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Antonio Félix da Costa, the champion of Formula E. Yes! Let's go, boys!

E cá estamos para mais um episódio do "Todas as Fórmulas". Eu sou o Nelson Ferreira e comigo está o António Félix da Costa. Bem-vindo mais uma vez, António.

Obrigado.

Já falamos de MotoGP, de WRC, de Le Mans, de tantas modalidades. Estamos aqui a tentar explicar também todas estas fórmulas que existem no desporto automóvel, mas hoje vamos até ao deserto. Vamos para o Rali Dakar, uma prova que vale muito também pela espetacularidade dos destinos. Já estivemos em África, na América Latina, agora nestas últimas edições na Arábia Saudita. Acompanhas o Rali Dakar?

Muito. Sou um fã enorme e já disse várias vezes publicamente, e volto a dizê-lo aqui, que assim na próxima oportunidade que eu tenha as datas livres, eu vou fazer o Dakar. Como falámos em outros episódios, tenho uma paixão grande por andar de moto, coisas na terra, e quero muito fazer um Dakar. Calha sempre com corridas da Fórmula E, por isso não consigo. Tem calhado nos últimos anos, mas quero muito fazer. Eu vejo o Dakar como umas 24 horas de Le Mans durante 15 dias e em esteroides. Porque são horas e horas a guiares o carro com calor, com dunas, com buracos, com barulho, com seja o que for. Então acho que aquilo deve ser uma experiência de vida incrível.

Lembro-me que no último episódio fizeste aqui uma comparação entre o Miguel Oliveira e outros pilotos e atletas de outras modalidades. Eu tenho amigos meus que desvalorizam um pouco o Dakar, porque tem muitos amadores ou porque tem a malta mais velha e eu acho que eles têm dificuldade. Muita gente que não percebe, às vezes, o desporto automóvel tem um bocado de dificuldade em perceber que um piloto de automóveis tem de ser um atleta e no Dakar isso pode fazer particular diferença com aquelas temperaturas.

Esquece, no Dakar acho que mais do que tudo. O nível físico, claro que sim, é uma parte enorme, mas o nível mental também.

Vês muitos homens de barba rija a chorar no Dakar.

Mesmo.

Só porque se perderam, por exemplo.

Porque se perderam e porque esgotaram as forças deles a desenterrar um carro que está enterrado meio metro na areia, seja o que for, no meio do nada, cheio de calor. Mas imagina, tenho aqui uma história muito rápida. O Hélder Rodrigues há muitos anos atrás, teve um acidente grande quando eles faziam o Dakar, mas também têm o Campeonato do Mundo de Endurance. Teve um acidente grande, esteve quase para parar de correr, depois fez um trabalho mental muito grande e ficou em segundo no Dakar e hoje em dia é team manager, ele e o Rúben Faria, da equipa da Honda no Dakar. Isso para mim são histórias de resiliência e força que muito poucos outros desportos testam o ser humano a este nível. E eu acho isso uma coisa fascinante e adorava experienciar uma vez na vida.

Particularmente interessante no Dakar é aquela categoria do motomalé, que são os gajos que fazem a corrida sem assistência. Têm umas malas, por isso daí o motomalé. Têm umas malas e têm algumas peças, mas quase nada.

Acho que é uma caixa de ferramentas que a organização transporta de etapa em etapa. Mas eles é que têm que fazer a mecânica toda. Eu admito, eu quero ir ao Dakar, mas quero a minha caravana para descansar bem, uns mecânicos para garantirem quando acordo de manhã o carro estar pronto a andar, porque senão também admito que acho que não consigo.

Eu acho que no Dakar talvez seja o atrativo é que o desafio do piloto e do carro tem muito que ver com a natureza. Tu não estás no domínio do que pode ser o trajeto que tens que fazer. E essa é uma luta muito dura.

Aquilo testa o teu corpo ao limite. Tens que ir a fundo, porque não deixa de ser uma corrida ao cronómetro, e tens que te ir a guiar por um roadbook, não é um GPS, é um roadbook de notas. "Daqui a 200 metros vira à direita." E tu tens que olhar "Sim, 200, direita." E depois confiar que agora são 10 quilómetros nesta direção. Ou seja, há uma série de fatores que pondo isto tudo no mesmo saco, deve ser de loucos. E no fim, aquilo que eu disse, é que estás contra o cronómetro. Eu tenho a certeza que vou lá, é para acabar, mas eu tenho esta coisa dentro de mim, este animal competitivo, que se eu sei que há um cronómetro envolvido, me vai obrigar a andar depressa e é mais forte do que eu. E então gerir tudo isso deve ser de loucos.

Como é que tu olhas também para os críticos do Dakar? Há uns críticos, por exemplo, há aqueles amigos que temos que dizem: "Eu deixei de ver a Fórmula 1 quando morreu o Ayrton Senna." E há outros que dizem: "Eu deixei de ver o Dakar porque agora já não é Dakar, já é América Latina, já é Arábia Saudita." Como é que tu vês isso? É assim, perdeu-se aquela chegada ao Lago Rosa, que era sempre muito bonita.

Eu acho que o Dakar em África era de facto o mais difícil e mesmo porque, imagina, agora na Arábia Saudita uma noite ou outra, depende onde é que eles param, até conseguem dormir em hotéis e tudo mais. O Dakar antes aquilo era mesmo para bravos, em tendas, com frio à noite, calor durante o dia. Por isso, se calhar, sim, simplificou-se um bocadinho, mas não tenham uma dúvida que não continua a ser uma das provas mais exigentes do mundo e meto aqui como em qualquer desporto. Aquilo deve ser tipo um Ironman, quase. Mas olha, acho que o mundo está cheio de keyboard warriors. Malta com muita coragem atrás de teclados e aos críticos convido-os a irem lá fazer uma etapa, que acho que iam mudar de opinião.

Muito bem, estivemos à conversa a propósito do Dakar nesta edição do "Todas as Fórmulas", o desafio homem-natureza desta grande prova que um dia ainda vamos ver António Félix da Costa fazer. Combinado?

Está combinado. Bora lá.

Até para a semana.

Um abraço.

Antonio Félix da Costa, the champion of Formula E. Yes! Let's go, boys!