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Olá, bem-vindos à Vício e Suave. O meu nome é Miguel Santos Carrapatoso, sou jornalista e editor adjunto de política do Observador. Tenho ao meu lado aquele que muitos dizem ser o Salvador Sobral da telefonia portuguesa, o editor da rádio João Alexandre, e as talentosas compositoras, as jornalistas de política Mariana Lima Cunha e Rita Penela. É este encantador trio que me vai ajudar a explicar uma semana em que Rui Moreira se viu metido numa encrenca que, à boa moda do norte, veio servida com diminutivo. A Celminho voltou para assombrar Rui Moreira, para grande comoção de uns e grande alegria de outros.

Posso assegurar-vos, assegurar os portuenses e as portuenses, que aguentarei inabalável como o granito, pois acredito que a verdade prevalecerá e a justiça, estou certo, chegará um dia. Muito obrigado a todos.

Se aguenta ou não, logo se verá. De granito parece ser a relação entre António Costa e Jerónimo de Sousa, ainda que os dois gostem de renovar ano após ano, após ano, após ano, a premiadíssima série Tensão na Geringonça. Lá vamos nós outra vez dizer que desta vez é que é de vez. Já a relação entre António Costa e Catarina Martins não leva jeito de ser mais do que uma pedra pomes. Os bloquistas têm este fim de semana mais uma convenção partidária e avizinha-se uma dura sessão de psicoterapia. Será que ainda se lembram do que disseram na convenção passada?

Que alcançaremos a força para ser parte de um governo quando o povo quiser. Perguntam-nos antes se é possível agora. Um governo que cumpra a saúde, a escola, as pensões, o emprego e a nossa resposta é que sim, que é difícil, mas é necessário e trabalhamos para isso. Esta convenção sabe, o bloco mudou porque cresceu, mas só houve um momento em que a legislatura esteve em risco. Não nos perguntem por isso, se queremos fazer parte do próximo governo que ainda não foi eleito.

Não há nenhuma razão para o orçamento do Estado não ser viabilizado. A menos que o governo não o queira viabilizar. O Bloco de Esquerda tem proposta, apresenta um programa. Eu já o disse antes, às vezes as pessoas ficam um pouco chocadas, mas eu acho que é importante dizê-lo, que é na sua essência um programa social-democrata. Se não houver um acordo para um caminho na especialidade.

Vôa a esse então.

Não, por quê? Por quê? Que é isso? Que é isso? Que irresponsabilidade.

Vão votar a favor desta proposta de orçamento dos outros partidos à esquerda, que entendendo que é necessário avançar, não desertam da esquerda para se juntarem à direita, mas viabilizam a passagem deste orçamento à especialidade.

Vai ser preciso partir muita pedra. Nós aqui prometemos dar uma ajuda, portanto venha daí a refeição mais deliciosa da política portuguesa. João Alexandre, desta vez começo por ti. Trago uma sopa de cebola para falarmos de Rui Moreira. De facto, este desenvolvimento no caso Celminho fez comover muita gente e fez outros, como Rui Rio, chorar de alegria. O que achas que isto vai trazer à campanha autárquica no Porto?

Acho que vai trazer muita animação, muito lavar de roupa suja, muitas outras coisas pouco dignas, portanto, será uma campanha normal. Semelhante a todas as outras de todos os outros anos.

Estalado cinco, João Alexandre. Sexta-feira, João Alexandre.

Obviamente que Rui Moreira tem aqui um imbróglio, mas a verdade é que nós, até nas análises que fizemos aqui no Observador, disso demos conta também, que já quando Rui Moreira se candidatou da última vez à autarquia do Porto, este caso voltou a vir à superfície e Rui Moreira acabou por vencer de forma relativamente clara também as eleições.

Aliás, teve maioria absoluta que não tinha.

Obviamente que nunca é positivo para nenhuma candidatura ter um caso destes, obviamente que será aproveitado pela oposição, mas eu creio que Rui Moreira, se está confiante no trabalho que fez enquanto autarca durante estes anos que esteve à frente da Câmara Municipal do Porto, apesar deste caso ser um caso que pode impactar e muito a campanha eleitoral, e entretanto já se viu, por exemplo, o PSD, Rui Rio, nomeadamente, também o candidato à Câmara do Porto, Vladimir Feliz, falar sobre este caso.

Nós fomos falar ao longo deste programa muito de problemas de memória. Achas que o Rui Rio se esqueceu de tudo que tinha dito sobre o julgamento desta bacaria?

Sim, Rui Rio entretanto já tinha dado esse sinal também até aqui numa entrevista, creio que já foi no ano passado aqui no Observador, ou foi no início do ano? Já não me lembro bem. No início do ano. A forma como se referiu na altura a Rui Moreira, também já se falava deste caso Celminho. Rui Rio mostrou logo ao que vinha.

E por contraste com Isaltino Morais, que estivemos a falar na mesma entrevista.

Exatamente. Ainda para mais, Isaltino Morais já foi condenado, cumpriu o seu tempo, regressou à política. Rui Moreira, temos de contar aqui também com a questão da presunção da inocência. Portanto, não se percebe muito bem, já que perguntavas por Rui Rio, que caminho está a percorrer Rui Rio também neste combate político para fazer este tipo de ataques a Rui Moreira. Não sei se lhe sairá bem ou mal, mas queria só dizer isto, que é Rui Moreira se está confiante no trabalho que fez na autarquia, não terá com o que se preocupar, ainda que tenha agora este caso.

Mariana, muito rapidamente ainda sobre este tema, porque temos mais sopas para servir. O que te pareceu da reação do PS a este caso? Nós vimos um Partido Socialista muito cauteloso a reagir aos desenvolvimentos do caso Celminho. Não podemos dizer que protegeu Rui Moreira, mas não o atacou, pelo menos. Rui Rio veio a dizer que António Costa e Rui Moreira têm um acordo para o pós-Rui Moreira, portanto, para preparar o caminho para o PS num ciclo futuro. Achas que essa jogada ou esse plano está na cabeça dos socialistas no Porto?

Não sei se está na cabeça dos socialistas no Porto. Eu acho interessante a hipótese que Rui Rio aventou de haver... Eu acho que ele também dizia que havia um entrosamento entre o PS e Rui Moreira no Porto. E há outra questão que falávamos ainda há pouco aqui na relação, que é o facto de o PS poder não estar no melhor momento para questionar presunções de inocência em casos deste gênero. Acho é que, e concordando eu com o João Alexandre no sentido em que, apesar de achar muito difícil sustentar uma campanha com um caso destes a contaminá-la, e será inevitável, acho eu, que invada a campanha. É uma campanha que estava um bocadinho morta, e do lado do PS também. Não sei se isto poderá dar mais algum vigor às outras candidaturas, que andavam ali, parecia mesmo que iam só tentar não perder por falta de comparência. A conversa no PS era aliás se mais valia tirar um nome que fosse repetente e que já tivesse perdido ou lançar um nome que só teria hipóteses lá para 2025. Portanto, não sei se isso poderá reavivar um bocadinho a chama da oposição no Porto

O que acho que é certo é que, apesar de, como o João dizia, os factos já serem conhecidos e não ser propriamente uma surpresa este caso, o que até pode não influenciar muito o eleitorado, em termos políticos e de sustentabilidade de uma candidatura do Rui Moreira, parece-me muito complicado, ainda por cima num caso que tem a ver diretamente com a ação na Câmara, sustentar uma candidatura e uma campanha assim.

E do Porto voamos diretamente para Lisboa, para a Assembleia da República, para servir uma sopa azeda. Eu escolhi esta sopa porque as conversas sobre o fim da geringonça e sobre a tensão enorme entre PCP e PS já parecem um pouquinho ultrapassadas, mas ano após ano, lá temos nós de falar outra vez disso. Rita Penela, achas que desta vez é mesmo a sério que o PCP e PS não se vão entender?

Tão a sério como a campanha no Porto que se vai repetir. Para não ser cínica como o João Alexandre, é aquela história em que já ninguém acredita. Já ouvimos tantas vezes que entretanto é o Pedro e o Lobo e no dia em que acabar mesmo ninguém vai acreditar e ninguém vai escrever a notícia. Porque o PCP, aqui já a antecipar um bocadinho aquilo que será o início da conversa para o próximo orçamento, a querer marcar o passe e a vir a público fazer conferências de imprensa para pedir contas ao governo e o que é que falta ainda executar no orçamento. O governo também já veio dizer que sim, senhora, que agora é que é tempo de apressar e vamos a isto, porque afinal não é só pandemia, mas também a líder parlamentar Ana Catarina Martins, que recentemente acenou com aquela bandeira incrível que qualquer comunista gosta das leis laborais e de haver aqui algum espaço para rever as tão gravosas, como eles tantas vezes dizem, as tão gravosas normas da legislação laboral. É aquela história, mais um capítulo daquele filme que vemos os cinco minutos e adormecemos, porque já sabemos como é que aquilo vai acabar. Se calhar estamos aqui, mais uma vez, nesse filme muito aborrecido e já nem as pipocas contentam, sinceramente.

Mariana, mas esta sequela tem aqui um lado interessante, que são as autárquicas. Achas que o PCP pode ter tendência a dramatizar ainda mais e a exigir ainda mais, por ter de enfrentar umas eleições que são muito difíceis e muito importantes para o PCP, que teve nas últimas autárquicas em 2017 o pior resultado da história, perdeu 10 câmaras e muitas delas para o PS. Achas que o PCP pode aqui ter a tendência, a tentação de forçar a barra?

Deixe-me só fazer um pequeno aparte só para dizer que orçamento é uma coisa que me provoca alguns sentimentos, normalmente não muito positivos durante o ano, mas a montagem do João Alexandre provocou mesmo emoção. Foi das primeiras vezes que eu me comovi a pensar em orçamento do Estado. Portanto, um elogio público aqui para o João Alexandre. Sim, o PCP, o que me parece aqui com os sucessivos avisos que a Rita estava a referir, com a conferência de imprensa ontem, em que me pareceu num tom um bocadinho autojustificativo, o PCP veio dizer que sempre disse que o apoio ao orçamento não é o fim da história e que depois é preciso executá-lo, etc. Ora, se isto é verdade, diria que também é verdade que só se fazem acordos em que se acredite e com parceiros que se acredite que cumprem. Sobretudo com parceiros em que já há um historial, já há antecedentes para trás. E portanto, o PCP está a sentir uma necessidade de marcar aqui a sua posição, porque está preocupado com a sua própria posição, como tu dizias, no ano de autárquicas em que, por acaso, boa parte das grandes batalhas do PCP vão ser com o PS. O distrito de Setúbal é um caso claríssimo disso. E numa altura em que o Bloco de Esquerda está a insistir em capitalizar com a posição contrária, com ser a oposição da esquerda, o ex-parceiro que exige medidas mais duras, o PCP vê-se aqui num problema que é que história é que vai contar sobre este orçamento e como é que vai justificar, lá está, com o orçamento próximo também das autárquicas, se quiser continuar a acompanhar o governo, vai precisar de mais argumentos do que os que o governo lhe tem dado. E o PS, por acaso, tem feito questão de acrescentar alguns rebuçados. Eu lembro-me no último debate bimensal, o PS fazia questão de falar do Hospital de Évora, por exemplo, que é uma câmara comunista, aliás, terra do líder parlamentar, João Oliveira. E entretanto já vai falar do Hospital de Seixal, por exemplo, outras conquistas que o PCP vai-

Da falta do central do Alentejo também é uma das-

Vai enumerando conquistas que podem ter precisamente a ver com autárquicas e com rebuçados autárquicos. Não sei se para a generalidade do eleitorado isso chegará ou não.

Claro, nós aqui na nossa refeição não servimos rebuçados, até porque não fazem bem à saúde, dizem.

Até porque não há dentistas, não é?

É verdade, mas tenho uma última sopa, uma sopa de espinafres e brócolos. Peço perdão aos especialistas e nutricionistas se isto não for verdade, mas fiz uma pesquisa rápida e aparentemente espinafres e brócolos fazem muito bem à memória. Portanto, João Alexandre, pergunto-te: sobre o Bloco de Esquerda, que tem este fim de semana a sua convenção, achas que eles se lembram, de facto, do que disseram há três anos quando queriam ser governo, ou aquilo foi tudo para inglês ver?

A verdade é que, na altura, especulou-se muito em torno dessas afirmações e daquilo que estava na moção que a direção do Bloco levou à última convenção, mas-

Recordo, por exemplo, só para te ajudar, que Francisco Louçã lançou Mariana Mortágua para Ministra das Finanças.

Até ao infinito e mais além.

Depois de vermos aquilo que se tem passado nas comissões parlamentares de inquérito às perdas do Novo Banco, acho que já houve mais gente que falou sobre isso, mas também, por exemplo, Cecília Meireles do CDS, que tem estado em grande destaque, duas mulheres da área também das contas. Mas em relação ao Bloco de Esquerda, creio que tem aqui uma missão muito difícil e é um momento crucial para o Bloco. Há esta questão das Estas questões internas do Bloco de Esquerda parecem ter vindo a crescer ao longo dos últimos tempos. As críticas à direção bloquista já não são de agora. Já havia essas críticas nas últimas convenções, não foi apenas na última, de que havia demasiada centralização de poder em Catarina Martins e no núcleo duro da coordenadora do Bloco de Esquerda. Havia pedidos de que houvesse maior discussão interna dos temas, de uma maior radicalização do Bloco, à semelhança daquilo que era a premissa inicial de criação do partido. Mas a verdade é que o Bloco de Esquerda já disse que tem um programa social-democrata, já disse que queria ser governo, já disse que estava disponível para fazer parte do governo, já disse que fazer ou não parte de um governo dependeria de António Costa, mas que António Costa se estava a afastar do Bloco de Esquerda. Creio que o Bloco já disse muita coisa e talvez este seja o momento certo também para falar para as bases e explicar exatamente o que é que o Bloco de Esquerda quer fazer daqui para a frente, tendo em conta também aquilo que António Costa já disse e toda esta tensão que existe entre o Partido Socialista e o Bloco. Portanto, eu acho que mais até agora do que dizer ao governo o que é que quer, até porque ainda há longos meses de negociação e o orçamento creio que acabará por se fazer e por ser aprovado com abstenções ou com votos contra, mas acabará sempre por passar com maior ou menor dificuldade. Mas eu creio que é importante aqui o Bloco de Esquerda cimentar aquilo que são as bases do partido e dizer aos eleitores e também aos militantes o que é que aí vem para os próximos anos.

Mariana, em dois minutos apelo ao teu poder de síntese para responderes ao repto do João. O que é que quer fazer o Bloco de Esquerda? Quer ser poder ou quer ser oposição? Ou quer ser os dois?

Eu acho que o que aconteceu desde que o Bloco de Esquerda decidiu votar contra o último orçamento e provocar ali aquela rutura com o PS, e que era um risco que o Bloco sabia que estava a correr na altura e que temia que tivesse impacto nas eleições de janeiro, nas presidenciais, para o Bloco neste momento compensa. Ou seja, compensa a posição em que ficou e em que se quer apresentar, que é na prática de um partido que é oposição, que exige mais ao governo, que se apresenta como a esquerda mais dura com o governo e aí beneficia da posição do PCP e da percepção de que o PCP estará mais amarrado ao governo e até que poderá ser o partido que consegue impedir uma maioria absoluta de António Costa. E isso para o eleitorado de esquerda pode contar. E portanto, o Bloco mesmo tendo tido uma derrota nas presidenciais em janeiro, fez as contas, olhou para as sondagens, não verificou uma alteração no padrão, que dão a entender que o Bloco se tem aguentado com os números anteriores e portanto considerou as presidenciais mais um acidente de percurso circunstancial do que um aviso para mudar de rumo.

Veremos se assim é de facto. Nós teremos a oportunidade de falar mais sobre o Bloco e sobre esta convenção na segunda parte da Vixi Soares, onde teremos Pedro Filipe Soares, líder parlamentar do Bloco. Portanto, já sabe, fique conosco, fique com o Observador. Olá, bem-vindos à segunda parte da Vixi Soares. Temos conosco Pedro Filipe Soares, líder parlamentar do Bloco de Esquerda. Como está? Bem-vindo.

Boa tarde, obrigado.

Desde já, obrigado por interromper a sua licença de paternidade para nos dar esta entrevista. Prometemos ser um bocadinho mais simpáticos, dadas as circunstâncias.

Solidários com a minha tarefa de me dar a falta.

É verdade. Começamos então pela convenção deste fim de semana. Há três anos, na última convenção, vimos um Bloco que parecia cada vez mais próximo do poder, ou pelo menos com vontade de ser poder, e que até confessava ambições de fazer parte do governo. Esta é a convenção em que o Bloco se vai voltar a apresentar como partido da oposição?

Esta convenção acontece num período político diferente. A convenção anterior era aquela que determinava o caminho do Bloco até às eleições legislativas. E como tal, a definição do Bloco perante o resultado das eleições legislativas era uma das preocupações e um dos temas em debate, que é o que nós faríamos nesse caminho, quais eram as nossas pretensões e quais eram os planos que nós tínhamos para implementar nesse caminho. O contexto agora é diferente. Não há, pelo menos antecipadamente, naquilo que se conhece, umas eleições legislativas no horizonte. Nós estamos a discutir uma participação.

O que é que mudou exatamente para frustrar os planos do Bloco? Foi o PS que não quis contar com o Bloco, foi o Bloco que se desiludiu com o PS. O que é que mudou de há três anos para cá?

Tivemos umas eleições legislativas em que o Bloco se manteve como terceira força política e o seu projeto político teve um apoio social que relevamos, mas não foi ainda o suficiente para permitir que o Bloco disputasse a entrada no governo. Por outro lado, na sequência dessas eleições legislativas, nós assistimos a um Partido Socialista mais arrogante, mais autossuficiente na forma como se via, quer na governação, quer na relação com outros partidos. E isso é que foi o fundamental, isso é que mudou, creio eu, essa postura do Partido Socialista é que mudou face aos quatro anos anteriores. Não por acaso, logo a seguir às eleições legislativas, nós até propusemos a possibilidade de renovar um acordo com o Partido Socialista, foi liminarmente rejeitada essa possibilidade pelo Partido Socialista. E ao longo deste período, várias vezes essa postura do Partido Socialista se foi demonstrando. Agora, há uma coisa que mudou drasticamente. Temos uma pandemia que nos caiu em cima, temos um país que já não está nas mesmas circunstâncias econômicas e sociais que estava há três anos e por isso os desafios que tem agora são também diferentes. E desse ponto de vista, nos parece que também no conteúdo da governação, o Partido Socialista agora e o seu governo minoritário são diferentes daqueles que existiram até 2019, porque se vê que enquanto nós no passado éramos um exemplo de defesa de serviços públicos, de valorização até do emprego, da forma como se olhava para a qualidade do emprego, agora, quando o governo é dos que menos investe na resposta à crise, daqueles que na Europa menos se preocupa em defender a economia e o tecido social nesta pandemia, nós vemos que também aqui há uma mudança na forma como tem governado o Partido Socialista.

Das suas palavras depreendo que PS e Bloco de Esquerda estão neste momento em caminhos muito diferentes. Mas, por exemplo, Fernando Rosas, na entrevista esta sexta-feira ao Diário de Notícias, diz que o Bloco quer um entendimento com o PS e entende que isso seria útil. O Bloco não está disposto a isso? Imagino que vai responder que o PS é que tem de se aproximar, mas há aqui negociações que parte a parte existem cedências.

Como é óbvio, qualquer tipo de diálogo implica nós ouvirmos a outra parte, senão são dois monólogos. Eu creio que disso nunca podem acusar o Bloco de Esquerda em vários dossiês difíceis.

António Costa acusou o Bloco de ter desertado.

Eu creio que essa retórica não lhe fica bem e, portanto, não lhe vou responder a ele na mesma medida. Não acho que seja essa a forma de se discutir conteúdo político, e isso é o que merece ser discutido. Porque quando nós olhamos, por exemplo, e agora pro concreto, para propostas de esquerda no Parlamento e perguntarmos se o Bloco de Esquerda alguma vez faltou com o seu voto a essas propostas, por exemplo, da recuperação de rendimentos, da valorização de direitos dos trabalhadores, de combate a esta elite financeira que tem destruído parte importante da riqueza do país, e a resposta é: o Bloco nunca faltou a essas votações.

E suponho que nos vai dizer que o PS falhou ou faltou a essas-

Em várias delas. E por isso eu percebo até, e eu acompanho as palavras do Fernando Rosas, nunca houve da parte do Bloco de Esquerda uma intransigência de dizer: "nós não queremos nada com o Partido Socialista", nunca o fizemos. Agora, tem que ter consequência na vida das pessoas, tem que fazer a diferença.

No concreto, nas condições concretas em que estamos, talvez também não goste desta retórica do António Costa, mas ele referiu-se a um divórcio dos partidos à esquerda do PS e do Bloco, em particular. Depois do divórcio, pode ou não haver reconciliação, particularmente este ano?

O percurso até ao Orçamento de Estado ainda é longo. Vocês discutiam há minutos atrás, ainda está muita coisa em aberto, e a verdade é que está muita coisa em aberto. Agora, para haver um resultado diferente daquele que tivemos no orçamento anterior, tem que haver um percurso e conclusões diferentes daquele percurso e das conclusões que tivemos no orçamento anterior. E é no conteúdo que se valida depois qual será o voto do Bloco de Esquerda.

E indo a esse conteúdo, com que prioridades, sabemos que não gosta da expressão linhas vermelhas, mas pelo menos com que prioridades é que o Bloco vai então partir pra esta negociação?

A questão é sempre a mesma: emprego. Num período em que o país tem-

No ano passado houve também o Novo Banco, por exemplo.

Sim, coisa que nós conseguimos, coisa que conquistamos, o Novo Banco, essa foi uma das coisas que conquistamos. Do PSD e de outros partidos, no fundo, quem ficou isolado nessa votação foi o Partido Socialista, foi o único que não acompanhou a proposta do Bloco de Esquerda. Todos os outros acompanharam, por isso é que ela foi aprovada. Nós tivemos essa vitória, mesmo assim, o Partido Socialista, que diz que nunca há dinheiro para nada, desencantou uma possibilidade dentro do orçamento para pagar o dinheiro ao Novo Banco.

E neste orçamento o foco será ainda o emprego.

Eu creio que o emprego aqui é fundamental. Os serviços públicos, como estava a dizer, estão inerentes à salvaguarda que nós precisamos, quer de dignidade das pessoas na sua vida, quer de acesso a bens e serviços essenciais. Isso é fundamental, nós disso não desvalorizamos, mas num período de crise econômica e social, em que a taxa de desemprego está a aumentar, mas acima de tudo, a fragilidade do emprego é visível a todos e a todas, a questão do emprego, como se recupera o emprego, como se reconstrói o país, como se garante dignidade a quem trabalha e capacidade para trabalhar, esse é um debate fundamental que temos em cima da mesa.

E já receberam um convite do governo para começar a negociar?

Não, até agora ainda não.

Pedro Filipe Soares, eu sei que faz parte também da política, de alguma forma, não mostrar todos os trunfos, mas a bem da transparência, tenho que fazer esta pergunta. Se o orçamento do Estado depender do voto do Bloco de Esquerda para passar, o partido prefere ir pra eleições de novo e, portanto, desencadear ou fazer parte, pelo menos, ou contribuir para uma crise política, ou vai repensar a posição que assumiu no último orçamento do Estado?

Mais do que pensar numa lógica de jogo partidário, temos que olhar pro conteúdo da proposta. E é mais o conteúdo do que o contexto partidário da proposta que vai ter uma maior ponderação nessa definição do voto pro Orçamento do Estado.

Mas acha que António Costa pode ter a tentação de criar uma crise política ou precipitar uma crise política?

Na minha opinião, ele já teve várias vezes no passado, a última das quais foi no verão passado, em que tudo indiciava que o governo queria ir para eleições antecipadas. Nesse período ou nesse momento, foi o presidente da República que não deu a mão ao governo para essa intenção.

E agora acha que pode acontecer?

António Costa já demonstrou que é um político bastante hábil e neste jogo político-partidário tem grande flexibilidade. Não é, no entanto, o quadro em que nós pensamos para definir o voto do Orçamento do Estado.

E acha que o Bloco não corre o risco de ficar como o partido que não entra pras contas de documentos fundamentais pra governação? João Oliveira, que é líder parlamentar do PCP, criticava ainda na quinta-feira os que desistiram de intervir e lutar para vencer as resistências do PS.

Basta olhar para a recente comissão de inquérito ao Novo Banco, ou basta olhar pra as questões do teletrabalho, questões candentes que estão neste momento a chamar a atenção do país. Basta olhar, por exemplo, para a criminalização do enriquecimento ilícito e percebe-se como o Bloco de Esquerda tem tido a dianteira em todos estes dossiês e, por isso, sobre eficácia.

São de fato dossiês importantes, e não digo que não sejam, mas estamos aqui a falar do orçamento e de respostas dadas no quadro orçamental. O PCP criticou o Bloco ou sugeriu que o Bloco tinha desistido de tentar influenciar o PS, portanto, não se revê nessa crítica

O Bloco de Esquerda definiu o seu voto no Orçamento de Estado que achamos que não estava à altura do voto favorável, por isso não fizemos esse voto. O Partido Comunista teve uma opinião diferente, actualmente está diariamente a criticar a execução do governo.

Arrepende-se, portanto, o PCP?

Não sei, terá que fazer essa pergunta a João Oliveira, mas eu constato é essa realidade. Diariamente ouvimos os dirigentes do Partido Comunista a fazer essa crítica. A única coisa que tenho a dizer sobre isso, enquanto dirigente do Bloco de Esquerda, é que nós já tínhamos alertado para estas insuficiências várias e para, isto é que é o ponto fundamental, mais do que qualquer uma das medidas individualmente, para a falta de sensibilidade do governo para estar à altura da resposta necessária ao país num momento tão difícil como estamos a enfrentar.

Acredita que a atitude desse mesmo governo para com o Bloco de Esquerda tem que ver com o facto de António Costa achar que o PCP está seguro e, portanto, tem o governo também seguro por aí?

Não posso excluir essa hipótese, não estou na cabeça de António Costa, não sei dizer em concreto sim ou se não. Admito que há contas que são feitas e António Costa, como disse há pouco, do ponto de vista de jogo político-partidário, tem demonstrado ser bastante hábil. Essa calculadora deve andar sempre com ele. No entanto, o país exige muito mais do que meras contas de mercearia política, exige soluções estruturais para o país e esse é que é o desafio que nós temos em cima da mesa. Pelo menos, é aquele que o Bloco de Esquerda considera que vale a pena discutir a sério, mais do que essa mercearia político-partidária.

Pedro Filipe Soares, estamos aqui em fim de semana de convenção do Bloco de Esquerda. O grande objetivo do Bloco de Esquerda, pergunto-lhe, passou a ser impedir uma maioria absoluta de António Costa? É assim que o Bloco se vai apresentar aos eleitores, até porque é preciso passar uma mensagem clara também nesta convenção.

Nós vamos ter, se tudo correr normalmente, uma outra convenção ainda antes das eleições legislativas. Por isso, a estratégia eleitoral será definida nessa próxima convenção.

É esta encarada como uma espécie de convenção de transição para essa mensagem mais forte da próxima convenção?

É encarada como o Bloco se estrutura, prepara e cria uma resposta, no fundo, densifica a proposta ao país, no momento em que a pandemia ainda não está ultrapassada, mas está numa fase em que já vemos uma luz ao fundo do túnel e queremos dar uma resposta económica e social para os problemas graves que agora estamos a enfrentar. E esta urgência do país é o ponto central do debate na convenção, que se desenrola depois nos diversos aspectos, quer como nós pensamos o Estado, os serviços públicos para responder às pessoas, como olhamos para a economia, para o emprego, para a sua qualidade, para a sua dignidade no relacionamento com as pessoas e garantimos uma economia que tenha lugar para todos, porque reconstruir pode servir para melhorar e nós precisamos, de facto, de melhorar aquilo que já existia em 2019, mais do que apenas recuperar o que existia, que já tinha muitas desigualdades, muita precariedade, e também de dar o salto de qualidade no que toca ao combate à corrupção, uma matéria que eu creio agora tem uma possibilidade. Há aqui uma possibilidade de ir mais longe do que já fomos no passado.

Pedro Filipe Soares, mas o Bloco não está de alguma forma condenado a entender-se com o PS, sabendo que a alternativa ao PS será muito provavelmente um governo PSD apoiado pela direita, direita com o CDS, direita com a Iniciativa Liberal e direita com o Chega. Isso não é um desafio que o Bloco nunca conseguirá ultrapassar?

Há dois períodos temporais na resposta a essa pergunta. Um primeiro é antes de eleições legislativas e um segundo é depois de eleições legislativas. Antes de eleições legislativas, é esperado que qualquer partido vá defender a sua visão para o país. Uma visão ideológica também, mas um programa político para o momento do país e para as soluções que considera que o país necessita ver implementadas. O segundo momento é depois de distribuída a opinião das pessoas, de dar força a este ou àquele e de ter uma divisão das responsabilidades várias enquanto eleitos, aí decidir-se como é que nós fazemos uso desse mandato que nos foi dado.

Portanto, no que depender do Bloco de Esquerda, sempre que existir uma maioria de deputados à esquerda, a direita nunca voltará ao poder? É isso que está a dizer?

A resposta é inequívoca: sim. O Bloco de Esquerda nunca contribuirá para, havendo uma maioria de esquerda, que os partidos de direita cheguem ao poder.

Pedro Filipe Soares, normalmente diz-se que os resultados eleitorais servem para tirar algumas lições. Eu pergunto, o Bloco teve um resultado muito fraco nas últimas eleições a que se apresentou, foram as presidenciais. O partido retira ou não daí alguma lição, uma espécie de alerta também para o futuro? E pergunto-lhe também, há alguns anos foi uma espécie de challenger da liderança de Catarina Martins e João Semedo. Neste momento, pergunto se o Bloco de Esquerda está agora no momento certo para se renovar ou não, e se aqueles atores que temos neste momento, os principais responsáveis da direção do Bloco, se devem manter ou se essa questão do princípio da não eternização nos cargos é ou não secundário.

As duas perguntas são muito pertinentes. Respondendo à primeira, com toda a humildade, qualquer partido deve olhar para umas eleições, quaisquer que elas sejam, e analisá-las, retirar conclusões, e nós fizemos isso em tempo útil. E uma das conclusões que retiramos, que eu creio que é inequívoca também, é de que não há aparentemente nenhuma contaminação dos resultados entre presidenciais e potenciais legislativas. As eleições são diferentes, as pessoas percebem que elas são diferentes e votam de forma diferente. E desse ponto de vista, tivemos umas eleições presidenciais muito marcadas pela reeleição do atual presidente e foi esse o ponto definidor dessas eleições, o que também afetou o eleitorado do Bloco de Esquerda.

Em relação à questão da liderança e desse momento em que acabou por disputar a liderança.

Sim, era o que ia responder já de seguida. Nós conseguimos nos últimos anos, e eu creio que mérito também é devido à Catarina Martins, ter um diálogo interno muito profícuo, capaz de apresentar o Bloco como a terceira força política e mantê-lo como terceira força política a disputar mais ainda do que isso, e capaz de ser uma força determinante para os destinos do país. Esse caminho, feito ao longo de anos, permitiu várias renovações. Veja-se, por exemplo, a bancada parlamentar, que foi nas últimas duas eleições legislativas das mais renovadas do Parlamento. Desse ponto de vista, somos da bancada até mais nova, das mais novas do Parlamento na atualidade. E esse mérito deve ser reconhecido à direção e, em particular, também à Catarina Martins.

Mas quando chegar essa hora da renovação, que percebemos que não é para já, admite voltar a candidatar-se à liderança, como já aconteceu no passado?

Eu creio que esse debate não é um debate que neste momento seja pertinente. A Catarina Martins está onde deve estar e está a desempenhar um bom trabalho, quer internamente, quer externamente, e por isso tem todas as condições e confiança para poder continuar. Essa é a resposta que é sentida não só por mim, mas pela larguíssima maioria dos bloquistas.

Só para terminar, ia lhe perguntar se está preocupado com as notícias sobre algumas polémicas recentes no interior do Bloco, nomeadamente a acusação de violência doméstica ao deputado Luís Monteiro, que entretanto já disse ele próprio que vai para a Justiça resolver o caso, e se isso retira alguma legitimidade ao Bloco para falar de temas que são até bandeiras do partido.

Como é óbvio, quem leva a sério todos esses temas não pode ser sobranceiro quando vê qualquer crítica que exista, qualquer denúncia que exista, e tem que levar a sério todas essas informações. Agora, nós como dissemos sempre, não é um partido que se deve substituir à Justiça, nem são as redes sociais que se devem substituir à Justiça. A Justiça tem que fazer o seu papel e o que nós temos proposto tantas vezes é o reforço do papel da Justiça nestas matérias. Mas desse ponto de vista, não me parece que o Bloco de Esquerda saia sequer beliscado neste tipo de debates. E mais, sai até com uma capacidade para poder dizer abertamente que independentemente do que aconteça com os intervenientes em situações destas, o Bloco de Esquerda propôs e proporá o reforço da capacidade fiscalizadora do Estado, o reforço da capacidade legislativa para o Estado agir. Propusemos, por exemplo, que a violência doméstica fosse crime público, propusemos que a violação fosse crime público e por isso não entregamos, como algumas organizações fazem, ao partido a definição dos resultados de investigações internas. Isso não existe, mas sim à Justiça, que é quem deve investigar todas essas situações.

Pedro Filipe Soares, temos que avançar no nosso programa. Já sabe ao que vem, portanto já veio à vistinha nossa, já sabe o que aí vem. Vamos para o segmento da carne ou peixe. Só pode escolher uma de duas opções, portanto solta a trilha. A quem é que preferia dar umas aulas de matemática: a João Leão ou a Mário Centeno?

A João Leão, porque já tive um contacto com ele quando foi o grupo de trabalho sobre a dívida pública e na altura conseguimos chegar a maiores patamares de entendimento do que aqueles que foram possíveis com Mário Centeno. Infelizmente, parece que a cadeira de Ministro das Finanças é que provoca mais os desentendimentos do que as próprias pessoas, mas isso faz parte da vida.

Está neste momento de licença de paternidade. A quem é que entregaria com mais confiança os seus filhos para uma tarde de babysitting: Pedro Nuno Santos ou Fernando Medina?

Do que eu conheço do ponto de vista pessoal, qualquer um dos dois estaria à altura para essa tarefa.

Estamos a falar de educação.

Sim, os meus filhos, um tem três anos e meio, a outra não chega a um mês e por isso, nesta fase da vida, qualquer um dos dois poderia ser.

Se fosse para brincar com comboios, saberia quem escolher, não é?

Era o que eu ia dizer. Já vi o Pedro Nuno Santos a mudar fraldas, desse ponto de vista estava safo, e o meu filho quando o viu no outro dia com um avião da TAP por trás numa reportagem televisiva, ficou maravilhado, por isso eu já tinha ali com o que se entreter.

E preferia ser ministro num governo PS-Bloco ou manter o Bloco de Esquerda na oposição a um PS minoritário?

Eu não prefiro ser ministro, já vos disse isso a vocês há dois anos.

Podia ter mudado de ideias entretanto.

Não tenho esse objetivo na minha vida.

Mas podemos fazer a pergunta ao contrário. Preferia um governo PS-Bloco ou manter o Bloco na oposição de um PS minoritário?

Eu preferia um governo Bloco, e a parte da ordem é relevante, Bloco com qualquer outro partido de esquerda ou com vários partidos de esquerda.

Para terminar, muito rapidamente, quem convidaria para jantar: António Costa ou Jerónimo de Sousa?

João Nuno Sousa.

Muito bem. Pedro Filipe Soares, agora é a sua vez. Pedimos sempre aos nossos convidados que tragam uma sobremesa, no caso, uma música, e expliquem porquê. Qual é a sua escolha?

Trouxe a nova música da Ana Moura, "Andorinhas", que neste contexto mostra, por um lado, uma mensagem que todos nós desejaríamos cumprir, que é de poder viajar, poder passear, mas também nos lembra como a liberdade que os pássaros têm, de poder até, às vezes, viajar entre continentes, é tão frustrada quando toca a seres humanos. E aquilo a que nós assistimos em Ceuta, aquilo a que assistimos ao longo dos últimos anos no Mediterrâneo, mostra bem como, infelizmente, essa invenção humana, que são as fronteiras, é tão negativa e temos tanto a aprender com a natureza, que consegue mostrar que a Terra é una e que nós devíamos pensar também dessa forma enquanto seres humanos.

Pedro Filipe Soares, mais uma vez muito obrigado por ter vindo à Vixi Suave. Muitas felicidades para esta nova etapa da sua vida. E já sabe quem esteve desse lado, nós voltamos sempre à sexta-feira. Muito obrigado.

Passo os meus dias em longas filas, em aldeias, vilas e cidades. As andorinhas é que são rainhas a voar nas linhas da liberdade. Eu quero tirar os pés do chão. Quero voar daqui para fora, ir embora de avião. E só voltar um dia. Vou pôr a mala no porão. Saborear a primavera, não me espere na estação. Um dia disse-me a andorinha: "Filha, o mundo gira, usa a brisa a teu favor. A vida diz mentiras, mas o sol avisa antes de se pôr." Eu quero tirar os pés do chão. Quero voar daqui para fora, ir embora de avião. E só voltar um dia. Vou pôr a mala no porão. Saborear a primavera, não me espere na estação. Já a minha mãe dizia: "Solta as asas, volta as costas, sê forte, avança para o mar. Sobe encostas, faz apostas na sorte e não no azar."

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