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Oi, seja bem-vindo à Vixi Suave. Não está bom o sotaque. Lula da Silva esteve em Portugal, Chico Buarque recebeu finalmente o Prêmio Camões e as três principais figuras da nação foram apanhadas num vídeo a comentar a sessão como quem está na lanchonete.
As novelas brasileiras têm nos permitido compreender todos bem o sotaque brasileiro e até dizer com toda a franqueza: o que temos mesmo pena é de não falarmos com o vosso sotaque. Apesar de você.
Meu caro amigo, me perdoe, por favor, se eu não lhe faço uma visita, mas como agora apareceu um portador, mando notícias nesta fita.
Trata-se de um pedido de desculpas aos portugueses. Eu gostava de dizer, aliás, que não deve ser algo que custe muito ao senhor presidente da Assembleia da República, porque recordo que quando teve um momento infeliz, mais um, a propósito de uma reunião do Conselho Económico e Social e portanto se referiu ao Conselho Económico e Social como uma feira de gado, veio depois publicamente pedir desculpas.
Eu tenho um pedido de desculpas a fazer, convicto e veemente, um pedido de desculpas em nome do Parlamento aos representantes de órgãos de soberania, aos órgãos de soberania e demais personalidades que foram escutadas ilegitimamente.
Apesar de você.
Apesar de você, eu sou o Rui Pedro Antunes, editor de política do Observador, e comigo tenho o Diogo Teixeira Pereira, da Rádio Observador, e as jornalistas da seção de política do Observador, Rita Tavares e Mariana Lima Cunha. Para começar essa sopa fria, à Vixi Suave. Vou parar com isto do sotaque brasileiro. Claramente não tenho jeito.
Era tímido, tivéssemos todos de falar.
Para o sotaque adocicado.
Isto está a gravar?
Está.
Ah, ok.
Está gravando.
Estamos todos conscientes de que está a gravar.
O gerúndio. Olha, vou começar pela sopa gelada e ó Diogo, estás cheio de vontade de falar. Diz lá qual é que é a tua sopa gelada.
Arranjo sempre forma de meter num buraco. A sopa gelada é para o tipo gelado. Acho eu que é para o presidente da Assembleia da República, que foi apanhado num vídeo. Eu não estava naquela sala.
Para um tipo gelado, eu fiquei derretido com aquela conversa.
É do calor do Brasil. Brasil aquilo é muito quente.
Começa a subir. Até no inverno é quente.
Eu ainda não esclareci esta dúvida na minha cabeça, mas será que os câmaras da ARTV andam de camuflado? Porque eu acho que se calhar até seria melhor andarem de camuflado, passavam mais indiscretos para que o presidente da Assembleia da República-
Com coletes refletores
Ou coletes refletores, para que percebessem que está ali uma pessoa que está a filmar.
Coletes amarelos no Parlamento. Até porque uma câmera para filmar uma emissão em direto é uma coisa que não se vê bem, portanto é melhor, se calhar, pôr umas luzes.
Não é uma coisa pequena e portanto acho que seria melhor. Mas aquilo que me deixa mais triste é que Augusto Santos Silva não aprende com os erros. Porque já é a segunda vez que ele é apanhado numa coisa destas.
Olha, António Costa aprendeu. A mulher de António Costa esteve o tempo todo do vídeo a alertá-lo para a câmera.
Para a câmera, sim. Se calhar Augusto de Silva tem que arranjar alguém que-
Era possível ter-se.
Quer dizer, não sei se António Costa aprendeu, a mulher de António Costa aprendeu.
Vou puxar a dizer que ele nesse momento sai de plano do vídeo e vai buscar água e pergunta à mulher se quer mais alguma coisa, mas depois diz: "Não tenho moedas" e que lamenta, mas quem dá o que tem, a mais não é obrigado. E a pessoa a dizer isto ao fundo, essa parte não tinha relevância política, mas eu até pensei num primeiro momento: será que ele está a criticar o Carlos Moedas?
Sempre à procura.
Da próxima leitura política.
Essa parte era ótima e dava um complemento fantástico ao vídeo.
Essa parte era só sobre o aumento do custo de vida.
Já me aconselharam ir ouvir, tem que ir ouvir mesmo no bruto, que está disponível, basta ir à napa de trás na ARTV. Agora foi retirado.
Não, mas na ARTV que está na Box.
Durante uns dias ficará disponível.
Fica lá durante uma semana. É correr, senhora ouvinte.
São sete dias, quem quiser pode ir lá ver, porque ainda não foi apagado.
Reparem que nós temos aqui uma grande vantagem que é: se nos filmassem inopinadamente noutro sítio qualquer a falar, a nossa conversa não seria muito diferente.
Ainda bem que nós somos figuras de Estado.
Ainda bem que nós somos figuras de Estado e tudo isso.
Nós até à mesa do estúdio não nos podemos deixar de falar como se estivéssemos no café. É esse o objetivo deste programa.
É esse o objetivo, exatamente.
Mas pronto, Rita Tavares, sopas geladas, já que o Diogo não acrescentou nada.
Mas estavas à espera que eu dissesse alguma coisa de interessante?
Não.
No programa que é uma homenagem a sopas geladas.
Há umas festas de solteiro com paintball, em que o noivo é vestido de coelho cor-de-rosa, que não se consegue esconder, é de propósito para o levar com balas. E também é outra ideia.
Hoje sou eu o coelho cor-de-rosa.
Augusto Santos Silva foi muito elogiado depois da sessão solene do 25 de abril. Sessão solene, na verdade, isto a que eu me estou a referir ainda foi na sessão de boas-vindas a Lula da Silva, quando fez aquela reprimenda à bancada do Chega, que durante o discurso de Lula não só esteve com cartazes e em pé durante todo o tempo, como fez barulho batendo nas mesas e estava quase a ser unanimemente elogiado E acabou mal. E nem diria nesse momento. Aquilo aconteceu, houve ali uma falta de cuidado grande. Não percebo muito bem como é que ele se queixa de uma câmera que está com som. É uma câmera! Os políticos e ele, como o Diogo aqui já disse, já provou deste veneno. Portanto, não percebo toda esta indignação de Augusto Santos Silva, que acabou por sujar um bocadinho o pano que tinha estendido no 25 de abril e onde continua a tentar fazer o seu caminho rumo a uma candidatura à Presidência da República, congregando a esquerda à sua volta e criando este fosso relativamente à extrema-direita e tentando com isso congregar a esquerda. E ao mesmo tempo, isso até se calhar nos leva à outra frente de debate, criando este fosso, esta divisão, esta fratura muito grande no palco político que é a direita e a extrema-direita de um lado e a esquerda toda junta de outro. É isto que o PS deseja, é isto que o PS tem estado a tentar fazer, mas ao mesmo tempo, depois não gosta do resultado. Porque quando André Ventura de repente ganha importância e ganha palco, que é proporcionado por este mesmo comportamento do Partido Socialista e, neste caso, de Augusto Santos Silva, depois vem António Costa dizer que a culpa é da comunicação social, eu fico um bocadinho baralhada.
E a expressão de bater nas mesas no Parlamento é normalmente diz pateada, que remete para a palavra pata, eventualmente para uma ferradura e como havia cravos, é uma no cravo e outra na ferradura. Foi isso que acabou por se dizer.
O caminho que o Rui teve que percorrer para chegar até aqui. Acho que ficamos à espera.
Mariana, seu lado, não estou a dizer aqui que as mãos dos deputados do Chega são patas, vamos reforçar este ponto. Só queria fazer uma piada com uma no cravo e outra na ferradura, que era o 25 de Abril também, e havia cravos na bancada. Mariana, vamos avançar.
Ia só dizer que ia um bocadinho ao encontro do que a Rita estava a dizer, porque aliás, Augusto Santos Silva descreve-se nesse vídeo como um tipo gelado, um tipo gelado que estava furioso. E se ele o diz, Augusto Santos Silva deve conhecer-se melhor do que ninguém, portanto eu acredito. E daí que obviamente todo este percurso que ele está a fazer e com atitudes destas, que se uma pessoa visse o vídeo assim de repente, parece de facto uma pessoa muito zangada, mas que parece de facto um gesto muito calculado. Ou seja, Augusto Santos Silva obviamente sabia que aquilo ia acontecer, sabia que ia ter que tomar uma atitude, não parece que se tenha enfurecido no momento, mas sabia de que maneira é que ia tentar demarcar-se e de que maneira é que ia tentar isolar o Chega. E depois está a tomar outras atitudes, como a proibição de não os quer levar a viagens, deputados do Chega a viagens oficiais.
Mas também é muito curioso, porque ele está muito irritado e logo a seguir está tão bem disposto.
Tipo gelado.
Já desabafou.
Uma menos compressão, uma coisa humana.
Exato. E por isso é que eu dizia que ia um bocadinho ao encontro do que a Rita estava a dizer. Primeiro, que é verdade que Santos Silva está a tentar posicionar como o grande inimigo da extrema-direita, mas acho que no PS neste momento há quase já uma competição, porque quem é que odeia mais a extrema-direita ou quem é que fala mais sobre ela.
Nem sequer é neste momento, isto vem sendo assim desde as legislativas e depois das legislativas haver um sopro, é simples razão, resultou, ou supostamente resultou. O PS pelo menos faz essa leitura dos resultados das legislativas.
Sim, e acho que a esquerda também. A maneira como a esquerda acha que foi arrumada pelo PS é muito com base nesta estratégia de fazer de todo o espectro político português um combate entre PS, a marca contra a extrema-direita e essa direita do Chega. Agora, também há meses eu lembro que nós escrevíamos que havia quem no PS duvidasse muito da estratégia, em particular de Augusto Santos Silva, que não soubesse se é possível manter. Eu lembro-me de uma pessoa do PS na altura dizia que a estratégia até Belém, dado que falta muito tempo, era uma maratona, não era um sprint, e portanto que é uma gestão muito difícil de fazer, de estar nos confrontos permanentes e perceber exatamente que parte do eleitorado é que consegue atrair, se é que consegue mesmo atrair da esquerda, e que parte é que aliena. Aquilo é uma estratégia com riscos, acho eu.
Agora falou-se aqui outra vez de outras coisas, enfim, o malhar na direita foi numa reunião do PS, não foi propriamente a Feira do Gado, uma expressão que foi repetida noutra circunstância. Mas uma coisa curiosa, é que o "eu gosto de malhar na direita" é uma crítica ao Bloco de Esquerda e ao PCP, que considera que esses partidos são de direita nessa expressão.
Eu não tenho ideia, quase todas as grandes frases políticas vêm de uma expressão qualquer.
De um equívoco.
Como a vida além do défice também é outro desses gêneros.
Para fecharmos esta questão, ele está a exagerar na reação e, por outro lado, se também está a ter sucesso nesta campanha ou não. Nesta campanha, quer dizer, nesta pré-campanha como pré-candidato presidencial.
Eu acho que a estratégia percebe-se. Agora, tenho dúvidas é se consegue aplicar os moldes em que as eleições presidenciais acontecem, a maneira como os eleitores votam, etc. E os votos que precisam e que precisam de atrair para chegar a Belém, não se traduzem, não é propriamente uma tradução igual, não são os mesmos moldes de umas legislativas, que foi o que aconteceu nas últimas e de facto aí pareceu que a estratégia resultou. Agora, Augusto Santos Silva nem é António Costa, nem está a tentar chegar a São Bento e portanto parece-me que há alguns riscos acrescidos na estratégia dele, como também há riscos diferentes na estratégia do PS e de António Costa, que claramente, e como dizia a Rita, apesar de culpar os jornais Fala do Chega sempre que pode e tem falado em todas as entrevistas que dá e malhado, para aproveitar a expressão de Santos Silva, no Chega. E eu não sei se não há alguma falta de visão de conjunto. Ou seja, há uma análise maior aqui a fazer. Ao regime, à maneira como o espectro político fica organizado, e aí há consequências que não se resumem só aos votos.
E há responsáveis. Convém também que os políticos comecem a assumir responsabilidades, nomeadamente o partido que mais anos esteve no poder em tempos de democracia. Está na história, e nem sequer é só da Europa, é do mundo. Há outros países onde esta frente populista já chegou ao poder, no Brasil, nos Estados Unidos, vários países da Europa, e isso tem uma origem que é a insatisfação face ao sistema atual. E o sistema atual é o que é, e estes políticos ao fazerem este desvio, seja para a comunicação social, seja para uma câmara que estava mal numa sala, estas suspeitas que vão levantando à volta é um pouco areia para os olhos, julgo eu. Só pode ser areia para os olhos.
Até porque alinha formas mais estruturais.
A responsabilidade principal para o crescimento do populismo é talvez dos políticos que governam na medida em que as pessoas estão insatisfeitas por quem faz e não faz na medida das expectativas deles. Aliás, o discurso de Marcelo Rebelo de Sousa neste 25 de Abril foi muito sobre isto, sobre expectativas frustradas de uma democracia que tem quase 50 anos. Abre agora para o ano que faz 50 anos o 25 de Abril, e as pessoas estão frustradas, angustiadas e facilmente se viram para outras soluções e outras alternativas.
Só para dizer que, de facto, António Costa, quando critica a comunicação social, alinha pela mesma bitola desses partidos populistas que normalmente culpam a comunicação social por tudo. E, portanto, nesse aspecto, alinha pela mesma bitola.
Agora parece uma coisa corporativista, não é? Os jornalistas também têm muita reflexão a fazer sobre tudo, e mais alguma coisa. Agora, intervir sobre aquilo que está a acontecer à nossa volta.
E sempre que António Costa faz uma declaração violenta sobre o Chega, ou sempre que Santos Silva toma mais uma posição sobre o Chega, evidentemente, vai ser noticiado.
É um pouco como parar o vento com as mãos.
Como nos Estados Unidos, quando colocaram o Trump na secção do morto, deu bom resultado, foi a eleição dele. Do ponto de vista de quem tinha dúvidas sobre se o deveria considerar ou não. A sopa reservada, já falámos dela aqui, se não tiverem mais nada a acrescentar, eu avançava para uma última sopa, que é a sopa dissolvida. Queres tu, Diogo?
Começo eu? É daquelas de pacotinho?
Fiz-me lembrar a música.
Eu pensei na chuva dissolvente.
Está afastada a dissolução, perguntamos nós. Será que está? Será que não está? De facto, esta questão da dissolução que tem sido levantada constantemente.
Por Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República.
Por Marcelo Rebelo de Sousa, sim. No PSD nós estivemos a acompanhar o Conselho Nacional na terça-feira ou na quarta-feira, e de facto mesmo no PSD as pessoas dizem: "Não sei porque estamos a falar nisto, nós não queremos falar nisto, nós não queremos que este assunto seja discutido." Então a quem interessa verdadeiramente estarmos a falar sobre isto? Entretanto, há um novo episódio. Aparentemente, o primeiro-ministro terá dito ao Presidente da República que se recandidata se houver uma dissolução, e isto pode fazer o Presidente da República pensar de outra forma. E acho também que o primeiro-ministro pode estar a investir fortemente nas eleições europeias, porque não é líquido que o PSD venha a ter um bom resultado nessas eleições, porque o Chega e a Iniciativa Liberal podem ter bons resultados. E isso vai criar um problema ao Presidente da República, porque se o PS, mesmo que com uma percentagem menor ou até com menos deputados, ganhar na mesma as eleições europeias, eu não vejo como é que o Presidente da República pode dissolver a assembleia depois disso.
Resta saber se ele quer.
E depois falta saber isso também. Mas se esse é o ponto de viragem em que muitos apostam, pode ser o cavalo errado.
Rita, estavas? Temos pouco tempo.
Sim, há aqui um problema para essa questão, que aliás, Marcelo Rebelo de Sousa empurrou para o mais tarde possível. A questão da dissolução da Assembleia da República, nas últimas declarações que fez, julgo eu, sobre o assunto, disse que isso vai acontecer, e o melhor era que fosse o mais tarde possível. Depois das europeias, há esta questão: será que até lá o PSD consegue destacar-se, que o PS perde um número de-
E o PS está em campanha já.
E o PS está em campanha, mesmo francamente em campanha. E depois há um problema enorme. Agora, parece-me que a questão nem se coloca, apesar de ser falada, eu acho que Marcelo Rebelo de Sousa estará provavelmente a preparar essa hipótese, se ela se vier a colocar mais lá adiante, talvez depois das europeias, consoante os resultados das europeias, não sabemos o que vai na cabeça, é difícil. Mas para ele é uma carta muito difícil, porque se depois de eleições antecipadas o resultado for ou o PS vence novamente, ou um PS vence sem maioria absoluta e nas mãos de uma situação ingovernável, ou nas mãos de uma nova geringonça, Marcelo Rebelo de Sousa fica aqui.
Ou o PSD nas mãos do Chega. Também pode acontecer isso.
Também não há somários e viagens, Marcelo Rebelo de Sousa.
E se for para o outro lado, o PSD nas mãos do Chega. Mas o PSD nas mãos do Chega ainda é uma solução diferente da que existe hoje. Agora, o PS ficar à frente de novo, eu acho que seria um problema para o Presidente da República, que aliás, Jorge Sampaio, em 2004, quando dissolveu
Mais tarde veio dizer que era um problema se naquelas eleições seguintes não acontecesse aquilo que aconteceu, que foi o PS ter uma maioria absoluta e o PSD ter ficado afastado do poder, e Santana Lopes também. Se isso acontecesse, Sampaio já admitiu, a dada altura depois disso, que teria saído do cargo. E isto é uma coisa que eu acho que Marcelo não quer fazer.
Não quer arriscar. Vamos pôr em funcionamento o regular funcionamento do nosso estômago, mas na segunda parte, antes disso, ainda vamos ter Fernando Negrão, antigo vice-presidente da Assembleia.
Esta é uma história de guerra.
Dá-me uma catanada aqui na cabeça, abre-me a cabeça.
António Lobato foi o português que mais tempo esteve em cativeiro na guerra de África: sete anos e meio.
Ele diz-me assim: "Dá a faca." E eu digo assim: "Vem buscá-la." "Não, dá a faca." Eu levantei-me assim: "Vem buscá-la."
É também uma história de amor.
A carta era muito simples: querida, estou vivo e eu voltarei.
E é também a história da operação secreta para o resgatar em plena ditadura do Estado Novo.
Agora vamos só meter com a crida a cabeça desses gajos todos que estão aí.
Este é o "Sargento na Cela 7", uma série para ouvir em seis episódios, faz parte dos podcast+ do Observador. É narrada por mim, BP Rapazote, com banda sonora original de Noiseup. Pode acompanhar no site do Observador ou nas plataformas de podcast.
Ora, bem-vindos à segunda parte da Vixi Suave. Connosco temos o antigo vice-presidente da Assembleia da República, antigo só porque não é atualmente, e atual presidente da Primeira Comissão, e também foi governante, enfim, teve várias funções públicas além dessas. Fernando Negrão, bem-vindo à Vixi Suave.
Obrigado.
Partindo também dessa experiência que tem de cargos institucionais e também da Assembleia da República, esta semana Augusto Santos Silva deu um ralhete à bancada do Chega durante a sessão de Lúcia da Silva. Esta reprimenda foi justa e na medida certa?
Eu direi que as reprimendas normalmente pecam por excesso. E quando eu digo pecam por excesso, quero dizer com isto que as intervenções musculadas normalmente têm sempre uma reação do outro lado. E o presidente da Assembleia da República deve ser alguém que modere os comportamentos, comportamentos entre aspas, naturalmente, e modere o debate, no caso, os debates no plenário da Assembleia da República. A intervenção do presidente da Assembleia da República tinha que ser feita. Os termos tinham que ter algum vigor. Eu só discordo na medida em que achei que houve algum excesso no vigor da intervenção do presidente da Assembleia da República.
Parece que perdeu as estribeiras e a moderação, foi isso?
Isso, porque o presidente da Assembleia da República deve ser um elemento moderador e não um elemento que intensifique o mal-estar que leva à sua intervenção.
Talvez um excesso de agressividade corporal. Será isso?
Mesmo físico. Notou-se isso na sua intervenção.
E depois disso, também proibiu o Chega de integrar visitas oficiais. O PS diz que o presidente da Assembleia tem poder pra fazer isto. É legítimo que o faça, tem poder pra o fazer. Que leitura é que faz desta proibição?
Sabe que essa proibição ele não a tem expressamente. Tem na medida em que é o presidente da Assembleia da República que escolhe os deputados que o acompanham nas visitas oficiais a outros países. Agora, o critério para essa escolha, naturalmente, que tem que ter alguma racionalidade. Não pode estar, por exemplo, permanentemente a ser acompanhado por deputados do seu partido ou por deputados de outro partido qualquer. Tem que haver aqui uma rotatividade, de maneira que todos os partidos políticos sejam representados pelos seus deputados nessas deslocações internacionais. Agora, se o presidente da Assembleia da República em qualquer momento decidir que o partido A deixa de o acompanhar em determinadas visitas, não há nada que o proíba de fazer isso. Porém, de alguma forma viola o princípio do tratamento igualitário relativamente a todas as forças políticas.
Tem legitimidade formal, mas já não tem tanta legitimidade política pra o fazer, no seu entendimento?
Não tem essa legitimidade política, porque a posição do presidente da Assembleia da República é um pouco como a do presidente da República relativamente aos portugueses. É o presidente de todos os portugueses e o presidente da Assembleia da República é o presidente de todos os deputados.
Acha que decisões destas podem dar argumentos ao Chega para se vitimizar, ou seja, pode haver aqui um efeito contraproducente?
Não, nós já vimos o Chega vitimizar-se, já o fez logo a seguir. Agora está a aguardar a reunião, que será agora, salvo erro, em meados de maio, da conferência de líderes, onde estão representados todos os partidos através dos líderes parlamentares para discutirem o que aconteceu e porem na mesa soluções para estes problemas.
Mas a minha questão ia no sentido dessas soluções e, no caso, até houve uma proibição em relação ao Chega, como falávamos, em relação às viagens oficiais, se isso tudo não pode só alimentar, enfim, dar mais argumentos ao Chega e alimentar o discurso do Chega.
Sim, é isso que eu dizia, porque o Chega já se vitimizou, já disse que discordava por completo, que estava a ser destratado na Assembleia da República, não estava a ser tratado como as outras forças políticas. Portanto, de alguma forma, isto dá gás às pretensões do próprio Chega e nós, no fim do dia, vamos todos concluir que, afinal, isto se calhar interessa às partes que fazem parte desta contenda. Eu não quero acreditar que seja isso, mas a continuar, pode-se confirmar esta tese.
Ia-lhe perguntar também, o seu colega de bancada, Duarte Pacheco, disse que o próximo passo, caso o Chega impedisse o presidente brasileiro de falar, seria pedir à PSP que retirasse os deputados da sala. Acha que isso é possível que aconteça com este destrambelhar de posições?
Sim, isso já seria boicote à continuação dos trabalhos. Porque está contemplada na agenda a intervenção, no caso, do presidente do Brasil, Lula da Silva. Portanto, o presidente da Assembleia da República, quando aconteçam problemas, tem que procurar a melhor forma que seja cumprida toda a agenda. Se houver algum obstáculo ao cumprimento dessa agenda, no caso, a intervenção do presidente Lula da Silva, o presidente pode chegar a ter que tomar essa medida de evacuação de quem está a obstaculizar o prosseguimento dos trabalhos.
Depois da cerimónia das boas-vindas a Lula da Silva e antes do 25 de abril, houve um episódio na Assembleia da República, foi divulgado, aliás, pelo site da Assembleia da República, um vídeo em que é apanhada uma conversa entre António Costa, Marcelo Rebelo de Sousa, Augusto Santos Silva e o presidente da Assembleia da República critica a Iniciativa Liberal e o Chega. Aquilo parece-lhe que é o registo adequado às principais figuras da nação?
Nós temos que olhar para as principais figuras da nação como homens e mulheres, que quando não são presidentes da República ou titulares de órgãos de soberania, são cidadãos comuns e que têm uma vida igual à nossa.
Foi António Costa que disse que nem à mesa do café um ministro se devia esquecer de ser ministro. Não concorda com isto, então?
Naturalmente que não. Mas antes disso, nenhum de nós se deve esquecer de que somos cidadãos, que devemos cumprir as nossas obrigações enquanto cidadãos e devemos ter um comportamento urbano uns com os outros e, mais que urbano, gentil uns com os outros. Portanto, a conversa que ocorreu foi uma conversa que foi informal, foi uma conversa entre três pessoas que de alguma forma estavam a relaxar do que tinha acontecido e é natural que se pudessem ter excedido um pouco. Isso nos leva a outra conversa que é a presença das câmaras naquela sala.
Acha que esse é que foi o erro?
Não é erro, porque eu conheço aquela sala, conheço as circunstâncias em que aquelas coisas acontecem e aquela câmara do canal de parlamentos está lá sempre. E toda a gente sabe que aquela televisão está lá sempre e que tem som.
Portanto, Augusto Santos Silva não teve razão para se indignar como indignou com aquela captação de som?
Pois, confesso que acho excessiva essa indignação. E hoje, inclusive, já vi nalguns órgãos de comunicação social que estavam a ser estudadas medidas, inclusive a nível penal, para se poder criar um tipo legal de crime para contemplar estas situações. E eu relativamente a isso, só posso dizer que nós temos que ter muito cuidado com o nosso lado autoritário e não deixar que ele seja preponderante nestas situações.
Concorda que o site da Assembleia da República tenha apagado o vídeo?
Não, não concordo, porque para apagar este vídeo tinha que apagar o vídeo das conversas todas anteriores, dos anos anteriores. E portanto, acho que foi de facto também excessivo apagar este vídeo.
A Iniciativa Liberal diz que Augusto Santos Silva está a utilizar o cargo para se autopromover como candidato da esquerda a Belém. É uma acusação justa?
Pois, era o que eu dizia há pouco. A continuar este clima, a continuar este confronto, a continuar esta troca de argumentos excessivos na forma, excessivos na linguagem, nós podemos chegar a essa conclusão que há algum interesse político da parte dos contendores, no sentido de poderem tirar aproveitamento político desta situação.
E passando agora pro Chega, mudando aqui um bocadinho de assunto, o líder do PSD, nunca o ouvimos dizer "com o Chega nunca." Alinhado numa perspectiva intermédia, que é dizer com os xenófobos e racistas não, entretanto, já disse também com a extrema-direita não, mas Montenegro não devia mesmo ser absolutamente claro a dizer que o PSD nunca vai aceitar uma solução de governo com o Chega?
Sabe que eu acho que Montenegro tem sido claro Quando diz que nunca pactuará com partidos que defendem ideias xenófobas e racistas, é suficientemente claro para nós sabermos a quem se está a dirigir.
Mas se há tantas pessoas que ficam com dúvidas, não seria mais acertado dizer: "Com o Chega não, de maneira nenhuma"?
Era isso que eu ia agora explicar. Dizer que o partido é um partido com muitos anos, vem da fundação da democracia. É um partido de poder, é um partido que tem governado o país, especialmente nos momentos mais difíceis. É um partido que neste momento está preparado e quer preparar-se melhor ainda para eventuais eleições que possam ocorrer a médio prazo ou mesmo no fim da legislatura, e por isso tem os seus tempos, que têm que ser compreendidos. O presidente do PSD já disse aquilo que nós referimos há pouco e a seu tempo, se ele assim o entender e achar necessário, tenho a certeza que dirá claramente aquilo que me referiu.
Vê uma solução parecida com a dos Açores?
Não vejo a possibilidade de uma decisão parecida com a dos Açores. Também não vejo na região autónoma da Madeira, que vai ter eleições em breve.
Pode ter esse problema também, é verdade.
Não terá, com certeza. O PSD, em coligação com o CDS, diria mesmo daquilo que é a análise que se vai fazendo do que se passa na região autónoma da Madeira, terá a possibilidade de ter uma maioria absoluta.
Voltando aqui um bocadinho a Luís Montenegro, há agora menos por causa das sondagens, mas até na bancada, e eu conheço bastantes deputados que dizem que Montenegro não vai chegar lá. Acredita que vai ou não?
Claro que acredito. Nós estamos num partido. Os partidos têm uma vocação e a vocação dos partidos políticos é a vocação do poder, mas não é o poder só pelo poder. E isto é bom que fique claro. E os partidos sabem isso. Às vezes parece que se esquecem, mas sabem isso. Têm que estar preparados para exercer o poder e para ter as melhores soluções dos problemas do país e dos problemas dos portugueses. E por isso, neste momento, estamos todos juntos e preparados para ver Montenegro como primeiro-ministro e o PSD a governar.
Quanto desse seu otimismo vem das recentes sondagens que dão o PSD à frente?
Não vem propriamente das sondagens. Vem da preparação do líder do PSD, que é um homem muito bem preparado, vem da preparação de muitas pessoas, quadros com grande qualidade que o PSD tem, e vem daquilo que se está a passar no país e que nos deixa completamente atônitos e atordoados com tanta incompetência, com tanto caso e casinho, com comportamentos inexplicáveis a este nível e que levam-nos a perguntar: mas será que vamos continuar a ser governados por este governo e pelo Partido Socialista, que não tem condições e tem demonstrado que não tem condições para continuar a governar?
E o facto de o PSD não vencer as europeias pode ser um rude golpe nessa ambição do PSD de ser poder com Luís Montenegro em 2026, ou se houver eleições antecipadas?
Sim, mas isso não é problema nenhum, isso é a vantagem das eleições. As eleições vão dando sempre aos políticos e aos partidos políticos sinais sobre como as coisas correm.
Mas deixe-me pôr a questão de outra forma: e haveria tempo para trocar de líder até 2026 e ganhar corpo suficiente para vencer o candidato do PS?
Não seria a primeira vez que aconteceria a eleição de um líder perto de umas eleições, que nós não sabemos quando será, e depois poder ganhá-las ou perdê-las.
Não vê isso como um fatalismo, mas vê difícil a continuidade de Montenegro se o PSD perder as eleições europeias.
Não vejo, porque as eleições podem ser perdidas de muitas formas, ou por muitos, ou por poucos, e portanto essa leitura terá que ser feita no pós-eleições.
Marcelo Rebelo de Sousa tem ajudado o PSD ao falar constantemente na hipótese da dissolução da Assembleia da República. É desejável que as eleições sejam antecipadas?
O PSD tem sempre dito que a legislatura deve ser cumprida até o fim. E eu concordo com essa ideia. Portanto, a legislatura deve ser cumprida até o fim. O Partido Socialista, que ganhou, e ganhou com maioria absoluta, tem essa obrigação. Agora, nós temos que ver se o Partido Socialista vai continuar a governar como tem governado durante este primeiro ano da sua maioria absoluta, em que eu confesso que até me faltam as palavras para classificar o meu espanto relativamente à governação que o Partido Socialista tem feito do país.
Mas nesse caso e nesse quadro que descreve, não era conveniente avançar com eleições antecipadas? Qual é que é o limite, afinal de tempo?
As eleições antecipadas, constitucionalmente, só devem ocorrer, ou seja, a dissolução da Assembleia da República ou a demissão do primeiro-ministro, em casos que ponham em causa a legalidade democrática.
Não estamos nesse ponto ainda, é isso?
Não estamos nesse ponto. Estamos num ponto de incompetência do governo. Agora, a incompetência a prosseguir nesses termos pode levar a uma situação dessa natureza.
Qual é a ideia de Marcelo Rebelo de Sousa quando insiste publicamente que ainda não existe uma alternativa, se o PSD está mais forte nas sondagens do que nos últimos anos e tem um líder tão bem preparado como Fernando Negrão?
Depois de termos ouvido o presidente da República dizer isso, vimos numa audiência que proporcionou ao líder do PSD classificá-lo como o líder do maior partido da oposição.
Isso é um sinal de ventos de mudança em Belém a acreditar mais numa alternativa, é isso?
Podem existir ventos de mudança no Parlamento nesse sentido. Mas eu não sou propriamente um comentador.
Claro. O comentador está em Belém, neste caso. Mas alinha na crítica que é feita ao presidente Marcelo nos últimos sete anos, praticamente, com algumas interrupções pelo meio, que tem sido mais um aliado do Partido Socialista do que propriamente das intenções do PSD, sendo que concordam todos que-
Os últimos sete anos têm sido difíceis para o PSD. O PSD tem tido dificuldade em afirmar-se, em unir-se e em apresentar aos portugueses uma alternativa verdadeiramente convincente. E o presidente da República, naturalmente, fazendo o equilíbrio de forças e não vendo a existência de uma alternativa ao Partido Socialista, tem dado o apoio que considera necessário ao Partido Socialista nas suas medidas e tem estado a aguardar que surja uma alternativa. E as palavras do presidente da República dizem tudo quando passou a classificar o PSD como o maior partido da oposição.
Chegamos ao fim desta primeira parte da entrevista e vamos avançar para a nossa fase de carne ou peixe. Não queremos que fique com fome. Já veio uma vez à Vichyssoise, sabe como funciona. Vamos lhe dar duas opções, vamos ver se vai optar por todas. A primeira é: quem preferia levar a comer um choco frito em Setúbal, Rui Rio ou Luís Montenegro?
O Luís Montenegro. Conheço-o há mais anos e sei que é um bom garfo.
E se fosse para comer um gelado na Santini de Belém, Pedro Passos Coelho ou Luís Marques Mendes?
Pedro Passos Coelho. Teria um enorme gosto em não só comer o gelado na sua companhia, como conversar sobre o que se vai passando-
Mas porque Passos Coelho gosta mais de gelado ou porque fica melhor em Belém?
Eu acho que é porque gosta de gelado. Passos Coelho fica melhor em São Bento que em Belém.
Não vão aqui ler as entrelinhas. Preferia ser ministro de um governo bloco central liderado por Pedro Nuno Santos ou Fernando Medina?
Nem por um, nem por outro, naturalmente. Primeiro são de partidos diferentes do meu. Segundo-
Mas era um governo bloco central.
Um governo bloco central. Relativamente a mim, concretamente, eu já tenho 67 anos. Acho que há quadros mais novos do que eu e com mais garra, mais entusiasmo para oferecer aos portugueses do que eu próprio.
Ainda por cima uma aventura de um governo com o PS, não deve ser nada fácil.
Ora bem. Claro.
E a quem é que ofereceria uma T-shirt com a expressão da sua autoria "Eu tenho pelos no coração": António Costa ou André Ventura?
Eu ofereceria a António Costa, porque lhe disse isso uma vez cara a cara. E continuo a achar que de facto ele tem pelos no coração, que é uma expressão que suscitou grande curiosidade, mas é uma velha expressão. Por exemplo, a minha avó e a minha bisavó usavam-na e as suas amigas também a usavam e eu ouvia muitas vezes. Depois caiu em desuso e nunca mais ouvimos falar.
Ainda bem que a trouxe de novo para a atualidade. Avançamos então para a parte da sobremesa, que é a parte final da nossa entrevista. Queria que nos explicasse que música nos trouxe e o porquê dessa escolha.
A música que eu trago é a que ganhou o nosso Festival da Canção, depois irá ao Festival Europeu, que é o "Ai Coração" da Mimi La.
Da Mimicat.
Da Mimicat, peço desculpa. É uma canção muito interessante. É uma canção que conseguiu furar o nosso sistema de festivais e de introdução no mercado, porque ela própria já há muito tempo queria cantar essa canção e é cheia de alegria, cheia de graça e ela tem uma presença fantástica no palco.
Muito bem. E é assim que terminamos esta Vichyssoise, com "Ai Coração" e não com "Pelos no Coração" ou com ambas. Recomeçamos como sempre na próxima sexta-feira.
O que te fazer amor para mim assim não dá. Porque parece que nem sou mais eu. Ai coração. Ai coração. Diz-me lá se és meu. As horas passam e o sono não vem. Ouço as corujas e os vizinhos também. O meu juízo foi-se e por lá ficou. Alguém me tira deste estado em que estou. O doutor diz que não há nada a fazer. Caso perdido, viu eu a escrever. Ando perdida numa outra dimensão. Toda eu sou uma grande confusão. O peito a arder, a boca seca, eu sei lá. O que te fazer amor para mim assim não dá. Porque parece que nem sou mais eu. Ai coração. Ai coração. Ai coração. Diz-me lá se és meu. O peito a arder, a boca seca, eu sei lá. O que te fazer amor para mim assim não dá. Porque parece que nem sou mais eu. Ai coração. Ai coração. Ai coração. Ai coração. Diz-me lá se és meu. Hey!