Em tempos, a mulher de Guy Delisle fez parte dos Médicos Sem Fronteiras, o que levou o casal a viajar muito, durante longos períodos. Tal facto permitiu ao autor passar temporadas na Birmânia e em Jerusalém, locais que foram cenários para dois dos seus livros mais populares, Crónicas da Birmânia (2010) e Crónicas de Jerusalém (2011) — este último, aliás, deu-lhe atenção global, graças ao prémio de Melhor Álbum de Banda Desenhada no Festival Internacional de Angoulême. Ambos foram publicados em Portugal pela Devir, tal como Pyongyang (2005) e Shenzhen (2006), livros lançados antes, baseados em experiências que viveu na Ásia, quando trabalhou por lá em estúdios de animação.
Mais do que o olhar do outro, os livros de viagens de Guy Delisle deburçam-se sobre o quotidiano. Com humor, claro, falam do estranho sem caricaturas, são humanos e fazem-nos sentir próximos. São, também, reflexo de um método de trabalho, de alguém que tira notas diariamente e mais tarde olha para elas. Estes quatro livros de viagens nasceram sem esse propósito, foram acontecendo. E, tal como nos diz na entrevista, há uma razão para os ter deixado de fazer. Como também houve uma razão para escrever as hilariantes crónicas de O Guia do Mau Pai (chegou este ano às livrarias, também com o carimbo da Devir), publicados originalmente entre 2013 e 2015. A razão mais óbvia de todas: Delisle foi pai e passava muito tempo em casa com os miúdos.
Na edição deste ano do festival, o Amadora BD prestou-lhe homenagem. Uma exposição — Guy Delisle, O Viajante Imprevisto — olhou para as novelas gráficas do autor canadiano (hoje vive em França) no contexto das suas viagens e do tempo, objetos que trouxeram outros tipos de tópicos para a BD e, com isso, novos leitores. O autor esteve no festival e conversámos com ele. E foi pela parentalidade que começámos.
▲ “Na realidade, o meu trabalho é fácil [risos]. É uma questão de ter bom ritmo, boa narração e arranjar uma boa história. Só que quando sou eu a inventar as histórias, nunca é bom”
Gamma-Rapho via Getty Images
Até escrever O Guia do Mau Pai era sobretudo conhecido por novelas gráficas sobre viagens. O que proporcionou essa mudança?
Simples: parámos de viajar como fazíamos antes. Passei a estar mais tempo em casa com os miúdos e aquelas histórias começaram a acontecer. No início, não pensei que pudessem fazer parte de um livro. Ao escrevê-las e ao colocá-las num dos meus sites, muita gente, sobretudo pais, referiam que passavam pelo mesmo. Achei isso curioso e motivou-me a fazer mais. Afinal, tudo aqui podia ser divertido. A dado momento, o meu editor perguntou-me se tinha mais, ele acreditava que se podia fazer um livro com aquelas histórias. Os miúdos ainda eram pequenos, continuavam por casa e, dia após dia, decobria novas ideias para histórias, que formaram quatro pequenos livros.
Foram muito populares em França. Torna-se fácil criar a partir deste tipo de histórias, quando os protagonistas estão juntos e na mesma casa?
Sim, faz parte da forma como trabalho. Gosto de observar detalhes. Durante um certo período da minha vida, a maior parte do meu tempo era passado em casa, com os miúdos. E dava por mim encravado na situação do “não podes fazer isso, não podes dizer aqueloutro”. Tornou-se claro que talvez houvesse uma história, ou várias histórias, no meio de tudo o que estava a acontecer. Muitas das histórias são transcrições a 100% da vida real.
E quando os filhos ficam mais velhos, o que acontece?
Aconteceu o mesmo que já se tinha passado com os livros de viagem: a fonte secou. Eles agora são adultos, têm 23 e 20 anos, o tempo de serem miúdos a fazer disparates passou. Houve uma altura em que pensei que na adolescência iria existir mais material, que iria ser divertido, mas não aconteceeram aqueles episódios realmente especiais. Creio que em parte foi porque gostei mesmo de fazer aquelas histórias quando eram pequenos, porque há um lado naturalmente engraçado e inocente. Na adolescência eles iriam reclamar se eu pusesse algumas situações em livro. Além de que eu não achei muita piada, porque não existia realmente um conflito: a adolescência deles foi muito tranquila, são miúdos calmos. Só me resta esperar ser avô e ver o que aí vem.
Uma nova perspetiva, talvez.
Sim, reinventar tudo. Por vezes penso nisso, porque para mim não resulta criar coisas do nada. Preciso de um ponto de partida e ele tem de estar à minha frente. Na realidade, o meu trabalho é fácil [risos]. É uma questão de ter bom ritmo, boa narração e arranjar uma boa história. Só que quando sou eu a inventar as histórias, nunca é bom.
Existem momentos em que nos arrependemos do que fazemos enquanto pais. Alguma vez, ao criar estas histórias, se reviu como um mau pai?
Isso passa pela cabeça, claro. Mas não. E não foi necessariamente com as histórias. Questionamos sempre o nosso trabalho de pais, no meu caso não é nada de dramático, são pequenas coisas. Quando eles têm aquela idade, é fácil ficarmos zangados. Mas não coloquei nas histórias aqueles momentos em que eu não estava no meu melhor.
Certamente aprendeu muita coisa com esses exercícios.
Aprendi a falar com eles… Mas bom, há aquelas alturas em que há um que não está a dormir de noite e depois o outro acorda demasiado cedo… Por vezes, olho para fotografias desses anos e pareço muito exausto. O que faz sentido, porque era exatamente assim que me sentia. E, claro, fico irritado mais facilmente com pequenas coisas. Mas depois acalmo-me. Sou um tipo relaxado, ou pelo menos acredito que sou. Quando eles são miúdos, conseguem encontrar facilmente certas coisas dentro de nós.
▲ "Crónicas de Jerusalém", "Crónicas da Birmânia", "Pyongyang" e "Shenzhen", os quatro "livros de viagens" de Guy Delisle, publicados em Portugal pela Devir
O processo criativo de escrever e desenhar essas histórias ajudou-o durante esse período?
A situação é divertida, mas o final pode não ser. Por isso, o que fazia era tomar notas da situação e depois desenhava e escrevia ao mesmo tempo. É por isso que os desenhos parecem tão relaxados, era como se estivesse a improvisar. Por vezes estava algumas horas a desenhar e não conseguia encontrar um fim para a história. Tenho muitas que não terminei, porque a ideia era boa, mas o final não resultava. É como uma piada que estamos a contar, pensamos que as pessoas se irão rir, mas no final não se riem. Sou o primeiro leitor, leio, não tem piada, não funciona. Por vezes, a improvisação dava o que pareceia ser um bom final, ao ponto de ficar a rir enquanto estava a desenhar. Há o caso de algumas em que me estava a rir tanto que nem conseguia terminar a história.
Numa outra perspetiva e sobre os livros de viagens: porque é que se tornaram tão populares?
Inicialmente, as histórias atraíram as pessoas, creio que em parte pelo seu elemento histórico. Algumas começaram a seguir-me desde o Shenzhen mas, sobretudo, a partir do Pyongyang. A dado momento estavam só à espera que visitasse outro país e contasse uma história. Tive a sorte de ter de acompanhar a minha mulher em trabalho durante longos períodos, foi aí que nasceram o Crónicas da Birmânia e o Crónicas de Jerusalém. À medida que foram publicados, fui conquistando novos leitores. Ajudou estar numa editora pequena, que acreditou nestas histórias a preto e branco, sobre um tipo na China, a falar do dia-a-dia e a tentar lidar com isso… se eu estivesse na altura numa editora maior, creio que não me deixariam ter feito o que eu queria fazer. Também tive a sorte de, por essa altura, existirem mais livros como o meu, como o da Marjane Satrapi [Persepolis].
Procurava ativamente pelas histórias que incluiu nos livros ou surgiam naturalmente?
Naturalmente, como com as histórias dos miúdos. Na altura do Crónicas de Jerusalém eu estava a fazer um blog. Ia escrevendo sobre o quotidiano, porque enquanto estive lá, não tinha mesmo tempo para criar um livro. Prefiro tirar notas, olhar para elas depois e lembrar-me se algo teve piada, se foi estranho e se há algo fora do comum. O que muitas vezes fazia era olhar para as minhas notas, encontrar esse tipo de coisas e enviava um postal para a minha família.
Encontrava uma voz nesse processo?
A narração é importante, mas é difícil encontrá-la quando estou no meio dos acontecimentos. Vejo o potencial, mas não necessariamente como concretizá-lo. Isso surgia-me quando regressava e falava com as pessoas sobre a minha experiência. Quando voltei da Coreia do Norte achava que não tinha nada de especial, mas ao falar sobre a minha experiência com outras pessoas, comecei a ver a reação delas: “o quê?!”. Ocorreu-me que algumas coisas eram, de facto, estranhas. Fui ler as minhas notas e reparei que poderia haver algo de divertido ali e passei a extrair as histórias a partir do primeiro dia.
Do que tem receio?
De ser aborrecido, de não encontrar um bom ritmo. As novelas gráficas são boas para tentar ultrapassar isso, porque é preciso concentração página a página. Não é como um romance, em que podemos escrever e escrever sobre um tópico. Aqui temos de o fazer em duas ou três páginas, no máximo. Fascinam-me os comediantes de stand-up, contam histórias banalíssimas, mas a forma como as contam faz com que sejam entretidas e divertidas. O meu objetivo não é exatamente esse, sou apenas influenciado por essa ideia.
Considera-se uma pessoa engraçada ou trabalha para isso nos seus livros?
Sou melhor nos livros do que na vida real. Gosto de beber uma cerveja e contar histórias… Partilho um estúdio com dez outros artistas e não sou — de longe — o mais divertido. Preciso de algum tempo a contar uma história de forma eficiente. É diferente de contar uma história na vida real, eu nunca seria um bom comediante, não o consigo fazer em frente a um microfone.
Considera que com o tempo se tornou melhor?
Já não batalho tanto com algumas dificuldades que tinha inicialmente. Vou criando ferramentas e e vou tentando aperfeiçoá-las ao longo do tempo. No meu caso, há mais de vinte, vinte e cinco anos.
▲ “O Guia do Mau Pai” também está publicado em Portugal pela Devir
Podemos dizer que os seus livros de viagens trouxeram um público para a banda desenhada que não era originalmente da banda desenhada?
Não tenho a certeza, mas é uma sensação que tenho. Nas apresentações de livros, ou quando dou autógrafos, muitas vezes alguns leitores vêm ter comigo e dizem-me que começaram a ler banda desenhada graças aos meus livros e aos da Marjane Satrapi ou do Joe Sacco. De repente, aperceberam-se que existem novelas gráficas e que são boas. E continuam a lê-las e a gostar delas. Mas não fiz parte de uma primeira vaga desse processo, talvez de uma segunda.
Já passou a fase dos livros de viagem?
Nunca estou tempo suficiente num novo lugar para justificar um livro. E quatr o livros pode ter sido um número suficiente. Se fizesse mais, talvez me começasse a repetir. E isso é algo que não gostaria que acontecesse. Apenas faria um quinto se fosse algo que achasse que faria sentido e que fosse fácil de fazer, fácil no sentido de me sair naturalmente, algo que não procurasse como um quinto livro, mas que viesse até mim como tal. Uma coisa tenho a certeza, se hoje voltasse a Jerusalém, o livro seria totalmente diferente. Porque tudo depende das pessoas e das situações que encontramos.
Está feliz por ter parado de viajar, parece…
Em parte, sim, porque permitiu-me procurar e fazer outras histórias. Tenho um amigo que conheci nos Médicos Sem Fronteiras que foi raptado na Chechénia. Conseguiu escapar ao fim de três meses. Ele contou-me a história toda e ocorreu-me fazer um livro sobre isso e fiz [Hostage, não está publicado em Portugal].
Com Crónicas de Jerusalém venceu um prestigiado prémio no Festival Internacional de Angoulême [em 2012]. O que mudou?
Passei a vender muitos livros. Mas o que mudou muito foi que, a partir daí, comecei a poder trabalhar em livros bastantes diferentes e não tinha de convencer um editor de que era uma grande ideia. O que é muito bom, é muito confortável para um artista estar nessa posição. Dá muita liberdade.