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Bem-vindos a mais um "O Café e a Conta" com a professora Rosário Moreira. É professora na Faculdade de Economia do Porto, também na Porto Business School. E hoje vamos falar de um palavrão chamado estagflação, que não é novidade, mas que mais recentemente tem se falado muito nesta palavra. E isto tem uma razão, é possível perceber quais são as consequências para o nosso bolso, que no fim das contas, é isso que interessa, professora. Portanto, vamos a isso. O que é isto de estagflação?
Eu se calhar, Judite. Boa tarde, antes de mais nada, Judite e Bruno. Eu antes de mais nada, gostava só de dar aqui um intróito relativamente às previsões que nós avançamos aqui há duas semanas, não sei se se recorda, sobre o impacto do conflito nas finanças familiares, que no fundo é o foco da nossa rubrica. É que, de facto, mesmo no melhor dos cenários, que seria o imediato cessar-fogo, que infelizmente penso que não é o mais provável, as ondas de choque na economia vão perdurar por longos meses. Portanto, aquilo que nós falávamos há duas semanas, de uma subida, uma escalada dos preços da energia, em primeiro lugar, e depois de todos os outros serviços e produtos, está de facto a acontecer, sendo que estas ondas de choque vão se manter por vários meses. Nós aqui nas cadeias de abastecimento, quando estamos a falar, e falamos muito na altura da pandemia, nós chamamos a estes efeitos o efeito dominó ou ripple effect, que de facto é muito difícil. Nós ainda hoje não temos contentores ou temos poucos contentores, dificuldades na cadeia de abastecimento.
E poucas matérias-primas, não é?
É. Portanto, isto vai acontecer exatamente o mesmo, e a estagflação, este nome difícil de pronunciar.
Já vamos a isso. Mas que de composto é fácil de perceber. O estago vem de estagnação, o flação vem de inflação. Mas antes disso, estava a falar destas ondas de choque que vão perdurar, e se calhar começamos por...
Pelo preço da energia, desde logo. Mas eu também gostava de acrescentar, até para enquadrar exatamente a que nós vamos chegar, nesta deflação, é que nós estamos perante um conjunto de acontecimentos que não podia ser pior para a economia. São mesmo acontecimentos terríveis, é um coquetel quase explosivo.
Seguidos uns atrás dos outros.
Exatamente. Três coisas que estão a ocorrer em simultâneo. Eu acho que isto é mesmo marcar a história, porque do que eu me recordo de estudar e do passado mais longínquo ou recente, estes três fenômenos dificilmente ocorreram na nossa história, que é pandemias com impactos bastante graves. Graves não só ao nível da saúde, mas ao nível do consumo, do desemprego, ausência de crescimento econômico, fenômenos extremos, seca extrema e fenômenos que destroem os nossos recursos naturais. E por isso é que nós vemos os preços das matérias-primas que estão a subir, claro, elas estão se cada vez a tornar mais escassas, com os fenômenos dos incêndios, das secas, etc. E um terceiro fenômeno, que é agora o conflito bélico, que não se restringe a uma região e que, no fundo, está, em termos econômicos, a espalhar-se e como ondas para todo o planeta. Portanto, estes três acontecimentos são o pior que podia acontecer, em simultâneo para a economia.
E isto traz-nos à estagflação.
À estagflação.
Já tínhamos alguma inflação, não é? E agora temos a mais que provável estagnação da economia.
Da economia. Já não bastava então a inflação, e nós tínhamos falado aqui também que o nosso dinheiro ia valer menos, ia haver uma depreciação do valor do dinheiro. Nós estamos agora a assistir a uma estagnação da economia, uma muito previsível, provável estagnação da economia, portanto, um não crescimento ou pior, uma contração, e portanto, consequências ao nível das taxas de desemprego. A estagflação é então este fenômeno macroeconômico, que acontece quando há uma diminuição da atividade econômica, portanto, uma estagnação, em simultâneo com taxas de inflação acima de certos níveis desejados. E já agora, só por curiosidade, este termo, estagflação, foi falado pela primeira vez por um ministro britânico em 1965, Ian Macleod.
E quais são os principais problemas, riscos destas taxas de inflação elevadas e, em simultâneo, da estagnação da economia? O que é que vem daí de mais perigoso para a economia e, em consequência, para todas as famílias?
A estagflação implica um empobrecimento, uma pobreza, maior pobreza para todas as classes sociais e torna qualquer medida corretiva por parte dos vários governos, por parte de governos nacionais, europeus ou de outros grupos políticos, difícil. Estamos perante uma situação que é anômala do ponto de vista econômico, que quebra a teoria econômica, o modelo que é mais conhecido é o do Phillips, a curva de Phillips, e portanto, põe em causa os mecanismos de ajuste de mercado. Porque em condições normais, Bruno, e então seguindo o que foi desenvolvido inicialmente por Phillips e depois seguido por vários economistas famosos como Paul Samuelson, Milton Friedman, o Phelps. De acordo com estes economistas, um país até pode atingir taxas de desemprego reduzida se estiver disposto a aumentar taxas de inflação, ou seja, aumentar não, a suportar taxas de inflação. Isto porque nós numa expansão da economia, quando a economia expande, há menos desemprego, há uma diminuição do desemprego, vai implicar uma pressão sobre os salários, temos menos pessoas para trabalhar, portanto os salários aumentam, preços de um cabaz generalizado também aumentam. Mas há aqui algo de bom, ou seja, há menos desemprego e preços mais altos. Pronto, um compensa o outro. Ou há mais desemprego, inflação e preços mais baixos. A questão, o que é problemático e que dá origem a este palavrão, é que temos neste momento associado à inflação algo que é negativo, que é decrescimento económico e aumento do desemprego. O que Phillips teorizava e os economistas mais reconhecidos analisavam é que a nossa economia até pode suportar taxas de inflação elevadas, mas por outro lado, tem crescimento económico, tem menos desemprego e algo que é mau é compensado por algo que é bom, que é positivo. O que temos aqui é que temos taxas de desemprego que vão começar a subir porque a economia vai contrair e temos, por outro lado, preços que estão a subir e não temos esta teoria económica normal, regularizada. Há aqui uma quebra.
Como dizia Ian MacLeod, temos o pior de dois mundos, não é?
É, temos neste momento ou prevê-se que venhamos a ter, ainda não temos grande contração, as empresas, pelo menos daquilo que nós conseguimos perceber, ainda continuam com taxas de crescimento interessantes. O perigo pode estar é à porta. De qualquer maneira, estagflação é simples de perceber, mas isto explicado numa aula de macroeconomia teria de passar por falar em equilíbrios sequenciais, em choques do lado da oferta, etc.
É muito curioso que já na Primeira Grande Guerra, depois de 1919, a Alemanha passou exatamente por uma questão muito semelhante a esta.
Sim, ali nos anos 70 também passamos.
Mas nessa altura conseguimos desvalorizar a nossa moeda.
É. Agora, realmente os mecanismos que nós temos de correção a este fenómeno estão extremamente limitados.
Então quais são as previsões de ação para os governos, nomeadamente o nosso?
Para onde é que eles se podem mexer?
Exatamente.
Pois, era aquilo que eu estava a dizer.
Podem pouco, mas alguma coisa poderão fazer, porque as pessoas normalmente depois-
Esperemos
...exigem dos governos que façam alguma coisa, mesmo percebendo que a margem de manobra é reduzida.
Alguma política de restrição da procura, pode haver também por parte dos governos centrais mais um choque do lado da oferta, mas isto já são medidas de macroeconomia que têm que ser combinadas não só governos nacionais, mas também governos europeus. Para nós famílias e para as finanças pessoais, nós não podemos ter intervenção. Convém é que estejamos cientes de que podem vir por aí tempos um pouco mais difíceis e a questão da poupança volta a emergir como sendo importante.
Sendo que a poupança tem o problema de valer cada vez menos.
Desvalorização da moeda, mas nós já referimos aqui há duas ou três rubricas atrás algumas alternativas.
É ouvir esse podcast para trás.
É engraçado, eu lembro-me de falar de refugiarmo-nos no ouro e depois vi nas notícias no dia a seguir ou dois que ele tinha tido uma taxa de crescimento.
Tivéssemos comprado quando a professora falou, já tínhamos feito dinheiro.
É verdade.
Professora, muito obrigada. Nós marcamos encontro para a semana, à mesma hora. Estamos num formato um pouco diferente, porque estamos em constantes gabinetes de guerra à conta do conflito na Ucrânia, mas estamos sempre disponíveis em podcast, isso é garantido, e passamos se calhar a uma hora menos habitual, mas também estamos sempre em antena. Professora, muito obrigada mais uma vez e até para a semana.
Até para a semana. Adeus, obrigada.