uma intervenção inicial de meios aéreos, o incêndio porventura nunca atingiria um perímetro tal que depois a partir de determinada altura foi impossível acompanhá-lo, foi sempre correr atrás do incêndio e o foco, como eu dizia há bocadinho, já não era sequer a extinção, era salvar pessoas, que foi disso que se tratou. E portanto, eu vejo agora muitas pessoas a falar, pessoas que anteriormente falavam que o modelo anterior distrital é que era bom, este agora não é bom, provou-se. Nós não podemos estar a comparar coisas que são incomparáveis. Portanto, até ao dia 15 Tudo correu bem, é a minha percepção e constatação. Efetivamente, no dia 16, atendendo àquilo que se estava a passar no país inteiro, sentimos aqui uma falta grande de meios, que naturalmente, pelo que se estava a passar no país, deve haver uma razão, mas eu não queria entrar em pormenor, se depois os meios a nível nacional foram bem geridos ou não.
Mas o problema terá sido o grande número de ignições que há em simultâneo e que dificultou a distribuição de meios. Ou seja, pergunto se, na sua opinião, seria difícil evitar a escassez de meios que porventura terá acontecido em alguns locais.
Sim, foi o que nos chegou. Eu desdobrei-me.
Bom, perdemos aqui.
Duas noites no posto de comando e efetivamente desdobrei-me em contactos no sentido de ver se conseguíamos que chegassem mais meios, nomeadamente aéreos, mas a informação que tinha era invariavelmente a dificuldade que estava de mobilizar meios, porque a nível nacional estávamos a viver um problema muito grande e depois a acrescer a isto, segundo me diziam, também a dificuldade que havia de operar, mesmo com alguns meios aéreos, dada a existência de fumos e de ventos. Como digo, não sou eu que farei essa análise, mas é verdade que estando no terreno senti muito essa falta e que naturalmente será compreendida nesse contexto do que se estava a passar a nível nacional.
Concorda com o primeiro-ministro quando considera que a principal causa dos incêndios radica nos interesses económicos em torno da floresta?
Eu não tenho dados que me permitam poder dizer que é de uma coisa ou de outra. Há vários estudos ao longo do tempo e que nos vão dizendo que grande parte deles são por negligência e obviamente nós vamos sentindo isso. Pessoas que depois em determinada altura que não deviam fazer ou que fazem queimadas, ou então que usam instrumentos mecânicos para a limpeza, e que têm uma incidência muito nesta altura e está mais ou menos tipificado em que a maior parte desses incêndios serão por negligência. E depois há também, obviamente, uma parte que tem a ver com crime. E é verdade que a sensação que passa muito da população é que realmente, depois mesmo essas situações, quando são pessoas identificadas, que deveria haver uma mão mais pesada, porque não havendo essa mão pesada, não havendo esse controle, obviamente, estamos aqui a potenciar que no futuro as mesmas pessoas causem os mesmos problemas. Às vezes ocorre-me que há uns 20 ou 30 anos, a Inglaterra tinha um problema com os hooligans no desporto e a forma que encontrou de resolver isso era dois ou três dias antes dos jogos de futebol, prendia esses mesmos hooligans e resolveu por aí. Eu sei que hoje a legislação já permite a pessoas que estão identificadas, eventualmente, terem uma pulseira eletrónica que antes da época de incêndios poderem utilizá-la. Não sei, ultrapassa-me, mas é verdade que há muito a sensação, eu estou a falar por aquilo que é a minha população, porque todos os anos temos aqui muitos incêndios, às vezes um sentimento de impunidade em relação àquelas situações que são mais ou menos conhecidas e que são reiteradas e que as pessoas continuam a fazer mal.
Paulo Pereira, as autarquias foram chamadas a liderar o processo de reconstrução das habitações destruídas pelos incêndios. Pergunto se é para si uma preocupação evitar casos como aqueles que ocorreram aquando os incêndios de Pedrógão e que de resto chegaram a tribunal e que apontam para o uso indevido de dinheiros públicos na reconstrução de habitações.
Esse é um problema. É verdade que os autarcas só existem e os governos só existem porque há pessoas a quem servimos. Nós estamos cá para isso. Mas é verdade que, não diria que me assusta, mas que estou apreensivo em relação àquilo que é a forma como depois desta identificação que estamos a fazer, pode recair sobre as autarquias um ônus que deve ser partilhado por todos. Ou seja, foi estabelecido um modelo, um processo, um procedimento em que o governo pede aos autarcas para, em articulação com a CCDR, ou melhor, os autarcas municipais, em articulação com os presidentes de junta, fazer a identificação das situações. Para nós, desde a primeira hora, o que era razoável era depois de fazermos essa identificação, fazer chegar isso ao governo, neste caso, através da CCDR, e a CCDR vir ao local, validar essas situações e depois desenvolver os processos que tivesse que fazer no sentido de ver se as situações são ou não passíveis de serem, digamos assim.
Ser concedidas, ajuda.
Apoiadas e apoiadas. Eu agora vejo que há uma necessidade maior de envolver as autarquias e eu só queria era nós estarmos aqui disponíveis para fazer esse trabalho, mas é verdade que já estamos aqui a assumir um ônus, porque havendo situações que são passíveis de ser apoiadas, ótimo, aquelas que não forem passíveis de não serem apoiadas, a expectativa que se criou às pessoas vai recair um bocadinho sobre as autarquias.
E essa é uma preocupação.
Nós é que damos a cara.
Paulo Pereira, eu peço-lhe desculpa por estar a interromper o seu raciocínio, mas julgo que ficam bem claras as suas preocupações em torno deste processo de reconstrução das habitações. Mas estamos em cima das 19h e vamos atualizar as notícias. Quero lhe agradecer a sua presença e a sua disponibilidade neste Tira-Teimas para debater e para conversar precisamente sobre as consequências dos incêndios e o que vem a seguir o processo de reconstrução. Boa tarde e obrigado.
Muito obrigado.