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Olá, bem-vindos à segunda parte da Vixi Suave. Temos conosco Francisco Assis, eurodeputado socialista. Bem-vindo à Vixi Suave, é um habitué aqui do nosso programa.
Muito obrigado pelo convite. É com gosto que aqui estou.
Mas nesta semana em particular seria indispensável ouvi-lo. Esteve entre os primeiros apoiantes do presidente eleito, é amigo pessoal, fez parte do seu núcleo mais duro. Existe muita expectativa sobre o presidente António José Seguro. Antecipando algum intervencionismo excessivo, Luís Montenegro fez questão de definir bem as regras do jogo logo na noite eleitoral. A nossa pergunta é se existe ou não o risco de um choque institucional entre os dois.
Não creio que exista esse risco. Eu conheço bem o António José Seguro, é alguém que vai exercer com um grande rigor e uma grande exigência as funções de Presidente da República, agirá naturalmente dentro dos limites do que a Constituição prescreve, mas agirá sempre com clareza e com firmeza. Isso são características da personalidade dele, que ficaram aliás bem vincadas nesta campanha eleitoral. Ele estabeleceu um rumo e nunca se afastou dele, mesmo quando as sondagens eram más, quando lhe diziam para seguir por este ou outro caminho distinto daquele pelo qual ele estava a seguir, ele manteve-se fiel a esse rumo. É alguém com profundo sentido institucional. Ele próprio declarou coisas importantes na noite eleitoral. Declarou que a maioria presidencial que naquele instante se tinha consumado, naquele instante mesmo também se dissolvia. Não há maiorias presidenciais no nosso sistema político. Declarou a sua indisponibilidade para ser um fator de instabilidade na vida política portuguesa e disse claramente que queria ter um bom relacionamento institucional com quem está neste momento a governar o país.
Mas Francisco Assis, António José Seguro também prometeu que não vem para deixar tudo na mesma. Acredita genuinamente que Luís Montenegro vai aceitar de forma passiva as orientações do novo Presidente da República?
Normalmente tem que aceitar, porque o Presidente da República não tem que dar orientações ao governo.
Então em que sentido ele usa isto, de não deixar tudo na mesma?
A Constituição é clara nesse domínio. Aliás, uma das coisas mais negativas deste período que precedeu a eleição, foi uma insistência, sobretudo nas perguntas que faziam aos candidatos, em temas que não decorrem da ação do Presidente da República, mas são temas claramente do âmbito do Executivo. Isso gera depois confusão e gera criação de expectativas indevidas. O Presidente da República em Portugal não tem poderes executivos, não governa, não dá orientações aos governos. O Presidente da República zela pelo cumprimento da Constituição, tem uma função moderadora, que é de uma importância extrema nas presentes circunstâncias nacionais. Nós temos uma Assembleia da República fragmentada entre três grandes blocos: um bloco de esquerda, com hegemonia claríssima do Partido Socialista nesse bloco; um bloco de centro-direita, que tem maioria relativa e que é o bloco de sustentação atual do governo, a Aliança Democrática. Depois, a iniciativa liberal que está ali um pouco à margem deste bloco, mas com possibilidades de se integrar nele. E depois temos hoje um partido de extrema-direita com uma grande expressão no Parlamento. E neste contexto, e sobretudo num quadro de grande instabilidade no quadro internacional e de particular imprevisibilidade, é evidente que o Presidente da República tem que exercer aqui uma função moderadora, mas creio que o presidente eleito, António José Seguro, o vai fazer sempre de forma discreta, de forma ponderada. É um homem de diálogo, é um homem com sentido fortíssimo do compromisso. Isso parece-me ser o aspecto mais importante até também em consideração das suas várias declarações. É que ele cultiva o valor do compromisso, não como valor absoluto, o compromisso evidentemente não é o compromisso com coisas inaceitáveis, mas o compromisso razoável, o compromisso que deve existir numa sociedade democrática e que se perdeu de alguma maneira nas nossas sociedades democráticas nos últimos 10, 15 anos, por variadíssimas razões.
Mas deixe-me pegar numa expressão que usou que me pareceu interessante, dizendo que António José Seguro será um fator de moderação. Aqui colocando o ônus em Luís Montenegro, estará o Primeiro-Ministro, na sua opinião, disponível para se moderar à boleia do novo Presidente da República?
Eu conheço bem o novo Presidente da República, não conheço nem de longe tão bem o Primeiro-Ministro. Não sei se está ou não está disponível. Agora o Primeiro-Ministro, tal como os outros intervenientes na vida política, naquilo que consideramos e que eu considero o arco da moderação, tem o dever de compreender quer a situação interna, quer a situação internacional. A situação interna é muito simples. A Aliança Democrática não dispõe de maioria absoluta, mas dispõe de legitimidade para governar. O Partido Socialista está na oposição e deve ser oposição, mas deve compreender que se está a relacionar com um partido, com um governo que não dispõe de maioria absoluta e deve procurar estabelecer alguns compromissos de fundo com o mesmo. Do meu ponto de vista, e como tem sido aliás reiteradamente afirmado pelo líder do partido, doutor Jéssus Carneiro. O quadro internacional é de tal ordem complexo e exigente que me parece que se há momento na história em que nós temos que superar algumas divergências e procurar confluir nalgumas convergências estruturais, é precisamente este. Agora, conheço que isto não é fácil, diga.
Deixe-me só insistir numa ideia. António José Seguro, nesta campanha eleitoral, insistiu nesta segunda volta, na necessidade de haver uma legitimidade eleitoral reforçada. Ela aconteceu. Pode haver aqui esta tentação de se impor ao Primeiro-Ministro? Tendo em conta o resultado eleitoral.
Não, os resultados eleitorais também se esgotam um pouco na noite das eleições. Ganha-se ou perde-se. É-se eleito ou não se é eleito, ponto final.
É indiferente a dimensão da vitória que ele teve para isso, para essa relação?
Não é indiferente para o país a dimensão da vitória, para a relação não parece que seja determinante, porque o Presidente da República, mesmo que fosse votado por 80 ou 90%, não pode exceder aquilo que são os seus poderes constitucionais. E o António José Seguro é um institucionalista e, portanto, conhece muito bem o que são os poderes constitucionais do Presidente da República e não vai para além deles. Agora, é evidente que ele tem uma legitimidade forte. Foi eleito agora, tem uma legitimidade recente Travou um combate complexo. Também é preciso ver outra coisa. Eu veria até a coisa noutros termos, isto é, ele tem uma legitimidade, que também é uma responsabilidade que se coloca quer a ele próprio, quer às principais forças políticas daquilo que eu chamo o arco da moderação, fundamentalmente. Os grandes partidos, o PS e o PSD. O António José Seguro só teve esta votação tão expressiva, porque houve uma confluência de votos da esquerda e da direita democrata e demoliberais. Sem o apoio da direita nesta segunda volta, não teria tido a votação.
E isso condiciona ou então nessa relação com Luís Montenegro?
Não, isso não condiciona, pelo contrário, isso até o liberta do meu ponto de vista. Isso responsabiliza.
Só estou a perguntar isto porque se ele de repente começa a complicar muito a vida ao governo, às tantas pode estar a desiludir esses eleitores, não é?
Vamos lá. Não, a questão não é condicionar, a questão é que isto reforça a cultura do compromisso. Eu julgo que muitas pessoas perceberam, neste momento decisivo, que era importante eleger um presidente da República com compromisso claro com os principais valores democráticos que estão plasmados no essencial na nossa Constituição da República, mas sobretudo com alguém que também depois, na prática, cultivasse esses valores. O que é cultivar esses valores? É promover o diálogo, é respeitar a pluralidade das opiniões, é perceber as diferenças e é procurar muitas vezes os consensos e a partir dessas diferenças. Nem sequer é apesar, é a partir dessas diferenças construir alguns consensos. A democracia faz-se das duas coisas, de consenso e de conflito. As democracias tanto podem morrer por excesso de consenso como por excesso de conflito. Julgo que nas presentes circunstâncias, o risco que temos é de excesso de conflito e não de excesso de consenso, porque as democracias estão profundamente polarizadas. Se nós olharmos por todo lado na Europa e até fora da Europa, no espaço onde as democracias existem, o que verificamos é que as posições se polarizaram, os extremismos foram avançando. E se há coisa que nós temos que recuperar é um certo sentido do diálogo, uma certa abertura para as posições dos outros, um respeito pelas posições dos outros e uma capacidade de nos abrirmos à razão dos outros. Nós temos as nossas razões, os outros têm as deles. E muitas vezes nós estamos completamente fechados. A vida política em lugar de ser uma contraposição de argumentos racional, lúcida e serena, transformou-se numa gritaria desenfreada, em que as pessoas se limitam a reproduzir slogans e atacarem-se umas às outras de uma forma muito emocional. Isso tem que ser superado. Diga.
Francisco Assis, do lado do Partido Socialista, na noite da vitória de António José Seguro, José Luís Carneiro apareceu a apresentar uma espécie de caderno de encargos a Luís Montenegro e também já disse que conta com o presidente eleito para pressionar o primeiro-ministro a responder às propostas do PS. Não é um risco o PS tentar capitalizar com a vitória de António José Seguro?
Eu não vi da parte do José Luís Carneiro nenhuma atitude nesse sentido, de tentar capitalizar esta vitória. O que vi foi o seguinte: ele não disse nada de diferente do que tem dito desde que é secretário-geral do Partido Socialista. Ele tem procurado permanentemente manter este diálogo construtivo com o governo, sem deixar de ser oposição. E em segundo lugar, o que disse é que eu acho que ele até interpretou bem grande parte do sentido desta eleição presidencial. Interpretou justamente como uma vontade do país de valorizar o sentido dos compromissos neste momento. Porque há momentos de rutura e há momentos de compromisso. Este momento, na relação entre os principais partidos do arco da moderação, tem que ser um momento em que tem que haver alguma preocupação. E eu julgo que essa preocupação o Partido Socialista já tem manifestado, espero francamente que o governo faça o mesmo. E aí é que eu tenho algumas dúvidas que isso possa suceder, mas espero que o governo também tenha aprendido alguma coisa com todo este processo.
Não o preocupa até agora o governo ter parecido chegar a acordos mais vezes com o Chega e não com o PS, isso não é um sinal de que por muito que António José Seguro tente, o caminho do governo pode não ser esse?
Eu julgo que o governo terá de avaliar bem essa questão. Haverá o momento em que terá que fazer opções. E há uma coisa que é verdade, no momento decisivo, o eleitorado de sustentação do governo votou num candidato de centro-esquerda, não votou num candidato de extrema-direita. Eu julgo que se há alguém que tem que aprender um pouco com o resultado destas eleições e com o comportamento do seu próprio eleitorado, é o primeiro-ministro e é o governo, não é o Partido Socialista.
Tem que tirar ilações daí. Mas António José Seguro vai ser certamente muito pressionado pelo partido a seguir a agenda do PS. Acredita que vai conseguir não ficar refém do PS?
Quando ouço isso até me dá vontade de rir, porque é não conhecer minimamente o António José Seguro. Primeiro lugar, nem o Partido Socialista o vai pressionar. Em segundo lugar, mesmo que isso sucedesse, o António José Seguro é totalmente impermeável a esse tipo de pressões. Ele não rejeita a sua origem, não rejeita as suas convicções fundamentais, mas deixou muito claro que é um homem com um profundo sentido da independência e da isenção. Eu acho que não há ninguém que esteja verdadeiramente preocupado com isso. Pode inventar-se essa questão, mas não acho que haja alguém que esteja verdadeiramente preocupado com isso. Esse problema pura e simplesmente não se coloca.
Os interesses ficam à porta de Belém. Seja como for, no Parlamento está tudo na mesma. No que respeita à aprovação de instrumentos estratégicos, como o Orçamento de Estado, o governo continua a depender do PS também para sobreviver. Acredita que o José Luís Carneiro está mesmo disponível para aprovar os três orçamentos que ainda faltam?
Disponibilidade de princípio, eu tenho a certeza que a tem. Disso não tenho a menor das dúvidas, dado o comportamento dele.
Acho que isso não seria um problema estratégico para o PS.
Evidentemente, quando um partido está na oposição, haverá sempre alguns setores Que cederão à tentação do quanto pior, melhor e de que a radicalização é o caminho em curso, o caminho que deve ser prosseguido. E portanto é natural que surjam focos de contestação interna se o doutor José Luís Carneiro seguir por esse caminho, que a meu ver deve ser o caminho que ele deve seguir. Portanto, aquilo que se vai colocar é uma questão muito simples: um líder tem que seguir um caminho e não se pode afastar dele, mesmo sendo contestado, se porventura vier a ser contestado. Nenhum líder pode agradar a todos ao mesmo tempo.
E agora com um presidente que já disse que o chumbo do orçamento não é condição para dissolver o Parlamento, não se pode chegar a uma situação de impasse total.
Não. Pelo contrário, o chumbo de um orçamento significaria que ter-se-ia de apresentar outro orçamento. É assim que eu entendo a questão. A Espanha está sem orçamento há três anos e manifestamente isso não é bom. Governar o país sem orçamento não é bom. Inclusivamente na própria relação com as questões europeias, porque depois há uma série de decisões que são tomadas a nível europeu e que não são transferidas para o direito internacional, justamente porque não é possível, os parlamentos ficam sempre paralisados se porventura se entrar nesse tipo de comportamento. Eu julgo que o que é importante é que haja um esforço para um entendimento de fundo e isso é uma regra fundamental nas nossas democracias atuais. Os parlamentos fragmentaram-se, os esforços extremistas ganharam terreno. Hoje há uma ameaça tremenda da extrema-direita na Europa, como no passado houve ameaças de extrema-esquerda. Hoje, na realidade, a ameaça vem da extrema-direita, que tem uma expressão muito grande em quase todos os países europeus. Essa extrema-direita está articulada a todos os níveis de vários países europeus com fundações e com empresários norte-americanos, etc. E nós temos que perceber que havendo esse problema, estando o mundo na situação em que está, de particular tensão, os dois grandes partidos devem fazer um esforço para terem o mínimo de entendimento. Agora, é evidente que não se pode pedir ao Partido Socialista que renuncie em absoluto a ser ele próprio, se porventura não houver da parte do Governo qualquer disponibilidade também para promover esse entendimento.
Já admitiu que esta decisão de estar disponível para cooperar com o governo pode provocar problemas a José Luís Carneiro. Não há aqui o risco de acontecer a José Luís Carneiro o mesmo que aconteceu a António José Seguro, ser um líder da oposição disposto a cooperar, que acaba depois por ser despachado internamente precisamente por causa disso?
Todos os líderes correm riscos. Têm que percebê-los, têm que assumi-los. E o pior que pode haver é um líder que não tem orientação, que hesita e que procura agradar a todos ao mesmo tempo. Isso é o pior tipo de liderança que pode existir. Eu conheço o José Luís Carneiro e estou convencido que ele não vai seguir por esse caminho e vai seguir pelo caminho que tem preconizado e que tem, aliás, seguido até aqui, que é um caminho de uma liderança clara, combatida, mas ao mesmo tempo construtiva e empenhada precisamente na construção desses entendimentos.
José Luís Carneiro foi tido um pouco como um líder de transição. Na sua opinião, deve ter a oportunidade de disputar umas eleições legislativas, se tudo correr normalmente aqui em três anos?
Eu, aliás, nem conheço esse conceito de líderes de transição. Ou melhor, de transição somos nós todos, porque a nossa própria vida é uma transição. Portanto, isso aí, estamos todos em transição. Líder de transição de quê para quê? Não há líderes de transição. Há líderes, e há líderes que têm mais sorte do que outros, e há líderes que têm mais sucesso do que outros. Neste momento, o doutor José Luís Carneiro tem todas as condições para liderar o partido, para definir um rumo e para prosseguir esse rumo com quem quiser seguir com ele esse rumo.
Nomes que têm sido apontados ao futuro do PS, como Duarte Cordeiro, vão ter que esperar?
Essa questão do futuro do PS é uma questão que o futuro é sempre um lugar muito desconhecido. Maior que seja a nossa imaginação, temos muita dificuldade em acertar. Basta ver o que aconteceu na vida política portuguesa nos últimos anos. Por isso, não acho que tenha qualquer interesse fazer essa especulação sobre o futuro. Nós temos um presente neste momento, vamos ter um congresso. Aparentemente, até só haverá um candidato, o doutor José Luís Carneiro. É ele o líder do Partido Socialista. É nessa base que temos que pensar e trabalhar. O que eu estou aqui é a definir aquilo que é o meu ponto de vista do que deve ser um caminho, do que deve ser uma estratégia. Eu julgo que um líder deve agregar sempre que possível e deve romper sempre que necessário. Isso pra mim sempre foi um princípio fundamental, que aliás, nos momentos em que estive em lideranças ou disputei lideranças, em que tive algum papel mais ativo na vida política, procurei sempre seguir. Que é agregar o mais possível, mas romper quando é necessário. E porventura essas questões poderão colocar-se no futuro. Isso não é nenhum drama, não é nenhum problema, isso faz parte da disputa política. As pessoas o que têm que ter é uma orientação, têm que ter um caminho e têm que ser autônomas. Um líder não pode estar dependente disto ou daquilo, não pode estar dependente de fidelidades a este ou aquele segmento especial, não pode estar dependente de fidelidades passadas, tem que ser alguém do presente e do futuro. E eu julgo que o doutor José Luís Carneiro compreende isso e age dessa forma.
Deixe-me fazer-lhe uma provocação, Francisco Assis. O Partido Socialista está de alguma forma condenado a viabilizar este governo por ainda não estar preparado para enfrentar umas novas legislativas? Por ter medo, aliás, de enfrentar essas legislativas?
Acho que essa terminologia, com todo o respeito e compreendo que esteja a fazer, esse tipo de terminologia não ajuda nada ao debate político. O estar condicionado, o ter medo, não estar preparado, não é nada disso. A responsabilidade dos partidos políticos está muito para além disso. O Partido Socialista é um partido que está naturalmente preparado, como tem que estar, todos os partidos que disputam o poder têm que estar sempre preparados para exercer o poder. Agora, não pode estar é ansioso para exercer o poder Não pode estar é obcecado com o regresso ao poder. Não pode pensar que tem uma espécie de direito natural a governar e que sempre que não está a governar é porque esse direito está a ser violado de alguma forma. Isso não pode. Essa é uma cultura que o PS tem que fazer e julgo que está a fazer. O PS hoje é um partido de oposição, tal como durante muitos anos foi um partido de poder, mas sendo um partido de oposição, é em circunstâncias especialmente complicadas e responsabilizantes, e deve assumir essas responsabilidades. Mas claro, isto dizendo que a grande responsabilidade pela manutenção da estabilidade política em Portugal recai sobre o governo, não recai sobre o PS. Também é bom que se diga, porque muitas vezes colocamos o ônus no Partido Socialista, mas o ônus fundamental tem que ser colocado em quem governa, e quem governa é que tem que criar as condições para a preservação dessa estabilidade política em primeiro lugar.
Mas ainda olhando para o Partido Socialista, depois das últimas legislativas e da troca que houve de secretário-geral, o PS adiou sempre aquela discussão interna sobre onde se devia posicionar daí para frente, até para fazer face a um mau resultado eleitoral que tinha tido. Ainda acha importante e urgente que se faça esse caminho?
Eu acho que o PS tem que refletir sobre o mundo em que vivemos. Evidentemente, um grande partido como o PS, tem que ser um partido com uma capacidade de análise, de reflexão, de discussão muito grande sobre os mais diversos temas da nossa vida, política, social e econômica. O mundo não é o mesmo que era há 10 ou 15 anos atrás. Mudou muito sob vários pontos de vista. E nós fizemos coisas boas e fizemos coisas más, como todos os partidos no governo. Eu acho que sem qualquer perspectiva autopunitiva, que não me agrada, o Partido Socialista deve ser capaz de olhar criticamente para o seu passado e deve ser capaz de procurar compreender o que são hoje os temas do presente e do futuro, e deve ter abertura para soluções políticas, para soluções inovadoras, até do ponto de vista da governação nas mais diversas áreas. Mas eu julgo que é isso que o doutor José Luís Carneiro quer fazer quando anuncia que logo a seguir ao Congresso quer promover uma série de discussões, quer abrir o partido à sociedade, quer ouvir personalidades oriundas dos mais diversos setores. Eu julgo que é precisamente esse esforço de promoção de uma grande ligação entre o PS e a sociedade portuguesa e vários segmentos da sociedade portuguesa que pode dar um contributo importantíssimo para a renovação do Partido Socialista.
Francisco Assis, há uma coisa que tem sido dada quase como uma inevitabilidade. André Ventura não conseguiu mais votos do que a AD nas legislativas, mas ficou a 250 mil, mais ou menos. É uma questão de tempo até o Chega chegar ao poder em Portugal.
Não sei, não lhe sei dizer. Sei que os partidos de extrema-direita têm vindo a progredir praticamente em toda a Europa. Não sei se isso tem um teto ou não tem. Sei que enquanto alguém que está na vida política, como é o meu caso, tenho a obrigação de combater a extrema-direita, mais do que estar a prognosticar se eles vão conseguir ou não vão conseguir, tenho que fazer tudo o que estiver ao meu alcance para que eles o não consigam. Isso é, repito, especialmente responsabilizante nesta fase da vida, quer de Portugal, quer de outros países europeus. No fim de semana passado, houve eleições em Aragão, na Espanha, e o que se verificou, o PSOE teve uma derrota brutal. O PP, que estava a governar, perdeu dois deputados e quem cresceu foi o Vox, o partido de extrema-direita.
E este resultado de André Ventura complica a posição do PS no Parlamento.
Não, não complica. Os partidos políticos têm que estar sempre disponíveis para analisar e compreender a realidade em que intervém e a cada momento assumir as suas posições em função dessa mesma realidade. Portanto, quando hoje temos uma situação como aquela que existe no Parlamento português, o PS tem que perceber que tem responsabilidades. É um partido de oposição, mas com responsabilidades especiais, porque a estabilidade política também depende do Partido Socialista, embora, repito, o governo tenha aqui um papel e uma importância decisiva.
Muito bem, Francisco Assis, já sabe as regras do jogo. Vamos entrar no segundo segmento do nosso programa, o bloco Carne ou Peixe. Só pode escolher uma de duas opções. Prefiria ir dar um passeio de fim de semana a Bruges com António Costa ou José Luís Carneiro?
Com o José Luís Carneiro dou muitos passeios habitualmente. Estando em Bruxelas, estando mais próximo do António Costa, é possível que fosse muito mais fácil dar esse passeio a Bruges com o António Costa do que José Luís Carneiro, mas teria gosto em dar o passeio com os dois.
E preferia ser candidato à Presidência da República num futuro longínquo ou ser mandatário nacional da recandidatura de Seguro daqui a cinco anos?
Eu estou convencido que o António José Seguro será candidato daqui a cinco anos. Não quero é ser eu o mandatário nacional dele, porque encontrará certamente outras pessoas para serem mandatárias nacionais.
Preferia percorrer a Rua de Santa Catarina no Porto, um contexto inocente, ao lado de José Luís Carneiro ou Duarte Cordeiro?
No Porto, pela mesma razão que referi há pouco, é mais provável que o faça com o José Luís Carneiro, mas se o Duarte Cordeiro for ao Porto, eu sou amigo do Duarte Cordeiro há muitos anos, ele foi vice-presidente quando eu era presidente do grupo parlamentar e ficou daí um grande respeito e uma grande amizade. Se ele for ao Porto, terei todo o gosto em fazer esse percurso com ele. Combinar ali imediatamente para almoçarmos.
Quem é que precisa de umas aulas de filosofia política: Luís Montenegro ou Pedro Passos Coelho?
Eu não tenho a pretensão de ser professor, daqueles que darem esse tipo de lições ou de orientações a políticos. Portanto, nesse plano, diria que todos nós precisamos sempre de aulas de filosofia política. A filosofia política ajuda muito. E às vezes, isso tem razão, há muita falta de filosofia política, como há de conhecimentos históricos, isso prejudica muito o debate político em Portugal.
Muito bem, Francisco Assis, como é hábito no nosso programa, o convidado serve uma sobremesa, no caso, uma música. Que música que nos traz e por quê?
Trago uma música do Johann Sebastian Bach, o Adagio BWV 974 Que é uma música que ouço, que é uma música que só por si nem precisa de justificação nenhuma, porque é uma experiência estética, de beleza sublime, absoluta, mas sobretudo porque ela também convoca para uma outra dimensão a que hoje estamos a regressar, que é uma certa dimensão de uma certa espiritualidade, num sentido filosófico, na espiritualidade, não necessariamente num sentido religioso, embora respeite aqueles que a colocam nestes termos e o próprio Bach tinha um lado religioso. Mas há uma certa necessidade, talvez, de espiritualidade, não desses cursos, dessas lições rápidas de espiritualidade que hoje se vendem por aí, mas no sentido de maior exigência, porque justamente o que nós perdemos foi essa capacidade de pensarmos, de refletirmos, de nos fecharmos, às vezes, no bom sentido, em nós próprios, para conseguirmos, a partir desse fechamento, uma nova abertura face à realidade, mais rica, mais séria, mais sólida. Eu julgo que uma música como a de Bach, para além da experiência do prazer estético, que é um prazer que tem um lado sensitivo, mas também apela a um certo lado da razão, há aqui a articulação entre as duas dimensões. Para além disso, também nos projeta para uma certa dimensão de espiritualidade que me parece que faz falta no mundo ocidental.
Francisco Assis, muito obrigado por ter vindo mais uma vez a este espaço.
Muito obrigado, com todo o gosto.
Foi um gosto tê-lo cá.
Igualmente. Muito obrigado.
Os nossos ouvintes já sabem, podem voltar a ouvir esta entrevista nas plataformas habituais ou lê-la na íntegra no site do Observador. Até à próxima.