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Bem-vindos à segunda parte da Vixi Suas. Conosco temos Ascenso Simões, foi governante, foi também dirigente do PS, deputado durante várias legislaturas e é conhecedor profundo do Partido Socialista, ou então também é mesmo conhecedor do Partido Socialista profundo. Que por acaso é o partido que vai a votos esta sexta-feira e sábado pra mais umas eleições diretas, embora só tenhamos um candidato. Mas foi também esta semana que tomou posse o novo presidente da República. Queria começar precisamente por aí. Antes de mais, bem-vindo, Ascenso Simões. O novo presidente da República, António José Seguro, por ser um ex-líder do Partido Socialista, pode significar um balão de oxigênio pro PS?

Muito boa tarde. Não me parece. O António José Seguro que nós hoje conhecemos, enquanto candidato a presidente da República e agora como presidente da República, é uma pessoa muito diferente daquela que nós conhecíamos em 2014, quando abandonou as funções de secretário-geral do Partido Socialista. Estes 10 anos trouxeram a António José Seguro uma rigidez sob o ponto de vista da leitura do país, a perda de alguma ingenuidade que ainda tinha na assunção das coisas políticas e partidárias, uma leitura profunda sob o ponto de vista da política internacional, uma sustentação daquilo que são as políticas centrais do nosso país, e especialmente as políticas que dizem respeito à juventude, ao desenvolvimento econômico, à proteção da terceira idade e ainda às três grandes áreas que são as do Estado social: a educação pra todos, a saúde universal e a segurança social pública. Portanto, este António José Seguro não é o Tozé que nós conhecíamos na JS, não é o António Seguro que nós conhecíamos enquanto líder do PS.

Nem o Tó Zero, como era chamado maldosamente por alguns companheiros.

Se eu lhe dissesse o que chamavam ao Sócrates quando ele era da JS, ou como chamavam António Costa quando ele era do JS, nós teríamos aqui muito pano pra mangas. Felizmente ou infelizmente, eu conheço a história da JS desde 1978 e também conheço a história do Partido Socialista desde 1981, por dentro, não é por fora. E portanto, teria muito a dizer relativamente a cada um deles.

Mas foi essa evolução como político de António José Seguro é o que depreende das suas palavras, embora essas causas que identifica pareçam às vezes quase causas governativas.

Por que não são só causas governativas? Porque elas estruturam nosso Estado social. E nós vivemos num tempo em que o ataque ao Estado social é uma coisa muito relevante e tem muitos militantes na ação política. Aliás, a candidatura de Cotrim de Figueiredo foi uma candidatura contra o Estado Social, mesmo que seja o lobo com pele de cordeiro. E portanto, quando nós assistimos na União Europeia a um ataque à Segurança Social Pública como há muito tempo não víamos, temos que regressar a 2007 para encontrarmos a defesa tão acirrada, tão interessada da privatização da Segurança Social, para encontrarmos um foco tão grande, ainda por cima de uma comitária portuguesa, na privatização da Segurança Social. Ora, o que nós temos pra fazer na Segurança Social a nível europeu é pôr os dados, coisa que nós fabricamos todos os dias e sobre a qual nós não recebemos nem um cêntimo, a pagarem as nossas pensões dentro de duas ou três décadas. Não é voltarmos à velha fórmula de termos as pensões na dependência de uns gurus quaisquer, que depois de um momento pro outro, tudo se esfuma. Nós temos que ter alguém na presidência da República que perceba bem os fundamentos do Estado social e esse candidato era o António José Seguro e agora é o presidente da República.

E mesmo por isso, pra não ir para uma deriva com liberais, caso cresçam e dê pra ter uma maioria, ou até do Chega, que tem nesse aspecto um plano político muito mais indefinido. António José Seguro pode ajudar a colocar o PS como um parceiro privilegiado do PSD, como já ambiciona José Luís Carneiro?

O PS não tem que contar nada com o presidente da República, nem o presidente da República tem que fazer nada tendo em conta os interesses do PS. São dois campos bem diferentes. Aliás, na decorrência da candidatura que nós assistimos, nós tivemos muita gente do PS com elevadas responsabilidades a fazer tudo para que o António José Seguro não fosse eleito. O presidente da República atual não tem uma única dívida para com o PS, tem para com os socialistas.

Quer dizer alguns nomes, não?

Augusto Santos Silva, Vieira da Silva, Ferro Rodrigues, todas essas figuras são conhecidas dos portugueses. Não estou a dizer nada que não tenha acontecido. Aliás, com um problema que nós hoje temos na vida política, que é o problema do elitismo na ação política e também na vida diária, que faz deslocar um conjunto vastíssimo de pessoas da realidade. E é também isso que está a fazer com que o Partido Socialista não tenha agregação a uma parte significativa do eleitorado. É que o eleitorado já não está pra aturar determinadas figuras que ao longo dos últimos 30 anos tiveram o poder e agora se assumem como os donos da democracia. Isso acabou. É preciso que o Partido Socialista perceba que essas pessoas ficaram na história Não são um contributo positivo para uma transformação que o Partido Socialista tem de fazer para voltar a ter poder ou pelo menos para tentar voltar a ter alternativa. Se José Luís Carneiro continuar nesta vidinha, que é de pedir licença para existir, então o Partido Socialista não terá grande futuro, ou ele como líder do Partido Socialista não terá grande futuro. E eu espero que ele perceba que a transformação enorme que o Partido Socialista precisa de ter não pode ser com esta atitude de menorização da figura do secretário-geral, de uma permanente dependência sob o ponto de vista do pensamento e da ação de pessoas que são o passado do Partido Socialista e que não representam rigorosamente nada na sociedade atual e na sociedade que pulsa, na sociedade que é relevante hoje em Portugal.

Tem sido muito focal há muitos anos e agora também na atual liderança do PS. Sobre isto que estava a dizer, precisamente, sobre líderes que são rodeados, vou utilizar uma expressão sua, de dirigentes frágeis. Quem é que devia lá estar e não está?

Vamos ver. Os líderes fazem-se. Eu não sou partidário, já o escrevi várias vezes, de que os líderes nascem já com a aura de liderança. Não, os líderes fazem-se. Em primeiro lugar, qual é a condição central para um líder se fazer? A condição central é rodear-se daqueles que não lhe dizem "amém". É claro que esses que dizem "amém" são aqueles que enchem as salas para bater palmas. Fazem parte do cenário, são muito importantes para determinado momento, quando há fragilidade do líder, quando o líder se sente muito acossado. Mas aquilo que importa a um líder é que ele se rodeie das pessoas que não lhe dizem "amém", e principalmente das pessoas que têm uma leitura de país. O que falta hoje no Partido Socialista é pessoas que tenham uma leitura de país.

Mas não, por exemplo, eu lembro-me de quando esteve aqui na última vez na Vischi, a Vischi Suassica era uma crítica que fazia a Pedro Nuno Santos, logo depois de ele sair da liderança, disse-lhe que ele não se sabia rodear de pessoas. Criticou-o por não ouvir nomes como Sérgio Sousa Pinto, Francisco Assis ou Ana Catarina Mendes. Ora, estes três, por exemplo, fazem parte da direção de José Luís Carneiro. Portanto, não sei resolver.

O problema é que fazer parte da direção não quer dizer que sejam ouvidos. Eu não faço parte da direção, portanto, aquilo que me parece, por aquilo que sai do Partido Socialista, por aquilo que são as posições do secretário-geral do Partido Socialista, das iniciativas do Partido Socialista, não vejo nessas iniciativas e nessas posições, um dedo sequer do Sérgio Sousa Pinto ou do Francisco Assis. Não vejo. E portanto, alguma coisa estará mal, não é?

São essas figuras que fazem falta terem mais voz agora, uma voz mais presente junto do líder?

São essas e outras novas. Ou seja, o que faz falta ao Partido Socialista é que haja pessoas que estejam nas universidades, que estejam nas empresas, que estejam nos serviços públicos, que tenham uma visão do país ou pelo menos de uma parte do país e que não dependam da política. Que mesmo estando na política, que não dependam dela, que sejam independentes, que estejam aqui, mas que a sua voz não esteja dependente do lugar. E isso é o que faz falta.

Por que não quis fazer parte da equipa do José Luís Carneiro, Ascenso Simões? Não podia ajudar neste processo de recuperação do partido?

Não, eu não quis fazer parte da equipa do José Luís Carneiro. Como sabe, eu saí dos órgãos nacionais em 2024, quando entrou Pedro Nuno Santos. Porque entendi que ao fim de 40 anos, fazia sentido não estar nos órgãos nacionais, nem do Partido Socialista, nem da Juventude Socialista. Porque eu também, se indico a pessoas que estão há muitos anos nos cargos dirigentes, eu também tenho que ter o mesmo critério. Ou seja, vamos ver, eu não posso dizer aos outros que estão aqui há muito tempo e que já têm uma visão desfocada do país, e depois eu ao mesmo tempo achar que sou essencial nessa nova luta. Nós temos que ter um espelho em casa e poder dizer: "Olha, também estás aqui há muito tempo, portanto aquilo que é a receita que tu estás a dar aos outros, também tens que aplicar a ti."

Ascenso Simões, defendeu uma escolha sem pressas depois da demissão de Pedro Nuno Santos. Ainda assim, a escolha foi feita de forma rápida, na mesma. José Luís Carneiro, e até tendo em conta o que estava aqui a dizer sobre não se notar um dedo das pessoas que gostava que fossem ouvidas nas decisões, José Luís Carneiro tem resultado como líder?

Bem, vamos lá ver. O José Luís Carneiro ainda não começou a contar como líder. Os dias como líder do José Luís Carneiro ainda não começaram a contar. Porque o José Luís Carneiro foi eleito numa situação de urgência. Depois vieram as eleições autárquicas, depois vieram as eleições presidenciais, e portanto, só agora com o Congresso.

Mas em eleições também se vê como é que um líder se comporta, não é?

Bem, mas o José Luís Carneiro tem uma enorme vantagem quando confrontado com outros putativos líderes. É que o José Luís Carneiro passa o dia a trabalhar. O José Luís Carneiro é incansável, o José Luís Carneiro atende toda a gente, o José Luís Carneiro vai a todo lado. E isso é uma enorme vantagem pra um líder do Partido Socialista. É a primeira grande vantagem. No Partido Socialista, só houve três líderes com a disponibilidade para o partido, até agora, que estavam em todo lado e que gostavam de estar. Esses líderes foram Marias Soares, António Guterres e José Luís Carneiro.

António de Seguro era mais cigarra, não?

O António de Seguro fez isso na JS, mas já não fez isso no PS. Ele foi tão acossado durante aqueles anos da troica, que não teve sequer tempo para ir fazer no PS aquilo que fez na JS.

Mas então ainda está à espera que José Luís Carneiro dê provas como líder. Ainda não mostrou o que vale.

Estou à espera que o José Luís Carneiro faça duas coisas essenciais. Em primeiro lugar, que tenha uma equipa e que tenha um programa E, em segundo lugar, que deixe de ser uma espécie de segunda linha. Ou seja, um líder nunca se pode afirmar tendo um comportamento de segunda linha.

O que é um comportamento de segunda linha, neste caso?

O comportamento de segunda linha é estar sempre nos consensos. Um líder não se afirma nos consensos. A forma como ele convocou o congresso é uma forma estranha. Depois, na Comissão Nacional, quando ele levou o regulamento do congresso e a redução do número de delegados, ou seja, mais de um terço dos conselhos não têm delegados, outro terço tem um delegado. Fazer um congresso que é um congressozinho demonstra medo. Um líder tem que ser líder com confronto. Ninguém é líder sem confronto. No Partido Socialista, nenhum líder que se tenha afirmado foi líder sem confronto. José Luís Carneiro tem que fazer o confronto. Ou faz agora, ou então pode nunca suceder.

Tendo que comprar guerras mesmo no partido.

Não tendo que comprar guerras, porque a gente tem que saber o que ele pensa, os portugueses têm que saber o que ele pensa. Não é através da moção, que ainda por cima é uma moção aquentada. A moção tem duas vantagens: abre com o tema da corrupção interna, dentro do partido, e fecha com a corrupção no país. Isso já é um sinal positivo, porque o tema da corrupção é um dos temas que está agarrado à cara do Partido Socialista e que danificou muito a imagem do Partido Socialista. E alguém que o quer tratar, ou pelo menos tenta identificar um caminho para se atalhar a este fenômeno, é corrupção moral, é também corrupção financeira, e que está agarrado à cabeça do Partido Socialista, já faz alguma coisinha. Mas não chega. José Luís Carneiro, para se afirmar, não se afirma através de uma espécie de transformação do Largo do Rato numa secçãozinha. O Rato não é uma secção. O Rato é o São Bento, residência pessoal do primeiro-ministro, alternativo. O Rato é o centro de um governo alternativo.

Deixa-me perguntar, tu também disse que José Luís Carneiro foi apressado ao lançar o congresso na noite das presidenciais, à boleia do resultado do Seguro. Acha que Carneiro vive com receio de ver alguém tomar-lhe a liderança e isso justifica-se? Está a falar de ter medo.

Os sinais dizem isso, mas às vezes temos, como dizia o Jorge Coelho, não estás a ver bem o filme. Eu posso não estar a ver bem o filme, apesar de os sinais estarem lá todos. Eu não faço parte dos órgãos, não vou às reuniões dos órgãos, assisto como os restantes portugueses ao que se vai passando, tenho uma análise crítica do que o Partido Socialista está a fazer, conheço a história do Partido Socialista por dentro, dia ao dia, desde 1980. Vou olhando e vou dizendo: "Olha, és líder do Partido Socialista, mas não és", porque efetivamente um líder só se afirma com um confronto. É preciso haver um confronto. As pessoas lá fora precisam de saber que no Partido Socialista o líder não é cooptado. Não é uma passagem administrativa, vai a jogo e em confronto permanente com ideias e com pessoas.

Por isso não tem um passe direto para as próximas legislativas ou José Luís Carneiro tem o direito de ser o candidato do Partido Socialista nas próximas legislativas, independentemente de quando elas acontecerem?

Todos os líderes são candidatos às próximas legislativas, sejam elas quando forem.

Mas não é um direito adquirido e indiscutível.

Nunca. Nos partidos democráticos isso não existe. Veja o seguinte: Ferro Rodrigues, em 2004, tinha o caminho aberto para ser candidato às legislativas. Aconteceu o que aconteceu e ele demitiu-se. Não foi às legislativas seguintes. E a coisa acabou. Sim, política, quem está no lugar é sempre possível candidato, mas o problema não está aí. O problema é que podemos ser candidatos para não termos resultados nenhuns, ou para aprofundarmos a nossa desgraça, ou para transformarmos o Partido Socialista, não na terceira força, mas ainda numa coisa residual, porque ninguém antecipava que o Partido Socialista seria a terceira força parlamentar como é hoje. Nunca, ninguém pensou nisso. O Partido Socialista vive um problema existencial.

Se há Luís Carneiro não mudar, um novo PASOK é possível?

Não é possível porque o Partido Socialista nunca foi um partido como o PASOK. O PASOK sempre foi um partido socialista diferente do Partido Socialista Português, porque Mário Soares não quis que o Partido Socialista Português fosse um partido marcadamente ideológico. O Mário Soares construiu um partido muito português, que quis sempre que isso acontecesse, desde socialistas autogestionários até sociais-liberais. Quem entender o que é o Partido Socialista, ou seja, o Partido Socialista de Mário Soares, e depois teve muitas levas de poder, sempre tendo esta gente dentro do Partido Socialista, sabe que o Partido Socialista, se tiver esta gente toda, terá sempre um papel muito relevante na sociedade. O que aconteceu com a geringonça foi que o Partido Socialista perdeu uma parte desta gente. O Partido Socialista deixou de ser relevante para uma parte dos sociais-democratas e para uma parte dos sociais-liberais. E isso é que é preciso recuperar. Quem não entender isso, não entende nada. E questões que dizem respeito, por exemplo, à carga tributária ou às questões da imigração e da forma como nós a tratamos, ou às questões que dizem respeito À liberdade da pessoa humana, às questões que dizem respeito à forma como nós encontramos na escola uma certa visão ideológica de repulsa e de limitação e ao mesmo tempo de repulsa pela diversidade. Ou seja, a forma como nós introduzimos na escola uma espécie de linha ideológica que tínhamos todos que seguir. Isso criou graves problemas ao Partido Socialista, está a criar graves problemas ao Partido Socialista. As agendas minoritárias no Partido Socialista criaram grandes problemas e isso levou a que muita gente que votava sistematicamente no Partido Socialista a deixar de votar. E alguns deles nunca mais votarão no Partido Socialista.

Só recuando aqui ligeiramente, há pouco falámos do novo presidente da República, mais na relação ao retirar daquilo que pode ser o papel do Partido Socialista em momentos fundamentais, como por exemplo, a aprovação do orçamento. O novo presidente da República retirou o peso da dissolução de um chumbo do Orçamento de Estado. Isso muda alguma coisa para um partido como o Partido Socialista? Tem mais hipóteses agora de votar contra o Orçamento de Estado ou mais margem para isso?

Não, o Partido Socialista só tem que saber aproveitar essa circunstância para ter uma atitude adulta. Já todos sabíamos que o Partido Socialista ia permitir que os orçamentos de Estado passassem até 2028, porque as circunstâncias obrigariam, sob o ponto de vista tático, que o Partido Socialista o fizesse. O Partido Socialista não tem nenhuma condição de ir para eleições nos próximos anos. Esta posição do presidente da República tem a vantagem de dizer ao Partido Socialista: "Façam lá os negócios que entenderem, arranjem as razões que quiserem, as justificações para dar aos portugueses, mas não se metam nessa coisa de criar eleições, porque nós precisamos que esta legislatura vá até ao fim". E, portanto, o Partido Socialista tem aqui uma responsabilidade, que é encontrar as justificações, as razões e as negociações necessárias para aprovar ou para permitir que os orçamentos passem até ao final da legislatura.

É cedo para um presidente da República avaliar um governo. Ainda antes da primeira reunião com o primeiro-ministro, António José Seguro disse que é preciso menos palavras e mais atos. É prematuro estar já a se dar uma primeira relação?

O António José Seguro só concluiu aquilo que os governos têm vindo a dizer. Os governantes têm vindo a dizer. Os membros do governo que foram às jornadas parlamentares do PSD, todos eles disseram que é preciso fazer reformas. E aquilo que os portugueses esperam é que o governo governe. Ou seja, nós temos este governo há dois anos a marcar passo. Nem nas coisas pequenas há decisões. Este é que é o problema. É por isso que eu digo muitas vezes que o governo é incompetente, genericamente incompetente. E esse é que é o ponto. O primeiro-ministro foi conhecer a atividade governativa já na função de primeiro-ministro. Ele nunca tinha estado num gabinete, nunca tinha sido secretário de Estado, nunca tinha sido ministro. E isso é um problema. É um problema para o primeiro-ministro, porque ele não conhece as articulações necessárias para harmonizar as políticas transversais. E depois o governo tem muito pouca massa crítica. Ou seja, quando nós estamos a falar das questões agrícolas, nós também estamos a falar das questões de saúde. E ao mesmo tempo que estamos a falar das questões agrícolas e das questões de saúde, designadamente as questões que dizem respeito aos açúcares, que dizem respeito aos refrigerantes, que dizem respeito à forma como nós transportamos os alimentos ou como transportamos os animais ou como relacionamos a proteção animal com a saúde humana. Tudo isso são relacionamentos entre ministérios. E o que este governo nos diz é que cada ministro trata dos seus ministérios sem uma visão de conjunto. Governar não é ser chefe de secretaria de cada ministério. Governar é ter uma perspectiva das políticas transversais que levam à integração das políticas setoriais num determinado desígnio e num determinado caminho.

Se o cenário atual é este de que fala de um governo incompetente e se o PS também, como diz, não tem condições para ser poder tão cedo, não há alternativa, não é?

Nós temos uma situação de inexistência de alternativa, não há dúvida nenhuma. Ou seja, o problema do país é que nós estamos com um governo mau, com uma política má, com uma alternativa democrática má. Esse é um ponto. Porque se nós tivéssemos condições de estruturar uma política democrática melhor, se nós tivéssemos condições de ter o Partido Socialista com novos quadros e novos protagonistas, é claro que o governo também se sentia na necessidade de ir mais rápido e ir buscar outras pessoas para ocuparem determinados ministérios que estão a falhar.

Mas nós estamos a falar aqui de outro elemento na equação, que é o Chega, que tem vindo sempre a crescer em eleições.

Quando eu falo nesse partido ou no seu líder, nunca dizemos os seus respetivos nomes para que os algoritmos não multipliquem a mensagem. Aquilo que eu digo é que nós temos que estruturar, temos que purificar a democracia para que as excrescências não progridam. Ora, neste momento, nós não estamos a fazer nada para contrariar esse caminho.

Mas no contexto atual, o PS está condenado a ter de segurar este governo, sob pena de voltar a cair em eleições antecipadas e correrem novamente mal.

O Partido Socialista é um partido responsável e, portanto, como foi o Partido Social-Democrata no primeiro governo de Pedro Passos, os partidos centrais do sistema devem avaliar se o país está em condições de andar sistematicamente em eleições O que eu acho é que o Partido Socialista e os seus militantes, os seus dirigentes, os presidentes de câmara acham que o Partido Socialista não está em condições de não viabilizar os orçamentos. Sabe de uma coisa? Essa história de que viabilizar o orçamento é uma derrota para um partido, é só uma coisa da cabeça dos deputados e daqueles que andam à volta do líder. Porque o que os portugueses querem e esperam é que os partidos estejam à altura das circunstâncias. Não querem saber nada dessas coisas das vitórias e derrotas temporárias, que no dia seguinte já ninguém se lembra. Isso é tudo para a rapaziada do Palácio de São Bento, não interessa mais nada a ninguém.

Olhando agora um pouquinho para a direita, este reaparecimento de Pedro Passos Coelho nesta altura é um problema para Luís Montenegro e dá mais hipótese ao PS?

Vamos ver. O Pedro Passos Coelho sempre teve a ideia de fazer uma convergência das direitas. O Pedro Passos Coelho tem uma perspectiva da federação das direitas como elas existiram no tempo de Cavaco Silva. Ou seja, há a direita, não há mais nada. E, portanto, ele quer continuar o caminho da federação das direitas, porque para ele, o posicionamento do Chega, do seu líder, agora falei no Chega, vejam lá se lá vai o eufemismo, integram-se no espaço das maiorias absolutas de Cavaco Silva. Porque sempre existiram aqueles militantes e aquela forma de ver o país. Estavam entre PSD e CDS, e agora não estão. Essa é que é a alteração. Estavam nas primeiras AD, ainda muito salazarista e muito martelista. Depois estavam nas maiorias absolutas de Cavaco Silva, e depois começaram a ficar fora e a vestirem-se, não irem votar. E quando se cansaram do PSD, do PS, que se alternavam no poder sem que houvesse um caminho para o país e com casos e casinhos e uma má governação, eles foram todos para quem lhes abriu a porta. E é preciso ter em conta essa realidade.

Passos pode voltar a uni-los e a trazê-los para o PSD. Ou não?

É essa a ideia. Ou seja, a ideia de Passos Coelho, na minha perspectiva, é que a melhor coisa para a democracia portuguesa é o Paulo Rangel estar no espaço de governação. Porque o que Montenegro diz, que é a existência de três blocos, é uma falsidade. Não há três blocos, há dois blocos. Há o bloco da direita e o bloco da esquerda.

Acha que estão circunstancialmente divididos em dois blocos.

Esta coisa do tripé é uma falsidade. O centro nunca foi exclusivo do Partido Socialista. O centro também foi de Durão Barroso, também foi de Pedro Passos Coelho, em circunstâncias especiais. Portanto, o centro não é por si um pé, como agora o PSD quer fazer crer. O PSD está a cometer um erro que é: a direita está com o partido mais à direita do plenário, circunstancialmente também está com a iniciativa liberal. Nós somos o centro e a esquerda é tudo aquilo que vai para além da esquerda do PS. Isso é mentira. Não passa de texto de algodão. Não tem fundamento histórico, não é a realidade da nossa democracia. Portanto, é uma estratégia que é errada por parte de Luís Montenegro, que a prazo lhes vai trazer desavatos.

Ascenso Simões, mesmo para terminar, uma última pergunta antes de irmos à fase do carne ou peixe. Se a reforma laboral não passar no Parlamento, Montenegro fica ferido de morte? E a ameaça Passos ganha fôlego ou não depende isso?

Se não passar no Parlamento, Montenegro faz aquilo que já devia ter feito, que é mandar a ministra embora, que é incompetente e é incapaz para todo o serviço. Nós só temos um problema com a legislação laboral porque a ministra não sabe ser ministra, não sabe o que é concertação social e ela própria foi mais longe do que as centrais sindicais lhe tinham pedido. Isto não é um governo de defensores de patrões, este é um governo de lunáticos no que diz respeito às relações laborais. Vai ter que fazer a substituição da ministra e pôr lá alguém que saiba verdadeiramente o que são relações laborais e que perceba qual é o papel do trabalho nas empresas no século XXI. É aquele ponto.

Ascenso Simões, passamos agora à fase do carne ou peixe, em que tem que escolher uma de duas opções. Vamos lá ver se não fica com fome. A primeira, Ascenso Simões, preferia escolher os cartazes da candidatura Duarte Cordeiro 2029 ou José Luís Carneiro 2029?

Eu já fui diretor de uma campanha eleitoral e demiti-me por causa de cartazes. Não vou fazer nenhuma escolha por uma razão simples: estou incapaz para todo o serviço.

E como adversário do PS nessas eleições, preferia encontrar Luís Montenegro ou Pedro Passos Coelho?

Era melhor que fosse Pedro Passos Coelho, porque esse pelo menos tem uma ideia para o país, mesmo que discorde completamente dela, e pelo menos colocaria a direita toda a marchar à frente dele. E isso abriria novas portas para o Partido Socialista. Com Luís Montenegro, nem carne, nem peixe, vamos continuar a marchar sem sentido.

Preferia almoçar com Miguel Prata Roque ou Vítor Escária?

Eu estou numa fase em que praticamente não almoço. Se eles tomarem chá, eu talvez ponde-te.

Com qual dos dois é que tomava um cházinho?

Se eles tomarem. Ou seja, acho que eles não tomam, portanto não estou a escolher.

Para terminar, preferia ser ministro de um futuro governo liderado por Bruno Gonçalves ou Miguel Costa Matos?

O único ministério que eu aceito, a partir da minha saída das funções partidárias internas, é ser ministro da Ordem Terceira de São Francisco. Que é uma ordem secular que tem como atividade apoiar pessoas da terceira idade em situação de fragilidade.

E se fosse conselheiro de um dos dois, sendo eles primeiro-ministros, qual é que preferia ser?

Não, já estarei muito velho para ser conselheiro de quem quer que seja. Nessa altura tratarei mais da minha saúde do que propriamente dar conselhos a quem quer que seja.

Ascenso Simões, para terminar, a sobremesa, ou seja, a música que escolheu. Porquê desta escolha, "Todo Homem" de Zeca Veloso, que é filho de Caetano Veloso?

Porque todo homem precisa de uma mãe, se lembra da sua mãe e porque há poucos dias passou o Dia Internacional da Mulher, que é a evocação de todas aquelas que fazem o nosso mundo. Espero que o feminismo radical e tóxico não desfaça a beleza da mulher como ela existe.

Obrigado, Ascenso Simões. A Vixi Suave regressa, como sempre, na próxima semana.

O sol manhã e flor e sal E areia no batom Carão saudades no varal Vermelho, azul, marrom Eu sou cordão umbilical Pra mim nunca tá bom E o sol queimando o meu jornal Minha voz, minha luz, meu som Todo homem precisa de uma mãe Todo homem precisa de uma mãe O céu espuma de maçã Barriga dois irmãos O meu cabelo negra lã Nariz e rosto e mãos O mel, a prata, o ouro e arranhão Cabeça e coração E o céu se abre de manhã Me abrigo em colo, em chão Todo homem precisa de uma mãe Todo homem precisa de uma mãe Todo homem precisa de uma mãe Todo homem precisa de uma mãe