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Começa agora mais um "Porque Sim Não É Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje vamos, à boleia de um e-mail de um ouvinte, falar de um pai que se sente ignorado em casa. Olá, Eduardo. Este ouvinte conta que a mulher, ao chegar a casa, cumprimenta os filhos, mas ignora-o e que muitas vezes o desautoriza à frente das crianças. O que uma criança percebe quando um dos pais entra em casa e ignora o outro, mesmo sem haver uma palavra de discussão? Isto comunica alguma coisa aos filhos?

Olá, Judite. O que isto quer dizer? Que a partir daquele momento, os pais estão rigorosamente proibidos de exigir seja o que for aos filhos no que diz respeito ao seu comportamento, à boa educação, ao cuidado que é suposto que tenham com os pais e entre si, porque se o exemplo que têm acaba por ser este, sendo realmente este, não há grande escapatória por onde eles possam fugir. Voltamos sempre àquela fórmula acerca da qual já falámos muitas vezes, Judite. Os pais, às vezes, todos nós, até, de vez em quando, temos a ideia de que se educa com bons conselhos, mas a verdade é que nós nos refugiamos nos bons conselhos quando os bons exemplos estão muito constipados e não estão ao nível daquilo que deviam estar. E, portanto, é muito inquietante. Não é uma questão tão rara assim, Judite. Há pais e mães que coabitam, mas não convivem, que por vezes decidem moar. Já moar um dia é uma coisa absurda, mas moam um dia, dois dias, um mês, às vezes vários meses. E desta forma, temos aquele formato que os adolescentes descrevem com grande sabedoria quando dizem que há relações que são passivo-agressivas. Isto é, são aquelas pessoas que não levantam a voz, se for preciso, que não fazem uma algazarra, que não há uma discussão, mas a hostilidade é tal que, evidentemente, os filhos se assustam com a hostilidade de que um dos pais é capaz e assustam por maioria de razão, quando percebem que o outro convive de uma forma aparentemente passiva com tudo isto. E quando acontece desta maneira, é natural que os filhos se perguntem, sem nunca porem essa pergunta de forma aberta, mas de forma subtil, tácita, muitas vezes: "Mas quem é que os protege no meio de tanta hostilidade?" Porque um e outro parecem, por razões diferentes, não serem capazes de o fazer.

E quando um pai ou uma mãe desautoriza o outro à frente das crianças, o que isso provoca nelas?

Esse pai devia voltar à casa da partida. Judite, claro que nós os dois, minha querida Judite, sabemos que há certas jornalistas que são capazes disso. Certos os professores de psicologia e os psicólogos, jamais. Judite, às vezes nós fazemos isto sem querer. Eu acho que até é bonito nalgumas circunstâncias, devo dizer, porque o exemplo típico, clássico dos clássicos, é quando a mãe levanta a voz e diz: "Acabaram-se as bolachas antes do jantar." Uma criança vai ter com o pai e a falar para dentro, pergunta: "Posso comer uma bolacha?" O pai não ouviu, logo não diz que não. E uma criança, com toda a sua genialidade, diz: "Se ele não disse que não, é porque está de acordo", e lá vai a bolacha e vem daí um estardalhaço. Mas isso são situações ternas, acidentais, que acontecem em todas as famílias saudáveis. Ou porque a mãe não percebeu o que o pai disse, ou porque o pai estava noutra galáxia e não entendeu que havia ali uma espécie de braço de ferro, ou porque uma criança, com toda a sua versatilidade, arranja ali um buraquinho para perguntar uma coisa a um dos pais e outra ao outro e depois faz a ilação muito ao seu jeito. Portanto, isto aqui não estraga uma criança. Agora, há pais e mães que não são muito cuidadosos em relação à maneira como desautorizam o outro dos pais. E não sendo muito cuidadosos, estão a criar uma dor de cabeça onde não faria sentido absolutamente nenhum que ela existisse. Mas há pais que ainda fazem pior, que é se a mãe diz "branco", o pai faz quase questão de dizer "preto". Acontece nalguns casais que se divorciam e entendem prolongar o conflito que têm em mãos com a pessoa de quem se separaram, quando se trata de empurrar as crianças para este tipo de situações, mas acontece também várias vezes em casais que, pelo menos, coabitam. O que isso traz a uma criança? Uma enorme confusão. O grande problema não é a confusão em relação ao pai que contraria aquilo que o outro disse A grande confusão é em relação a ambos os pais, porque nessas circunstâncias uma criança fica sem saber onde é que para a polícia. E, portanto, afinal de contas, um pai que faz isto por birra, com intencionalidade, o que está a fazer? É criar uma confusão tão grande em relação a um filho que, por muito que goste dele, está a ser irrefletido, está a ser imprudente e não está a ser tão bom pai ou tão boa mãe quanto, em princípio, esse pai ou essa mãe desejariam ser.

O ouvinte tem medo que os filhos o achem, e vou citar, "um banana". As crianças fazem esse tipo de juízo sobre os pais.

Fazem, Judite. Não são capazes de o dizer quando têm seis ou sete, nem sequer são capazes de dizer quando têm 14 ou 15. E não o dizem por delicadeza, por bondade e por respeito em relação a esses pais. Mas, de facto, à medida que vão crescendo pela vida fora e vão rebobinando os episódios que viveram, e os vão legendando agora de uma forma mais atual, mais atenta, claro que é essa a ideia que têm, por uma razão simples: porque os filhos agradecem muito que os pais sejam uma força tranquila. Já foi um slogan presidencial, mas nós estamos a roubá-lo. Agradecem muito que seja uma força tranquila, ou seja, que sejam firmes e serenos, que saibam definir um conjunto de parâmetros e não precisem de levantar a voz ou de fazer gestos muito amplos e outras coisas do gênero para, de alguma forma, demonstrarem que se sentem credores de razão quando exigem isto ou aquilo. E, portanto, sim, quando os filhos olham da frente para trás, muitas vezes dizem: "Mas o meu pai ou a minha mãe falharam aqui." E às vezes dizem em voz alta. E quando dizem em voz alta, Judite, os pais ficam muito desolados, ficam até destroçados. "Mas eu fiz tudo o que estava ao meu alcance", e ninguém duvida disso. Só que o tudo que estava ao seu alcance muitas vezes não comportava esta necessidade de clarificar, mesmo quando se trata da mãe dizer branco e o pai dizer preto, porque algum dos dois tem que dizer: "Olha, meu filho, de facto, há dois pontos de vista que não batem certo. A mãe não pode concordar com o pai, mas a mãe não te quer empurrar pro fogo cruzado, sendo certo que, como compreendes, quando a mãe te pede pra fazeres isto ou aquilo," tirando as situações em que a mãe não está a ver bem o problema, "a mãe agradece imenso que tu escutes e que leves por diante aquilo que te está a pedir, porque senão a certa altura a boléia de uma teimosia, andamos nós dentro de uma centrifugadora, de uma máquina de lavar, que é tudo aquilo que a mãe não quer", porque obviamente andarmos às cabeçadas uns aos outros não é, de facto, a forma mais saudável de crescermos.

E o que este pai deve fazer? Deve falar com a mulher a sós? Deve responder? Deve explicar aos filhos o que se passa?

Judite, eu acho que nós falamos dos terríveis dois anos como se fosse a fase das birras, e eu costumo sorrir, porque penso sempre pra mim que seria magnífico que houvesse uma fase muito circunscrita para as birras, a partir das quais elas deixassem de ser precisas. Mas não, os pais fazem birras de forma muito mais sofisticada do que os filhos, e muito mais prolongada, e às vezes fazem esta coisa notável de fazerem birras sem levantar a voz. Amuar é uma birra pra dentro. E, portanto, não é razoável que uma mãe faça uma birra pra dentro, muito menos num formato interminável, muito menos é razoável que um pai aceite isto com alguma naturalidade e conviva com condescendência, porque inevitavelmente alguém tem que ser capaz de ter ali ao lado, de se zangar de olhos nos olhos, e de se zangar de forma a clarificar de vez tudo isto. Se a mãe está zangadíssima com o pai a ponto de não o querer muito na sua vida, ao menos que tenha a coragem de o assumir, ou vice-versa, se o pai se sente abananado, humilhado perante este tipo de circunstâncias, evidentemente que nos perguntamos o que um pai ganha ao prolongar isto interminavelmente, por muito que o pai queira muito estar ao pé dos filhos e goste muito deles. E, portanto, estes pais têm que perceber que os maus pais não são aqueles que dão tareias e outras coisas do gênero. Esses são inequivocamente maus pais. Mas os pais que fazem amuos e birras muito hostis de parte a parte, e o fazem sem censura, sem restrições e sem medir as consequências, podem fazê-lo no impulso, mas se o fazem repetidamente, estão a ser maus pais. E, portanto, alguém que lhes diga isso pra eles pensarem duas vezes em relação ao que estão a fazer e aos custos que isso tem pela vida fora no crescimento de um filho.

Fica a dica. Eduardo, um grande abraço.

Outro pra si, Judite.

E até amanhã.

E até amanhã.