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Bem-vindos a mais um "Café e a Conta", com a professora Rosário Moreira, docente na Porto Business School e na Faculdade de Economia do Porto. Muito boa tarde, professora. Hoje vamos mantendo a tónica na guerra, como temos feito, aliás, nos últimos dias. Vamos falar de possíveis consequências do conflito entre a Ucrânia e a Rússia, possíveis consequências que afetem as famílias portuguesas, que afetem os investimentos, as poupanças.

É verdade. Boa tarde, Judite. Tudo bem?

Tudo bem, professora.

Antes de mais, eu gostava de deixar aqui a minha solidariedade para com a população ucraniana e para com todos os que estão com as suas vidas em risco. É verdade, na semana passada ainda falámos dos ETFs como uma forma de rentabilizar as poupanças e também pra combater aquilo que nós andamos a falar da desvalorização do dinheiro devido à inflação. E agora, uma semana depois, eu quero sublinhar o cuidado que os nossos ouvintes devem ter com estes investimentos. Investimentos com risco em momentos de crise são ainda mais suscetíveis.

Arriscados.

Arriscados, é verdade. E nós sabemos que as crises, neste caso, infelizmente, devido a uma guerra na Europa, há muitas oportunidades de investimento com alto potencial de ganho, mas também o risco de perdas nestas alturas acaba por ser mais elevado. E esta instabilidade que nós estamos a viver, a instabilidade geopolítica, está a aumentar, como nós ouvimos quase a toda a hora, o preço das commodities, em especial as que estão relacionadas com energia e as metálicas. E os ETFs, que nós falamos na semana passada, que seguem o valor da energia, estão a ter uma rentabilidade elevada e até é um investimento que pode parecer atrativo. No entanto, deixo aqui a nota que, em tempos de incerteza, somente os investidores que tenham conhecimento ou que tenham algum apoio é que devem entrar por este tipo de investimento.

Portanto, fazer isto sozinho neste momento não é opção.

Sozinho não é opção, a não ser que tenha um conhecimento grande sobre o funcionamento dos mercados financeiros. Eu sugeriria mais o investimento em ações, se quiser continuar a investir em fundos. Ou então em aplicações com maior rentabilidade, em setores mais resilientes e que estejam menos dependentes do cenário externo e como o setor da banca ou o setor da saúde, o setor das tecnológicas, que está um bocadinho mais independente do que está a acontecer. Nós também temos alguns fundos de refúgio, que é onde a maior parte dos investidores se protegem, por exemplo, no franco suíço, no iene, ou ainda até no ouro e em metais preciosos ou matérias-primas agrícolas.

Professora, em relação ao impacto da guerra na nossa economia, nós temos ouvido muitos especialistas em finanças e economia alertarem para a instabilidade e a volatilidade dos mercados. Quais serão as consequências mais previsíveis para uma economia que não deixa de ser uma economia periférica como a portuguesa?

Pois, neste caso, o fato de sermos economia periférica até nos vai ou nos está a beneficiar, porque acabamos por estar longe. Não temos uma relação muito próxima, ou pelo menos não tão próxima como com Espanha, França, Itália. As nossas relações comerciais com a Ucrânia e a Rússia acabam por ser relativamente menos representativas comparado com outros países. Aqui, estar na periferia acaba por ter menos impacto, mas mesmo assim vai haver um impacto indireto grande, um impacto indireto devido à escalada dos preços da energia. Não é que nós importemos diretamente da Rússia, mas indiretamente vai haver escassez da matéria-prima e por isso mesmo o petróleo e o gás natural vão ver os seus preços a subir.

E se alguns dos nossos parceiros comerciais mais importantes, como é o caso da Alemanha, também sofrerem diretamente com o problema de abastecimento de energia, isso também acabará por se refletir nos nossos bolsos.

Sim, acaba por se refletir, porque isto é como um castelo de cartas, não é? Em que vão se sentindo as ondas de choque com mais intensidade quanto mais perto nós estivermos dessas economias e o grau de pendência também for maior. Eu diria que temos aqui, Bruno, por via indireta, dois grandes impactos. Um tem a ver com isto que eu acabei de dizer, a escalada dos preços da energia, e também o outro é a turbulência nos mercados financeiros e nos mercados em geral. Temos ainda então outro efeito, que referi há pouco, nas finanças pessoais do nosso bolso, precisamente porque vai haver uma desvalorização do dinheiro. Há uma escalada de preços. Já havia no pós-pandemia e também pelo fato de haver alguns desajustamentos da oferta e da procura, e agora com o ataque à Rússia, espera-se uma subida generalizada acima do que estava inicialmente previsto.

Portanto, mais inflação

Mais inflação, o nosso dinheiro vai desvalorizar e eu já nem falo aqui da possível subida da taxa de juro por parte do Banco Central Europeu.

Professora, não acha que isso vai ser adiado, essa hipótese que se tinha aventado, não acha que neste momento será adiada?

Eu acho que sim. Eu estive a ouvir um comentário que diziam que isto é mesmo como colocar fogo sobre o combustível, quer dizer, as economias iam explodir. Eu penso que esta decisão do BCE, mesmo que a taxa de juro comece a subir, vai acabar por ficar um pouco em suspenso, um pouco adiada precisamente devido a esta questão toda da incerteza, essencialmente. A incerteza é péssima para os mercados.

Mas haverá também efeito direto nas empresas, nas nossas empresas, sentirão esse impacto direto.

Sentirão. Não tanto como se fosse aqui ao nosso lado, em Espanha ou em França, mas vão sentir. E há aqui uns setores que vão sentir muito. Temos aqui o setor da cortiça, o calçado, o vinho. Temos também alguns bens alimentares, como os enchidos ou os ovos, que têm uma percentagem do seu volume da exportação bastante elevado para a Rússia e para a Ucrânia. E depois indiretamente, porque se se vende menos vinho, também a própria cortiça vai se vender menos. Isto é o efeito cascata que se vai sentir ao nível também dos outros setores, mas essencialmente destes que eu acabei de referir.

Portanto, cuidado com os investimentos nesta altura. Só para sistematizar. Os preços de alguns produtos vão aumentar e a poupança é importante.

Três pontos principais, dois deles já referiste, Judite. Cuidado com os investimentos. O ouvinte deve aconselhar-se se quiser arriscar ou então colocar em investimentos quase sem risco. Os preços vão escalar, por isso as famílias devem gerir mais de perto o seu orçamento familiar, ter isto em consideração, porque isto vai acontecer. E depois o terceiro ponto, que é a poupança, acaba por ser um imperativo nestes momentos de incerteza. Onde é que vamos colocar as nossas poupanças? Há muitos produtos financeiros com risco nulo ou quase nulo, mas o problema é que com a escalada da inflação irá necessariamente haver uma desvalorização das poupanças. Portanto, se nós admitirmos algum risco, então os ETFs da energia, algum tipo de ações mais conservadoras, mas sempre com aconselhamento de especialistas ou do banco, ou da corretora com quem trabalha.

Sempre uma nota importante a ter em conta num momento como este. Professora, encontramo-nos para a semana para mais um "Café e a Conta" e entretanto estamos disponíveis no site do observador.pt e claro, nas plataformas de podcast. Até para a semana, professora.

Até para a semana.

Até para a semana, Judite e Bruno.