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Este é o Três Toques da Rádio Observador. Carlos, bom dia.

Bom dia. Há coisas que eu não desejo a ninguém, e uma delas é perder a bagagem no aeroporto. Pior do que perdermos a nossa própria bagagem é outra pessoa, neste caso uma companhia aérea, perder a bagagem. E foi isso que aconteceu à equipa espanhola de futsal, o Palma de Maiorca. Os jogadores e dirigentes seguiam viagem para Pesaro, em Itália, onde vai decorrer nos próximos dias a final four da Liga dos Campeões de futsal, onde está o Sporting, mas depois de partirem de Maiorca, fizeram escala em Barcelona, chegaram à cidade italiana de Bolonha e foi aí que a equipa foi notificada de que a Ryanair tinha perdido uma parte da bagagem. Qual? A mala que transportava os dois equipamentos oficiais e certificados para competir na prova.

Logo isso.

Este pormenor, que é um por maior, ainda assim, a equipa seguiu viagem por terra para Pesaro, mais de 150 km de distância, ainda que a companhia aérea tenha sugerido ao clube deixar pelo menos uma pessoa no aeroporto para acelerar o processo. Porque neste momento há uma autêntica corrida contra o tempo para encontrar esses equipamentos. Está agendada para hoje a fotografia oficial da UEFA, que não pode ser realizada sem os equipamentos, e amanhã haverá uma inspeção obrigatória, na qual serão validados todos os detalhes regulamentares das camisolas, inclusive a publicidade. E por que a publicidade é importante aqui? Porque é a publicidade que impede o Palma de mandar vir os equipamentos que ficaram em Espanha, os equipamentos que utiliza normalmente no Campeonato Espanhol de Futsal.

Porque não têm a publicidade que estes vão ter ou porque têm outra?

Pelo contrário, estão recheados de publicidade e na Liga dos Campeões de Futsal só se pode utilizar a publicidade a uma das coisas. Por isso, terão mesmo de encontrar os equipamentos que ficaram para trás. O pior é que o paradeiro dessa bagagem é desconhecido e a Ryanair já avisou que a entrega dos equipamentos no hotel poderia demorar até três dias. Daí a questão de a pessoa ficar no aeroporto à espera de novas informações. E quando eu estava a ler este artigo, lembrei-me de um episódio muito caricato, sobre o qual eventualmente já ouviram falar. Remonta-nos até ao Mundial de 1986, no México, e pode estar aqui uma espécie de solução para o Palma, porque em 1986 houve um impasse quanto à camisola que a Argentina deveria utilizar no jogo dos quartos de final frente à Inglaterra. A Inglaterra equipava de branco, a Argentina vestia e ainda veste aquele azul-celeste.

Com listras brancas.

Exatamente, muito claro, portanto teriam de utilizar sempre a camisola alternativa. Qual é o problema? Ou qual era o problema naquela altura? Nem o selecionador Carlos Bilardo, nem El Dios, Diego Armando Maradona, gostavam dessa camisola azul-escura. Alegadamente, o material era muito mau e deixava as camisolas pesadas com o suor e o intenso calor no México. A tecnologia da camisola era completamente diferente da principal. E então disseram: "Não vamos jogar com esta camisola". E a solução encontrada foi incrível. Faltavam dois dias para o jogo contra a Inglaterra e um elemento da Federação Argentina ficou encarregado de percorrer as lojas de desporto da capital mexicana para encontrar camisolas azuis que pudessem servir para o jogo com a Inglaterra. Reza a lenda que encontraram dois modelos. A decisão coube a El Dios. Maradona olhou para uma e disse: "Esta é bonita, vamos ganhar com esta". E pronto, se Deus diz, o fiel respeita. Foi escolhida a camisola para a qual Maradona apontou. As camisolas foram compradas, não sei se escutaram os stocks.

E havia 20 e tal, não é?

Sim, havia bastantes, suficientes, pelo menos para os jogadores. Foram compradas, não tinham qualquer insígnia e a Argentina também não tinha dinheiro nem tempo para fazer isso de uma forma mais profissional. E então foram chamados para esse trabalho os funcionários do hotel e do estádio onde estava instalada a seleção argentina. Foram eles a costurar essas camisolas, o emblema da federação, o símbolo da marca francesa Le Coq Sportif e os números dos jogadores. O pagamento foi feito de uma forma mais original. Não havia o tal dinheiro para pagar aos funcionários. O pagamento ainda foi melhor, na minha opinião. Foi feito com bilhetes para o jogo contra a Inglaterra. E deve ter sido um belo pagamento, porque o jogo ficou para a história. A Argentina ganhou, passou, Maradona marcou aquele mítico gol com a mão.

Acho que foi isso.

A mão de Deus.

Exatamente. Ficou para a história e no final, os argentinos acabaram mesmo por ganhar o campeonato do mundo. Vamos ver, a bem do Sporting, esperemos que os jogadores do Palma de Maiorca de futsal não se inspirem aqui, mas enfim, fica uma solução para estes jogadores.

Carlos Pedro, obrigada. Até amanhã para mais um Três Toques.

Até amanhã.