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O plano era uma loucura. Disso o agente secreto alemão não tinha dúvidas. E não foi necessário muito tempo em Lisboa para perceber o que se estava a passar. A enorme rede de informadores montada pelo agente de Walter Schellenberg permitiu descobrir a verdade em poucos dias. O duque estava cansado da vigilância constante dos serviços secretos e dos agentes da polícia portuguesa. Não estava particularmente agradado com a nomeação e a viagem iminente para as Bahamas e preferia muito mais ficar na Europa. Mas ao contrário do que Berlim pensava, não tinha qualquer intenção de ir para um país neutral, muito menos um país inimigo do Reino Unido. Aliás, tinha acabado de informar que dentro de dois dias ia mesmo partir para as Bahamas para ocupar o cargo de governador. Schellenberg acha que está na altura de desistir, mas recebe uma última ordem drástica e inesperada. Hitler quer que rapte o duque de Windsor em Cascais. É uma loucura raptá-lo quando não há sequer a certeza de que venha a colaborar. O agente acredita que foram as paranóias e fantasias do ministro Ribbentrop que influenciaram a decisão de Hitler e o levaram a apoiar o rapto. Só há uma saída e é altamente arriscada, principalmente se for descoberto. Ele próprio vai sabotar o plano. Ninguém pode falhar se não tiver a oportunidade de falhar. A ideia até é simples: se o alemão quer sabotar os planos de Berlim, a única coisa que tem de fazer é transformá-los numa missão impossível. Mas para isso vai precisar da ajuda da polícia portuguesa. A medida mais urgente será garantir que a segurança à volta dos duques de Windsor, que já é apertada, seja ainda mais reforçada, ao ponto de não haver mesmo qualquer hipótese de alguém chegar até ao duque. Quando fosse questionado sobre isso mais tarde pelos superiores, Schellenberg poderia sempre atribuir as culpas à polícia política e alegar que a PVDE teria agido a mando dos britânicos. O plano do agente alemão até vai dar resultado, mas Berlim não desiste. Quando o rapto falhar, os alemães hão de fazer uma última tentativa desesperada. Vão abrir o jogo com o duque a poucas horas da partida. Para isso, um português será fundamental: o banqueiro Ricardo Espírito Santo. Este é "Um Rei na Boca de um Inferno", uma série para ouvir em seis episódios que faz parte dos podcast plus do Observador. É narrada por mim, Soraia Chaves, com banda sonora original de Cláudio Pascual. Episódio seis: Um rapto impossível.
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É um pequeno restaurante na Baixa de Lisboa. Dois homens estão sentados a jantar numa mesa recatada. Um deles é o agente Walter Schellenberg. O outro é José Catela, o número dois da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado. Para o testar, Schellenberg diz ao português que recebeu ordens de Berlim para raptar o duque no dia seguinte e pergunta-lhe se pode contar com a ajuda dos agentes portugueses para essa missão. Catela responde-lhe que nem pensar. Uma coisa dessas é de extrema gravidade. Pode dar tiroteio, quem sabe, mortos. Os portugueses não podem ser apanhados no meio de um rapto de um membro da família real britânica, e em Portugal. Seria um escândalo internacional de proporções desastrosas. Se o agente alemão quiser avançar, não vai colocar qualquer entrave, mas que não conte com nenhum tipo de apoio dos portugueses. Schellenberg descansou. Não tem qualquer intenção de ir para a frente com as ordens, mas para isso vai precisar de ajuda. Na manhã seguinte, a segurança em torno do duque é inesperadamente reforçada com mais 20 agentes portugueses. Quando os britânicos se apercebem, aumentam também o esquema de vigilância. O agente reporta tudo a Berlim e pede instruções sobre o que fazer. Perante este novo cenário, a ordem de rapto é suavizada Respondem que deve avaliar as circunstâncias e que tem a liberdade para tomar as medidas que entender mais adequadas. O que nos leva de volta ao início do primeiro episódio, para o momento em que um agente alemão dá voltas à mansão cor-de-rosa da Boca do Inferno, fortemente vigiada pela PVDE e pelos serviços secretos britânicos. Esse agente é Walter Schellenberg. E naquele momento, Schellenberg já sabe perfeitamente que não há saída possível. Ele próprio se encarregou de que fosse exatamente assim. É meio-dia de 31 de julho de 1940. Nos jardins da Casa da Boca do Inferno, em Cascais, o Duque de Windsor está à conversa com uma jornalista francesa. Suzanne Chantal tem o exclusivo de uma entrevista com os duques, que será publicada no Diário de Notícias, já depois de saírem de Portugal. A jornalista nota que Eduardo parece agora mais descansado do que à chegada. Escreve que traz mais alegria nos olhos. Fuma cachimbo enquanto vai desviando a atenção para a porta que dá acesso ao jardim, à espera da chegada da duquesa. Enquanto aguarda, o Duque aproveita para elogiar Portugal, um país em paz e em franco progresso, e Lisboa, que está agora mais povoada de estrangeiros do que qualquer outra cidade do mundo. Wallis já desce, entretanto, os degraus que dão acesso ao terraço. A jornalista descreve-a como aquela que fez do mais poderoso soberano do mundo, um príncipe errante. O rosto pálido, os olhos de um azul luminoso, um vestido branco às riscas, também azuis. Anos depois, a duquesa daria mesmo nome a uma tonalidade desta cor. Vão chamar-lhe o azul Wallis. Os duques parecem aliviados depois de quatro semanas intensas e angustiantes. Quando a conversa com a jornalista termina, o carro já espera por eles. Está pronto para partir para Lisboa. À noite, há um grande jantar de despedida no Aviz. Era naquela altura o hotel mais luxuoso de Lisboa, recorda a historiadora Marisa Filipe.
Era o mais luxuoso. O Cecil Beaton vai dizer que era possível filmar uma superprodução de Hollywood nas casas de banho do Aviz. Portanto, deve ter sido um hotel extraordinário. Passa lá toda a gente. Passa o Espírito Santo, vai passar os condes da Roménia, vão passar os condes de Barcelona, que depois se vão estabelecer no Estoril, e os duques de Windsor, que vão estar no dia 31 de julho de 1940 a jantar no Aviz.
Toda a alta sociedade está na festa do Aviz. Empresários, embaixadores, aristocratas. Ricardo Espírito Santo e a mulher também não faltam. Por volta da meia-noite, o banqueiro recebe uma mensagem. O embaixador alemão quer falar com ele. Assim que a festa acaba, já de madrugada, Ricardo acede ao pedido. Vai até à residência do embaixador, que fica perto da casa onde o banqueiro vive, na zona da Lapa, em Lisboa. É a última oportunidade para os alemães convencerem o Duque a ficar. O telegrama tinha chegado de Berlim para o embaixador alemão em Lisboa nesse mesmo dia. Vinha de Ribbentrop. O ministro dos Negócios Estrangeiros quer abrir finalmente o jogo com o Duque de Windsor e pede ao embaixador que seja o amigo, o banqueiro português, a fazê-lo. A ideia é que peça a Ricardo para fazer um último apelo ao Duque e transmitir uma mensagem em nome da Alemanha. Berlim deseja forçar a paz a todo o custo e Eduardo deve estar preparado para o momento em que isso acontecer. O banqueiro deverá fazer todos os esforços para tentar ainda travar a partida do Duque para as Bahamas. Ribbentrop sugere que, se isso não for possível, Ricardo Espírito Santo proponha ao Duque que se mantenha em contacto para futuras negociações. Se não conseguirem impedir que Eduardo e Wallis embarquem, os alemães querem, pelo menos, deixar tudo em aberto. Só duas pessoas poderiam confirmar o que se passou realmente na manhã de 1 de agosto, o último dia dos duques em Portugal. O próprio Eduardo e Ricardo Espírito Santo. Mas nenhum dos dois deixou registo da conversa que terão tido. A única descrição é feita pelo embaixador alemão num telegrama enviado para Berlim dias depois e revelado apenas após o final da guerra O embaixador escreve que todos os esforços para manter o duque na Europa foram em vão, mas garante que o banqueiro chegou mesmo a abordá-lo com a mensagem dos alemães na manhã do último dia em Portugal. É, portanto, um relato em terceira mão. O diplomata descreve o que lhe foi contado por Ricardo Espírito Santo sobre aquilo que o duque terá dito na alegada conversa. Segundo o relato do diplomata, que era amigo pessoal do banqueiro, o duque terá afirmado estar de acordo com Hitler na necessidade de uma aliança e até estava convencido de que se tivesse continuado como rei, a guerra nunca tinha chegado a começar. Mesmo assim, pedia que compreendessem que para já não tinha outra opção senão seguir as ordens oficiais do governo britânico. Ainda não era a altura de assumir qualquer tipo de posição pública. Até hoje, o papel de Ricardo Espírito Santo em toda esta história permanece envolto em polêmica. Tudo por causa das referências nos telegramas alemães e de uma palavra em particular, que alguns autores traduzem como agente e outros como confidente ou amigo dos alemães. Uma única palavra, mas que pode fazer toda a diferença.
O confidente é uma pessoa que se pode confiar. O Ricardo é uma pessoa confiável, pessoa com quem podemos falar e ele pode ajudar nisto. Outra coisa é ser agente. Um agente é uma pessoa que tem instruções diretas para agir de determinada forma.
O investigador Carlos Alberto Damas defende que o banqueiro esteve sempre alinhado com a posição do governo português. E essa seria não hostilizar os alemães, dar a entender que Portugal cooperava, mas no final, favorecer subtilmente os interesses dos ingleses. Mesmo que para isso fosse preciso fingir que se entrava no jogo dos alemães.
O Ricardo terá mesmo fornecido algumas informações incorretas ou não verdadeiras para criar um cenário que poderia ser propício a dar a entender que o Windsor estaria disposto a, dizem a documentação diplomática e também a informação da família, que isto era mais a criação de um ambiente falso, uma bolha, para os homens se irem entretendo enquanto os ingleses iam preparando tudo o resto para porem o Windsor onde queriam.
Diferente é a versão dos que defendem que Ricardo Espírito Santo terá colaborado ativamente com os alemães. É o caso de Andrew Lownie, autor do livro "O Rei Traidor".
Ele era um banqueiro português, mas estava também na lista de pagamento dos alemães.
Há um argumento de peso que vai contra esta teoria. É que por muito poder que o banqueiro tivesse, havia alguém ainda mais poderoso.
E o Ricardo nunca iria contrariar o Salazar neste ponto. Nunca ia favorecer uma hipotética possibilidade de ele ir para a Espanha para depois ser raptado, o Windsor, para os alemães conseguirem o seu objetivo. O Ricardo nunca se arriscaria a isso, de modo algum. A amizade dele com o Salazar e a confiança que o Salazar tinha nele e ele em Salazar nunca o aventurariam para isso. Nunca foi um homem de aventuras políticas. Ele entrou neste turbilhão político, neste temporal político, em função da Segunda Guerra Mundial.
Momentos antes de abandonar Portugal, o duque teria mesmo um encontro importante. E esse encontro seria com o próprio ditador. No dia 1 de agosto, Salazar escreve na agenda pessoal que Ricardo Espírito Santo lhe telefonou e pediu para receber o Duque do Windsor durante a tarde. Segundo a agenda, o encontro acontece por volta das 17h, em casa do presidente do Conselho. Sobre o que terão conversado, Salazar deixou apenas umas notas telegráficas na agenda. Duque do Windsor, a guerra e a paz, várias sobre a situação internacional, umas piadas pessoais, agradecimento pela hospitalidade portuguesa. Uns dias mais tarde, a 6 de agosto, uma terça-feira, já os duques tinham partido de Lisboa, a agenda do ditador revela que recebeu Ricardo Espírito Santo ao 12h15. Salazar garante que o banqueiro o pôs a par do que com ele se passou durante a permanência do Duque do Windsor em Lisboa, na Casa de Cascais. E escreve: "Ponto de vista do duque acerca da guerra e da paz, esperanças alemãs, etc." Sabe-se que ambos falaram da posição do duque sobre a guerra, mas nunca se saberá ao certo o que queria dizer Salazar quando referiu as esperanças alemãs. As últimas horas antes da partida dos duques foram tudo menos tranquilas Schellenberg tinha sabotado o plano de rapto sem que Berlim soubesse de nada. Mas para que ninguém desconfiasse dele, tinha de continuar a fazer tudo para impedir a partida do Duque de Windsor para as Bahamas. Por isso, coloca em prática várias medidas que irá detalhar mais tarde no relatório final da Operação Willi, que vai mandar para Berlim. Primeiro, é enviada uma carta anónima a Wallis, sublinhando que os duques correm perigo. Depois, um motorista inglês é subornado para se recusar a ir para as Bahamas. A seguir, é dito aos duques que na lista de passageiros do navio onde vão viajar, seguem pessoas potencialmente perigosas. E finalmente, o carro que levava as bagagens ao navio é sabotado. As malas chegam com uma hora de atraso. Nada dá resultado. No final do dia 1 de agosto de 1940, os duques de Windsor embarcam no navio que os levaria para fora de Portugal. E o anfitrião, Ricardo Espírito Santo, esteve com Eduardo até ao fim.
E fez tudo e acompanhou o Duque de Windsor até ao portaló do embarque. Também é uma fotografia conhecida com o Ricardo e o agente da PIDE, o inspector da PIDE, também no portaló, a despedirem-se do Duque de Windsor.
Já Walter Schellenberg contaria mais tarde como observou com binóculos a partida dos duques na torre da embaixada da Alemanha, na Lapa. Viu o navio a afastar-se cada vez mais no Tejo, até entrar no oceano e desaparecer. Para ele, o caso estava fechado. No mesmo dia em que o Duque sai de Portugal, Hitler assina a Diretiva 17. É uma ordem que autoriza o ataque aéreo em larga escala à Grã-Bretanha. Andrew Lawney acredita que é possível que Hitler tenha adiado essa decisão, na expectativa de ver o que iria acontecer em Lisboa.
Isso sugere que Hitler atrasou o ataque aéreo à Grã-Bretanha enquanto estas negociações com o Duque estavam a decorrer. Pode ser uma coincidência, mas também pode ser muito revelador que o dia a seguir à saída do Duque de Portugal é o dia em que a batalha pela Grã-Bretanha começa.
Se Hitler adiou a decisão à espera de uma resposta do Duque de Windsor, é algo que nunca poderá ser provado. Mas a verdade é que se isso aconteceu mesmo, teve também um outro efeito. Deu mais tempo aos ingleses para se prepararem para o ataque. Até hoje persistem as dúvidas sobre o que se passou realmente durante o mês que o Duque de Windsor passou em Cascais. Esteve tentado a aceitar o plano dos alemães para o recolocar no trono, caso os nazis vencessem a guerra? Ou foi apenas um peão no meio de jogadas às quais ele próprio estava alheio? Todos concordam num ponto: o Duque era indiscreto. Estava amargurado com a família e com o governo britânico por nunca terem reconhecido o estatuto real da mulher, Wallis Simpson, e não raras vezes falava demasiado em eventos sociais, recorda Carlos Alberto Damians.
Tudo o que dizia, se ouvia, mesmo em Cascais, na piscina, ele falava, dizia inconfidências, cometia inconfidências, mesmo naquelas ligações dos aristocratas ou dos banqueiros, aquela elite social que rondava ali o Ricardo Espírito Santo, na piscina e naquele ambiente de Cascais, ele terá cometido muitas inconfidências, daquelas petit histoire. E aí ele revelou sempre uma faceta muito pouco adulta.
O problema, afirma o historiador britânico Alexander Larman, é que muitas dessas inconfidências iam demasiado longe. E no limite, se interpretadas literalmente, podiam ser vistas como uma traição ao próprio país.
Eduardo ia a estes jantares, festas e cocktails e ele não conseguia realmente aguentar a bebida. Era um dos problemas dele. Se lhe déssemos álcool, cocktails, o que quer que fosse, ele começava a ficar muito falador. E acho que nessas alturas, o que ele dizia estava a ser transmitido para os alemães. Ele falava sobre como o irmão era horrível, sobre como a Grã-Bretanha estava a combater na guerra errada, porque ele nunca acreditou que deveríamos estar a combater contra Hitler. Por isso, sabemos que ele disse coisas que podiam ser contadas como traição.
Mas há quem vá ainda mais longe. Andrew Lawney acredita que Eduardo não era apenas um peão num jogo com regras que desconhecia. Estava consciente de tudo o que se estava a passar. E poderá ter-se sentido atraído pela possibilidade de voltar a ser relevante e não apenas um antigo rei remetido a um exílio forçado e sem qualquer margem de intervenção
A ideia de que ele foi usado pelos alemães é ridícula. Ele estava muito contente em ir para a frente com o acordo que estavam a fazer. Existiram extensas negociações e existem os relatórios da secreta portuguesa que monitorizam o que ele estava a fazer hora a hora. Grande parte do tempo foi a jogar golfe e socializar, mas outra parte foi em negociações com o inimigo.
Jane Margaret Tippett discorda dessa versão. A arquivista e historiadora nortembicana, uma das autoras mais recentes a escrever sobre o Duque de Windsor, diz que as alegadas provas contra Eduardo não passam de relatos indiretos em segunda ou terceira mão.
Bem, penso que muito disso é alimentado por especulação e não por factos. Quanto ao interesse de Eduardo em colaborar ou até mesmo regressar a Inglaterra como uma espécie de rei fantoche de Hitler, não há nenhum material em primeira mão que prove isso. Uma das coisas que as pessoas que promovem essas teorias não gostam de sublinhar, é que estes documentos são basicamente informação em terceira mão. O que Eduardo diz é dito a um agente alemão que reporta isso a alguém, que por sua vez reporta a alguém que envia um telegrama a Joachim von Ribbentrop. De certa forma, é apenas diz que diz.
Ao longo das décadas, surgiram dúvidas sobre o conteúdo dos telegramas alemães encontrados no final da guerra, especialmente depois de se ter percebido que a cúpula nazi acreditava facilmente em qualquer tipo de informação, como o sucesso do programa de espiões duplos dos aliados veio a comprovar. O investigador Carlos Alberto Damas acredita que muitas das informações enviadas pelos embaixadores nos telegramas iam ao encontro do que Berlim queria ouvir. E isso pode ter acontecido também em Lisboa.
A posteriori, percebe-se que muita da informação que é dada pela informação diplomática, sobretudo da representação alemã em Lisboa, não corresponde efetivamente ao que era a realidade. Eram mais intenções de agradar ou de sugerir que algo poderia ser desenvolvido se houvesse informação e instruções superiores para avançarem neste campo, do que a realidade.
José António Barreiros, que tem investigado o fenómeno da espionagem durante a Segunda Guerra Mundial, concorda com esta leitura.
Grande parte do fanatismo do Adolf Hitler é precisamente o que contaminou muitas dessas coisas. Digamos, numa estrutura hierarquizada, em que no fundo vigora uma ditadura, enfim, um regime totalitário, em que as pessoas têm medo de dizer a verdade, acabam por dizer sempre aquela verdade agradável de ouvir e que muitas vezes é muito fácil, portanto, gerar lógica de enganos.
Mas Andrew Lownie, um dos maiores defensores da tese de que o Duque de Windsor traiu o próprio país, não acredita que os telegramas foram escritos apenas com a intenção de agradar ao ministro Ribbentrop ou a Hitler.
Estes embaixadores, que eram da velha guarda, não tinham qualquer respeito por Ribbentrop ou mesmo pelos nazis. Claro que tinham cuidado para manter os empregos e não se tornarem inimigos do regime, mas também não estavam para agradar ao regime. E não fazia sentido. Qual era o objetivo em estar a alimentar o ego de Ribbentrop?
Os defensores desta ideia argumentam ainda que, mesmo depois de ter decidido partir de Lisboa e aceitar as condições do governo britânico, os contactos entre o Duque e os nazis não pararam. Haveria uma palavra-passe. O código teria sido combinado entre o Duque e Ricardo Espírito Santo. Ambos iriam manter-se em comunicação e caso o Duque recebesse um dia a palavra, era o sinal de que deveria regressar à Europa, porque o tempo de agir tinha chegado. É esta a história contada pelo embaixador alemão em Lisboa, no telegrama enviado para Berlim depois da partida dos duques. Nunca foi possível comprovar a veracidade deste relato. Sabe-se que Eduardo permaneceu mesmo em contacto com o banqueiro, mas aparentemente terá sido por outro motivo que o continuava a preocupar. Os duques saíram de Lisboa sem as coisas que deixaram para trás em França. A criada de Wallis tinha sido enviada a Paris para as recolher. Mas naquele verão, os alemães puseram mesmo em prática o plano de a reter em França, na tentativa de atrasar a partida do casal. Depois de várias aventuras, Mademoiselle Molichon só conseguiu chegar novamente a Lisboa em outubro de 1940, três meses depois de ter sido enviada, mas acabou detida em Portugal por não ter os papéis em ordem. Ricardo Espírito Santo foi decisivo para a libertar. A criada seguiu viagem um mês depois e chegaria às Bahamas apenas no final de novembro. Os duques tinham finalmente os lençóis e porcelanas da Casa de Paris As possíveis ligações aos nazis também levantaram suspeitas ao FBI. Os duques estavam ainda a caminho das Bahamas quando o diretor da agência, J. Edgar Hoover, recebeu memorando. Nele, um agente alertava para as alegadas ligações da duquesa com os nazis e, em especial, com o ministro alemão Ribbentrop. Eduardo e Wallace iriam viajar várias vezes para os Estados Unidos nos anos seguintes, sempre sob vigilância dos serviços secretos norte-americanos. As suspeitas nunca se dissiparam. E o certo é que os nazis nunca desistiram da hipótese de usar o Duque de Windsor quando vencessem a guerra. No outono de 1943, Hitler ainda escreve no diário pessoal que seria necessária uma reconciliação com a Inglaterra e que o Duque de Windsor ocuparia o lugar de rei e negociaria um tratado permanente de amizade com a Alemanha. Os duques estiveram nas Bahamas até a guerra acabar. Em 1945, mudaram-se de novo para a França, onde permaneceram até o final da vida. Eduardo regressou algumas vezes a Inglaterra, mas não de forma definitiva. E a família real nunca aceitou Wallis Simpson. Isso só mudou quando Eduardo morreu em 1972, aos 77 anos. Pela primeira vez, Wallis Simpson foi convidada a ir a Londres para estar presente no funeral e, pela primeira vez, foi recebida pela família real britânica. O que significa que só depois de morrer é que o Duque conseguiu aquilo que quis durante toda a vida: o reconhecimento oficial da mulher pela qual abdicou do trono. Ricardo Espírito Santo acabaria por morrer em 1955, com apenas 54 anos. Sofreu um ataque cardíaco após complicações na sequência de uma operação. A casa cor-de-rosa da Boca do Inferno ficou com a mulher do banqueiro e, mais tarde, com a filha mais velha, recorda um dos netos, José Maria Ricciardi.
Depois a minha avó ficou lá a viver. Depois, a certa altura, no verão, a minha tia Marizinha, que era a mais velha, a filha mais velha, ia para lá com os filhos, o mais velho era o Ricardo Salgado. Ia para lá com os filhos e a minha avó a certa altura deve ter querido uma coisa menos barulhenta e mais tranquila e fez outra casa, também relativamente perto, para trás, e essa casa ficou para os Salgado.
Quando a mãe morreu, no final de 2010, Ricardo Salgado herdou o palacete com os irmãos. Nos últimos anos, a casa chegou a estar à venda por duas vezes, primeiro em 2019 e depois em 2022, mas os processos judiciais por causa do colapso do BES e o receio de que pudesse vir a ser arrestada dificultaram sempre o negócio. Até que, em setembro de 2023, a Casa dos Pórticos, como também é conhecida, saiu finalmente das mãos da família Espírito Santo ao fim de quase 90 anos. Foi comprada por 16,5 milhões de euros por um investidor norte-americano, que está a reabilitar o palacete para morar lá com a família. Enquanto Ricardo Espírito Santo foi vivo, pela casa de verão do banqueiro passaram reis e príncipes no exílio, embaixadores, políticos e artistas. Ao longo das décadas, pela mansão passou também a ascensão e a queda da família mais poderosa do país. Mas nenhuma história é tão surpreendente e misteriosa como a daqueles dias em que os duques de Windsor foram hóspedes de Ricardo Espírito Santo. Quais eram mesmo as intenções de Eduardo? E o que teria acontecido se os nazis tivessem vencido a guerra? O que quer que o Duque tenha confidenciado ao banqueiro naquele mês de julho de 1940, passou a ser mais um dos muitos segredos da casa cor-de-rosa da Boca do Inferno. "Um Rei na Boca do Inferno" é uma série em seis episódios e faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Soraia Chaves, e tem banda sonora original de Cláudia Pascoal. O guião e as entrevistas são de João Santos Duarte. A sonoplastia deste episódio é de Artur Costa. O design gráfico é de Miguel Ferraz Cabral. A edição é de Tânia Pereirinha e João Santos Duarte. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio, ouvimos sons retirados do YouTube. Podcast Plus, do Observador, é mais do que um podcast. Os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Kia.
