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Se quiser ouvir todos os episódios de seguida, basta ser assinante standard ou premium do Observador. Para assinar, vá a observador.pt/assinar. 12 de dezembro de 2009. Três folhas timbradas dão entrada no fax da nona delegacia do Catete. É ali que se investiga o desaparecimento de Rosalina Ribeiro. Há cinco dias que ninguém sabe nada da portuguesa e o trabalho da polícia já leva perto de 72 horas. As duas primeiras folhas estão rubricadas no canto superior direito. A última está assinada: Domingos Duarte Lima. O ex-deputado português começa por se apresentar na qualidade de advogado de Rosalina Ribeiro. Diz que tomou conhecimento com muita preocupação do desaparecimento da cliente entre o dia 7 e o dia 8, e que espera que as informações que vai transmitir possam contribuir, de alguma forma, para a localização do seu paradeiro. Confirma que esteve com ela na noite de 7 de dezembro. Mas há uma coisa que deixa logo claro: não vai entrar em detalhes. Está obrigado ao dever de confidencialidade relativamente aos assuntos que tratou com a cliente no Rio de Janeiro. Duarte Lima começa por explicar que chegou ao Brasil na noite de 5 de dezembro. Diz que não aterrou no Rio de Janeiro, mas sim em Belo Horizonte. O texto está dividido em seis pontos. No primeiro, o advogado informa que foi Rosalina, ao tomar conhecimento que ele estava no Brasil, que lhe pediu uma reunião. Mais, escreve ainda Duarte Lima, a cliente exigiu que a reunião fosse presencial e no Rio de Janeiro. O objetivo era tratar de assuntos dos processos pendentes em Portugal e no Brasil. No ponto dois, o ex-deputado garante que também foi Rosalina a marcar a data e a hora do encontro com ele. 7 de dezembro, uma segunda-feira, às 8 da noite. No mesmo fax, Duarte Lima explica ainda que a cliente lhe pediu expressamente que a apanhasse junto de sua casa. "O que fiz", remata. Uma das coisas que viria a chamar a atenção dos polícias está no ponto três. A reunião, escreve o advogado, demorou cerca de meia hora e aconteceu num café não muito longe dali. Depois do encontro, continua Duarte Lima, Rosalina teria ficado de ir ter com uma mulher, a Marica. Tinham questões da herança para tratar. O ex-deputado do PSD não só explica que se ofereceu para levar a cliente até à cidade, a mais de uma hora de distância da zona sul do Rio de Janeiro, como ainda revela uma outra informação essencial. Lembra-se do nome da mulher com quem a deixou, Giselle, e é capaz de a descrever à polícia. É loira, de estatura mediana, tem entre 45 e 50 anos e usa óculos de aros escuros. Segundo Duarte Lima, foi Giselle e não ele próprio, a última pessoa a ver Rosalina Ribeiro com vida. A investigação é complexa. Há vários interesses em jogo e uma herança milionária que pode estar na origem do assassinato de Rosalina Ribeiro. A equipa Saturno 46, da divisão de homicídios do Rio de Janeiro, tem dois suspeitos. Um é Olímpia, a filha do milionário Lúcio Tomé Feteira, é a inimiga número um de Rosalina. Pouco antes de morrer, o próprio pai considerou-a uma víbora e o nome dela foi um dos mais ouvidos pelos inspetores infiltrados no funeral da vítima. O segundo suspeito é o outro nome comentado no enterro. Duarte Lima, um influente advogado português que terá sido indicado a Rosalina Ribeiro pelo próprio Feteira. O milionário sabia que ela ia precisar de ajuda com os processos judiciais que inevitavelmente começariam após a morte dele. Depois de ouvirem Olímpia e Duarte Lima, os polícias vão concluir rapidamente que um destes suspeitos está a dizer a verdade e que o outro está a mentir. As Sombras de Duarte Lima é uma série para ouvir em seis episódios que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, João Reis, com banda sonora original de Filipe Raposo. Episódio dois: só vai sobrar um suspeito.
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Para Normando Marques, o advogado de Rosalina Ribeiro no Brasil, o fax que deu entrada na esquadra não traz grandes novidades. Ouviu o mesmo na chamada telefónica que Duarte Lima lhe fez, supostamente a partir de Hong Kong, pouco tempo depois de a cliente de ambos ter sido dada como desaparecida. Ouviu as explicações do advogado português, mas não ficou convencido. Duarte Lima disse-lhe que tinha deixado a cliente em Maricá pelas 21:20, depois da reunião que tinham tido no Flamengo. Normando Marques conhece o Rio de Janeiro demasiadamente bem para aceitar esta cronologia. Não acredita que Duarte Lima e a cliente se tenham encontrado às 20:30 e que 50 minutos depois já estivessem à porta do Hotel Jangada, em Maricá, na região dos lagos. Não é possível. Haveria de dizer isso mesmo em tribunal.
Não dá tempo. Eu moro em São Gonçalo, eu vivo a ponte diariamente. Eu sei que isso não dá tempo.
A ponte de que o advogado fala é a que liga o Rio de Janeiro a Niterói. Tem 13 km de extensão e cruza a famosa baía de Guanabara. Na hora de ponta, o trânsito é caótico. Duarte Lima pediu-lhe o número de fax da polícia quando lhe telefonou. Normando deu-lhe a informação, mas deixou bem claro que também queria receber uma cópia.
Ele me pediu que conseguisse pra ele o número do fax da delegacia, porque ele tinha informações importantes pra prestar à polícia. Então eu passei pra ele isso, passei o número do fax da delegacia e pedia a ele. Ele queria fazer uma carta pra delegacia e eu disse a ele que pra evitar qualquer tipo de problema, independentemente do fax que ele mandasse pra delegacia, que ele me encaminhasse a cópia da carta, porque se houvesse qualquer problema de transmissão, eu fazia chegar à delegacia.
No fax enviado por Duarte Lima à polícia brasileira, há mais detalhes sobre o suposto encontro de Rosalina com Gisèle. A propósito da viagem, o advogado escreve que como não conhecia o caminho, foi seguindo as orientações da cliente, até chegarem finalmente à porta do hotel, onde estava um carro cinzento à espera dela. Era junto a esse carro, um Honda, que estava Gisèle. Rosalina apresentou-os e ele ainda teve tempo de perceber que ambas se tratavam com muita familiaridade e estima. Eram 21h20 de 7 de dezembro, segunda-feira, quando se despediu das duas mulheres. Depois, garante, fez a viagem de volta para o Rio de Janeiro. Na manhã de terça-feira, quando o corpo de Rosalina foi encontrado na berma de uma estrada em Saquarema, Duarte Lima diz que já estava a deixar o Brasil. Assegura no fax que só soube do desaparecimento da cliente um dia mais tarde, quando o colega Valentim Rodrigues lhe ligou a contar que Normando Marques lhe tinha telefonado preocupado com ela. "Apesar de saber que a senhora dona Rosalina é uma pessoa muito reservada sobre a sua vida, nem sempre dando conhecimento, mesmo aos mais próximos, dos seus atos e dos seus passos, achei estranha essa ausência", escreve o advogado português nesta comunicação feita à polícia, onde ainda informa que permanecerá em Hong Kong durante os próximos cinco dias, em trabalho. O advogado Normando Marques também acha muito estranho que Duarte Lima, um homem tão cortês e cuidadoso, tenha deixado a cliente sozinha a meio da noite, numa cidade tão longe de casa, ainda para mais para tratar de um assunto da herança. Sobretudo quando o advogado português, tal como ele, achava que Rosalina não deveria vender nada antes de uma decisão final dos tribunais.
Deixá-la lá? Não, eu vou participar da mesma reunião e vou dizer a quem está questionando que eu sou contra e que ela não vai fazer. Não, ele serviu de taxista. Ele diz que levou, deixou no hotel com uma pessoa que não sei quem é e voltou.
De facto, como dizia Duarte Lima, Rosalina sempre foi uma mulher reservada. Por isso, sabe-se pouco sobre a vida dela. Na família, há quem diga que sempre gostou de homens mais velhos, mas o casamento em 1954 com Luís Ribeiro, não foi bem por gosto. Rosalina tinha 19 anos e queria ser independente, sair da casa da Penha de França, em Lisboa, onde morava com uma tia. Luís Ribeiro era um empresário, já velho, que tinha ficado viúvo e era cunhado de um Feteira.
Ela só me dizia que foi casada, e que o casamento dela foi mais ou menos arranjado da tia com quem ela morou, um senhor bem mais velho que ela. Os comentários que ela fez. E que ele, na hora do casamento, como ele tinha recursos, transferiu tudo que ele tinha pros filhos.
Rosalina nunca contou todos os detalhes a Rosemary Spinella, a amiga e confidente de longa data no Brasil. A verdade é que foi como mulher de Luís Ribeiro que conheceu Lúcio Feteira e Adelaide, então mulher dele. Foi em 1955, num casamento. Ao longo dos anos seguintes, os dois casais foram ficando mais próximos e voltaram a encontrar-se várias vezes em Vieira de Leiria. Até que, já perto da década de 60, Luís ficou doente.
Ela acabou indo trabalhar com o Feteira, e houve essa aproximação.
Desencadeou esse romance.
Ela tinha uma atração por pessoas de idade e as pessoas de idade por ela.
Rosalina passa a trabalhar como secretária do Lúcio Feteira e é apresentada a chefes de Estado e grandes banqueiros. Não fala inglês, mas começa a acompanhar o Lúcio nas deslocações ao estrangeiro, para as quais Adelaide não tem paciência nem saúde. É nessa altura que iniciam uma relação que parte da família do Lúcio, sobretudo a filha Olímpia, fruto de um outro caso extraconjugal, não aceita. Tratam sempre por senhor Feteira e por dona Lina, mesmo quando já vivem juntos. Ao longo de 30 anos de relação, Rosalina começa a dominar todos os segredos e papéis dos negócios de Feteira. A dada altura, passa a ser cotituar das contas na Suíça, no Banco UBS, e das contas em Portugal do Milênio BCP, algo que nenhuma das outras mulheres da vida paralela do Lúcio tinha conseguido. Aos poucos, Rosalina foi aprendendo que não falar inglês não é uma barreira quando se tem dinheiro. Naqueles ambientes, havia sempre pessoas-chave que falavam português. Depois da morte do Lúcio Tomé Feteira, recorria na Suíça a Michel Canals, o gestor de contas da UBS. Nos Estados Unidos, o apoio dela era Higino Tomás Ruiz, antigo conselheiro do banqueiro David Rockefeller, que geria as contas no banco Chase Manhattan. E em Portugal, Rosalina Ribeiro também tinha alguém de confiança.
Na segunda metade dos anos 90, eu conheci-os ocasionalmente. Estava num restaurante, numa cidade no estrangeiro, onde estava o senhor Lúcio Feteira com a senhora dona Rosalina. O senhor Feteira dirigiu-se a mim, cumprimentou-me, conhecia-me como figura pública, disse-me algumas palavras de simpatia e convidou-me pra almoçar na mesa deles, o que eu fiz. Depois disso, nunca mais soube deles. Penso que por volta de 1998, não estou seguro, na sequência de uma entrevista que eu dei relativamente a questões pessoais, que lhe tocaram particularmente por causa da história pessoal semelhante de um filho seu que tinha falecido também no IPO, ele telefonou-me a felicitar-me e um dia eu fui procurado pela senhora dona Rosalina Ribeiro, dizendo apenas que tinha sido uma das recomendações que o senhor Feteira lhe fizera em vida, no fundo, dizendo: "Você, um dia que eu fecho os olhos, vai ter muitos problemas com o processo da minha sucessão. Esta é a pessoa certa para apoiá-la profissionalmente".
Duarte Lima contou em 2010 à RTP que teve dois contactos com Feteira. Os herdeiros dizem que a aproximação na fase final da vida do Lúcio coincidiu com negócio particularmente ruinoso: a venda de parte dos terrenos de Maricá. Já a prever que esta e outras transações seriam questionadas mais tarde, o industrial de Vieira de Leiria deixou gravada uma entrevista com uma psicóloga para garantir que ninguém poria em causa a lucidez dele após a morte. Nessa entrevista, a filha é descrita como "víbora" e "aquela canalha". Por essa altura, a relação entre ambos vinha a deteriorar-se. Olímpia era crítica da forma como o pai estava a gerir o patrimônio e também das relações pessoais dele. Não aceitava o peso que Rosalina tinha na vida do milionário, que ainda era casado com Adelaide. Não é que não estivesse habituada às inúmeras namoradas do pai ao longo da vida, mas sentia que Rosalina tinha acesso a tudo e centralizava toda a informação sobre os bens. E pior, que o afastava da família
Mas tenho pena que ele, de facto, se tenha deixado aviltar tanto, perder os amigos. O próprio testamento dele prova que ele não teve ninguém ao lado para lhe chamar a atenção à maneira que estava a fazer.
A guerra na justiça seria dura, como previu Lúcio. O milionário, que morreu com 98 anos, meses depois de ser entrevistado pela psicóloga, tinha perfeita noção de que Olympia não iria dar tréguas a Rosalina. A companheira precisava de alguém de confiança e com influência para a orientar. E confiou que a pessoa ideal para isso seria Domingos Duarte Lima. Duarte Lima não tem procuração de Rosalina Ribeiro, pelo menos nunca apresentou nenhuma nos processos. A intervenção dele acontece sempre na sombra. É um conselheiro a que Rosalina recorre quando tem de tomar decisões em algum processo da herança, seja em Portugal ou no Brasil. Mas é em Lisboa que o ex-deputado tem mais peso nas decisões. Valentim Rodrigues, o advogado formal, foi escolhido por ele.
Parece que ele não podia, porque ele era deputado. Qualquer problema que desse.
Esta foi a explicação que Rosemary Spinella recebeu da amiga para o facto de o advogado formal não ser Duarte Lima. Logo depois da morte de Lúcio Tomé Feteira, Rosalina começa a transferir o dinheiro que tinham em contas conjuntas, tanto na Suíça como em Portugal. Quando descobre, Olympia acusa a antiga companheira do pai de desvios milionários e apresenta uma queixa-crime. Logo em 2001, afasta Rosalina de cargos em empresas da família. Ao mesmo tempo, Rosalina acusa-a de estar a delapidar o espólio. A guerra nos tribunais está montada. No Brasil, Rosalina tentou sem sucesso que fosse reconhecida a união com Feteira para fazer parte da herança. Em Portugal, o empresário incluiu-a no testamento. Duarte Lima foi acompanhando Rosalina em todos estes processos, mas alguns anos depois, a relação de confiança começou a desfazer-se. Em setembro de 2009, mais de dois meses antes do crime, Rosalina chega ao Rio de Janeiro um pouco apreensiva.
Quando ela chegou aqui, ela comentou: "Rose, eu estou preocupada com o meu advogado, porque ele quis que eu assinasse um documento e eu não assinei. Eu me aborreci com ele. E agora eu estou preocupada com a minha situação com ele".
Janeiro de 2010. Rosalina foi assassinada há um mês. A equipe Saturno 46, composta pelo comissário Aurélio Nascimento e pelo inspetor Rogério Lima, ainda não conseguiu falar com Duarte Lima. Já tentaram por vários meios, quando decidem enviar uma mensagem para o blog pessoal do ex-deputado, a Linha do Horizonte. Precisam de falar com ele, de preferência por telefone. A resposta por escrito chega dias depois, no dia 14. O ex-deputado lembra que já enviou um fax para a esquadra que investigou o desaparecimento, a contar tudo o que sabia e diz que, se forem necessários mais esclarecimentos, os pode prestar, mas por e-mail. Começa um braço de ferro que só vai terminar uma semana e muitas trocas de mensagens depois. A 21 de janeiro, ao fim do dia, Duarte Lima volta a escrever a Aurélio Nascimento e, pela primeira vez, concorda com a conversa por telefone. Diz ao comissário que vai ligar-lhe no dia seguinte, uma sexta-feira, ou entre as 11h30 e o meio-dia, ou entre as 17h e as 17h30, hora de Lisboa. No Brasil, são menos quatro horas. Naquela sexta-feira, os dois polícias têm que chegar bem cedo ao escritório, no centro do Rio de Janeiro. O telefone toca no horário indicado, no período da manhã. Nascimento decide gravar a conversa para o caso de não entender alguma expressão do português de Portugal e para poder voltar a ouvir com calma. Está a fumar um cigarro e não o apaga.
Alô?
Alô, bom dia.
Bom dia.
Gostaria, por favor, de saber se é possível falar com o senhor comissário Aurélio Nascimento.
É ele.
Senhor comissário, fala Duarte Lima.
Bom dia, como é que vai o senhor?
Bom dia, como está, seu comissário? Muito obrigado.
Tudo bem, obrigado por ter ligado, me atende agora.
Depois dos cumprimentos iniciais, o comissário brasileiro começa por questionar se, tendo em conta que se investiga a morte da cliente, Duarte Lima mantém a intenção de não falar sobre o assunto que tratou com ela no dia em que foi assassinada O advogado é rápido a responder. Em Portugal, o sigilo mantém-se mesmo com a morte da cliente, pelo que terá sempre de pedir autorização à Ordem dos Advogados. O objetivo da pergunta é perceber qual a disponibilidade do português para colaborar. Por isso, o comissário insiste.
O senhor viria ao Brasil para prestar esse depoimento?
Eu terei sempre que fazer o pedido à Ordem, em qualquer das circunstâncias.
O senhor pretendia vir ao Brasil prestar esse depoimento?
Eu não tenho prevista nenhuma deslocação ao Brasil, senhor comissário.
Não tem previsão?
Não, não tenho previsão, neste momento, nenhuma deslocação ao Brasil. Senão teremos que fazer o depoimento por aqui.
Aí seria por carta rogatória.
É, tem que ser por carta rogatória, penso que não há outra experiência.
A partir desse momento, os investigadores tentam entender o contexto da herança e da viagem de Duarte Lima ao Brasil, não sem antes deixarem um aviso.
Queria lembrar o senhor o seguinte: algumas perguntas podem parecer ao senhor inconvenientes ou que não está relacionado ao assunto, mas pra gente faz sentido. Só vai entender isso quem está trabalhando na investigação.
Ao longo da conversa, que dura cerca de uma hora, Duarte Lima recusa responder se desembarcou em Belo Horizonte no dia 5 de dezembro de 2009 para se encontrar com outro cliente. Diz que fez a viagem entre Lisboa e o Brasil sozinho e reafirma que foi Rosalina que, sabendo que ia ao país, lhe pediu uma reunião presencial no Rio de Janeiro. Apesar de dizer que alugou um carro para viajar entre as duas cidades, diz que não se lembra de onde o fez e irrita-se quando lhe perguntam em que hotel ficou no Rio.
Fazer uma pergunta. Qual é a natureza dessa conversa? Eu estou a ser ouvido já em inquérito? Não estou a perceber.
Não, a gente está conversando. Só que o seguinte: o crime de homicídio, o senhor tem experiência disso, é advogado, na verdade, é um quebra-cabeça. Quer dizer, tem peças que ficam lá na ponta do quebra-cabeça, e tem outras peças que ficam principais. Então a gente precisa montar um panorama todo.
Depois de alguma insistência, o advogado português revela que ficou instalado no Sofitel e repete: foi Rosalina que marcou a hora da reunião com ele, à noite. Garante ainda que não acordaram um ponto específico na longa e larga avenida Praia do Flamengo para se encontrarem. Combinaram apenas que seria junto à casa dela.
E quando ela marcou o encontro, qual foi o endereço que ela lhe deu para como é que o senhor ia encontrar com ela?
Você acha que o senhor não conhece o Rio? Ela pediu que encontrássemos na casa dela e eu sei onde é a casa dela, porque várias vezes, nas outras vezes que estive no Brasil, a deixei e apanhei à porta da casa dela na Praia do Flamengo.
Então o senhor apanhou ela na porta da casa dela?
Sim, ela já estava um pouco mais à frente da porta dela.
E como é que ela falou pro senhor esperar nesse ponto?
Repita isso, senhor comissário.
Quando ela marcou com o senhor, ela marcou um ponto de encontro. Como é que ela lhe deu as ordenadas pro senhor esperar ela naquele ponto?
Nada, só pra encontrar no quarteirão junto da casa dela.
No quarteirão junto da casa dela?
Sim, eu sei qual é o número da casa dela, que é o 60, não é?
Tá. Isso, 60. E aí o senhor parou e ficou, o senhor estacionou? Não, né?
Eu vi e ela viu imediatamente quando chegou o carro.
Ela sabia o carro que o senhor estava?
Não, eu vi a senhora dona Rosalina junto da esquina da rua, parei o carro e mal eu parei o carro, ela identificou-me imediatamente.
No quarteirão dela mesmo, não é?
Exatamente.
Aquilo que os policiais estão a ouvir não bate certo com o que já sabem. Naquela noite, as câmeras de videovigilância no local captaram Rosalina a sair do prédio e a virar de forma decidida à direita, em direção ao restaurante Alcaparra. A portuguesa percorreu todo o quarteirão a pé, atravessou a estrada e continuou a andar, sendo captada pelas câmeras do prédio número 100. Depois, Duarte Lima diz que levou a cliente de carro até uma lanchonete, onde pediram uma água e falaram entre 20 a 30 minutos. Foi tão rápido que Rosalina nem sequer teve tempo para beber. Sobre a pasta que a cliente levava e que é bem visível nas imagens, o ex-deputado é categórico: não estava relacionado com a reunião que tiveram. Talvez fosse para um encontro seguinte, com Gisèle. Diz que a mulher estava interessada na compra da posição de Rosalina na Fazenda da Pedra Grande. Ao telefone com o comissário Aurílio Nascimento, Duarte Lima diz que ambas falaram por telemóvel enquanto ele e a cliente seguiam a caminho de Maricá e nega que alguma vez tenha pedido sigilo a Rosalina sobre o encontro deles.
E o comentário dela, quer dizer, vindo a nós através das amigas, entendeu? E que o seguinte: ela estava em contato com o senhor, que o senhor teria marcado com ela Dizendo que uma pessoa iria encontrar com ela. E que era pra ela não comentar isso com ninguém.
A chamada já vai com quase 30 minutos quando cai abruptamente. As dúvidas dos policiais já são muitas. Algum tempo depois, o telefone da polícia volta a tocar. É Duarte Lima. Continua a resposta que ficou a meio. O que aconteceu foi o contrário, afirma. Foi a cliente que lhe pediu sigilo sobre o encontro entre ambos. De seguida, confirma que o entendimento dele era de reserva quanto a qualquer possível venda da posição dela na herança, porque tudo estava em litígio. Mais não sabe, diz, porque deixou a cliente sozinha com Gisèle em Maricá e voltou diretamente para o Rio de Janeiro. Depois, queixa-se de que a conversa já vai longa e que aquelas questões devem ser feitas por carta rogatória, e não ao telefone.
Não, veja bem. O senhor sabe, como advogado, que uma carta rogatória leva muito tempo. Não é isso? Quer dizer, eu presumo que uma carta rogatória vá levar aí pelo menos um ano e meio, dois.
Não, subcomissário. A troca de cartas rogatórias agora é muito mais rápida.
Aurílio faz mais perguntas, depois de o português dizer que, se não demorar muito, pode continuar a responder. Falam durante mais 20 minutos. Duarte Lima descreve Gisèle e é, mais uma vez, questionado sobre o encontro de Rosalina com ela. Os policiais estranham que tenha acontecido tão tarde, quando todos sabiam do medo que a portuguesa tinha de sair de casa à noite. Depois, Duarte Lima mostra-se disponível para ajudar a investigação. Se precisarem que ele peça o levantamento do sigilo à Ordem dos Advogados, pode fazê-lo. Aurílio diz-lhe imediatamente que sim, é necessário.
Tudo que puder vir ao nosso conhecimento é um inquérito. Quer dizer, a gente vai analisar, vai filtrar pra poder chegar efetivamente a quem teve a participação direta nisso, porque a lei aqui no Brasil considera hediondo, insidioso e cruel assassinatos de pessoas com mais de 60, 70 anos.
É nossa também. É nossa lei também, subcomissário.
Entendeu? E da forma como foi. Uma senhora de 74 anos levada a um local ermo, rural, onde não existe nada, enfim, executada friamente.
Isso é claramente obra de criminais.
Em fevereiro de 2010, há pelo menos duas linhas de investigação em cima da mesa. Olímpia Feteira, a principal inimiga de Rosalina, e Duarte Lima, a última pessoa conhecida a ver Rosalina com vida. Após algumas diligências, a polícia continua sem encontrar qualquer Gisèle que encaixe na descrição do advogado. Quanto a Duarte Lima, decidem enviar, no dia 9, um novo e-mail com 14 perguntas para que responda por escrito. Incidem principalmente sobre o aluguer do carro e o desembarque em Belo Horizonte. Mas pedem mais, que agilize o pedido de levantamento do sigilo profissional. Seis dias depois, a polícia recebe um e-mail do português. Não responde às perguntas e diz apenas que tem agendada, para dia 19, uma reunião com o presidente do Conselho Distrital da Ordem dos Advogados de Lisboa, para apresentar formalmente o requerimento. Aurílio e Rogério percebem que têm de esperar. Enquanto isso, vão trabalhando noutra hipótese. O ódio da filha do milionário por Rosalina é conhecido e todos os amigos a apontam como a inimiga número um. Dias antes de morrer, Rosalina tinha dito aos mais próximos que tinha conseguido um documento a comprovar uma alegada fraude imobiliária na venda de um terreno em Maricá. Uma venda que não poderia ter sido feita enquanto não se resolvesse a herança. Seriam esses os documentos que Rosalina levava naquela noite? Nove dias antes do crime, a filha de Feteira esteve no Brasil acompanhada de polícias que foram contratados como guarda-costas. Um dia, o comissário brasileiro recebe uma chamada.
"Eu sou a Olímpia. Eu sei que o senhor está fazendo o seu trabalho. Eu gostaria de colaborar. Então, estou entrando em contato com o senhor. Meu telefone é esse aí e o senhor pode me chamar aí no Brasil, me fazer qualquer pergunta aqui". Palavras dela: "Eu prefiro ir aí, me explicar e responder as perguntas que o senhor quiser, pessoalmente". "Tá bom, muito obrigado". E assim foi feito. E quando eu a chamei, perguntei se ela podia vir, qual o dia que ela podia vir, ela falou assim: "Eu posso ir hoje". "Talvez, se não tiver avião. Mas na hora que tiver o voo, vou estar aí, vou me hospedar no hotel tal e ligo pro senhor". E assim ela fez.
A 3 de maio de 2010, Olímpia Feteira aterra no Rio de Janeiro e dirige-se para a Divisão de Homicídios. Na sala onde vai prestar depoimento, estão os dois policiais do caso, o advogado brasileiro, Paulo Freitas, e o advogado português, José António Barreiros. Olímpia começa por falar na herança e em todos os processos que correm nos tribunais tantos anos após a morte do pai. E rapidamente chega às transferências feitas por Rosalina após o ano 2000. A filha do milionário trouxe papéis. Explica por que é que em Portugal avançou para uma queixa-crime contra a antiga companheira do Lúcio Feteira. Diz que conseguiu descobrir que Rosalina enviou para terceiros os milhões que tirou das contas conjuntas que tinha com o milionário. Mais de cinco milhões foram para contas de Duarte Lima. É ele o maior beneficiário. Olímpia assume que odiava a ex-companheira do pai, mas não queria que ela morresse. O que queria era que Rosalina fosse presa. E esclarece que, caso não tivesse sido morta, assim que voltasse a Lisboa, Rosalina teria de ir a tribunal responder por esse dinheiro.
Tanto que pra Rosalina vir pro Brasil, ela teve que pedir autorização pro juiz. Alegando tratamento de saúde, resolver negócios aqui. E o juiz deu e o prazo era até aquele dia oito, ou um pouco antes. Só que o Valentim, advogado dela, muito provavelmente orientado pelo Duarte Lima, pediu pra ela adiar, em vez de voltar no dia oito, voltar no dia 12. Algo assim. E ela fez isso, adiou a ida.
A polícia está cada vez mais convencida de que Olímpia está a dizer a verdade. Sabe do que fala e está bem documentada. Além disso, em nenhum momento foi interrompida ou orientada pelos advogados. No final, conta um detalhe que acaba por ser muito importante pra a investigação. Quando teve conhecimento das primeiras notícias sobre a morte de Rosalina, achou que era um esquema para conseguir fugir à justiça. Nunca acreditou que ela estivesse morta. E prova disso, são os comprovativos de pagamentos que fez a uma empresa de detetives privados de Lisboa para a tentar encontrar.
O depoimento da Olímpia foi perfeito.
Pouco tempo depois da conversa com Olímpia Feteira, a polícia deixa de a considerar um dos suspeitos do crime. Sobra Duarte Lima. O telefonema com o advogado português provocou muitas desconfianças. Primeira: como é possível não se lembrar do sítio onde alugou um carro há apenas dois meses? Segunda: como é que garante ter apanhado Rosalina perto de casa, quando as câmaras de segurança a mostram a andar a mais de um quarteirão de distância? Terceira: como é que Rosalina pode ter falado ao telemóvel com Gisèle durante a viagem no carro de Duarte Lima para Maricá, se os três aparelhos que tinha foram encontrados no apartamento dela? Quando a polícia for analisar os dados dos vários telemóveis usados pelo advogado português no Rio de Janeiro, vai ficar ainda mais convencida de que ele está a esconder muitas coisas. Mas essa é uma história para o próximo episódio. Se for assinante standard ou premium do Observador, não tem de esperar e pode ouvir já todos os episódios. Se ainda não for, basta assinar em observador.pt/assinar. No próximo episódio.
Inclusive, com uma pergunta nossa: por que ele não colocou o carro na garagem do hotel? Porque ele vai pagar pelo estacionamento.
"Não, Edson, eu estou em casa". Inclusive, ela comentou, agora que você falou, não me lembro. Ela comentou: "Meu Deus, eu com tanta coisa pra fazer, e veia de viagem, estou presa em casa esperando um telefonema".
Alô?
Estou, sim.
Por favor, senhora Rosalina?
É própria. Minha filha, não, eu vou pra Portugal. Não posso agora tratar de nada.
O Observador contactou Domingos Duarte Lima, mas o advogado recusou ser entrevistado para este podcast. "As Sombras de Duarte Lima" é uma série para ouvir em seis episódios e faz parte dos Podcast Pluss do Observador. É narrada por mim, João Reis, com banda sonora original de Filipe Raposo. O guião e as entrevistas são de Carlos Diogo Santos. As entrevistas a Olímpia Feteira, Maria Alcina e Rosemary Spinella foram feitas em 2015. A sonoplastia deste episódio é de Artur Costa. O design gráfico é de Miguel Ferraz Cabral. A edição é de João Santos Duarte e Tânia Pereirinha. A coordenação é de Miguel Pinheiro e Sara Antunes de Oliveira. Podcast Pluss do Observador: é mais do que um podcast.
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