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Hoje o Três Toques é, na verdade, o Não Se Fala de Outra Coisa, porque não se fala de outra coisa da histórica, épica, fantástica estreia de Cabo Verde em Mundiais. Seria sempre incrível o facto de Cabo Verde se ter apurado para um mundial. A estreia seria sempre uma história incrível. Agora, empatar com a seleção campeã europeia da Europa no jogo de estreia, nem nos melhores sonhos. Esteve quase a ser melhor, porque Cabo Verde até poderia ter vencido o jogo. Teve oportunidades para isso no final do jogo, estava zero a zero e teve um canto. Não teve muitas oportunidades, mas teve um canto mesmo no final do jogo e uma oportunidade que poderia ter tornado ainda mais espetacular um dia que será inesquecível para todos os cabo-verdianos e não só, porque é uma história que está a emocionar o mundo inteiro. Todos os grandes órgãos de comunicação social têm dedicado páginas e páginas e muitos caracteres a esta seleção. Em particular, Josimar Évora Dias, conhecido no mundo do futebol como Vozinha. Vozinha com 40 anos. Atenção!

É Vozinho.

Vozinho. Com 40 anos, tornou-se o primeiro jogador de Cabo Verde a ser eleito o melhor jogador em campo numa partida do Mundial de Futebol. Fica para a história e é incrível. O Josimar, o Vozinha, joga no Desportivo de Chaves.

Da segunda divisão.

Da segunda divisão portuguesa. Neste momento está segundo.

E é o titular?

Sim, foi titular esta época. Chegou para o grande momento da sua carreira, de consagração. Ele diz que continuou a jogar com a esperança de que este dia chegasse, que pudesse representar Cabo Verde no Mundial de Futebol. O dia chegou e eu acho que correu muito melhor do que qualquer pessoa poderia imaginar. Ele provavelmente esperava que fosse um dia assim. Era um jogo muito difícil para Cabo Verde. Depois daquele resultado da Alemanha contra a Coreia do Sul, muita gente estava a pensar que eram favas contadas e que seria uma goleada. Houve vários comentadores a fazerem esses prognósticos, a dizer que seria um 5 x 0 ou um 7 x 0 para a Espanha. Não foi, foi um 0 x 0 e talvez um dos 0 x 0 mais épicos.

Foi um empate com sabor a vitória para Cabo Verde.

Aliás, viu-se no final, nas bancadas.

E as redes sociais do Vozinha dispararam. Ainda há pouco dizia o Miguel Cordar tinha 57 mil seguidores e está com cinco milhões.

5,6 milhões. Ali com um grande empurrão.

Sim, da Live Mode TV, que é a plataforma que está no Brasil, também em Portugal, tem transmitido jogos gratuitos através do YouTube e eles próprios fazem o apelo disso. Eles têm uma abordagem muito mais jovem, vamos pôr aqui umas aspas aos comentários e à forma. Interagem muito com as redes sociais também. Não se importam de partir o screen e colocar ao lado, quando se fala de um jogador, a página de Instagram dele. Foi o que aconteceu ontem também. Eles próprios fizeram o apelo: "Ponham-se todos a seguir o Vozinha." E via-se o contador de vez em quando, de facto, o Instagram do Vozinha a subir. Dizes tu agora quantos?

5,6 milhões?

5,7. Estou a ver agora.

Fui eu que vi há minutos e segui também.

Atenção, o Brasil tem grande impacto nisso. São 200 milhões no Brasil e, portanto, o apelo também veio de lá. É impressionante.

Sim, mas está em todo lado, na BBC, no New York Times. Grandes destaques para o Vozinha. O Vozinha que, além desta história, que já de si é extraordinária, ainda tem outra história relacionada com os Mundiais. É que ele esteve para se chamar Valdano. Valdano, ponta de lança da seleção argentina no Mundial de 86. O Vozinha nasceu a 3 de junho de 1986 e um dia antes a Argentina tinha jogado no Mundial de 86 contra a Coreia do Sul e Jorge Valdano tinha marcado dois golos.

Por pouco os pais não lhe puseram assim.

O pai queria que ele se chamasse Valdano, mas o registo civil em Cabo Verde não autorizou. E então ele escolheu o nome do lateral direito do Brasil, que também jogou nesse mundial, Josimar. Esse é o nome de batismo dele. O nome de registo dele, não sei se foi batizado. O nome de registo, que entretanto passou para Vozinha, que foi criado pelos avós, costumava jogar com os miúdos mais velhos e ele ficava muito revoltado quando as coisas não lhe corriam bem. E então os mais velhos diziam que ele ia fazer queixa à avozinha. E então ficou Vozinha e ele agora que é o vozinho deste mundial, não é o mais velho. Nós temos o mais velho.

Nós temos?

O nosso mais velho.

O nosso Cota Cristiano.

Isto também mostra que nem todos aos 40 anos são um peso para as seleções. Há quem escape.

Não te metas nessas coisas, Paulo.

Paulo, tu não sabes onde é que estás a entrar.

Não vais por aí. Diz que é tudo bom. Vai correr tudo bem.

Por causa dessas e de outras é que enfim.

E ainda há outra história que é quase tão espetacular, senão mais espetacular. Eu acho que já falámos aqui quando Cabo Verde se apurou para o mundial, que é a história do Roberto Pico Lopes, que nasceu na Irlanda. O pai era cabo-verdiano, mas ele nasceu na Irlanda, a mãe é irlandesa, o pai era cozinheiro num navio de cruzeiro e foi assim quando chegou a Dublin que conheceu a mãe de Roberto Pico Lopes. Ele que, há sensivelmente 10 anos, trabalhava num banco como consultor de crédito e em part-time jogava futebol. Até que foi desafiado por um clube a jogar a tempo inteiro e um dia recebeu uma mensagem no LinkedIn em português, ele que não falava português. E quem é que lhe enviou essa mensagem? O selecionador, na altura, de Cabo Verde, que era Rui Águas, o antigo avançado português. Ele não ligou, mandou aquilo para o próximo e nove meses depois recebeu uma nova mensagem a insistir que estavam interessados em que ele jogasse por Cabo Verde. Foi assim que começou a história do central, que ontem fez um corte decisivo que garantiu também o empate a Cabo Verde. Uma série de histórias inacreditáveis.

Ainda vamos ter muito tempo para contá-las.

Sim, vamos voltar certamente a estas histórias. O próximo jogo de Cabo Verde no mundial é com o Uruguai no domingo. Vamos ver, vamos estar todos a torcer e vamos encontrar mais histórias para contar sobre esta seleção.