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Schellenberg sabia que o caso era sério. Se o velho não queria discutir o assunto pelo telefone, então é porque a matéria era mesmo sensível. O velho era como os agentes mais novos chamavam a Ribbentrop, o ministro dos Negócios Estrangeiros de Hitler. O agente ligou primeiro ao chefe para lhe dar conta do que estava a acontecer. Heydrich ficou incomodado por o ministro não lhe ter falado antes de usar dos homens dele, mas o melhor era não levantar problemas. Quando o agente Walter Schellenberg entra no gabinete, o ministro está sentado à secretária, de braços cruzados e rosto sério. Pede a Schellenberg para se sentar. O agente tem à frente um homem de expressão rígida, gestos artificiais e pouco espontâneos, que praticamente não sorri. Depois de uma pequena conversa de circunstância, o ministro diz que sabe que o agente tem bons contactos em Espanha e Portugal e que consegue facilmente a cooperação com as polícias desses países. De repente, começa a fazer-lhe perguntas sobre o Duque de Windsor, o antigo rei Eduardo VIII. Quando Schellenberg dá a opinião sincera e diz que a monarquia tinha resolvido um problema para assegurar a continuidade, Ribbentrop enerva-se. Afirma que a abdicação foi apenas um pretexto para remover do trono um homem que era um amigo da Alemanha. Garante que o Duque ainda mantém essas simpatias, que se sente um prisioneiro dos serviços secretos britânicos e que se forem criadas as circunstâncias certas, vai estar pronto para colaborar com os alemães. E Schellenberg é o homem certo para ser enviado a Lisboa e assegurar que a missão vai ser bem-sucedida. Se os nazis tivessem um James Bond, esse homem seria Walter Schellenberg. Quando entra no gabinete do ministro, é já um agente reconhecido. No verão de 1940, é nele que os nazis depositam toda a confiança para tirar o Duque de Windsor de Cascais, trazê-lo para a Espanha e dar início ao plano que iria permitir aos alemães dominar a Europa. Schellenberg vai contar com a ajuda de boa parte da polícia política portuguesa. Só há um problema: o alemão é enviado a Lisboa com base em informações manifestamente exageradas. E isso vai pôr tudo em causa no final. Este é "Um Rei na Boca do Inferno, uma série para ouvir em seis episódios, que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Soraia Chaves, com banda sonora original de Cláudia Pascual. Episódio cinco: o James Bond nazi.
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9 de novembro de 1939. A Segunda Guerra Mundial começou há apenas dois meses. Schellenberg prepara-se para a primeira grande missão da carreira, meses antes de ser enviado a Lisboa. Está sentado no interior de um café na cidade holandesa de Venlo, a poucos metros da fronteira com a Alemanha. O agente está nervoso. As pessoas que guarda estão atrasadas. Já passou mais de uma hora do combinado. Pede um café forte, mas assim que pega na chávena quente, olha através da janela e vê um carro que chega e estaciona no exterior. Schellenberg levanta-se, diz ao empregado que vai ter com uns amigos lá fora. Os amigos são, na verdade, dois agentes dos serviços secretos britânicos, com os quais tinha ganho confiança nas últimas semanas. O agente secreto fez-se passar por um representante da oposição a Hitler dentro do exército alemão. Inventou a história de uma facção alegadamente chefiada por um general com peso político. Um grupo fictício que queria remover Hitler do poder e queria saber qual a disponibilidade do governo britânico para apoiar o novo regime na Alemanha. De início, a missão era apenas enganar os britânicos e obter informações do inimigo. Mas a 8 de novembro, tudo muda. Hitler escapa a uma tentativa de atentado em Munique e desconfia que o Reino Unido esteja por detrás do plano. Por isso, a missão de Schellenberg passa a ser outra: tem de raptar os dois agentes como retaliação. Os ingleses aguardam dentro do carro no parque de estacionamento do café. Schellenberg vai a caminhar até à viatura quando, como combinado, um outro carro se aproxima a grande velocidade. O carro vem do lado alemão, atravessa o posto de controle de fronteira dos holandeses à força, partindo as cancelas. Assim que se aproxima do estacionamento, começa um tiroteio. Os dois agentes britânicos tentam reagir, mas estão em desvantagem. Acabam por se render e são detidos por Schellenberg. Atira-os para a bagageira e em poucos segundos estão a ser levados para o outro lado da fronteira. A operação era altamente arriscada, mas foi um sucesso. Os alemães envergonharam os ingleses e capturaram dois agentes inimigos valiosos. A partir daí, Schellenberg começa a construir a reputação. É o homem ideal para os casos que parecem impossíveis. Oito meses depois, quando o Duque de Windsor está em Portugal, Schellenberg ainda só tem 30 anos, mas já é um dos mais importantes agentes secretos nazis. Ganha fama inicial com o rapto dos dois agentes britânicos, mas muitas outras operações se iriam seguir. Schellenberg é frio e calculista. Gosta de dizer que a maior arma de qualquer agente não é uma pistola, é a subtileza. Está sempre preparado para que nada falhe e tem sempre planos alternativos, até para a própria morte. Tem um dente falso de cianeto que pode partir caso seja capturado pelo inimigo. E se o dente não funcionar, tem ainda uma cápsula de veneno escondida no anel. A ordem que o agente alemão recebe antes de partir para Lisboa é clara: tem de assegurar que o Duque é levado em segurança para Espanha e impedir qualquer resistência dos serviços secretos britânicos. Mas Ribbentrop vai ainda mais longe. Diz ao agente que se o contexto for propício, pode até fazer uma oferta formal ao Duque. Os alemães estão preparados para depositar 50 milhões de francos numa conta na Suíça. Basta que Eduardo esteja disposto a dissociar-se publicamente da família real britânica. E 50 milhões está longe de ser o máximo que os nazis estão dispostos a pagar. Hitler prefere instalar o Duque na Suíça por uma questão de proximidade, embora qualquer outro país neutral sirva, desde que não esteja fora da influência política e militar do Terceiro Reich. Ribbentrop tem a certeza de que Eduardo vai cooperar, mas teme que os britânicos o consigam induzir em alguma espécie de paranoia. Nesse caso, e só nesse caso, Schellenberg está autorizado a usar a força contra o Duque. O plano dos nazis, que Schellenberg tem de supervisionar, vai ser executado pelos espanhóis e envolve o filho de um ex-ditador e um conde com pretensões a entrar na história. O primeiro passo é convidar os duques para uma caçada na zona da Guarda, não muito longe da fronteira. Uma vez lá, apareceria Miguel Primo de Rivera. O encontro entre Eduardo e Wallace e o amigo espanhol, filho do antecessor do general Franco, teria de parecer um acaso. Miguel deveria depois convidá-los para uma visita rápida a Espanha. Atravessariam a fronteira por Vilar Formoso até chegarem a Ciudad Rodrigo, onde iriam visitar um castelo do século XV, que era propriedade do Conde de Montar. Por sua vez, o Conde só tinha alinhado no plano porque o amigo lhe disse que o castelo podia vir a entrar na história. Com os duques a ficarem retidos em Espanha, talvez o acordo de paz entre a Alemanha e o Reino Unido acabasse por ser assinado ali. O Conde, o filho do ex-ditador, Schellenberg, os espanhóis e os nazis tinham tudo planeado. Só Eduardo não fazia ideia de que se aceitasse ir àquela caçada, nunca mais regressaria a Cascais. 25 de julho de 1940. Um dia depois de Ribbentrop decidir enviar o temível agente Walter Schellenberg a Lisboa, o ministro alemão recebe um novo telegrama do embaixador em Madrid. Traz informações adicionais sobre o que aconteceu durante a visita recente de um emissário espanhol a Portugal. O emissário visitou o Duque na casa cor-de-rosa da Boca do Inferno. Jantaram em duas ocasiões. O espanhol aconselhou a não aceitar o cargo de Governador das Bahamas, porque ainda podia desempenhar um papel político relevante na Europa. Talvez até pudesse voltar a ascender ao trono. O relato diz que tanto o Duque como a Duquesa ficaram surpreendidos. Responderam que de acordo com a lei britânica, isso não seria possível depois da abdicação Mas o emissário lembrou-os de que o curso da guerra poderia sempre mudar tudo. Ao ouvir estas palavras, garante o telegrama alemão, a Duquesa Wallis Simpson terá ficado pensativa. Ao longo dos anos, foram várias as histórias e os mitos à volta de Wallis Simpson e das alegadas simpatias nazis da mulher que levou Eduardo VIII a abdicar por amor. Muitas delas baseiam-se num possível relacionamento com Ribbentrop, o Ministro dos Negócios Estrangeiros de Hitler, que teria começado na altura em que o alemão era embaixador em Londres. O historiador britânico Alexander Larman garante que esta teoria não faz qualquer sentido.
Foi inventado por pessoas que querem fazer manchetes. Há tantas histórias incríveis sobre Eduardo e Wallis, excelentes histórias que podem ser verificadas. Que Eduardo tinha simpatias nazis e os interesses dele em tudo isto. Wallis não simpatizava com os nazis. Se ela tinha simpatias políticas, até eram de esquerda. Por isso, todas estas histórias sem sentido de ela ter sido amante de Ribbentrop, não percebo por que continuam a ser repetidas. Não são verdadeiras. Posso dizer isto categoricamente.
Para os que a defendem, Wallis Simpson foi vítima de uma narrativa que tinha como objetivo colocá-la como a grande vilã da história de abdicação do marido. Anna Pasternak, autora de uma biografia sobre Wallis, afirma que isso criou para sempre a imagem de uma mulher sedutora e com fins obscuros, mas que estava muito longe da realidade.
Todos esses rumores dos amantes foram apenas tentativas do sistema para a descredibilizar. Isso não estava na natureza dela. Naquela idade, ela era muito puritana. Não era provocadora ou sedutora, muito menos num sentido sexual. Ela era muito tímida e insegura em relação ao próprio corpo, por isso até criou uma espécie de armadura na forma como se vestia, muito rígida. Ela foi escolhida como a vilã desta história. A família dele aniquilou-a completamente ao nunca se encontrar com ela e ao não lhe conceder o título de Alteza Real, ao qual ela tinha direito por lei e que as pessoas hoje reconhecem.
Em julho de 1940, são raras as referências a Wallis Simpson nos telegramas trocados entre os embaixadores alemães e Berlim sobre o caso do Duque de Windsor. E nenhuma lhe atribui papel na trama de tentar convencer o Duque a colaborar com os nazis. Nunca será possível verificar de forma independente boa parte das informações que constavam dos telegramas nazis que foram encontrados no final da Segunda Guerra Mundial. São muitas vezes baseados em relatos e impressões de terceiros. A adicionar a isso, anos depois viriam a descobrir-se as fragilidades das secretas alemãs. Muitas vezes, a informação enviada pelos agentes para Berlim era mais propaganda do que um retrato fidedigno da realidade. E havia ainda outra coisa que se tornaria decisiva para os aliados: a facilidade com que os nazis acreditavam em toda a informação que lhes chegava. José António Barreiros, que tem vários livros publicados sobre a espionagem na Segunda Guerra Mundial, dá exemplo curioso. A forma como os alemães eram enganados com recurso à astrologia.
Toda uma rede, por exemplo, de contrainformação baseada na crendice astrológica de muitos dos quadros do nazismo. Então o que eles faziam, praticamente, eram mapas astrológicos que previam dias bons e dias maus para as operações e estupidamente, de facto, verificavam que muitas dessas astrologias, que eram depois difundidas em alemão, como fosse originariamente alemão, através de suportes videntes alemães e tudo isto, tudo isto era falso, mas no entanto encontravam eco e esse eco depois era monitorado e isso não parava de surpreender.
E nenhum homem tirou tanto partido da forma como os alemães acreditavam na informação que lhes davam, como um espião duplo, que também passou por Lisboa. Um homem que tinha o nome de código de estrela de cinema: Garbo. Juan Pujol Garcia tinha tudo para ser desastre. O espanhol nem sequer sabia falar inglês, mas tinha objetivo: queria ser espião. Em 1940, ofereceu-se aos britânicos e, obviamente, foi recusado.
E os ingleses perguntam: "Então, mas o que é que sabe fazer, praticamente?" Ele não falava inglês, ele dizia: "Eu tenho apego muito grande à democracia, eu quero estar do lado certo, etc". E os ingleses diziam: "Está bem, muito obrigado, gostámos muito", quase tipo uma entrevista de emprego falhada. E o que é que ele faz? Ele oferece-se aos alemães.
Marisa Filipe é investigadora e está a fazer um doutoramento sobre espionagem em Portugal. Recorda como Pujol, que até ali era um simples gerente de um pequeno hotel de terceira categoria em Madrid, convenceu os alemães dizendo que tinha um visto para entrar no Reino Unido, o que iria ser muito útil para recolher informações sobre o inimigo. Claro que o visto não existia, era falsificado. E Pujol também não foi para o Reino Unido. Veio para Lisboa.
E os alemães dizem: "Ok, fantástico, torna-te agente alemão". E dão-lhe um curso rápido de tinta invisível, códigos, etc. E ele então tem que vir para Portugal, porque a partir do momento em que ele mostrasse o visto aos ingleses, ele não entrava. Então o que este homem vai fazer? Ele vai para o Hotel Suisso Atlântico. Eu recordo que ele falava muito mal inglês, mas ele vai recolher informações de todos os jornais e revistas que se vendiam em Lisboa. Nós aqui vendíamos tudo, desde a Paris Match francesa, a Paris Match alemã, aos jornais ingleses. E ele vai inventar, na sua cabeça, isto é extraordinário, 26 espiões e subespiões. A cada espião ele vai dar uma personalidade e uma caligrafia, porque ele cria homens, mulheres e comete muito poucos erros.
Os espiões eram imaginários, mas os alemães acreditaram em tudo. Quando os britânicos perceberam a atividade do Pujol, foram perguntar-lhe o que ele andava a fazer. E o espanhol respondeu: "Vocês disseram-me não duas vezes, então eu agora estou a fazer a guerra à minha maneira." Pujol acaba recrutado pelos britânicos e passa a integrar a rede de espiões duplos. É-lhe atribuído o nome de código Garbo, em homenagem a Greta Garbo, que o agente que o batizou considerava ser a melhor atriz de todos os tempos. Durante algum tempo, Garbo continua em Lisboa a fingir que está no Reino Unido. Justifica aos alemães o selo das cartas com o fato de ter de enviar as informações primeiro para um contacto na capital portuguesa, para os britânicos não desconfiarem dele.
Os alemães, curiosamente, havia uma crendice praticamente quase incompreensível em relação a muita da informação que lhe era dada. O Ramos João Garcia, um catalão. Isso então era espantoso, porque a informação que passava era de tal modo extraordinariamente não credível que os próprios ingleses suspeitavam como é que os alemães tinham, de fato, uma crença naquele homem. Portanto, muito do que foi a crença que os alemães tinham na eficácia dos seus próprios serviços secretos, revelou-se falsa e contribuiu seguramente também para a sua própria derrota, para além da derrota no campo militar propriamente.
Em conjunto com Dusan Popovic, outro espião duplo que também passou por Portugal, Garbo seria fundamental para enganar os alemães. Convenceu-os de que o desembarque decisivo dos aliados no Dia D seria em Pas-de-Calais, quando na verdade, iria acontecer na Normandia.
Eles vão convencer o próprio Hitler que o desembarque não vai ser na Normandia, mas em Pas-de-Calais. E nessa noite, no dia antes do desembarque, Himmler está com vários soldados e os ingleses fazem uma ideia. Lá está, isto parece tudo brincar, mas a realidade passa. Tinham soldados, mas tinham sobretudo, feitos de madeira e cartão, uma espécie de esfinges humanas. Depois punham uma tocha atrás e quando eles chegaram, viram um exército enorme, que era falso. Era cartão e era fogo.
Quatro anos antes, em julho de 1940, nas semanas que o Duque de Windsor passa em Cascais, os alemães também já estão a agir de acordo com informações que não correspondem totalmente à verdade. 26 de julho de 1940. O agente alemão Walter Schellenberg chega a Lisboa e começa logo a pôr em marcha a Operação Willie. Nas memórias que há de escrever anos mais tarde, Schellenberg revela que a primeira coisa que faz assim que chega, é encontrar-se com um agente japonês, do qual era amigo e que se movia bem nos meandros das secretas em Portugal. A prioridade é conseguir informações sobre a mansão da Boca do Inferno, em Cascais, onde o Duque está alojado. Quantas entradas tem a casa? Quantos andares estão ocupados? Quem são os empregados no interior? Quais as medidas de segurança em torno do Duque? No dia seguinte, Schellenberg já tem todas essas informações, incluindo uma planta da casa. Precisa também da ajuda da polícia portuguesa, mas para isso tem um amigo de peso. José Catela, o número dois da PVDE e responsável pela contraespionagem, era um agente duplo que trabalhava para os alemães. E assim, 48 horas depois de chegar, Schellenberg já tem 18 agentes portugueses ao serviço dele. José António Barreiros explica que era fácil recrutar agentes na polícia portuguesa, tanto para os alemães como para os ingleses.
Entravam envelopes superiores ao próprio salário que recebiam. Portanto, no fundo, havia gratificações significativas que eram dadas por um lado e por outro. Portanto, havia muita gente que por dinheiro simplesmente se vendia. Outros por ideologia, havia gente claramente para um lado ou para o outro. Sendo que a maior parte deles acabariam muitas vezes por jogar um jogo de navegar um bocadinho em função do vento que soprava. A PVDE claramente, se eu quiser tirar um denominador comum, poderia afirmar que a PVDE, que foi estruturada de acordo com instruções da própria Gestapo, por aí fora. Muito bem, não ponho isso em causa, mas que na totalidade eles fossem todos germanófilos, não posso afirmar isso.
Com esta rede de informadores, Schellenberg está a par de qualquer movimento dentro da casa cor-de-rosa, de qualquer palavra dita à hora do jantar. Estava tudo a postos para executar o plano de trazer o duque de volta para Espanha. Só que o duque continuava indeciso. Era preciso levá-lo a acreditar que essa era a única saída possível. A situação é perigosa e altamente volátil. Em Londres, o governo é informado das pressões que estão a ser feitas sobre o duque para rejeitar a nomeação para as Bahamas e regressar a Espanha. A dada altura, o Primeiro-Ministro Winston Churchill descobre que Eduardo esteve na Embaixada de Espanha reunido com o embaixador, irmão do ditador Francisco Franco. Andrew Lownie, autor do livro "O Rei Traidor", recorda como Churchill percebe que tem de tomar medidas urgentes para fazer frente à ameaça dos alemães.
Os britânicos contra-atacam enviando um agente para o guardar. E de facto, Walter Monckton, que tinha sido o grande conselheiro de Eduardo durante a crise da abdicação, é enviado por Churchill para lhe dar garantias e certificar-se de que ele entra no barco para as Bahamas.
Quando o enviado de Churchill chega a Cascais na noite de 28 de julho, o duque está num estado de confusão total. Não sabe mais em quem pode confiar. Walter Monckton avisa o duque de que está em perigo se continuar em Lisboa, sim, mas porque os alemães têm em curso um plano para o usar no caso de uma vitória sobre o Reino Unido. O advogado traz também uma carta de Churchill, que acaba por ser decisiva. A 30 de julho, depois de um mês sem falar com jornalistas, Eduardo dá uma conferência de imprensa na Embaixada Britânica em Lisboa. Anuncia publicamente que aceita a nomeação para as Bahamas e que vai deixar Portugal dentro de 48 horas. É uma derrota para os alemães. O plano para atrair o duque para a Espanha, a caçada na Guarda, o encontro simulado com o amigo Miguel Primo de Rivera, o convite para ir conhecer o castelo do Conde de Montarco. Nada disso ia acontecer. Nesse dia, Walter Schellenberg, o agente enviado a Lisboa para garantir o sucesso da missão, escreve no diário pessoal: "Willy will nicht". Willy não quer. A Operação Willy estava a poucas horas de fracassar completamente. Era preciso um plano B. Ribbentrop não contava com isto. De um momento para o outro, a decisão do duque de abandonar a Europa dentro de dois dias punha em causa o grande plano alemão. Nada tinha resultado, nem sequer as manobras para o tentar assustar e fazer acreditar que tinha a vida em perigo. O ministro sabe que são necessárias medidas mais drásticas. No livro de memórias que escreveu mais tarde, Schellenberg recorda como recebeu um telegrama inesperado de Ribbentrop em Lisboa. O agente garante que a ordem expressa no telegrama era muito clara e vinha diretamente do próprio Hitler. O Führer ordena que seja organizado um rapto de imediato. E esse rapto só pode acontecer em Portugal. Mas essa é uma história para o último episódio. No próximo episódio. Para o testar, Schellenberg diz ao português que recebeu ordens de Berlim para raptar o duque no dia seguinte e pergunta-lhe se pode contar com a ajuda dos agentes portugueses para essa missão. Catela responde-lhe que nem pensar. Uma coisa dessas é de extrema gravidade. Pode dar tiroteio, quem sabe, mortos. Os portugueses não podem ser apanhados no meio de um rapto de um membro da família real britânica, e em Portugal. "Um Rei na Boca do Inferno" é uma série em seis episódios e faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Soraia Chaves, e tem banda sonora original de Cláudia Pascoal. O guião e as entrevistas são de João Santos Duarte. A sonoplastia deste episódio é de Beatriz Martelo Garcia. O design gráfico é de Miguel Ferraz Cabral. A edição é de Tânia Pereirinha e João Santos Duarte. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio ouvimos sons retirados do YouTube. Podcast Plus do Observador é mais do que um podcast.
